Notas iniciais
Digam não ao etarismo. Faça as pazes com aquele amigo que vc preza tanto e com quem teve uma discussão recentemente, talvez por terem visões diferentes sobre algum assunto. Tenhamos humildade no coração e saibamos perdoar, mas também saibamos pedir perdão.


Rudolf não conseguiu esconder a ansiedade por muito tempo.

- Como você sabe meu nome?

Imediatamente, se deu conta de que sua frase podia ter soado brusca, diante de outros dois padres e um senador católico tradicional, presentes.

Padre Mário pigarreou e tomou a palavra:

- Ah, fui eu quem contei. Ronald é um grande fã de seu trabalho no projeto.

Rudolf fitou o novo padre, agora com mais ar de surpresa, mas retribuiu o aperto de mão.

- Hã... é um prazer conhece-lo.

- Eu digo o mesmo. Seu trabalho ajudando jovens, crianças e adolescentes é realmente impressionante. Eu entendo que você tem uma experiência como professor?

- Sim, senhor.

- É do meu interesse manter o apoio da paróquia ao seu projeto. Padre Mário me adiantou em algumas coisas... Porém, creio que você e eu precisemos ter uma conversa mais detalhada para alinhar alguns pontos.

- Certamente, padre, é o mais provável. Não se preocupe, porque em razão da minha dedicação ao projeto, meus horários são bem flexíveis, tenho certeza... que poderemos encontrar uma brecha para esse alinhamento.

- Sim. Eu não poderia ter dito melhor.

O novo padre saudou Rudolf mais uma vez, e virou-se para cumprimentar os demais convidados de Padre Mário. Ibrahim olhou de esguelha para Rudolf, e piscou com um dos olhos para o rapaz.

Rudolf retribuiu com um sorriso encabulado, mas, em seu íntimo, já se perguntava o porquê de Ibrahim, logo em sua primeira reunião com os “amigos de Padre Mário”, já ter parecido tão à vontade e já ter demonstrado aprovação não somente ao Padre Ronald, mas também ao primeiro contato entre ele e Rudolf.

Talvez fossem as suas conversas com Johnny e suas desconfianças com relação a Ayesha e Ibrahim que estivessem apitando mais alto... Mas o professor de história já se perguntava, em seu íntimo, também, se padre Ronald poderia já ser considerado de confiança... ou não?

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Alguns dias se passaram, com Padre Ronald se ajustando à paróquia e aos fiéis e por vezes já celebrando a missa sozinho, enquanto em outras divida a responsabilidade com Padre Mário, já em seu final de mandato, e com o diácono Sergio, bem como com os diáconos permanentes e com os demais ministros leigos extraordinários.

Outro evento aconteceu na paróquia nesse ínterim dos primeiros dias com Padre Ronald. Antes de se despedir e rumar para a PUC Minas, Padre Mário teve um último compromisso para realizar.

O casamento de dois jovens da paróquia, Rafael e Hannah. Eles insistiram que a cerimônia fosse presidida pelo padre antes de sua partida, de modo que algumas preparações para o casório foram antecipadas.

A história de Rafael e Hannah era tocante. Rafael, com 28 anos, e Hannah, 12 anos mais velha. Mas isso não era tudo.

Desde o início do relacionamento, haviam sofrido preconceito de muitas pessoas, inclusive de dentro da igreja, devido à diferença de idade entre ambos. Rafael chegara a escutar que ele “nunca teria filhos” se ficasse com uma moça mais velha do que ele, ainda mais uma com a diferença de idade que Hannah tinha com relação a ele. Infelizmente, Padre Mário, à época, havia sido indiferente com a situação, por vezes até mesmo concordando com os comentários feitos acerca do casal.

No entanto, as mães de Rafael e de Hannah foram até a paróquia e tiraram satisfação com todos que haviam falado deles, inclusive o padre.

Percebendo seu erro, Padre Mário procurou os dois na saída de uma missa e se ajoelhou diante de ambos, pedindo perdão por suas falas e indiferenças. Pediu, também, que não julgassem os fiéis tendo como base aqueles que haviam falado mal acerca da diferença de idade entre eles.

Tendo ouvido o padre, os dois o perdoaram. Algumas pessoas que haviam falado mal deles nunca mais apareceram na igreja. Os que permaneceram e haviam falado mal, também procuraram os dois para pedir perdão.

Depois de um tempo, os dois procuraram Padre Mário novamente. Disseram que já haviam se casado no civil, em segredo, depois da onda inicial de comentários. Mas que queriam casar-se numa cerimônia religiosa, também, e perguntaram se o padre poderia celebrar.

Emocionado com a humildade dos dois, especialmente após terem-no perdoado, Padre Mário aceitou prontamente, poucos dias antes de comunicar que iria para Minas Gerais.

Desse modo, o casamento se realizou. Rudolf era um amigo de infância de Rafael, e esteve convidado e como padrinho na cerimônia.

Mesmo sem conhecer bem o casal, Padre Ronald esteve presente como futuro responsável pela paróquia, na cerimônia como um dos concelebrantes.

Enquanto aplaudiam o casal após o beijo e a benção do padre, Rudolf notou que Padre Ronald se afastou um pouco dos noivos, como se fosse buscar alguma coisa na sacristia. Passou rapidamente pelo historiador, e disse:

- Espero que você seja bem sucedido nessa sua busca. Talvez você esteja mais perto das respostas do que imagina.

E se afastou rapidamente, desaparecendo em meio aos demais concelebrantes.

Rudolf ficara tão sem ação que mal respondeu, nem teve tempo de raciocinar. Parou de aplaudir subitamente, devido a esse choque, mas ninguém à sua volta reparou.

Notara que Ibrahim, também um dos convidados, estivera observando atentamente os nubentes e aplaudindo o beijo que selara a união de Hannah e Rafael. O velho árabe parecia indiferente ao pequeno momento da fala de Ronald direcionada a Rudolf.

Nesse momento, a mente do rapaz viajara, pensando em várias possibilidades para tentar interpretar o que havia acabado de ouvir.

Padre Ronald está se mostrando bem mais surpreendente do que o esperado... Afinal, o que foi que ele quis dizer com isso??