Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
11 Palavras que machucam
O céu refletia no lago como um espelho de prata, mas a superfície estava em constante agitação. Aria parecia uma força da natureza descontrolada. Ela pegava pedras, galhos e punhados de terra, arremessando-os contra a água com um grito que vinha do fundo de sua alma, uma mistura de dor e uma raiva que queimava mais que o sol.
— Eu odeio esse lugar! Odeio você, papai! Odeio cada pedra deste castelo! — ela gritava, a voz já rouca de tanto esforço. — E odeio você acima de tudo, Caelum! Mentiroso! Covarde!
Caelum observava a cena a alguns metros de distância. Ele estava limpo agora, mas a marca do suco ainda parecia queimar sua pele como ácido. Ele viu a fragilidade sob a fúria dela e, por um momento, quis correr e abraçá-la. Mas as palavras de Gaspar e Richard ecoavam em sua mente como sentenças de morte. Se você a ama, seja o homem que ela precisa que você seja.
Ele deu um passo à frente, fazendo o cascalho ranger sob suas botas pesadas.
— Já terminou o seu espetáculo, Aria? — A voz dele saiu fria, cortante e desprovida de qualquer vestígio daquele carinho que ele demonstrara no jardim.
Aria virou-se bruscamente, o rosto manchado de lágrimas e os cabelos ruivos em total desordem.
— O que você quer? Veio me dar lições de moral antes de escolher qual noiva vai aquecer sua cama de ducado?
Caelum suspirou, fechando o coração dentro de uma armadura de gelo. Ele sabia que, para salvá-la, precisava fazer com que ela o detestasse.
— Eu vim dizer que você está sendo patética — disse ele, cruzando os braços e olhando para ela com um desdém fingido. — Você age como uma criança mimada que perdeu um brinquedo, quando o que estamos discutindo é o futuro de um império. Eu não aceitei me casar por medo, Aria. Aceitei porque percebi que o que tivemos no jardim foi apenas um erro de percurso.
Aria paralisou, o choque estampando seu rosto. — Um erro?
— Sim — ele continuou, a voz firme enquanto seu interior desmoronava. — Eu sou um soldado da Academia de Ferro. Eu fui treinado para estratégia, não para romances proibidos. Você é linda, sim, e por um momento a curiosidade de retornar ao lar me traiu. Mas eu não vou jogar a minha carreira, o meu título e a paz de Astúria no lixo por um capricho de uma princesa que mal conhece o mundo real.
Ele deu um passo mais perto, forçando um olhar de tédio.
— No fundo, você é apenas a minha prima. E eu pretendo ter uma esposa que traga alianças reais, não uma que traga a desonra e o exílio. Então, guarde suas pedras e seus gritos. Eu não sou o seu "escudo", Aria. Eu sou o sucessor de Valmor, e você é apenas o meu dever. Nada mais.
O silêncio que se seguiu foi pior que qualquer grito. Aria o olhava como se ele a tivesse esfaqueado fisicamente. O ódio que ela sentia agora era frio, sólido e sombrio.
— Saia daqui — ela sussurrou, a voz trêmula de desprezo. — Saia antes que eu mesma peça ao meu pai que o mande para o lugar mais longe que existir. Você não é um lobo, Caelum. Você é apenas um cão obediente.
Caelum fez uma reverência rígida, virou as costas e caminhou para longe. A cada passo, ele sentia o peso de ter acabado de destruir a única coisa que realmente amava para garantir que ela continuasse sendo Rainha. Ele atingira o seu objetivo: Aria agora o odiava. E o preço disso era uma solidão que nenhuma armadura poderia proteger.
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