Rudolf: Uma Jornada Extraordinária
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Encontrar respostas em Padre Ronald se mostrara bem mais difícil do que Rudolf pudera imaginar desde que o conhecera, até o dia do casamento.
Toda vez que ele buscava alguma conversa com o padre na paróquia, ficava sabendo por outros que ele se ausentara rapidamente, logo após a missa, por vezes de forma quase que inexplicável, porque as demais pessoas pareciam não conseguir responder a Rudolf de maneira convincente para onde ele se dirigira. Parecia quase algo ensaiado...
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No dia 5 de setembro, Rudolf e seus amigos foram até o nono andar do Condomínio Duna Barcane Mall, entre os conjuntos Ponta Negra e Alagamar, para a festa de aniversário de sua amiga, Verônica Paiva.
Verônica era a psicóloga da turma e prestava uma ajuda ao projeto de Rudolf servindo como RH da instituição e prestando os exames psicológicos dos professores e demais funcionários que atuavam para o projeto.
A história de vida de Verônica era também muito interessante. Além de ter atuado durante anos para o grupo de universidades PUC, bem como para instituições escolares ligadas ao grupo, ela fazia parte do corpo médico da Marinha do Brasil e atendia em seu consultório no bairro de Tirol, zona leste de Natal. Ela se mudara para o RN havia pouco tempo, mas logo se integrara com a turma de Rudolf e já se dispusera prestativamente a auxiliar ao projeto e os amigos do professor de diversas maneiras.
Isso não era tudo. Oriunda de uma infância humilde no Rio de Janeiro, Verônica carregava um interessante histórico familiar: era prima distante de Rubens Paiva, cuja vida e desparecimento durante a ditadura militar brasileira haviam sido recentemente temática do filme “Ainda Estou Aqui”, estrelado por Fernanda Torres, que interpretara Eunice, a esposa de Rubens, vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz, e o filme vencera o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; o filme era baseado no livro escrito por Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens, também primo de Verônica. O pai de Verônica era um primo direto de Rubens.
Por vezes Verônica contava histórias da sua “tia” Eunice e do primo Rubens e seus irmãos durante a festa para diferentes convidados. Além disso, em um dos quartos Verônica instalara um home theater para quem quisesse assistir Ainda Estou Aqui – ou mesmo outros filmes, em alta definição.
Rudolf já assistira ao filme algumas vezes, então deixou a oportunidade para os demais convidados que queriam ver ou rever o filme e ficou zanzando pelo apartamento. Notou Ibrahim comendo alguns petiscos e conversando com outros convidados. Sua desconfiança voltou a pipocar, mas ele não estava com cabeça para lidar com Ibrahim naquela noite. Assim como todos os amigos, ele preferia dedicar o tempo para festejar Verônica e sua comemoração naquela ocasião.
Em um determinado momento, quase esbarrou com Leopoldo, o namorado de Verônica. Ele vinha morando com ela no apartamento fazia algumas semanas.
Leo ofereceu a ele um refrigerante e alguns salgadinhos. Rudolf prontamente aceitou, mas logo notou que havia se enchido demais.
- Onde é o banheiro?? – perguntou ele, sentindo apertos e comichões no baixo ventre e pousando logo o copo e a bandeja que Leo lhe havia oferecido, na mesa.
- Logo ali, à direita – disse Leo.
Rudolf agradeceu e saiu quase correndo até o banheiro, se segurando para não urinar nas próprias calças.
Após ter conseguido se aliviar, ele levou a mão à maçaneta, mas hesitou por um momento. Sentiu que estava se esquecendo de alguma coisa.
Olhou para o relógio. Apesar de ter chegado cedo, notou que já eram quase 23h. O tempo voa quando você se diverte... Ou quando você está muito distraído, pensou Rudolf consigo.
Então notou a data no relógio: 5 de setembro. Este ano, o aniversário de Verônica caíra numa sexta-feira, apropriadamente abrindo o fim de semana da turma. Mas não se tratava disso.
Lembrou-se, por fim, do que estava quase esquecendo.
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Rudolf sentou-se de novo na latrina, mas dessa vez, sacou o celular para fazer uma ligação.
- Alô? Rossana?
- Sou eu.
- É o Rudolf.
- Olá, Rudolf? Que bom receber a sua ligação. O que houve?
- É simples. Eu me lembrei de algo.
- E o que era?
- Feliz aniversário!!
Silêncio do outro lado da linha, até que...
- Ah, por Deus, Rudolf... seu bobinho, não precisava! Muito obrigada. Mas ainda é só para amanhã!
- Eu sei, mas eu tive receio de me esquecer caso eu deixasse para ligar só amanhã. Além disso, já olhou que horas são? Já é quase sábado?
- É verdade...
- E aliás, por que está acordada a essa hora? Achei que meu telefonema te acordaria.
- Estamos no projeto daqui de BH... Vamos fazer uma virada na madrugada para acelerar alguns pedidos.
- Ah sim! Lembro de você mencionando isso. Outro motivo pelo qual eu me lembrei é que estou na festa da Verônica, no apartamento dela. Na verdade, boa parte da turma está aqui hoje.
- Ah, que demais! Mande um abraço para ela.
- É claro. Pode deixar.
- Mande lembranças minhas ao Rafael e Hannah pelo casamento!!
- Claro. Pode deixar, sim. Foi uma linda cerimônia.
- E Rudolf... lembre-se, sempre tem alguém orando por você. Seja eu, seja os nossos amigos daqui de Minas ou daí.
Rudolf fungou brevemente. Tentou disfarçar a emoção.
- Eu... eu sei. Obrigado. Lamento não ter podido ir para BH esse ano para comemorar aí com você. Não sei quando Ayesha vai voltar, e estamos lotados de coisas aqui no projeto também.
- Eu compreendo...
- O seu niver no ano passado foi muito massa. Muitas flores e tudo mais. Foi bem bonito.
- Eu adorei.
- O lance de você e a Verônica fazerem aniversário tão perto nos deixa de mãos atadas... Ano passado eu fui até aí, e falei com a Verônica por chamada de vídeo porque ela estava no RJ ainda. Hoje ela está aqui, e estou tendo que falar com você pelo celular... Coisas da vida.
- Eu sei. Você sempre tenta se fazer presente e solícito para todos... Só espero que isso não acabe te deixando cansado...
Rudolf bufou.
- Qual é. Você sabe que eu faço de tudo para prestigiar os aniversários de vocês, ainda que minimamente. Ano passado foi o seu primeiro aniversário desde que viramos amigos, e esse ano o primeiro aniversário da Verônica desde que ela veio morar aqui.
- Sim... é verdade. É como você sempre diz: amigo é para essas coisas.
- Sim... amigo é para essas coisas.
- Aquele assunto sobre a Ayesha... – Rossana baixou um pouco um tom de voz. – Ainda está de pé? Ainda te incomodando?
Rossana havia sido uma das poucas pessoas a quem Rudolf confidenciara isso.
- Está... mas, se você puder entender, Rossana, eu prefiro não falar sobre isso hoje. Estou te parabenizando e estou celebrando a festa da Verônica. Quero pensar apenas nos amigos hoje, pensar apenas... em coisas boas.
Um breve silêncio, e depois Rossana retomou a palavra.
- Eu te entendo, sim. Perfeitamente.
- Bom... eu vou indo. Em breve nos falamos mais...
- Sim. Um abraço, Rudolf. Se cuida... Estarei orando por você. Que você tenha discernimento, calma... e paz.
- Sim... obrigado. Divirtam-se com o projeto...
- Claro. E você, moço, divirta-se aí na festa. Obrigado por ter se lembrado de mim.
- Disponha. Até breve...
- Até...!
Após se despedir de Rossana e desligar, Rudolf saiu do banheiro. Léo não estava mais por perto, mas notou Ibrahim se aproximando.
- E aí, cara. Tem dias que não falo direito com você. Quer assistir um filme?
Rudolf hesitou.
- Pensei que o pessoal estivesse assistindo Ainda Estou Aqui.
- Estavam, mas a maioria saiu e estão contemplando... aquilo.
Ibrahim apontou para o centro da sala. Verônica e Leo dançavam alegremente, coladinhos, ao som das músicas do The Town, enquanto os demais convidados faziam coro às músicas, celebrando o casal.
- Entendi.
- O que acha de assistirmos Clube da Luta? O namorado de Verônica me mostrou que tem um dvd aqui. Você sempre me falava desse filme.
Rudolf levantou rapidamente uma das sobrancelhas, mas conseguiu disfarçar em tempo.
- Hm, certo. Pode ser legal.
- Isso aê! Então vamos.
Os dois se encaminharam para o quarto do home theater. Conforme anunciado pelo velho, estava vazio, com todos os espectadores entretidos com o The Town e com a valsa da aniversariante e seu companheiro. Enquanto Ibrahim colocava o filme, Rudolf pensou em perguntar sobre padre Ronald. Sem ânimo para tentar desvendar mistérios naquele momento, ele mudou de assunto para algo mais óbvio:
- Você sabe que não vai dar para vermos o filme todo, né. Além de ser muito longo, daqui a pouco vai dar meia noite. Eles vão querer cantar os parabéns para Verônica e cortar o bolo já, já...
- O que der tempo de assistirmos, a gente assiste!! – disse Ibrahim, soltando uma risada eufórica.
- Tá, velho. Que seja.
Ibrahim pegou um balde com gelo e um refri e pegou dois copos, servindo para si mesmo e Rudolf.
- Um brinde!
- Sim. E primeira regra do Clube da Luta... Não fale do Clube da Luta.
- Oh! Sim, entendido...
- E estou falando sério, velhote. Se vamos assistir ao filme, silêncio. Nada de ficar falando durante o filme.
- Ok, meu jovem. É claro... Antes de começarmos... Proponho outro brinde.
Rudolf ergueu o copo, mas antes de brindar, perguntou:
- Ao que estamos brindando agora? Ao aniversário da Verônica?
- Também. Mas eu pensei... Vamos brindar ao seu amigo, Johnny.
Rudolf quase esqueceu por um instante que estava com desconfianças com Ibrahim.
- É, é mesmo... Grande homem, aquele ali.
- Tenho ido visita-lo as vezes, também. Devíamos ir vê-lo novamente, qualquer dia desses.
Pego de surpresa pela menção de Johnny, Rudolf aquiesceu. As visitas a Johnny tinham ficado mais frequentes e eram momentos em que Rudolf podia desabafar coisas com ele que não falava com as outras pessoas. Além de saber que os sinais vitais de Johnny melhoravam a cada visita, Rudolf também se sentia melhor. Precisava daqueles momentos a cada visita, mesmo que Ibrahim ou outra pessoa estivesse com ele. Ainda não havia contado a ninguém, mas ele carregava consigo um caderninho com várias frases que Johnny lhe dissera antes de ficar em estado catatônico. Muitas daquelas frases vinham sendo a inspiração de Rudolf para continuar se dedicando ao trabalho, ao projeto, seus estudos... e mesmo em manter as desconfianças e investigações prévias sobre Ayesha e Ibrahim. Ainda não contara a ninguém sobre o caderno, mas, ali, no apartamento de Verônica, se deu conta de que havia uma pessoa em particular para quem talvez ele pudesse contar.
Mas, primeiro, um pouco de encenação e passar um tempo divertido com Ibrahim e um bom filme.
- Sim. Vamos mesmo.
Os dois brindaram, e deram play no filme.
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