Ruínas da Guerra

4 Ascenção de um Ranger


Lembranças assombraram os pensamentos de Taliesin, as flechas sendo disparadas, os cavalos relinchando, o sangue, todas essas lembranças agora estavam assombrando o elfo. Do lado de fora dos seus pensamentos a sua cabeça pesava, e em seus pulmões o ar estava escasso e o seu corpo gelava e formigava principalmente em suas costas.

De súbito os olhos de Taliesin se abriram e viram águas de uma cor verde esmeralda, não havia som ou qualquer outro tipo barulho lá. Ele estava dentro do poço como já esteve diversas vezes. Ele então emergiu do poço em busca de ar, tentou sugar todo o ar do lado de fora. A sua respiração estava descontrolada e o seu corpo estava livre de ferimentos.

O poço era um grande círculo verde esmeralda em meio a diversas árvores, e em cima, o sol iluminava o poço. Taliesin olhou ao redor e não conseguiu enxergar ninguém, apenas árvores.

—Você fracassou. – disse uma voz detrás de Taliesin, que virou e viu várias folhas se transformando e formando uma forma viva. – Quando a natureza mais precisou de você, você falhou.

—Me perdoe mestre. – disse Taliesin. – Não irá acontecer novamente.

—Não diga isso para mim, diga para os deuses da floresta.

O mestre de Taliesin era um druida chamado Pakharu, que vestia folhas das árvores por todo o seu grande corpo, exceto a sua cabeça, que possuía grandes chifres. Sua face era roxa e possuía longos cabelos verdes e um grande cajado mágico.

—Eu não iria falhar se o guerreiro não tivesse se intrometido na batalha.

—Sim, eu sei. Seu lobo Azriel me contou tudo. – disse o druida apontando para o gigante lobo cinzento que saia por entre as árvores. –Foi ele que lhe trouxe aqui. Deveria agradecê-lo, se não fosse por ele você estaria morto agora.

Taliesin saiu do poço, ele estava com as suas vestimentas rasgadas devido à batalha que acabara de lutar. Então ele o acariciou e o agradeceu, então e o lobo respondeu dizendo que era isso o que os amigos faziam.

—Você acha que o poço sempre estará aqui? – perguntou o druida. – O Poço da Restauração irá desaparecer com o tempo, assim como os rios. Talvez ele reapareça talvez não, tudo depende dos deuses.

—Eu sei disso mestre. – respondeu Taliesin. – Eu pretendo melhorar minhas habilidades para ajudar a floresta, conforme os deuses me designaram.

—Desde que a natureza existe, sempre houve guerreiros melhores do que outros. – disse o druida. – Eles são como ervas daninhas, se arrancar uma, outra aparecerá, por isso, você não devera usar apenas a suas habilidades, mas também aceitar a ajuda da natureza.

—Eu fiz isso mestre.

—Não foi o que o seu lobo me contou. – disse o druida olhando para o lobo gigante. – Ele me disse que você o colocou entre as árvores, caso precisasse dele.

—Sim, eu fiz isso. – retrucou Taliesin. – Mas eu não precisei dele, estava tudo sobre controle, até aquele guerreiro aparecer, se ele não estivesse lá, nada disso teria acontecido.

—Mas aconteceu. – interrompeu o druida. – O que eu disse para você durante seu aprendizado?

—Que os deuses querem que nós protejamos a natureza, mas também eles nos protegeriam.

—Exatamente. O Poço da Restauração não revive pessoas que já partiram dessa para melhor, se você morrer não haverá volta.

—Eu sei disso mestre. – disse Taliesin cabisbaixo.

O druida então viu o rosto do elfo e disse:

—Há muitos anos atrás houve um dia como nenhum outro. – começou ele. – As árvores se agitavam, os peixes saltavam dos rios, e os pássaros cantavam. Eu estava de passagem quando escutei um choro de um bebê, eu fui de encontro para saber o que estava acontecendo e então vi a coisa mais triste desse mundo, dois elfos estavam deixando um bebê em cima de um pedaço de tronco. – ele então parou de falar, como se isso acabara de acontecer. – O bebê estava enrolado em diversos panos, e os pais dele diziam que não era possível sustenta-lo. A mãe falou diversas palavras tentando, desesperada, levar o bebê de volta, mas não conseguiu. Eles foram embora e então eu me aproximei, e vi um pequeno elfo chorando horrores.

—Você já me contou isso várias vezes. – disse Taliesin com peso no coração.

—Sim, você deve saber a verdade de como tudo aconteceu. Você deve saber da sua verdadeira história.

—Como eles eram? – perguntou Taliesin, embora já soubesse a resposta, para ele era reconfortante saber dos seus verdadeiros pais, embora não saiba o motivo do abandono.

—O seu pai era muito parecido com você agora. Cabelos pretos e pele morena, a sua mãe possuía cabelos brancos, mas os seus olhos eram iguais ao seu. – ele então suspirou e continuou. –Sei que é difícil pra você, mas olhe pelo lado bom, a natureza chamou você e agora você serve a ela.

—Eu queria encontrar eles. – disse Taliesin. – Apenas uma vez.

—Já tivemos essa conversa antes.

—Eu sei, mas porque não posso? Não iria custar nada.

—Por que isso agora é passado e você precisa sair do passado como uma borboleta sai do casulo.

O mestre de Taliesin estava certo, ele precisava esquecer, embora no fundo do coração dele o que mais queria era ver apenas uma vez, os seus verdadeiros pais, para ele nem era preciso conversar com eles, apenas vê-los era o suficiente.

O druida então esticou o braço e abriu as mãos e então várias folhas se agitaram e saíram dos galhos e formaram um círculo. O círculo se transformou em um portal que mostrava a pequena cabana na floresta por entre as árvores que Taliesin chamava de casa.

—Venha, vamos para casa. – disse o druida pedindo para que Taliesin entrasse no portal.

Atravessando o portal Taliesin, logo em seguida o lobo e depois o druida. Então o druida falou:

—Há uma nova vestimenta para você em sua cabana, foi feito por mim, e possui um pouco de minha magia. – disse o druida apontando para a cabana. — Lá está seu novo arco e sua nova aljava de flechas, tudo o que você precisa. Agora eu preciso partir, à natureza me chama.

—Para onde vai?

—Para bem longe, preciso resolver algo.

—Quando retorna?

—Em alguns dias. – disse o druida. –Ah, antes que eu me esqueça, preciso mostra-lo algo importante.

Ele então se aproximou de Taliesin, se abaixou e olhou nos olhos dele. Taliesin então viu uma visão. A grande floresta estava em chamas com grandes cinzas saindo das árvores sem nenhum animal vivo por perto, o céu estava cinza e por onde que olhasse havia apenas fogo. Entre a floresta em chamas havia dois elfos negros com armaduras, um deles possuía duas espadas e o outro elfo negro, apenas uma. Ao lado deles havia um demônio com olhos e cabelos em branco vibrante, a armadura do demônio era negra com diversos desenhos em vermelho nas mãos e no peito, os ombros possuía caveiras que gritavam com bocas abertas, e em volta do demônio havia uma grande neblina negra, o demônio então olhou diretamente para Taliesin através da visão, fazendo o coração do elfo acelerar.

—Os tempos estão mudando Taliesin. – disse ele após mostrar a visão. – Uma guerra se aproxima e em breve alguém chamará você para detê-la, cabe a você então aceitar ou não. Boa sorte.

Então sem dizer mais nada ele se transformou em folhas das árvores e partiu. Taliesin ficou se perguntando quem eram os elfos e o demônio que olhou para ele durante a visão do druida e se perguntou também quem iria chama-lo e o porquê.