Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
10 A Prisão da Sensatez
O desjejum no grande salão nunca havia sido tão gélido. O som dos talheres contra a porcelana ecoava como marteladas em um tribunal. Aria não conseguia olhar para Caelum, e Caelum mantinha os olhos fixos em seu prato, o rosto uma máscara de pedra que ele aprendera a usar no Norte.
O silêncio foi quebrado pela voz rouca e sem vida de Caelum.
— Majestade... Pai — ele começou, levantando o olhar para Gaspar e Richard. — Refleti sobre nossas conversas. Aceito o meu dever. Podem iniciar as negociações para o meu noivado. Aceitarei a esposa que for melhor para os interesses de Astúria.
O mundo pareceu parar para Aria. O suco de laranja em sua taça de cristal tremeu. Ela se levantou tão rápido que a cadeira tombou para trás com um estrondo.
— Covarde! — Aria gritou, as lágrimas de fúria e traição transbordando. — Você é um covarde, Caelum Heraldrick!
Em um movimento impetuoso, ela pegou a taça e arremessou o líquido diretamente contra o rosto do primo. O suco escorreu pelas cicatrizes de Caelum e manchou sua túnica impecável, mas ele sequer piscou.
— Você disse que seria meu escudo! — ela soluçou, a voz falhando. — Mas você é apenas mais um prisioneiro desse castelo de gelo! Eu te odeio!
Aria saiu correndo do salão, o som de seus passos apressados morrendo nos corredores.
O Conflito dos Reis
Gaspar soltou um suspiro de alívio, fechando os olhos por um segundo.
— Obrigado, Caelum. Você está sendo sensato. É o melhor para ela, acredite.
— Sensato, Gaspar? — A voz de Katrina cortou o ar como uma navalha. Ela se levantou, olhando para o Rei com uma indignação que ele raramente via. — Você chama isso de sensatez?
— Katrina, por favor... — Richard tentou intervir, mas ela o ignorou.
— Não, Richard! — Katrina voltou-se para Gaspar. — Olhe para nós! Nós lutamos contra tudo para sermos felizes. Nós enfrentamos o exílio e o julgamento para que o amor vencesse. E agora, você quer transformar nossos filhos em prisioneiros daquilo que nós mesmos derrubamos? Você está condenando o seu sobrinho e a sua própria filha a uma vida de infelicidade apenas por causa de papéis e protocolos!
— É o sangue, Katrina! — Gaspar rebateu, levantando-se e batendo na mesa. — É a lei da Igreja e da sucessão! Se eles ficarem juntos, o reino desmorona. Eu estou protegendo a herança dela!
— Você está protegendo a coroa e matando a alma dela! — Katrina retrucou, as lágrimas brilhando nos olhos. — Nós éramos livres, Gaspar. Agora somos apenas carcereiros dos nossos próprios filhos.
A tensão entre o Rei e a Duquesa era elétrica. Richard, percebendo que a discussão estava prestes a se tornar uma ruptura irreparável, colocou-se entre os dois.
— Chega! — Richard ordenou, sua autoridade de príncipe e conselheiro se impondo. — Gaspar, Katrina está certa sobre a dor deles, mas você está certo sobre o perigo para o reino. Estamos todos feridos aqui. Caelum, vá se limpar. Gaspar, vamos para a sala do conselho. Precisamos esfriar a cabeça antes que destruamos esta família com as nossas próprias mãos.
Richard conduziu Gaspar para fora, enquanto Katrina permanecia parada, olhando para o lugar vazio de Aria, sentindo que, embora a ordem estivesse mantida, o coração de Astúria acabara de se quebrar.
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