Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
29 Silêncio interrompido
A biblioteca real era o único refúgio que Caelum julgava seguro contra a euforia do noivado que infectava o castelo. O silêncio ali era sagrado, quebrado apenas pelo estalar ocasional da lenha na lareira. Ele estava afundado em uma poltrona de couro, concentrado em um antigo tratado sobre táticas de defesa territorial, tentando ignorar a dor latente em seu peito.
Até que o som de saltos batendo ritmicamente contra o mármore anunciou o fim de sua paz.
Catarina entrou no recinto com a energia de uma tempestade de neve, segurando um cacho de uvas e olhando para as prateleiras com um desdém nada sutil.
— Então é aqui que o "Duque das Sombras" se esconde? — ela perguntou, a voz ecoando alto demais para o ambiente. — Entre papéis mofados e cheiro de poeira? Que animado.
Caelum nem sequer levantou os olhos do livro.
— O silêncio é uma virtude, Catarina. Uma que, claramente, não atravessou a fronteira de Valória com você.
Ela ignorou a patada e sentou-se no braço da poltrona dele, balançando os pés e colhendo uma uva.
— O que você está lendo? "Cem maneiras de ser insuportável em jantares"? Ou talvez "Como chorar em cachoeiras sem perder a pose"?
Caelum fechou o livro com um estrondo, os olhos azuis faiscando de irritação enquanto ele finalmente a encarava.
— É um tratado de estratégia, se você realmente precisa saber. Algo que exige intelecto e concentração. Coisas que você parece empenhada em interromper com sua presença desnecessária.
— Estratégia? — ela debochou, soltando uma risadinha. — Para quê? Para reconquistar uma princesa que já deu o "sim" para outro? Ou para decidir qual móvel do quarto você vai destruir amanhã? Sabe, Caelum, para um estrategista, você é péssimo em ler o campo de batalha. Você já perdeu a guerra, mas continua polindo a espada.
— Você não tem mais nada para fazer? — Caelum levantou-se, tentando manter a compostura. — Vá ajudar sua futura cunhada a escolher flores. Vá amolar as orelhas do seu irmão. Apenas saia da minha frente.
Catarina levantou-se também, mas em vez de sair, começou a circular ao redor dele como um predador.
— Me diga uma coisa, Duque... esse seu mau humor é genético ou você treina na frente do espelho? "Oh, olhem para mim, eu sou tão profundo e sofrido". — Ela fez uma pose dramática, imitando a expressão carrancuda dele. — É cansativo, sabia? Todo mundo lá fora está bebendo vinho e você está aqui, lendo sobre muros e fossos. Você é o muro, Caelum. E, honestamente? É um muro bem entediante de se olhar.
— Se sou tão entediante, por que continua me perseguindo como uma sombra indesejada? — ele rebateu, a voz baixando para um tom perigosamente calmo.
Catarina parou bem na frente dele, com um sorriso de lado que era puro deboche.
— Porque eu gosto de ver até onde vai a sua paciência. E porque, lá no fundo, eu acho hilário como um homem tão grande pode ser tão... bobo. Você acha que está protegendo sua dignidade, mas só está servindo de entretenimento para mim.
Ela deu um tapinha condescendente no ombro dele e começou a caminhar em direção à porta.
— Continue lendo, estrategista. Talvez no capítulo dez você aprenda que, enquanto você estuda como defender o castelo, a vida já pulou o muro e foi embora sem você.
— Catarina! — ele chamou, a voz ríspida.
Ela parou na porta e olhou para trás, arqueando uma sobrancelha.
— Sim, Vossa Amargura?
— Leve suas uvas com você. Elas são doces demais para este ambiente.
— E você é azedo demais para o mundo, Caelum. Mas não se preocupe, eu volto amanhã. Alguém precisa garantir que você não morra de tédio de si mesmo.
Ela saiu rindo, o som de seus passos deixando um Caelum absolutamente transtornado, que não conseguia mais ler uma única linha do livro, pois a voz dela parecia ter ficado impregnada no silêncio da sala.
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