Só podia ser Você
2 O futuro é uma merda!
Notas iniciais
Capitulo Dois
O futuro é uma merda!
O dia que todos temiam chegou. Confesso que mesmo, eu, me considerando uma pessoa razoavelmente corajosa também tinha um certo medo desse dia, embora, verdade seja dita... Não sei se acredito em destino.
Era tradição. Toda turma do último ano deveria passar pela velha bruxa. Chamavam de ‘previsão vocacional’, eu chamo de ‘frustração desmotivacional’, quer coisa mais desanimadora do que uma velha dizer que no futuro você vai ser algo que não quer? Quando enfrentamos o presente é diferente, encarar algo que está diante nós é possível controlar, agora uma coisa que nem aconteceu e você nem tem tanta certeza assim que vai acontecer... É meio assustador.
Eu e Sango entramos na fila quilométrica tão desanimadas quanto qualquer aluno aqui. Observamos quase quebrando o pescoço a ponta da fila notando uma aluna sair da sala aos prantos, nos entreolhamos e tanto eu quanto ela engolimos em seco.
— Por que nos obrigam a isso? É apavorante! — Falei cruzando os braços, dando um passo à frente quanto a fila andou.
— Não deve ser tão ruim, minha mãe disse que ouvir que a nossa família iria crescer consideravelmente graças as nossas habilidades em luta ajudou muito ela decidir o que queria ser. — Girei os olhos negando.
— Uma previsão boa, mas e se a velha dizer que você vai ser a terceira esposa do Miroku e vai passar seus dias lambendo os pés dele? — Ela fez uma careta para mim.
— Eu sei que sou idiota por ainda gostar dele, mas tenho certeza que meu futuro não vai ter nada disso, quanto muito ele vai se casar com três mulheres. — Mexi os ombros não dando muita credibilidade as palavras dela. — É a vez Kikyo... — Murmurou apenas acenando.
— Isso é tãoooo desnecessário, afinal todo mundo conhece o futuro dela. — Sango afirmou com um risinho maldoso.
— “Eu vejo, eu vejo... Um meio-yokai rico que a desposará, você e ele terão filhotinhos Taisho aos montes, e você... Nunca precisará trabalhar na sua vida como sempre quis...” — Imitou uma voz de velha e... Minha nossa, precisei segurar o riso.
Mas o problema aqui é que a maioria dos yokais tem audição aguçada e isso inclui os Taisho. Os dois Taisho viraram o rosto no nosso rumo, tentei me esconder atrás da minha amiga que não conseguiu segurar o riso ao perceber que eles ouviram.
Damos um passo à frente percebendo que Kikyo tinha saído da sala... E pelo semblante dela não tinha ouvido o que deduzimos, pois parecia confusa.
— Nada de filhotinhos...? — Cochichou no meu ouvido e eu quase engasguei segurando o riso.
— Sango... Acho que ela não ouviu o que queria... — Falei baixinho. Minha amiga caçadora me fitou afirmando.
— A velha não costuma falar sobre morte, não é? — Neguei no mesmo instante.
— Jamais, as previsões da Kaede nunca envolvem um fado certeiro, só o que a pessoa está predestinada. — Expliquei. Bom, pelo menos foi isso que me disseram. Isso me fez ter um arrepio na espinha. — Aí, eu não quero participar disso... — Sango sorriu macabra.
— Então não vai se formar. — Senti outro arrepio na espinha. Damos outro passo à frente percebendo que agora quem entrou foi o hanyou. Nos entreolhamos sérias. — O que acha?
— Bom, dizem que nenhum dos filhos do Sr. Taisho querem trabalhar na empresa, porém, tenho para mim que é exatamente isso que vão ouvir... “Vocês estão destinados a dar continuidade ao trabalho do pai de vocês”... — Falei mais no chute do que propriamente tendo certeza. Assim que Sango ia dizer algo percebemos que aquela humana de cabelos longos negros e que costuma me ignorar parou perto de mim encarando. Eu até pensei em dizer algo, mas se for para ficar no vácuo como sempre prefiro ficar calada.
— Como foi Kikyo? — Sango quebrou o silêncio com a pergunta. O olhar mortal foi direcionada a ela.
— Kaede disse que vou ser uma das mulheres mais poderosas dessa era. — Contou empinando o nariz. Tive que soltar um risinho junto com Sango.
— E saiu de lá triste por quê? — Como minha amiga era má, embora tenha arrancado a pergunta da minha boca.
— Eu não saí triste, estava perplexa... — Se justificou zangada, depois voltou o olhar de novo para mim. Que droga será que ela quer?! — ...Melhor tomar cuidado com quem anda Sango. — Suspirei diante o alerta e achei um milagre ela não ter mencionado que só estou aqui no colégio por causa do pai dela.
— Seu namorado acabou de sair... — Ela virou o rosto no mesmo instante para a porta da sala vendo Inuyasha andar no rumo dela. Com a jaqueta vermelha de sempre e os cabelos longos prateados amarrados ele só levantou o rosto quanto estava perto dela. E foi quando eu abaixei o meu e me encolhi perto da minha amiga.
— O que ela te disse? — Perguntou desesperada se agarrando a jaqueta dele. Éééé... Acho que a previsão dela não tinha nada de ser a mulher mais poderosa da Era não.
— Um monte de baboseira! — Respondeu num rosnado. — Acho que já faz um tempo que essa velha não prevê algo que preste. — Resmungou. Damos outro passo à frente, Sesshomaru Taisho tinha acabado de sair e vinha no rumo do meio irmão com a expressão seca de sempre, embora com uma leve ruga entre as sobrancelhas.
— E aí? — Perguntou o Inu-bobão.
— Nada útil. — Rosnou apertando os punhos. Inuyasha negou para ele.
— Ouvi um monte de palhaçada sobre amor e superação, ela até disse que uma mulher ia me ‘descontruir’ para meu verdadeiro ‘eu’ surgir, falou que eu entraria num dilema, mas que não precisava me preocupar por que escolheria a mulher certa no fim, parece até que meu mundo gira em torno de mulher... — Tornou a rosnar assim que falou. Uhhhh isso sim é previsão caótica, como é que ele vai saber se essa mulher é ou não a Kikyo?! E eu acho que gira sim, Inuyasha.
— Humf! Baboseira... — Inuyasha soltou um meio sorriso, eu? Estava ouvindo tudo com muito interesse ao lado de Sango e outro pessoal enxerido.
— Ela te disse a mesma coisa que a quinze anos atrás, não foi? — Ele ergueu as mãos como se aquilo fosse obvio. Quinze anos atrás?!!! Quantos anos esse cara tem?
— Parece que ninguém aqui teve uma boa previsão... — Cochichou Sango no meio ouvindo cheio de deboche. Concordei segurando os lábios para não rir. Mas como eu disse, com esses yokais não existem fofocas. Os dois nos encararam nervosos e viramos logo para a frente.
— Acha engraçado? — Perguntou o hanyou no nosso rumo. Sango que não estava nem aí se virou afirmando.
— Só um pouquinho. — Cara isso vai dar encrenca.
— Ah, então veremos o brilhante futuro que terá caçadora, digo, você e sua amiga fantasma. — Amiga fantasma? Adorei! Me virei no rumo deles sorrindo.
— Vê se cresce! Desejar nosso mau só por que não ouviram o que queriam é de uma infantilidade fora do comum. — Disse cruzando os braços. Inuyasha franziu o cenho confuso no rumo do irmão.
— Por que ela não tem cheiro? — Ah claro, eu não existo, esqueci. Bufei me virando para a frente.
— Colar de flor do deserto, inibi o cheiro do usuário, presta atenção nas aulas idiota... — Explicou me encarando desconfiado com os olhos semicerrados, ele sempre parece tão nervoso que na dúvida engoli em seco e me encolhi. Damos mais um passo à frente.
— Não vamos perder tempo com elas, vem... — Kikyo puxou o braço do meio-yokai que afirmou. E felizmente o grupinho se foi junto com ela, só que eu notei quando o yokai mais velho alternou o olhar desconfiado dela para mim antes de ir. Suspirei aliviada encarando Sango que queria muito rir.
— Eu juro que não entendo o medo dela deles se aproximarem de você... — Pisquei surpresa. Nunca tinha parado para pensar nisso. Kikyo não gostava quando se aproximavam de mim, mas eu sou insignificante, que problema teria isso?
— Boa observação. — Andamos mais um passo na fila. — Será que isso tem a ver com ensino fundamental? — Ela me fitou surpresa.
— Ensino fundamental? O que aconteceu no fundamental? — Mexi os ombros fazendo um beicinho confusa.
— Algo idiota, digo, não foi nada... Só foi... Hum... — Tinha tanto tempo que não parecia fazer sentido.
— O quê? O que aconteceu? — Neguei com as mãos.
— Nada! Não aconteceu nada, foi só... Bom, sabe como a sociedade normalmente trata os hanyou, não é? — Ela afirmou.
— Nem humano nem yokai, geralmente os mestiços não são muito aceitos, mas não é o caso dele. — Concordei.
— Não agora, e no colégio, mas no secundário Inuyasha não se dava bem nem com os yokais nem com os humanos, lembro de uma vez que até mordeu um yokai e foi para a detenção... — Contei andando na fila. — ...Eu e a Kikyo ainda éramos amigas, e a professora me pediu para tentar ajudar ele a se enturmar. — Sango arregalou os olhos.
— Não pode ser...? Você e Inuyasha já foram amigos? — Eu franzi o cenho sem conseguir responder aquela pergunta corretamente, por que tecnicamente eu não sei direito.
— Sim, e não. — Suspirei longamente. — Foi um único dia, a gente brincou e tudo mais, mas no dia seguinte ele... Ele me empurrou e me tratou como uma estranha. — Sango franziu o cenho sem entender, bem vinda ao clube.
— Como assim? — Mexi os ombros.
— Tipo assim mesmo, me chamou de humana insignificante, pobretona e tudo mais, eu boiei como você está agora. — Andamos mais um passo. Confesso que fiquei muito triste, mas logo então meu irmão mais novo nasceu e eu simplesmente esqueci esse fato.
— Você não tentou conversar com ele depois disso? — Arregalei os olhos negando.
— Eu tenho uma teoria: ele descobriu que eu estava ali por indicação e não por questão de importância e dinheiro como era a maioria. — Ela fitou o chão pensando, muitos yokais e humanos não se aproximam dos bolsistas, então seria comum a atitude dele comigo, uma vez que eu era apenas a enteada do diretor e ele filho de um dos yokais mais ricos do país.
— É, pode ser, mas... Ele pareceu nem te conhecer agora a pouco. — Murmurou e eu afirmei.
— E Kikyo também, são farinhas do mesmo saco, simples assim. — Concordou.
— Mas isso não justifica o medo da Kikyo... — Disse pensativa.
— Sim, mas o fato dela estar com ele justificaria por que ela fingi que eu não existo... Talvez ele não saiba que moramos juntas e que minha mãe é casada com o pai dela, talvez ela esteja tentando esconder isso, por isso não quer que se aproximem. — Isso sim fazia sentido para mim, mas Sango não parecia ter engolido tudo.
— É, nesse ponto... — Outro passo à frente.
Foi só quando finalmente paramos de falar que percebemos o quão próximas estavam da sala. Engoli em seco, vai que o agouro do Inuyasha pega? E se ela previr algo tão ruim quanto foi para eles?
Sango entrou primeiro, minhas mãos começaram a gelar. Respirei fundo batendo o pé ansiosa no chão. “Eu escolho meu destino, eu escolho meu destino” cogitei inúmeras vezes. E quase tive um troço quando Sango saiu dando um longo suspiro.
Eu queria perguntar, mas a professora já acenou para eu entrar na sala.
Que os ventos me ajudem.
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