SURYA: A última ilha
8 Capítulo 8
O vento chegava a quase sessenta quilômetros por hora e continuava a aumentar. Uma chuva intensa desabava e raios que caíam aleatoriamente pelo caminho, faziam com que o grupo prosseguisse com dificuldade. Juliver, que ia à frente de todos, sacou sua espada, uma katana, feita primorosamente de um metal chamado tahamagani e batizada de “Chi no Umi”. Ele a segurou firme, sua lâmina tinha uma coloração alaranjada e um brilho intenso.
Alguns objetos eram lançados pelo vento em sua direção. Ele poderia facilmente desviar, no entanto, ele fatiava-os um a um para que não atingissem seus companheiros. O metal de sua katana ardia como o fogo de tal forma, que as gotas de chuva, ao tocá-la, evaporavam instantaneamente. Uma aura avermelhada tomou forma em torno dela.
O grupo percorreu uma longa distância, mas finalmente conseguiram avistar à praia. Dava para ver dezenas de trombas d’água há alguns quilômetros do local por sobre o mar.
A tempestade estava ficando cada vez mais forte. As ondas já chegavam a mais de cinco metros de altura, ameaçando destruir todo o porto. Quando finalmente o grupo chegou ao píer, uma serpente marinha brotou das águas, rugindo ferozmente. Uma pressão maligna percorreu todas as direções.
O corpo da serpente era praticamente tão translúcido como o vidro, se ela estivesse em alto mar, seria uma camuflagem perfeita, tornando-a uma criatura ainda mais perigosa por sorte esse não era o caso.
Todos os pescadores ficaram horrorizados com aquela monstruosidade, alguns já haviam presenciado a aparição de serpentes marinhas, as quais davam o nome de Nagare, mas nada com aquela magnitude.
Quando alguma criatura muito poderosa surgia, trazia consigo um desequilíbrio ao ambiente, provavelmente aquela fosse a causa da tempestade, visto que não se tratava de uma Nagare comum.
Não dava para saber o comprimento exato do monstro, parte dele estava submerso, porém, quase seis metros se faziam visíveis fora da água. Espinhos tão compridos quanto espadas, brotavam das suas costas, além de uma armadura natural composta de grossas escamas.
— Eu e os soldados vamos cuidar da criatura marinha, batedores, protejam os pescadores enquanto eles prendem as embarcações! – Comandou Juliver.
A criatura continuava rugindo e aguardando. Um odor de peixe morto, vindo de sua boca, infestou o local.
— Vocês estão loucos, olhem o tamanho daquela Nagare, não vale a pena, fujam, corram para se salvar! – Um dos pescadores gritava desesperado, completamente em pânico.
Os outros pescadores assustados ouviam-no berrar e não sabiam mais o que fazer. A missão estava prestes a fracassar em meio ao caos, quando Juliver se aproximou do homem que gritava escandalosamente e desferiu um golpe com o pomo da espada no estômago dele.
O pescador perdeu a voz e desfaleceu por um instante caindo por sobre os braços de Juliver. Gólidas foi até ele, o agarrou e pôs em seu ombro.
— Escutem aqui, não existe motivo para pânico, nós viemos aqui para uma missão, eu vou proteger vocês com a minha vida até que esteja tudo terminado. – Disse Juliver.
Os outros pescadores consentiram com um gesto suave de cabeça e correram para amarrar seus barcos.
A Nagare que até então apenas assistia a movimentação resolveu partir para o ataque. Após um grito agudo, direcionou o bote para cima dos soldados. Juliver desembainhou sua katana e saltou girando em direção ao pescoço da criatura, acertando-a com um golpe preciso, bem próximo da garganta.
— Seu oponente serei eu! – Gritou.
Quando a lâmina tocou as escamas do monstro, faíscas jorraram. O golpe de Juliver deteve o avanço da criatura, mas nem mesmo um arranhão foi percebido. Suas escamas eram incrivelmente resistentes.
Preciso tomar cuidado com essa criatura. – Pensou Juliver.
Enquanto isso, os pescadores tinham muita dificuldade para terminar o serviço devido às ondas e os ventos que jogavam as embarcações, de um lado para o outro, como se fossem brinquedo. Os batedores tentavam ajudar segurando-as com cordas. Golidas, um pouco mais afastado, dava suporte e coordenava seus companheiros.
— Vamos, precisamos terminar logo para que possamos dar suporte a Juliver! – Gritou Golidas.
A criatura marinha partiu novamente para ofensiva. Dessa vez o golpe veio na direção de Juliver que, no lugar de esquivar, curvou os joelhos, manteve os pés firmes no solo e mirou seu golpe no olho da fera.
Infelizmente, o contra-ataque, apesar de certeiro, resvalou e ele foi arremessado para longe, parando em uma pilha de caixas de madeira que despencou sobre ele. Os olhos da criatura não eram um ponto fraco como Juliver tinha imaginado, muito pelo contrário, eles pareciam tão impenetráveis quanto todo o resto de seu corpo.
Os soldados, aproveitaram a brecha e apontaram suas armas para a Nagare. Suas espadas, de cor vermelha, começaram a brilhar, em seguida pequenas bolas de fogo foram disparadas da ponta. Novamente, aquele ataque não surtiu nenhum efeito, deixando-a apenas mais irritada.
Outro grito agudo e outro bote, dessa vez ao encontro de um dos soldados, o qual manteve o corpo firme e esperou que o golpe da Nagare se aproximasse. Quando a mandíbula do monstro já estava próxima, ele saltou sobre a cabeça da fera e empunhou a espada com as duas mãos na intenção de cravá-la em seu dorso. A Nagare, no entanto, interrompeu a investida antes de abocanhar o solo. O soldado ainda estava no ar quando a criatura subiu rapidamente a cabeça, acertando em cheio seus espinhos no corpo dele.
Os espinhos afiados de suas costas o feriram mortalmente, quase como se ele não estivesse de armadura. Seu corpo, inerte e sem vida, caiu pesado no chão. Aquela fatalidade deixou Juliver em fúria.
— Maldita, eu já disse que o seu oponente sou eu! – Gritou Juliver.
Ele partiu todas as toras de madeira que estavam por cima com um golpe apenas. Sua lâmina novamente brilhava como brasas, liberando sua áurea. Ele andou em direção à criatura com a katana em uma das mãos, sua ponta riscava o chão, deixando um rastro de fogo no caminho.
Há poucos metros do seu alvo, ele deu um salto mirando à cabeça da besta. A Nagare direcionou seu bote para Juliver, que, em um célere movimento, desviou sua trajetória para o lado, em pleno ar, descendo em um golpe rápido de sua espada. A lâmina deslizou pela lateral do monstro, deixando uma marca aberta no lugar. O golpe finalmente surtia algum efeito. A criatura, em frenesi, se contorcer e gritava de dor.
Rajadas de vento sopravam ainda mais fortes e raios começaram a cair e atingir o local. Um dos raios quase atingiu um batedor, que soltou a corda que segurava, deixando o barco descontrolado.
O abrupto movimento da embarcação fez com que dois pescadores voassem longe em direção às águas. Gólidas colocou o pescador que carregava no chão e pulou no mar, agarrando os outros dois em seus braços.
— Vamos acabar logo com isso, Juliver! – Gritou Gólidas, que tinha pouco costume de falar, enquanto saía da água.
— Sinto muito, acho que perdi um pouco o controle, não vai acontecer outra vez.
Os soldados começaram a disparar novamente bolas de fogo, dessa vez nas marcas deixadas pela espada de Juliver. Aquela nova investida causou certa dor à criatura. Ela começou a se contorcer descontrolada, seus olhos brilharam em um amarelo intenso e seu corpo começou a se contrair.
Após alguns segundos, encolhida, a Nagare esticou seu corpo com força para o alto, fazendo com que dezenas de espinhos de suas costas voassem em todas as direções.
— Cuidado! – Gritou Juliver desesperado.
Alguns espinhos atingiram dois barcos que se partiram e afundaram em meio às ondas. Outros dois pescadores caíram no mar, mas nenhum deles foi atingido. Metade dos batedores pulou na água para efetuar o resgate, os outros agarraram os pescadores restantes e com uma incrível velocidade desviavam do golpe da fera.
Juliver correu para frente dos soldados e com golpes rápidos e precisos de espada interceptou os projéteis. Em meio à violência dos ataques que cintilavam em uma nuvem de centelhas, um espinho se partiu, atingindo o braço de um dos membros da guarnição, destroçando-o e deixando para trás um rastro de sangue.
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