Sable's Silver Lining
4 Noir Day - Part Two
Notas iniciais
Sable me ligou falando o local rapidamente (que eu mal consegui ouvir, consegui pegar somente a rua) e a que eu deveria estar lá em menos de vinte minutos, depois desligou na minha cara. Bom, eu não esperaria muito dela, mas não custava nada deixar eu falar, hein? Vai que eu não entendi direito o que ela disse, né. Ou estaria no meio de uma luta contra um monte de mutantes ladrões que falam uma língua ainda mais estranha que russo. Nunca se sabe.
O local que ela me deu era no meio do Midtown, próximo a 57ª Avenida. Ou algo do tipo. Praticamente do lado do litoral. Eu já estava cansado de olhar para a água, hoje eu passei a tarde inteira rodeando a ilha de Manhattan, enquanto me estressava por não encontrar o local que eu queria. E, na verdade, eu lembro de ter passado por lá hoje mesmo. Se eu não me engano, havia uma base da Sable por ali, talvez ela esteja por lá, o que faria bastante sentido levando em conta que faríamos pesquisas. Enquanto eu era perseguido por literalmente todo mundo da cidade, soquei a cara de alguns soldados daquela base por estarem abusando do poder e sequestrando civis. Bando de otários.
Na verdade, esses soldados em específico foram muito difíceis de se lidar. Seja lá o que usam nessa armadura, é muito resistente, além de absorver mais da metade do impacto de qualquer golpe. Alguns caras que utilizavam um sabre vermelho eram tão resistentes que eu demorava quase dez minutos enchendo a cara deles de socos, enquanto ele não me acertava nenhum golpe, e só então ele caiu desacordado. Eu preciso desse material para fazer um traje. Cara, eu ia ficar muito irado de branco e cinza.
Coletei o material do microscópio e da seringa, guardando ambos num pequeno pote coletor num dos bolsos do traje e segui direto para a base que a Sable indicou. Enquanto sobrevoava os prédios, fiquei pensando sobre aquele líquido estranho, e os mutantes malucos. Eu posso nunca ter falado ou sequer sei russo, mas já enfrentei o Rino vezes o suficiente para saber que aquilo que eles falavam não chegava nem perto disso. Ou de qualquer língua que eu conheça (mesmo que apenas de ouvido). Nem um combo de russo, chinês e alemão seria tão estranho quanto aquilo. Agora acho que sei o porquê daquele cara ter uma voz tão arranhada e bizarra.
Mas era muito estranho isso tudo. Apesar do termo simbionte existir, nunca foi provada a existência de qualquer tipo de ser vivo que se encaixa nessa categoria, e seguindo essa linha de raciocínio somada com aquele linguajar estranho... Talvez panspermia se encaixe nessa situação. Vou procurar relatos de meteoritos que entraram na atmosfera recentemente. Talvez a Sable já tenha tido essa conclusão. Bem, vamos ver.
Só para irritar alguns soldados, peguei impulso para me jogar para cima e mergulhar, para então utilizar a teia novamente com mais energia para cima. O plano era simples: Eu estava a mais de 250 metros do chão, e iria usar a teia para me balançar próximo a eles numa velocidade de quase 120km/h, simples, rápido e fácil. Avistei três alinhados numa fileira em formação, isso iria ser engraçado. Encolhi os braços para conseguir mais velocidade, e quando estava bem próximo ao chão, lancei a teia em um prédio próximo, apoiei-me nela com as duas mãos e posicionei os dois pés para frente, quase raspando no chão. E então, rapidamente voei na frente deles e soltei a teia, somente para lançar ela num poste da base e observar o resultado.
Dois dos soldados caíram para trás de susto e o terceiro ajudou os dois a levantarem, isso enquanto me xingavam loucamente. Comecei a gargalhar a ponto de chorar de rir, e os três, decidindo parar de xingar, começaram a dar leves risadas, percebendo a situação. Pedi desculpas e disse que foi só uma brincadeira, e agradeci por levarem numa boa. Agora eu precisava achar a Sable, perguntei dela deles e me disseram que ela não aparecia por ali já desde o final da tarde. Minha cara de interrogação pareceu tão visível que eles perguntaram o porquê de eu procurar por ela. Respondi que ela me pediu para encontrar ela num endereço próximo dessa área, e eu pressupus que fosse aqui. Eles se entreolharam e disseram que o apartamento dela se encontrava nessa mesma área.
Mesmo com a máscara e os óculos, eles conseguiram ver minha cara de espanto e começaram a morrer de rir. Perguntei com um tom sério deles se eles achavam que era algum tipo de armadilha, e se eu corria risco se entrasse lá. Depois de rirmos mais um pouco, eles me informaram que provavelmente não era, eles se lembravam dela ter comentado de estar esperando alguém, então talvez eu ainda consiga manter minha existência intacta. Pelo menos, por enquanto. Agradeci a eles e peguei o endereço com eles, e enquanto me despedia deles, ouvi dois deles elogiando o traje novo. Pelo menos ainda existem pessoas com bom gosto por aqui.
O apartamento dela era do outro lado da 57ª Avenida, bem em frente ao Central Park, em um prédio extremamente requintado. Parei bem em frente dele, em cima de outro prédio. Questiono-me se seria muita falta de educação eu perguntar o andar dela e entrar pela janela? É provável que se eu entrar assim na recepção eu seria expulso. Não trouxe roupa e sinceramente eu não estou a fim de voltar até Chinatown e voltar até aqui. Cogitei simplesmente entrar sem a máscara na recepção, mas eu posso já ter sido visto com esse traje pelo meu passeio por Manhattan. Rezando para nada de ruim acontecer comigo, eu puxei meu celular e liguei para a Sable, que atendeu depois de alguns segundos.
— Hum, oi, Sable. E-eu estou aqui na frente do seu prédio, mas não sei como entrar. Eu estou com um traje diferente hoje. Como eu faço? — questionei nervosamente, por algum motivo.
— Lembro de ter te sugerido para descansar hoje. Enfim, entre pela recepção, seu idiota. Meu quarto é o 1004, peça para ligarem e eu autorizo sua entrada. Creio ter dito o número quando te liguei. Seu traje não importa.
— Na verdade, sobre isso, eu até tentei relaxar, mas tive uns contratempos... Quer saber, isso não interessa agora. Vou seguir sua ideia, mas se eu for expulso da recepção eu vou entrar pela sua janela — provoquei divertidamente.
— Quero ver você tentar, Parker — sua voz não estava para brincadeira, então eu decidi não brincar com a sorte.
Desliguei a ligação e desci numa das árvores do Central Park, subi na calçada e caminhei em direção ao edifício como se eu não estivesse usando um traje extremamente elegante e bonito, mas que na visão dessas pessoas, sem noção alguma de estilo, acham estranho. Antes mesmo de eu entrar no prédio, dois seguranças, tão grandes quanto o Fisk, me barraram. Perguntei se havia algo de errado, e eles disseram, pasmem, que eu estou vestido de forma suspeita e que se eu quisesse entrar, teria de vestir algo razoável. Após dizerem isso, empurraram-me e eu quase caí para trás.
Informei aos dois brutamontes que Silver Sable que havia me chamado ali, que minha vestimenta não interessava a nenhum dos dois, e que se eles quisessem implicar com isso, eles que resolvessem com a Sable. Pude ver que os dois claramente suaram frio e saíram da frente da entrada, permitindo a minha passagem. Arrogantemente, eu agradeci pela compreensão, enquanto ouvia o rosnado dos dois. Quase ri da cara desses dois. Só não ri porque dessa vez eles me expulsariam com um motivo mais plausível.
Cheguei na recepção com os olhares de todo mundo em mim, inclusive das câmeras de segurança. Ser uma celebridade é complicado. Cheguei no recepcionista que me encarava com uma cara de poucos amigos por estar chamando tanta atenção. O ambiente inteiro estava em silêncio, e pareceu perder totalmente qualquer tipo de som depois que eu falei o número do quarto e o nome da pessoa que residia ali. O recepcionista pegou o interfone, digitou o número, confirmou a minha entrada e liberou minha passagem, isso tudo enquanto me encarava com uma cara totalmente surpresa e chocada. Ele e mais todas as pessoas presentes por ali. Quando eu entrei no elevador, comecei a rir loucamente. Nunca que eu me imaginei passando por uma situação dessa. A porta do elevador se abriu, revelando um corredor com passagens para a esquerda e direita.
Ainda dando pequenas risadas procurei o apartamento da Sable, que ficava no final do corredor a direita. Apertei a campainha, e depois de quase um minuto esperando, ela abriu a porta, puxou-me para dentro, trancou a porta e eu já me preparei para o que viria a seguir.
— Você por acaso perdeu os últimos neurônios que ainda existiam nesse seu cérebro? Que merda de roupa é essa?! Não estamos no século XIX, e muito menos na França, Parker! Se queria chamar atenção, você conseguiu! — gritava e gesticulava, enquanto minha máscara (felizmente) escondia o sorriso sacana que eu tinha no rosto — O recepcionista me perguntou se eu estava esperando um indivíduo vestido de forma estranha, e eu imaginei que fosse você. Mas depois de verificar as câmeras da portaria, eu quase surtei! O que vão pensar de mim depois de saber que um louco vestido como um espião francês de dois séculos atrás entrou no meu apartamento?!
— Primeiro de tudo: Não é do século XIX, e sim do XX, além de que esse traje é extremamente estiloso — ela iria retrucar, quando eu continuei, sem dar tempo dela falar — Segundo, eu precisei desse traje hoje por conta da nanomalha dele, que me deixa invisível por um período de tempo, depois eu explico. Terceiro, foi você que pediu que eu entrasse pela recepção, a culpa não é minha. E por último, vamos focar no trabalho, eu tenho informações muito úteis que obtive hoje.
Ela ainda demonstrava estar muito irritada, mas respirou fundo, sentando-se no sofá prateado, enquanto manteve a cabeça baixa, com o cabelo cobrindo o rosto. Enquanto ela estava tendo sua crise de raiva, aproveitei para tirar a máscara e segurá-la em uma das mãos, sentindo um conforto instantâneo. Ela olhou para cima ao perceber alguns sons e viu meu rosto com o resquício de um sorriso e pareceu se acalmar um pouco.
— Me dê um motivo para não te expulsar do meu apartamento. Já te adianto que ele tem que ser muito plausível — afirmou com seriedade.
Sem falar nada, puxei o pote de um dos bolsos e mostrei para ela, que pareceu estar extremamente chocada. Ela tomou o pote das minhas mãos, aproximou ele do rosto e observou o material interno. Depois de pouco mais de um minuto, ela virou-se para mim, ainda surpresa.
— O quê...? Como? Onde conseguiu? — disparou outra série de perguntas, que soavam mais como ordens para eu obedecer e responder. Percebi que isso era algum tipo de mania dela.
Nos sentamos na grande mesa de vidro da sala e comecei explicando para ela o que havia acontecido durante a tarde de hoje. De como eu fui ameaçado, de como eu quase fui pego com a mão na massa e sobre o dialeto dos mutantes. Ela pareceu realmente surpresa de que eu consegui esses resultados em apenas um dia. Vi uma espécie de indignação passar pelo rosto dela após eu terminar de contar, mas durou menos do que um segundo. Talvez eu tenha interpretado errado. Contei também os resultados que obtive no laboratório, mostrei os áudios bizarros dos mutantes e a minha teoria de que esse simbionte possa ter vindo de outro lugar. Panspermia.
— Bom, tem bastante coisa para falar. Para começar, eu creio que sei o porquê daquele homem ter conseguido o IP do meu ‘’computador’’. Eu não tenho nada salvo de fato neste computador, nós utilizamos a base de dados da Sable Internacional, para caso nossos dispositivos sejam furtados. E para isso, precisamos conseguir uma conexão com um servidor, que é criado temporariamente para buscar a informação, e então excluído. Quando te mostrei a gravação, realizei a conexão, e logo então desfiz. Creio que foi nesse momento de exposição que ele conseguiu pegar o IP do servidor temporário, e então perdeu o rastro porque o IP deixou de existir — explicou. Cara, o pessoal de engenharia computacional da Sable Internacional tem bolas de titânio, olha que sistema genial, praticamente infalível — Mas isso não impediu ele de identificar o seu celular por estar muito próximo do aparelho na hora da conexão.
— Isso faz bastante sentido. Imaginei que fosse algo do tipo. Agora, sobre ele estar te procurando, e bem desesperado por sinal, alguma ideia? Ele foi bem esperto em bloquear meu número rapidamente, antes de eu conseguir rastreá-lo por completo, não é qualquer pessoa que agiria assim. O líder deles seria tão burro e esperto ao mesmo tempo?
— Ele poderia estar querendo vingar seus homens? Na verdade, isso não faz sentido. Esse tipo de abordagem é praticamente entregar a posição de cara, não creio que aquele seja o líder deles, talvez seja apenas um subordinado desobedecendo ordens. Faria mais sentido. Deixemos isso de lado por enquanto. Sobre o dialeto estranho que eles utilizavam, mais tarde enviarei essas gravações de áudio ao meu setor de relações sociais para ver se eles conseguem identificar que língua é essa, além de mandar essas amostras para uma varredura completa no laboratório. Nós precisamos saber com o que estamos lidando. Caso não consigamos resultados concretos em nenhuma das análises, terei que pressupor que sua teoria da panspermia é a resposta mais aceitável, por enquanto.
— Outra coisa, quando eu estive naquele esconderijo deles, não consegui identificar direito o que eles estavam fazendo, principalmente pelo fato de não entender uma palavra do que eles diziam, mas também porque eles apenas conversavam e moviam caixas, pareciam que já haviam finalizado o que iriam fazer ali, e estavam arrumando as coisas. O local que eu consegui as informações e a amostra se encontra na baía do extremo oeste do Harlem, próximo a alguns contêineres, provavelmente são eles que estão roubando os suprimentos destinados a Symkária. Recomendo que você mande uma equipe para lá o mais rápido possível, talvez eles estejam mudando de local para não serem pegos — peguei meu celular e mostrei o local específico no mapa para ela, que acenou com a cabeça — Creio que o meu papel nesse trabalho acabou sendo bem mais rápido do que eu esperava que fosse ser. E amanhã o seu nessa cidade acaba também, né?
Ela pareceu levemente decepcionada por um momento. Ela fez uma expressão que poderia ser considerada fofa, se eu não estivesse tão acostumado com a cara mortífera dela. Parecia desconcertada, como se indecisa se falava algo ou não.
— Hum, é, sim, de fato. S-suponho que eu deva cumprir minha parte do acordo — ela pegou a bolsa em cima do sofá e me entregou um cartão branco, com uma pequena listra verde neon e com faixas cinzas — Você normalmente precisaria ir em alguma das nossas bases pela cidade, preencher um formulário, informar seus documentos, responder a uma entrevista... Não me interesso tanto por burocracias, mas parecem que elas me rodeiam de qualquer forma. Se ainda tiver interesse em entrar na minha empresa, é melhor não se acostumar com esses favores que estou lhe prestando.
— Espera, espera, espera, eu entendi certo? Você já está literalmente me alocando na sua empresa diretamente? Sem chatices de formulários?
— Sim. Mas não se acostume! Você tem sorte de ter a CEO de uma empresa lhe ajudando. — ela afirmou com um tom sério, apesar que parecia estar nascendo um sorriso em seu rosto — A partir de hoje, você pode ir trabalhar diretamente para o seu próprio laboratório particular em alguma das unidades da Sable International de Manhattan...
— Que legal! Isso é muito irado! Muito obrigado, Sabl...
— ... Até o nosso contrato com o Osborn terminar.
Ver o meu sorriso morrer fez o protótipo do dela sumir também. Apenas alguns meses trabalhando em Manhattan? Não há mesmo nenhuma opção do que fazer?
— Vocês não têm nenhuma filial por perto daqui? Eu não queria ter de sair dessa cidade...
— A mais próxima é a de Nova Jersey — ela disse, desanimando-me totalmente — Eu... Vou dar um tempo para você pensar sobre isso. Quando estiver decidido, ligue-me. Fique com o cartão. Se você não quiser, eu vou entender. Mas caso queira, saiba que seria interessante trabalhar com você, Peter. Ah, e caso eu precise de mais alguma coisa sobre o caso dos simbiontes, você estaria disponível?
— ... Sim. É só avisar que eu chego voando, só que um pouco diferente de como você faz — sorri para a piadinha sem graça, e fiquei surpreso quando vi o rosto dela adquirir um leve tom de vermelho.
— Eu estava levemente descontrolada quando persegui o Hammerhead daquela vez, eu admito — e para minha maior surpresa ainda, ela sorriu verdadeiramente. Meus olhos não podiam estar mais arregalados — Você podia pelo menos disfarçar essa sua cara de idiota. Eu também sorrio, sabia?
— Sable, sua expressão de raiva é uma das únicas que eu vejo você usando o tempo inteiro, esse seu rosto neste momento merecia uma foto de recordação — comentei provocando um pouco ela, quem sabe eu não consigo ver ela corar de novo — Você fica bem melhor sorrindo.
— E você fica melhor de máscara, quando eu não tenho que ficar vendo esse seu rosto de piadista convencido — falou, enquanto cruzava os braços, ainda mantendo o belo sorriso no rosto, e eu percebi que o rubor se intensificou levemente. Minha semana inteira já estava feita — Já está tarde, Parker, são onze da noite. É melhor você ir para casa, eu tenho que invadir um local cheio de mutantes amanhã. E é bom você estar preparado para dar suporte.
— Sim, chefe! — Fiz uma continência com o braço errado de propósito, ela riu novamente. Definitivamente, eu prefiro essa Sable — Mas falando sério, me fala a situação completa, e não desliga na minha cara, eu quase não achei esse prédio, você me deu só a rua, como espera que eu encontre?
— Mas é um idiota mesmo. Não prometo nada, Parker. Trabalhe com o que tem.
— Você acabou de resumir minha vida inteira, senhorita Sablinova. Até amanhã, se você precisar de mim!
E então, eu me despedi e abri a porta. Definitivamente, seria interessante trabalhar com ela. Mas eu não posso abandonar a cidade de Manhattan assim. Apesar de nenhum grande crime estar acontecendo (com exceção dos simbiontes), essa cidade ainda precisa do Spider-Man. Uma ideia se passou pela minha cabeça, mas se foi tão rápido quanto.
Ele não está pronto ainda.
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