FLASHBACK ON

Há muitos anos, nosso senhor feudal ficou gravemente doente. Vítima de uma maldição, seu corpo começou a se desintegrar. A pele caía feito pedaço de papel seco, e o cheiro que emanava do senhor lembrava morte.

Chamaram médicos, sacerdotes, e toda leva de sábios que puderam encontrar. Mas nenhum conseguia a cura. E o senhor recebia cada vez menos visitas, porque ninguém suportava o cheiro pútrido e a aparência de um cadáver ambulante.

Nesta época, contava o filho do senhor uns 18 anos. Era inexperiente nas questões políticas, mas insistiram para que ele assumisse o posto de seu pai, pois o senhor logo haveria de morrer. Começou a ser educado às pressas para sucessão. Seu pai morava isolado dentro do castelo, e tudo via das janelas, sem poder participar de nada. Grande era sua tristeza.

Numa manhã gelada ela apareceu. Uma camponesa chamada Aísha pedia para ver o senhor feudal, dizendo que podia curá-lo. Ignoraram sua suplica, e ela permaneceu 3 dias ao relento, acampada nos portões do castelo, até que o senhor a viu e solicitou sua presença.

Ela foi sozinha, levando um cesto cheio de ervas. Prometeu curá-lo, e se não o fizesse, tiraria a própria vida sem que lhe pedisse. O senhor feudal, impressionado, aceitou.

Trancou-se no castelo junto ao doente e passou 7 dias, aplicando ungüentos e chás, rezando e meditando junto com o homem. Passado 7 dias, sem sinal do senhor ou dela, os homens resolveram invadir as salas isoladas. Não foi preciso; surgiu o senhor feudal apoiado nela, perfeitamente saudável e sem cicatrizes. Um milagre.

O povo fez festa. Quis que Aísha fosse considerada santa; ela se recusou, apenas cumprira seu dever. Ia se retirar para as montanhas, quando o senhor feudal implorou que ela ficasse. Ele se encantou pela moça, que lhe recordava a filha, que morrera ainda criança. Pediu a ela que ficasse, como um pai pede a um ser querido. Ela aceitou, e foi adotada por ele e pela senhora, que a amava como se a tivesse gerado de sua própria barriga.

Tendo Aísha como sua filha, quis o senhor educar-lhe no que havia de mais importante a uma moça em sua posição. Ensinaram caligrafia, dança, pintura, etiqueta, noções de religião e política. Muito inteligente, aprendeu o que leva anos em alguns meses. O pai, vendo que ela tinha tanto potencial, ensinou além do que as mulheres aprendiam. Aprendeu arco e flecha, técnicas de luta marcial, noções militares e jogos de política, filosofia e dialetos distantes. Pensava o senhor que ela poderia, caso houvesse complicações, ajudar seu filho, que era dotado de alma artística, mas avessa a qualquer interesse nestes assuntos. Também sabia que deviam cuidar do que Aísha cuidava: uma série de pergaminhos com vários mapas, em várias línguas estranhas. Pensou que aquilo era algo sagrado, e ela deveria aprender a proteger sozinha se fosse preciso.

Passado os anos, o povo respeitava a jovem como ela fosse uma verdadeira sábia. Pediu então Aísha que lhe permitissem viajar para visitar as aldeias, fazendo o que fazia antes. O pai não quis deixar-lhe ir sozinha; aproveitando o evento, sugeriu que seu filho fosse com ela.

Os dois passaram por muitos lugares. Em cada aldeia, fazia milagres com suas ervas e orações; o povo a amava e a aclamava, e passava a fazer isto ao filho do senhor feudal. Este, por sua vez, olhava Aísha com olhos de homem, não de irmão, e se apaixonou por ela.

Confessou-lhe o sentimento, e foi correspondido. Propôs que se casassem assim que chegassem ao castelo. O pai, que os amava, ia concordar.

Ao chegarem tiveram uma surpresa.

O senhor, durante sua ausência, acertou o casamento de seu filho com o senhor feudal das terras vizinhas, pensando em uma aliança. Em suas terras, havia fartura de água e alimentos, mas poucas armas e homens para defesa. O senhor feudal vizinho tinha estas coisas, e carecia de mantimentos. A aliança seria benéfica aos dois. Casaria o filho com a filha de seu vizinho, moça de fina educação, mas de temperamento violento, que afastava pretendentes.

O filho contou sobre seus planos para o pai. Foi taxativo; não ia desistir. O senhor então apelou para Aísha, explicando tudo a ela e pedindo sua tolerância. Às lagrimas, desculpou-se com a jovem,mas não podia ceder. A moça concordou; entendia a posição do seu pai. Teimar custaria a vida de centenas.

Entretanto, não sabia o pai que Aísha tinha sido desonrada. Em uma posição suspeita que ficara, conservara o silencio, sabendo que se falasse seria a desgraça de sua família. O filho ficara indignado; jurou nunca fazer do seu casamento algo concreto e feliz, nem ter herdeiros.

O Destino porém foi cruel. Aísha estava grávida, e agora esta fadada a ser uma mulher rechaçada naquela sociedade. O pai forçou-lhe a contar tudo; e apiedado da situação, pediu ajuda ao vizinho. Este tinha um general, jovem e corajoso, leal a seus enhor e digno das maiores qualidades, e que queria casar com alguém de alma nobre. A situação ajudava. O jovem concordou, e entendeu o papel que teria nesta união, sem protestar. Criaria o filho como se fosse seu, sem comentários.

A cerimônia foi discreta. Estranhamente o general não parecia aborrecido, ao contrário. Encatara-se com Aísha, e jurou fazer ela e o filho felizes. Foram morar nas terras do senhor vizinho.

Pouco depois, casou-se o filho do senhor,com a filha do outro, que era uma jovem belíssima. Estavam felizes, e o pai parecia aliviado ao ver tudo dar certo.

Mas a filha do senhor vizinho não engravidara. Nasceu o filho de Aísha, e o povo fez festa. Já o filho do senhor nada conseguia, e diziam que isso se devia a ter desonrado a irmã adotiva. Os comentários aumentavam, e chegaram aos ouvidos do filho do senhor feudal.

Nunca fora um homem de caráter forte, e após aquela prova,que fracassara, resolveu chamar a irmã, para conhecer o sobrinho. Percebeu que Aísha e o general estavam apaixonados e felizes, e não suportou o ciúme. Quando a noite chegou, matou o general com veneno. Tentou o mesmo ao bebê, mas a irmã que o impedia contou que na verdade era seu filho. Horrorizado, amaldiçou a si mesmo.

Percebendo o horror e o futuro negro daquela situação, Aísha pediu aos céus que a maldição caísse sobre si. Arrancou seu coração, que se tornou uma pedra dourada. Assim a moça foi viver nas montanhas, deixando o filho com a esposa do irmão.

Nas montanhas onde vive, ela cura doentes, consola os velhos e as viúvas, acolhe os órfãos. E protege estas terras, que sempre amou, até a maldição acabar. Escondeu o coração em um lugar sagrado. Aquele que encontrar seu coração será seu senhor eternamente. Só quando seu coração for colocado de volta em seu peito a maldição será quebrada.

FLASHBACK OFF

CONTINUA...

Notas finais
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