Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
19 Flechas e Fagulhas
O aroma de grama cortada e tortas de frutas silvestres pairava sobre o gramado real. Claire e Katrina haviam organizado um piquenique à moda antiga, espalhando toalhas de linho sob a sombra das grandes carvalheiras, tentando desesperadamente restaurar uma normalidade que parecia ter fugido de Astúria.
Enquanto os adultos conversavam sob a sombra, o som de risadas vinha do campo aberto. Aria e Julian haviam se afastado alguns metros, montando um alvo de palha para uma competição improvisada de arco e flecha.
— No Norte, dizemos que quem não acerta o centro do alvo não merece o vinho do jantar — brincou Julian, ajustando o protetor de braço em Aria. O toque dele era calmo, mas seus olhos verdes buscavam os dela com uma intensidade que a fazia sorrir sem perceber.
— Pois em Astúria, o vinho é um direito, mas a precisão é uma questão de orgulho — rebateu Aria, puxando a corda do arco com uma elegância nata.
Ela soltou a flecha. O som da corda vibrando foi seguido pelo estalo da ponta de madeira atingindo o alvo, apenas dois dedos fora do centro.
— Nada mal, Alteza. Mas permita-me... — Julian posicionou-se atrás dela. Ele não a tocou de forma invasiva, mas suas mãos guiaram os cotovelos de Aria, corrigindo sua postura. — Respire com o vento, não contra ele.
A proximidade de Julian trazia um frescor diferente. Não havia o peso do passado ou a culpa que sentia com Caelum. Com Julian, Aria sentia que podia simplesmente ser uma jovem de dezoito anos descobrindo o mundo.
A Vigília Amarga
A poucos metros dali, sentado na toalha ao lado de seu pai, Caelum fingia ouvir os planos de Gaspar sobre as novas rotas comerciais. Seus olhos, porém, eram como brasas vivas seguindo cada movimento no campo de tiro.
Ele via como Aria inclinava a cabeça para rir de algo que Julian dizia. Via como ela permitia que o Conde tocasse seu ombro para corrigir a mira. A cada risada dela, Caelum sentia como se uma flecha real estivesse atravessando seu próprio peito.
— Ele é bom com o arco — comentou Richard, observando o filho de soslaio, o tom de voz carregado de um aviso implícito. — E parece que Aria está finalmente se sentindo... segura.
Caelum apertou uma maçã na mão até que a casca rompesse.
— Ele é um soldado, pai. É o trabalho dele — respondeu com a voz rouca, sem desviar o olhar.
O Acerto de Contas Silencioso
No campo, Julian entregou uma nova flecha para Aria. Seus dedos se roçaram e, por um instante, ambos pararam. A conexão da sala de valsa estava ali, mais forte do que nunca.
— Você tem um talento natural, Aria — Julian sussurrou, o tom agora mais sério e íntimo. — Não apenas com o arco. Você tem uma luz que... eu não esperava encontrar tão longe de casa.
Aria sentiu o coração acelerar. — Julian, eu...
— Não precisa dizer nada — ele a interrompeu com um sorriso gentil. — Eu sei que o terreno aqui é acidentado. Mas eu sou um explorador por natureza. Gosto de caminhos difíceis.
Aria soltou a flecha. Desta vez, ela atingiu o centro exato.
Ela comemorou com um pequeno salto de alegria, e Julian, no calor do momento, segurou as mãos dela e a girou no ar. O riso de Aria ecoou pelo campo, um som cristalino que fez Claire sorrir e Gaspar suspirar de alívio.
De longe, Caelum levantou-se bruscamente, sem pedir licença, e caminhou em direção à floresta. Ele não suportava mais ver o que ele mesmo havia provocado. Ele queria que Aria estivesse segura, queria que ela fosse Rainha, mas ver o seu próprio "escudo" conquistando o território do coração dela era um tipo de tortura para o qual a Academia de Ferro não o havia treinado.
Enquanto o sol começava a baixar, Julian e Aria voltavam para o grupo, caminhando próximos, as flechas guardadas, mas uma nova e perigosa direção já traçada para o futuro de Astúria.
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