Notas iniciais
Boa leitura!

Acordei com uma fresta maldita da minha cortina quase me cegando com a luz do sol. Eu estava precisando tanto descansar que nem sequer notei que dormi no sofá. De qualquer forma, não importa tanto. Sable me visitou na madrugada de sexta, logo hoje é sábado. Hoje normalmente eu iria ao F.E.S.T.A, por ser um final de semana e ajudar o Miles, mas eu vou seguir o conselho da Sable e tirar o dia para mim mesmo. para Peter Parker descansar. E eu já tinha uma ideia do que fazer hoje.

Depois de fazer um café da manhã rápido de duas torradas, peguei meu celular e verifiquei que já eram dez da manhã. Mandei uma mensagem de voz pro Miles avisando que eu estou me sentindo mal e não iria para o centro de ajuda. Enquanto eu me arrumava para sair de casa, recebi uma resposta dele, afirmando que dava conta de tudo, desejou melhoras e se caso eu precisasse de ajuda, era para ligar para ele. Sorri para o aparelho. Ele vai ser um ótimo Aranha. Esse espírito é algo que se vê em poucas pessoas. Lembro da May, com sua incrível personalidade de querer ajudar os outros.

Falando nela, farei uma última visita aos meus tios hoje. Eles iriam querer que eu seguisse em frente, e eu ouvirei o conselho silencioso deles. Porque é isso que os Parker sempre fizeram, confiar uns nos outros. Fazia muito, muito tempo em que eu não saio de casa como Peter, andar pelas calçadas como uma pessoa comum. Será que eu ainda sei como faz isso? Como diria eu mesmo: Há apenas um jeito de descobrir: testando na prática. Separei poucas coisas para levar, uma bolsa de uma alça, uma toalha branca, duas garrafas de água e um dinheirinho para comprar alguma coisa.

Desci do apartamento pelas escadas de emergência. Cumprimentei o porteiro, que nem sequer devia lembrar da minha existência. Senti a brisa suave das ruas de Chinatown. O céu estava ensolarado, com poucas nuvens. Pareceu certo, conveniente. O dia perfeito para aproveitar uma folga dos meus outros lados. Pois é, Spider-Man e Agente Spider, vocês vão tirar umas férias, junto comigo. Hoje eu iria fazer uma longa caminhada, até o extremo norte do Harlem. Eu poderia ir de metrô, mas que graça teria? E perder esse sol maravilhoso para me espremer no meio de um monte de gente? Não, obrigado.

Decidi ir pelo Greenwich, seguindo para Midtown e pelo Central Park. Por sorte, lembrei de ter trago minha câmera, tirei muitas fotos, não apenas de monumentos, mas de pequenas coisas também. Quando eu estou como Spider, dificilmente noto as belas paisagens, por conta do meu traje e do sentido aranha me darem muitas informações ao mesmo tempo, dificultando meu foco. Eu me acostumei, mas ainda é meio complicado. E quando eu estou apenas caminhando, percebo coisas que não havia visto antes. Como as belas árvores do verão, casais de mãos dadas sorrindo, crianças brincando ao redor dos muitos lagos do Central Park. Essa cidade é muito bonita. Acho que sei porque escolhi virar o defensor dela.

Depois de quase uma hora e meia caminhando, cheguei nos conjuntos residenciais do litoral do Harlem. Eu costumava visitar a filial do F.E.S.T.A. que se encontrava nesse distrito, mas ela pegou fogo. De resto, esse é o distrito com o qual eu menos interajo, por conta de ser muito distante dos mais movimentados. Meus fãs que moram por aqui sempre reclamam disso, e eu fico só rindo mesmo. É engraçado ver eles reclamando juntamente com o pessoal do Jameson. Eu só não falo nada para ele porque ele não vai ouvir de qualquer forma, esse cara já tá quase caduco. Cabe as pessoas decidirem se vão ou não ouvir esse maluco.

Pouco tempo depois, cheguei na entrada do cemitério. Faz seis meses desde que estive aqui. Seis meses desde que muitas pessoas se curaram, mas minha tia não teve essa sorte. Caminhei por entre as lápides, observando em como algumas possuíam mais de cem anos que estava por ali. A dos meus tios se encontravam bem para a lateral do cemitério. Parei bem em frente às lápides, puxei a toalha branca da bolsa e a estendi pelo chão do cemitério. Sentando em posição de borboleta, acabei abaixando os olhos, lendo os escritos nelas.

Quando levantei, percebi certos olhares de pessoas que passavam por ali. Uns com pena, outros com empatia, outros direcionavam um olhar com algo como… Desconforto? Talvez somente fosse uma cena incomum para eles. Como meus tios sempre me ensinaram, a opinião de quem não é importante para mim não tem relevância para mim. Por isso que lidar com o Jameson é fácil, receber ódio de milhões de pessoas não é nada quando apenas uma te agradece por ter feito uma boa ação.

Eu poderia dizer que tive um monólogo com as lápides, mas não. Eu apenas fiquei quieto, observando o céu e refletindo. Meus últimos momentos com cada um deles não foram do jeito que eu esperava, mas dificilmente as coisas funcionam a meu favor. E por eles, eu não tenho arrependimentos. Viver a vida intensamente, ajudando o próximo e sem desistir. Esses foram os ensinamentos que May e Ben Parker me ensinaram. E é hora de eu passar adiante.

Limpando lágrimas que eu nem percebi que escorriam, eu levantei do chão do cemitério, deixando duas flores sobre a lápide de cada um.

Esse seria o meu adeus às pessoas que moldaram quem eu sou hoje.

***

Antes de voltar para casa, decidi dar uma paradas no caminho para casa. Tinha alguns lugares eu gostaria de fazer uma visita. Verificando o horário, vi que já se passava de meio dia e decidi almoçar na pizzaria do Eddie, o lugar que eu pretendia levar a Sable para comer depois da luta contra Hammerhead, se ela não tivesse me chutado (agradeço por não ter sido literalmente). Eu quase iria chamá-lo da forma que eu faço como Spider, mas lembrei que não posso fazer isso.

Era estranhamente desconfortável ser eu mesmo e ao mesmo tempo não ser, porque certas coisas eu faço como Spider que não posso fazer como Peter, e vice-versa. Não estava com muita fome, então apenas pedi uma fatia de pizza, não conseguindo segurar a animação ao meu meu amigo Eddie. Ele me olhou de uma forma estranha, como se estivesse se esforçando para lembrar de algo, dando de ombros segundos depois. Sentei numa das cadeiras do balcão enquanto esperava a fatia chegar, que veio minutos depois.

Ao me entregar a fatia, ele me entregou um pedaço de papel com algo escrito, que eu baixei o olhar para ver. Arqueei as sobrancelhas, confuso com isso. Quando levantei o olhar, ele já estava animadamente atendendo outros clientes, fingindo que esqueceu da minha existência. Abri o papel e fiquei tanto chocado quanto contente.

“Obrigado por proteger a cidade. É uma honra te conhecer pessoalmente. Não contarei a ninguém.”

Levantei do banco ainda meio atordoado. Olhei para ele e ele de soslaio me mandou um joinha, que eu inevitavelmente retribui com um sorriso. Saí do restaurante ainda animado, mas com um certo nível de preocupação. E se outra pessoa me reconhecer pela voz? Eu costumo ser muito falante como Spider-Man, e apesar de não saberem meu nome, uma identificação facial por câmeras facilmente resolve isso.

Tentei esquecer isso por ora e continuei meu caminho pela cidade. Passei por alguns postos da Sable no caminho. O contrato com o Osborn finalizaria em poucos meses, então eles ainda ficariam pela cidade. Por isso a Sable ainda estava tendo problemas por aqui. A expressão de alguns deles era indecifrável por conta dos capacetes, mas era visível que eles gostariam de continuar desfrutando do abuso de poder deles em relação ao civis, ao invés de realmente trabalharem como uma empresa militar privada.

Eu estava observando alguns prédios da região do Upper West Side quando meu celular começou a tocar por algum motivo. Eu já tinha falado com o Miles, Sable só iria me ligar durante a noite e eu não estava esperando ninguém. Que estranho. Puxei o celular do meu bolso com certa curiosidade, até ler o que estava escrito na tela. Eu estava recebendo uma chamada de um número desconhecido. Cara, esse pessoal só pode estar de brincadeira. Eu renho realmente que trocar de número. Depois de me questionar se eu deveria mesmo atender, acabei dando de ombros e aceitei a ligação.

A princípio, eu só ouvia uma respiração totalmente bizarra extremamente próxima do telefone. Eu estava prestes a desligar achando se tratar de um trote mal feito, quando a pessoa resolveu se pronunciar.

— Você é Silver Sable? — questionou num tom tão baixo que eu tive que fazer esforço para conseguir ouvir o que foi dito. Meus pelos se arrepiaram, essa pessoa conseguiu meu número de alguma forma.

— Número errado, amigão. Tenta novamente mais tarde.

Quando eu estava prestes a desligar a ligação, consegui ouvir a voz do sujeito novamente.

— Eu não estou brincando, seu verme. Eu rastreei o IP do computador de Silver Sable até um local onde se encontrava esse dispositivo extremamente próximo. Se você possui contato com ela, diga-me agora e eu talvez possa poupar essa sua vida insignificante — ameaçou com a voz tão baixa e arranhada que era quase como ouvir um garfo riscar um prato.

— Eu quero ver você tentar. E pelo visto você rastreou o IP errado, seu hacker de ensino médio — e desliguei.

Tentei agir rapidamente, mas o indivíduo era esperto. Antes dele conseguir bloquear o meu número, eu consegui apenas o começo do rastro dele, que era em algum local do litoral de Manhattan, o que não foi nada útil, visto que Manhattan é uma ilha e litoral não falta. Ele poderia estar literalmente em qualquer lugar, até debaixo d’água. Eu precisava avisar isso para a Sable. Mas ela pode estar ocupada agora, então eu aviso quando ela me ligar. Eu preciso pensar direito, e com esse monte de gente esbarrando em mim na calçada é meio complicado.

Sentei em um banco de uma pequena praça na Upper West Side e pensei nas possibilidades de problemas que envolvem a Sable. Esse cara de alguma forma conseguiu o IP do computador dela, mas não permanentemente. Talvez ela tenha mudado e ele perdeu o contato? Faria sentido, visto que ela é muito cuidadosa. Mas o que eu não entendo é o porquê desse tipo de abordagem. O sujeito parecia desesperado para encontrá-la. A pista do IP dela seria a única coisa que ele tinha?

Na verdade, eu tive sorte de que o cara rastreou o meu celular, e não o dela. Caso o indivíduo tivesse conseguido contato com o celular dela, muito provavelmente ela compraria essa briga e se jogaria de cabeça numa armadilha e acabaria numa situação muito complicada. Suspirando fundo, ponderei se contava ou não o que acabou de acontecer a ela. Muito provavelmente ela iria pedir o número desse aparelho, ligaria para ele e faria uma besteira que se arrependeria depois. E eu teria que aparecer por lá e salvá-la, como geralmente faço com todo mundo que me ignora. Pois é.

Lidar com pessoas impulsivas era complicado. Parecia que eu estava rodeado de pessoas assim. MJ, Felícia, Miles… Todos se jogando de cara no perigo iminente enquanto ignoravam totalmente meus conselhos (sendo que eu sou muito mais experiente que todos na arte de se meter em perigo, perco apenas para Sable, que parecia não demonstrar essa experiência). Tipicamente, eu iria adorar me meter numa confusão e socar uns vilões. Mas esses aí são diferentes até demais.

Desde que eu enfrentei o Tombstone, eu sei que enfrentar um inimigo invencível nunca é a melhor das opções. Rodear o território e encontrar a fraqueza dele é a melhor estratégia, e é isso que eu vou fazer. Vou dar uma olhada pelo litoral e ver o que eu encontro, antes da Sable me ligar. São duas e meia, tenho cerca de umas cinco ou seis horas até esse momento. Tenho que me apressar. Depois de entrar num beco escondido, pulei por cima de um prédio e o mais sutil possível para o outro, sem chamar atenção. Em poucos minutos, eu cheguei no apartamento.

Separei tudo que eu iria levar: Meus lança teias, teias de impacto e uma seringa. Talvez eu conseguisse alguma amostra do DNA desses caras e então poderíamos adiantar muitas informações de como lidar com esses indivíduos mutantes. A Sable certamente iria ficar surpresa. Entretanto, minha furtividade teria que ser perfeita para conseguir uma amostra. Para a sorte da Sable, ela contratou o melhor espião do mercado. O famosíssimo e inigualável: Agente Spider.

Em momentos oportunos como este, é imperdível dar uma testada nos meus trajes novos. O da vez vai ser um no estilo século XX, que nomeei de Traje Noir. Em lugares escuros é uma ótima pedida para se camuflar, além de que a nanomalha dele me permite utilizar ondas eletromagnéticas que me ocultam por um período de quarenta segundos. Além de que ele possui vários bolsos, o que é bem útil. Guardar as coisas dentro do traje não é muito agradável. Demorei um tempo fazendo esse traje, então é bom que funcione. São três horas da tarde, caso eu corra eu consigo achar esse esconderijo a tempo.

***

Era por volta de cinco e meia e eu não tinha encontrado absolutamente nada.

A merda do rastro que eu consegui pegar do celular do indivíduo era extremamente vago. Eu comecei rodeando a área do Upper West, descendo até o Hell's Kitchen, seguindo para o Greenwich e rodeando todo o sul do Financial District, passando por Chinatown, subi pelo Upper East e agora chegando no Harlem pelo oeste eu estou extremamente irritado. Não é possível que eu não tenha encontrado nada. Quando eu estava prestes a desistir, eu estava sobrevoando uma região do extremo oeste do Harlem, quando ouvi vozes numa área relativamente deserta, próxima aos contêineres do píer local. Finalmente, eu encontrei algo.

Caí silenciosamente próximo a um contêiner, subindo nele e ouvindo a conversa que se passava por ali. Eram apenas dois sujeitos, que não falavam nada com nada num tom muito grave. Para mim, eles estavam falando o mesmo que grego. Decidi gravar a conversa, caso a Sable consiga decifrar que merda de língua é essa. Assim que eles pararam (aparentemente) de falar, decidi que iria continuar seguindo o caminho dos vários contêineres que havia por ali e dei de cara com uma espécie de galpão. Entrei pela ventilação lateral. Talvez o líder deles da voz arranhada estaria por aqui. Ia facilitar muito.

E após dar uma olhada no ambiente inteiro, eu não estava surpreso de que ele não estava por ali. Sinceramente, por que eu ainda me iludo achando que as coisas vão ser do jeito que eu quero? Complicado, hein.

Só havia um grande espaço dentro do galpão, logo eu não poderia sair de dentro da ventilação. De cara, consegui ouvir mais uns vinte homens utilizando aquele dialeto bizarro, gravei o máximo que consegui no Spider-Bot, e utilizando os sensores do meu traje, tentei ver se havia mais alguma coisa escondida pelo lugar. Não encontrei nada além de alguns suprimentos da Sable e vários tipos de embalagens de comidas velhas. Imaginei que esses caras não fossem ser do tipo higiênico.

Então, chegou a hora da minha tacada final. Eu teria que conseguir as amostras, e era agora ou nunca. Observei o ambiente por mais alguns minutos, até achar o contexto perfeito para o que eu planejo fazer. Subi para o teto do local, me apoiando em algumas barras de sustentação horizontal, perfeitas para movimentação. Depois de algumas teias jogadas aqui e ali, consegui isolar um inimigo próximo a uma parede, hora perfeita para testar a nanomalha.

Ativei sem mais delongas. Para minha sorte, o máximo que se foi ouvido foi o clique para ativar. Após alguns segundos, olhei para mim mesmo, não havia nada. Funcionou perfeitamente, eu nem acreditava. Mas como eu não sabia quanto tempo mais eu tinha, decidi ser rápido e finalizar o que eu tinha que fazer. Apoiando meus pés na teia e descendo de cabeça para baixo, cheguei próximo o suficiente do cara.

Fiquei pensando por alguns segundos como que eu iria fazer isso sem que ele acabasse reagindo por instinto e me achasse. Decidi ficar acima do nível do pescoço dele, talvez ele não me acerte dessa forma. Rapidamente, quase perfurei o pescoço dele com a seringa, e tão veloz quanto, puxei uma razoável quantidade de um líquido extremamente bizarro. Parecia um mix instantâneo de lixo, fezes e restos de cadáver. Para minha sorte, o líquido não fedia. Da mesma cor azulada quase preta da mutação dos homens. Bingo.

Para o meu azar (claramente eu não teria sorte) o homem reagiu achando que era uma mosca e deu um tapa, transmutando a mão para isso, que acabou me acertando e eu caí no chão, causando um barulho razoável. Ok, isso não estava nos meus planos, com certeza. Eu estava prestes a aceitar que teria que lutar contra diversos mutantes para sair dali, quando o homem apenas ficou olhando ao redor, procurando algo que possa ter causado tanto barulho. Parece que algum tipo de divindade teve pena de mim e me presenteou com isso. Com a seringa em mãos, subi pela parede rapidamente, abri a ventilação com o maior cuidado possível e pronto. Estava seguro. Soltei a respiração, e o traje voltou ao normal poucos segundos depois.

Cara, isso foi muito tenso. Eu não sei os limites desses caras, e dependendo da situação eu perderia feio sem os meus dispositivos. Era pressuposto para ser somente uma missão de furtividade. Ainda bem que o Agente Spider é altamente competente. Saí do local rapidamente, parando em algum prédio do Midtown. Respirando fundo, eu consegui me acalmar. Tudo pronto, agora era só entregar essa amostra para a Sable e teríamos conseguido adiantar grande parte do trabalho. Puxei meu celular de um dos bolsos, assim como a seringa. Percebi que já se passavam de sete horas. Eu demorei tanto assim naquele lugar? Se pareceram apenas alguns minutos.

Tentei dar uma olhada na seringa para descobrir que espécie de merda era aquela, mas eu precisaria do laboratório para isso. Por sorte eu estava perto do Greenwich. Chegando rapidamente, pus uma pequena parte do material no microscópio, e fechei a seringa. Hora do show. Depois de vários minutos de análise, consegui obter grandiosos… Nadas. Aquele elemento era extremamente bizarro e incomum. O máximo que eu consegui saber era que era algum tipo de simbionte, que funcionava em correlação com o hospedeiro.

Suspirei fundo ao ver que já eram oito horas, e eu estava prestes a ir para casa trocar de roupa e se possível tomar um banho, quando recebi a esperada ligação da Sable. Atendi.

Parece que eu trocaria de roupa só amanhã.