Só podia ser Você
3 A tal linha vermelha devia cuidar da própria vida
Notas iniciais
Capitulo 3
A tal linha vermelha devia cuidar da própria vida
A velha vestida de hakama acenou para a cadeira levemente. Um sorriso nada gentil estava grudado no seu rosto, algo parecendo com ‘a próxima que vou apavorar na fila’. Sentei dando um longo suspiro, vendo aquela vasilha de cristal preenchida de algum liquido transparente.
— A mão. — Levei à esquerda e ela negou acenando para a outra. Com uma agulha deu um leve furo na ponta do meu indicador, o apertou e deixou uma gota de sangue cair sobre o liquido.
É agora, vai começar.
Eu esperava ver alguma coisa ali, um ar sinistro brotar ali dentro, mas nada disso aconteceu. A velha manteve os olhos na tigela de cereal de cristal e começou a franzir o cenho e abrir a boca surpreendida. Seus olhos viraram no meu rumo lentamente.
Meu Deus eu vou morrer em breve?!!
— O que foi? — Perguntei assustada quase tremendo – a velha viu o futuro de um monte de gente e vem ficar assim logo com o meu?!?!
— Não pode ser... A linha vermelha... — Murmurou se voltando para a tigela sério, quase que para ter certeza do que viu. — ...Tão perto... — Ela ia ficar falando com ela mesma? Se virou para mim de novo se recompondo. — ...Você tem uma linha vermelha inquebrável que possui incontáveis nós, que está a muito tempo embaraçada, invisível, conturbada, mas que em breve será alinhada finalmente... — Pisquei algumas vezes confusa. Fiz careta sem entender.
— Uma linha vermelha? — Ela me encarou incrédula como se fosse óbvio.
— A linha do destino. — Tentei ver na tigela e não consegui.
— Linha do destino? E o que isso quer dizer? — Ela apontou levemente para o liquido que se remexeu em sentido horário.
— A linha do destino une duas almas que nasceram para ficar juntas... — Explicou lentamente. — Vejo conflitos, muita, muita dor, uma solidão e um vazio sem fim, ressentimento, desencontros e enganos, mas a linha foi presa em uma descendente de sacerdotes implacável e destemida, a linha do destino não vai e nem poderá ser rompida... Ela une duas almas que estão destinadas a fazer algo grandioso juntas e transformar tudo aquilo que tocam, o tempo finalmente se encaixou depois muito tempo de espera... — Engoli em seco, muito tempo? Essa velha bebeu? Eu só tenho dezesseis anos!
— Tem uma linha vermelha na minha alma que se liga a outra? — Perguntei assustada, isso é bizarro.
— Para a maioria o futuro é um caminho cheio de curvas e atalhos que muda conforme as escolhas, embora o destino tente guia-los no rumo predestinado, mas aqueles que possuem a linha vermelha do destino existe apenas um caminho, por que sua alma nasceu unicamente com o propósito de se unir a outra e vice e versa, só que os nós, o tempo e os embaraços impedem que elas se unam para que o universo siga seu rumo equilibrando o bem e o mal. — Abri a boca para falar, mas não consegui raciocinar direito.
— Quem...? — Foi à única coisa que conseguiu sair. Claro que ela não respondeu, por que afinal ela não está aqui para esclarecer a cabeça de ninguém, está é para deixar todo mundo confuso e desesperado.
Acenou para a porta e eu tive que sair do mesmo jeito que TODO mundo estava saindo... Confusa. Sango foi a primeira – e única – a vir correndo no meu rumo com o ar surpreso.
— O que ela te disse? — Pisquei os olhos algumas vezes e a encarei.
— Nas palavras do Inu-bobão e do cubo de gelo: Um monte de baboseira! — Retruquei incrédula. — Ela disse que o futuro da maioria aqui depende das escolhas, mas que só o meu, que sou fodida pelo jeito, é um caminho de mão única! Que merda é essa? — Ela franziu o cenho estranhando.
— Sério?! Ela disse para mim que quando momentos de coragem forem necessário eu vou mostrar ao mundo quem realmente sou, também disse que um descendente de caçador de yokais tem o espirito forte e que o sentimento inferior que existe dentro de mim precisa e irá sumir. — Fiz careta. O dela foi mais legal que o meu, que droga! — Como assim seu futuro é um caminho de mão única? — A encarei com desdém.
— Ela disse que tenho a linha vermelha do destino na alma e que isso me une outra e que vou sofrer de montão até encontrar ela...! — Sango arregalou os olhos surpresa.
— Você tem a linha vermelha? Incrível! — Incrível?
— Incrível por quê? — E de repente ela ficou toda animada.
— Como por que, Kagome!? A linha vermelha une duas pessoas destinadas a fazer algo grande, se tem essa linha significa que você vai fazer algo grande e eu também por que sou sua amiga! — Girei os olhos.
— Não creio, vou me formar, voltar para o templo e viver minha vida pacata em paz na periferia, não vejo nada de grande nisso! — Sango sorriu largo negando.
— Minha amiga se você está amarrada a linha vermelha, eu só lamento... Paz, pode ser algo que nunca veja. — Que coisa desanimadora para se dizer.
— Puxa, valeu pela parte que toca. — Disse com escarnio.
— Estou louca para ver a cara da sua mãe quando contar sobre a linha vermelha... — Paramos de andar no mesmo instante. Eu a fitei muito séria.
— Eu te proíbo, a última coisa que minha mãe precisa saber é disso! — Ela cruzou os braços sorrindo.
— Pobre senhora Histumi... — Brincou andando ao meu lado.
[...]
Apertei o botão de bolinha sem parar nervosa por aquele ser estupido na tela da televisão se recusava a se levantar. Rosnei me virando para aquele pivete ao meu lado rindo da minha derrota. Joguei o controle do vídeo game sobre a mesinha desistindo de tentar levantar o meu personagem.
— Então está evitando a mamãe por quê? — O encarei surpresa.
— Quem disse que estou evitando a mamãe? — Sota me fitou seco.
— Eu. Sempre que está tentando evitar perde feio quando joga comigo. — Engoli em seco. — A previsão não foi muito boa? — Acenei com a mão que mais ou menos.
— Conhece a mamãe, não importa o que eu digo, ela vai espalhar e digamos que não é algo que quero que todos saibam, então, estou evitando que ela me venha perguntar...Tipo, por que ainda não pensei numa mentira muito boa para contar. — Ele balançou a cabeça.
— Desnecessário, mamãe vai sondar a bruxa se você não contar. — Suspirei longamente.
— Eu sei, mas quem sabe ela se interessa mais pelo futuro da Kikyo? Certeza que o dela vai ser mais interessante que o meu. — Meu meio irmão negou.
— Kikyo nunca deu liberdade para esse tipo de assunto, não vai ser agora que vai mudar, o foco dos dois vão ser você. — Fiz careta sabendo muito bem disso. Meu irmão colocou o controle de lado cabisbaixo. — Ouvi ela e o papai discutindo, disse que quando se casar com o Taisho poderia esquecer que era sua filha... Ele ficou todo mal por causa disso... — Engoli em seco.
— Coitado do senhor Kouki... — Sota concordou, voltando a pegar o controle ressentido.
— Pois que vá! Não vai fazer diferença nenhuma nessa casa. — Acenei que não tocando seu ombro.
— Não diga isso, por bem ou mal, ela ainda é sua meia irmã, assim como eu, se um dia eu fizer esse tipo de burrice espero que tenha paciência comigo. — Ele levantou o rosto me dando um meio sorriso.
— Você não é assim Kagome, você não tem vergonha da gente. — Cocei a nuca sem saber o que dizer. Uma parte de mim ainda acreditava que Kikyo deveria ter um bom motivo para estar sendo uma vaca nos dias de hoje, outra parte me dizia para pensar como Sota, Kikyo é só mais uma esnobe.
— Um dia ela vai ser obrigada a amadurecer... — Comentei um pouco incerta. Sota ia falar quando ouvimos a porta da sala bater atrás de nós.
Um arrepio tomou minha espinha quando a senhora minha mãe parou olhando para nós dois. Com sacolas de compras na mão, eu jurava que ela vinha direto até mim e questionar sobre o dia da previsão, só que ao invés disso sorriu sem jeito e caminhou para a cozinha. O que, aliás, é um péssimo sinal.
— Perdi alguma coisa? — Perguntei notando que meu irmão parecia muito bem saber a razão daquele semblante triste.
— Sabe a discussão que acabei de te contar? — Acenei que sim e ele suspirou. — Papai foi brigar com Kikyo por que ela desmarcou o jantar com os Taisho aqui em casa, mamãe tinha até pesquisado um cardápio mais refinado para fazer para eles, resumindo... Kikyo conseguiu o que queria e de quebra ainda ofendeu a mamãe. — Ah isso explica por que o Sota estaria tão ressentido com ela, por que ofender o pai deles ela faz sempre.
— Entendi. — Me levantei dali. O jeito é eu ir lá conversar com ela. — Vou tentar animar ela. — Ele concordou voltando a jogar.
Eu gostaria de dizer que essa é a primeira vez que isso acontece, mas não é. Apesar da Kikyo e Inuyasha Taisho serem amigos de infância e estarem namorando há três anos, nenhum de nós além do Sr. Kouki conheceu a família dele. Digo, fora dos noticiários ou revistas, sabemos como são, entretanto nunca vieram ou nos convidaram para ir a casa dele.
Cheguei a óbvia conclusão que os Taisho são uma família de esnobes da pior espécie e por isso Kikyo se adaptou tão bem a eles. O sr. Kouki nega, diz que são pessoas de bem principalmente a filha do imperador dos arranha céus Izayoi. Porém na posição dele, sendo dono e diretor do Shikon no Tama, não vai criar intriga logo com um dos clientes mais ricos por que eles não querem ficar perto da ralé.
Na verdade, nós Higurashi não somos pobres, só não somos ricos e com sangue ‘azul’ como eles dizem. Só que pelo visto ambas características são piamente importante para até se aproximar.
— Ignore mamãe, pessoas que não querem te conhecer não vale a pena serem apresentadas. — Ela se virou no meu rumo surpresa comigo ali. Abaixou o rosto sem jeito.
— O Sota te contou, não foi? — Afirmei. Respirou fundo e balançou a cabeça em negação. — Não me importo com o Taisho, filha... — Disse terminando de colocar os alimentos na geladeira.
— Não? — Ela fechou a porta da geladeira e me encarou negando.
— Claro que não, nem os conheço. — Retrucou. — O que me preocupa é a Kikyo. — Arregalei os olhos surpresa.
— Por quê? — Minha matriarca fitou séria.
— Minha mãe costumava dizer que o universo pega nossas ações e palavras e nos devolve em dobro, às vezes demora, às vezes vem rápido, porém ele sempre devolve. — Franzi o cenho confusa. — Fico imaginando se ela vai aguentar a surra do universo quando ele resolver prestar contas com ela. — Soltei um breve ‘ahhh’.
Mamãe acreditava nessas coisas de universo, alma, purificação e tudo mais. Afinal ela cresceu num templo sagrado e vovô ainda vive lá como sacerdote, é até normal que creia nisso, embora eu seja um pouco descrente quanto a tudo isso.
— Bom, bem que ela precisa de uma liçãozinha. — Comentei notando ela colocar a mão no rosto tristonha.
— Pobrezinha, ainda bem que ela tem a gente... — A gente quem? Suspirei. É, é estranho pensar que Kikyo morre de falar mal da minha mãe, porém mamãe ainda sim insiste em gostar e ter compaixão dela. Na verdade, mamãe não odeia a ninguém e a nada, na vida dela sempre só houve espaço para amor.
Tanto que mesmo o Sr. Kouki abandonando ela no passado para ficar com a mãe da Kikyo, ela ainda o aceitou tempos depois quando percebeu a burrice que cometeu. Minha mãe diz que mal o reconheceu quando o viu, magro e sem motivação para nada além de pedir que ela voltasse para ele acreditando firmemente que ela não aceitaria.
Deve ter sido um susto e tanto quando ela disse que sim. Sorte dele meu pai ter morrido três anos antes e azar meu ter que aguentar ele tentando se aproximar de mim até hoje. Não que eu seja completamente indiferente a ele, mas não sei dizer ao certo, sempre que o vejo é como se ele tivesse uma dívida comigo a ser paga que ele jamais vai conseguir quitar. E claro, fora o fato de me obrigar a estudar no colégio dele.
— Como foi o dia de previsão? — Seus olhinhos negros se iluminaram diante os meus. A mentira não estava pronta por isso engoli em seco diante a pergunta.
— Ah. Ouvi o que todo mundo ouviu: Superação, amor e redenção... — Contei e ela soube logo de cara que estava inventando.
— Mentirosa. Você, minha querida, é o tipo de pessoa que tem linha vermelha no dedo mindinho... — Arregalei os olhos. Quase cai na armadilha de perguntar como ela sabia, mas consegui engolir a pergunta e só sorrir.
— Sua expectativa em mim é adorável. — Mamãe sorriu afirmando.
— Minha expectativa em você é justificável. — Me deu um beijo na testa carinhoso me fazendo corar. As vezes minha mãe acreditava tanto em mim que era difícil olhar nos olhos dela e mostrar que não sou o que ela espera que eu seja.
A filha brilhante, aquela que conseguia mudar tudo ao redor, aquela garota que só a presença dela muda os ares... Não, eu não sou isso e acho que nunca vou ser.
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