SURYA: A última ilha
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Era quase doze horas da noite, há mais ou menos sessenta quilômetros de Mizuri, existia uma grande cidade chamada Pasqual. Era dia de grande comemoração, e a cidade toda estava festiva. Seus habitantes celebravam mais um ano de paz e fartura no tradicional Festival de Limpeza.
Em um local particular por trás de uma luxuosa mansão, um grupo menor de pessoas fazia sua própria festa. Uma enorme fogueira tinha sido acesa, com chamas que chegavam a quase dois metros de altura, o fogo parecia dançar ao ritmo do vento e som dos tambores.
As mulheres estavam muito bem produzidas, com saias longas feitas de tiras de cipó, amarradas a uma faixa mais grossa fixada em torno da cintura. Vários adereços feitos de flores coloridas enfeitavam o pescoço e seus pulsos, alguns desenhos maquiavam suas faces, dando a elas um ar selvagem porém encantador.
Aqueles não eram os trajes habituais daquelas pessoas, é claro, e sim vestimentas usadas exclusivamente para aquela noite. Havia também alguns homens, bem vestidos, que tocavam tambor e flauta, enquanto outros bebiam e festejavam.
Na fogueira, grandes peixes, de aparência apetitosa, estalavam com o fogo enquanto adquiriam uma cor dourada. O cheiro típico da iguaria inundava o ambiente, quase dava para sentir aquela carne branca e suculenta. Era uma receita dos chefs da região, chamada “peixe rush”.
Depois de pronto, o peixe desmanchava na boca, macio por dentro e crocante por fora, era assim que deveria ficar. Temperada com ervas levemente ardidas, o aroma era tão intenso que acabava roubando um pouco da atenção a qual, no momento, se encontrava no rebolar de uma dúzia de moças dançando, tão suavemente, ao redor do fogo.
Um pingo de chuva caiu no nariz de Juliver, fazendo-o sorrir. Chuva no final do ano era um sinal de bons presságios. Os ventos sopravam um pouco mais fortes que o de costume fazendo as árvores e o fogo bailarem ainda mais. Iniciou-se um sereno suave e uma tenda foi armada para que os peixes não estragassem. Apesar da chuva, a festa continuou e o banquete foi servido: frutos do mar, sucos, rum, e deliciosos peixes rush.
Juliver foi um dos primeiros a experimentar, quando mordeu o primeiro pedaço de peixe, sentiu o verdadeiro significado da palavra felicidade. Agora não só o fogo, mas o seu estômago dançava alegremente dentro de seu corpo.
Mesmo o peixe estando quente, ele não conseguia parar de comer. Quando mordia, a casca grossa e crocante feita com farinha de rosca e de trigo, que estava empanando o peixe, se partia e dava lugar a uma macia carne branca. Ela era suculenta e tão bem preparada, que praticamente se liquefazia, quase instantaneamente, descendo suave garganta a baixo. O sabor ardido vinha das ervas, transformadas em um molho secreto, picante, o qual recheava o interior do peixe, para não estragar nem soltar o sabor, até que estivesse na boca.
Depois de comer até não aguentar mais, Juliver bebeu uma caneca de seu rum e se deitou na grama olhando para cima. Naquele exato momento um raio partiu o céu. Uma tempestade estava a caminho.
As telhas das casas ao redor agora sacudiam com o vento e a fogueira, fora de controle, teve que ser apagada para evitar um incêndio. Aquela chuva forte e repentina fez com que a maioria das pessoas procurasse abrigo dentro de casa.
Heldone, o dono da mansão, era também representante da cidade, um homem decente. Seu cabelos eram pretos com uma pequena mecha cinza e estava sempre muito bem penteado. Ele vestia uma camisa branca com um colete verde por cima.
— Por favor, peço a todos que fiquem calmos e voltem para suas casas, tudo ficará bem! – Os olhos dele pareciam tão firmes e com uma quantidade infinita de coragem e paixão, que foi o bastante para controlar o pânico que se instaurava.
Alguns pescadores, no entanto, protestaram, pois se uma tempestade estava mesmo a caminho, eles teriam que ir até o píer reforçar a amarra de suas embarcações para evitar que elas tombassem com o vento.
Batedores do orfanato e soldados da guarnição, que festejavam junto aos moradores, ofereceram seus serviços, Juliver fez o mesmo. Após uma breve análise da situação, o representante se pronunciou.
— Pois bem, aceito a oferta. – Disse Heldone. – Parte dos soldados me siga e ajude a manter a ordem e segurança pelas ruas da cidade! Os outros, sob o comando de Juliver, vão até o porto e garantam a segurança dos pescadores até que o último barco esteja em segurança, vão! – Ordenou Heldone com confiança.
Todos os integrantes da missão partiram em direção ao seu objetivo, cinco batedores, quatro soldados, Juliver e mais sete pescadores.
— Batedores, formem um arco na frente grupo, os soldados devem garantir a segurança por trás do pelotão, pescadores, mantenham-se sempre no centro da formação, eu vou à frente! – Gritou Juliver, para que pudesse ser ouvido.
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