Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
18 Valsando com o lobo
A tarde caía sobre Astúria, tingindo as janelas da sala de música com tons de violeta e ouro. O Professor de Dança, o mestre Moretti, gesticulava frustrado com suas muletas de carvalho, a perna engessada após um tombo infeliz nas escadarias das cozinhas.
— É um desastre, Alteza! — lamentava-se o mestre. — Uma futura rainha não pode negligenciar a precisão de seus passos para o baile de gala da próxima quinzena. Mas eu mal consigo me equilibrar, quanto mais guiar!
Aria olhava para o salão vazio, sentindo uma estranha mistura de alívio e tédio. No entanto, encostado na porta, Julian observava tudo com um brilho divertido nos olhos.
— Se o mestre permitir, e se a Princesa não se ofender com a rusticidade de um soldado do Norte... — Julian deu um passo à frente, fazendo uma reverência impecável. — Eu tive que aprender as valsas da corte de Valória. As damas lá em cima são exigentes, e meu pai insistia que um Conde deve saber tanto manejar uma espada quanto conduzir uma dama.
Aria arqueou uma sobrancelha, um desafio silencioso surgindo em seu rosto. — Acha que consegue acompanhar o ritmo de Astúria, Julian?
— Eu contarei os tempos, se a senhora me der a honra — ele respondeu, aproximando-se.
O mestre Moretti assentiu, aliviado, e os músicos começaram a tocar uma melodia suave e envolvente.
Julian colocou a mão na cintura de Aria. Diferente da pegada possessiva e abrasadora de Caelum, o toque de Julian era firme, mas gentil, como se ele estivesse segurando algo precioso que não queria quebrar. Quando começaram a girar, a surpresa de Aria foi imediata: Julian movia-se com uma fluidez impressionante.
Eles começaram a deslizar pelo mármore. À medida que a música acelerava, a descontração do jardim deu lugar a algo mais profundo. O olhar de Julian encontrou o de Aria e não desviou. Houve um instante em que o som dos instrumentos pareceu desaparecer, restando apenas o ritmo sincronizado de seus passos.
— Você dança como se tivesse nascido em um salão, e não em um campo de batalha — sussurrou Aria, sentindo o rosto levemente corado pela proximidade.
— No Norte, a dança é como a guerra, Alteza — Julian respondeu, a voz baixa perto do ouvido dela. — É sobre confiança e sobre saber quando se deixar guiar.
Naquele momento, uma conexão inexplicável vibrou entre eles. Não era a tensão elétrica e dolorosa que ela sentia com o primo; era algo novo, uma harmonia leve e magnética que fazia Aria se sentir segura, como se o mundo lá fora, com seus protocolos e brigas, pudesse ser esquecido por alguns minutos.
Julian a girou e, ao trazê-la de volta para perto de seu peito, o tempo pareceu parar. O sorriso de Julian não era mais apenas charmoso; era cúmplice. Aria percebeu, com um sobressalto no coração, que o "partido maravilhoso" que sua mãe mencionara não era apenas uma estratégia política. Havia algo real florescendo ali, sob os acordes do violino, que prometia mudar tudo o que ela acreditava sentir.
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