Notas iniciais
Gosto muito de aniversários. Pois então, feliz aniversário, meninas. Quais serão os próximos passos de Rudolf?


Encontrar respostas em Padre Ronald se mostrara bem mais difícil do que Rudolf pudera imaginar desde que o conhecera, até o dia do casamento.

Toda vez que ele buscava alguma conversa com o padre na paróquia, ficava sabendo por outros que ele se ausentara rapidamente, logo após a missa, por vezes de forma quase que inexplicável, porque as demais pessoas pareciam não conseguir responder a Rudolf de maneira convincente para onde ele se dirigira. Parecia quase algo ensaiado...

...

...

...

...

No dia 5 de setembro, Rudolf e seus amigos foram até o nono andar do Condomínio Duna Barcane Mall, entre os conjuntos Ponta Negra e Alagamar, para a festa de aniversário de sua amiga, Verônica Paiva.

Verônica era a psicóloga da turma e prestava uma ajuda ao projeto de Rudolf servindo como RH da instituição e prestando os exames psicológicos dos professores e demais funcionários que atuavam para o projeto.

A história de vida de Verônica era também muito interessante. Além de ter atuado durante anos para o grupo de universidades PUC, bem como para instituições escolares ligadas ao grupo, ela fazia parte do corpo médico da Marinha do Brasil e atendia em seu consultório no bairro de Tirol, zona leste de Natal. Ela se mudara para o RN havia pouco tempo, mas logo se integrara com a turma de Rudolf e já se dispusera prestativamente a auxiliar ao projeto e os amigos do professor de diversas maneiras.

Isso não era tudo. Oriunda de uma infância humilde no Rio de Janeiro, Verônica carregava um interessante histórico familiar: era prima distante de Rubens Paiva, cuja vida e desparecimento durante a ditadura militar brasileira haviam sido recentemente temática do filme “Ainda Estou Aqui”, estrelado por Fernanda Torres, que interpretara Eunice, a esposa de Rubens, vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz, e o filme vencera o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; o filme era baseado no livro escrito por Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens, também primo de Verônica. O pai de Verônica era um primo direto de Rubens.

Por vezes Verônica contava histórias da sua “tia” Eunice e do primo Rubens e seus irmãos durante a festa para diferentes convidados. Além disso, em um dos quartos Verônica instalara um home theater para quem quisesse assistir Ainda Estou Aqui – ou mesmo outros filmes, em alta definição.

Rudolf já assistira ao filme algumas vezes, então deixou a oportunidade para os demais convidados que queriam ver ou rever o filme e ficou zanzando pelo apartamento. Notou Ibrahim comendo alguns petiscos e conversando com outros convidados. Sua desconfiança voltou a pipocar, mas ele não estava com cabeça para lidar com Ibrahim naquela noite. Assim como todos os amigos, ele preferia dedicar o tempo para festejar Verônica e sua comemoração naquela ocasião.

Em um determinado momento, quase esbarrou com Leopoldo, o namorado de Verônica. Ele vinha morando com ela no apartamento fazia algumas semanas.

Leo ofereceu a ele um refrigerante e alguns salgadinhos. Rudolf prontamente aceitou, mas logo notou que havia se enchido demais.

- Onde é o banheiro?? – perguntou ele, sentindo apertos e comichões no baixo ventre e pousando logo o copo e a bandeja que Leo lhe havia oferecido, na mesa.

- Logo ali, à direita – disse Leo.

Rudolf agradeceu e saiu quase correndo até o banheiro, se segurando para não urinar nas próprias calças.

Após ter conseguido se aliviar, ele levou a mão à maçaneta, mas hesitou por um momento. Sentiu que estava se esquecendo de alguma coisa.

Olhou para o relógio. Apesar de ter chegado cedo, notou que já eram quase 23h. O tempo voa quando você se diverte... Ou quando você está muito distraído, pensou Rudolf consigo.

Então notou a data no relógio: 5 de setembro. Este ano, o aniversário de Verônica caíra numa sexta-feira, apropriadamente abrindo o fim de semana da turma. Mas não se tratava disso.

Lembrou-se, por fim, do que estava quase esquecendo.

...

...

...

...

Rudolf sentou-se de novo na latrina, mas dessa vez, sacou o celular para fazer uma ligação.

- Alô? Rossana?

- Sou eu.

- É o Rudolf.

- Olá, Rudolf? Que bom receber a sua ligação. O que houve?

- É simples. Eu me lembrei de algo.

- E o que era?

- Feliz aniversário!!

Silêncio do outro lado da linha, até que...

- Ah, por Deus, Rudolf... seu bobinho, não precisava! Muito obrigada. Mas ainda é só para amanhã!

- Eu sei, mas eu tive receio de me esquecer caso eu deixasse para ligar só amanhã. Além disso, já olhou que horas são? Já é quase sábado?

- É verdade...

- E aliás, por que está acordada a essa hora? Achei que meu telefonema te acordaria.

- Estamos no projeto daqui de BH... Vamos fazer uma virada na madrugada para acelerar alguns pedidos.

- Ah sim! Lembro de você mencionando isso. Outro motivo pelo qual eu me lembrei é que estou na festa da Verônica, no apartamento dela. Na verdade, boa parte da turma está aqui hoje.

- Ah, que demais! Mande um abraço para ela.

- É claro. Pode deixar.

- Mande lembranças minhas ao Rafael e Hannah pelo casamento!!

- Claro. Pode deixar, sim. Foi uma linda cerimônia.

- E Rudolf... lembre-se, sempre tem alguém orando por você. Seja eu, seja os nossos amigos daqui de Minas ou daí.

Rudolf fungou brevemente. Tentou disfarçar a emoção.

- Eu... eu sei. Obrigado. Lamento não ter podido ir para BH esse ano para comemorar aí com você. Não sei quando Ayesha vai voltar, e estamos lotados de coisas aqui no projeto também.

- Eu compreendo...

- O seu niver no ano passado foi muito massa. Muitas flores e tudo mais. Foi bem bonito.

- Eu adorei.

- O lance de você e a Verônica fazerem aniversário tão perto nos deixa de mãos atadas... Ano passado eu fui até aí, e falei com a Verônica por chamada de vídeo porque ela estava no RJ ainda. Hoje ela está aqui, e estou tendo que falar com você pelo celular... Coisas da vida.

- Eu sei. Você sempre tenta se fazer presente e solícito para todos... Só espero que isso não acabe te deixando cansado...

Rudolf bufou.

- Qual é. Você sabe que eu faço de tudo para prestigiar os aniversários de vocês, ainda que minimamente. Ano passado foi o seu primeiro aniversário desde que viramos amigos, e esse ano o primeiro aniversário da Verônica desde que ela veio morar aqui.

- Sim... é verdade. É como você sempre diz: amigo é para essas coisas.

- Sim... amigo é para essas coisas.

- Aquele assunto sobre a Ayesha... – Rossana baixou um pouco um tom de voz. – Ainda está de pé? Ainda te incomodando?

Rossana havia sido uma das poucas pessoas a quem Rudolf confidenciara isso.

- Está... mas, se você puder entender, Rossana, eu prefiro não falar sobre isso hoje. Estou te parabenizando e estou celebrando a festa da Verônica. Quero pensar apenas nos amigos hoje, pensar apenas... em coisas boas.

Um breve silêncio, e depois Rossana retomou a palavra.

- Eu te entendo, sim. Perfeitamente.

- Bom... eu vou indo. Em breve nos falamos mais...

- Sim. Um abraço, Rudolf. Se cuida... Estarei orando por você. Que você tenha discernimento, calma... e paz.

- Sim... obrigado. Divirtam-se com o projeto...

- Claro. E você, moço, divirta-se aí na festa. Obrigado por ter se lembrado de mim.

- Disponha. Até breve...

- Até...!

Após se despedir de Rossana e desligar, Rudolf saiu do banheiro. Léo não estava mais por perto, mas notou Ibrahim se aproximando.

- E aí, cara. Tem dias que não falo direito com você. Quer assistir um filme?

Rudolf hesitou.

- Pensei que o pessoal estivesse assistindo Ainda Estou Aqui.

- Estavam, mas a maioria saiu e estão contemplando... aquilo.

Ibrahim apontou para o centro da sala. Verônica e Leo dançavam alegremente, coladinhos, ao som das músicas do The Town, enquanto os demais convidados faziam coro às músicas, celebrando o casal.

- Entendi.

- O que acha de assistirmos Clube da Luta? O namorado de Verônica me mostrou que tem um dvd aqui. Você sempre me falava desse filme.

Rudolf levantou rapidamente uma das sobrancelhas, mas conseguiu disfarçar em tempo.

- Hm, certo. Pode ser legal.

- Isso aê! Então vamos.

Os dois se encaminharam para o quarto do home theater. Conforme anunciado pelo velho, estava vazio, com todos os espectadores entretidos com o The Town e com a valsa da aniversariante e seu companheiro. Enquanto Ibrahim colocava o filme, Rudolf pensou em perguntar sobre padre Ronald. Sem ânimo para tentar desvendar mistérios naquele momento, ele mudou de assunto para algo mais óbvio:

- Você sabe que não vai dar para vermos o filme todo, né. Além de ser muito longo, daqui a pouco vai dar meia noite. Eles vão querer cantar os parabéns para Verônica e cortar o bolo já, já...

- O que der tempo de assistirmos, a gente assiste!! – disse Ibrahim, soltando uma risada eufórica.

- Tá, velho. Que seja.

Ibrahim pegou um balde com gelo e um refri e pegou dois copos, servindo para si mesmo e Rudolf.

- Um brinde!

- Sim. E primeira regra do Clube da Luta... Não fale do Clube da Luta.

- Oh! Sim, entendido...

- E estou falando sério, velhote. Se vamos assistir ao filme, silêncio. Nada de ficar falando durante o filme.

- Ok, meu jovem. É claro... Antes de começarmos... Proponho outro brinde.

Rudolf ergueu o copo, mas antes de brindar, perguntou:

- Ao que estamos brindando agora? Ao aniversário da Verônica?

- Também. Mas eu pensei... Vamos brindar ao seu amigo, Johnny.

Rudolf quase esqueceu por um instante que estava com desconfianças com Ibrahim.

- É, é mesmo... Grande homem, aquele ali.

- Tenho ido visita-lo as vezes, também. Devíamos ir vê-lo novamente, qualquer dia desses.

Pego de surpresa pela menção de Johnny, Rudolf aquiesceu. As visitas a Johnny tinham ficado mais frequentes e eram momentos em que Rudolf podia desabafar coisas com ele que não falava com as outras pessoas. Além de saber que os sinais vitais de Johnny melhoravam a cada visita, Rudolf também se sentia melhor. Precisava daqueles momentos a cada visita, mesmo que Ibrahim ou outra pessoa estivesse com ele. Ainda não havia contado a ninguém, mas ele carregava consigo um caderninho com várias frases que Johnny lhe dissera antes de ficar em estado catatônico. Muitas daquelas frases vinham sendo a inspiração de Rudolf para continuar se dedicando ao trabalho, ao projeto, seus estudos... e mesmo em manter as desconfianças e investigações prévias sobre Ayesha e Ibrahim. Ainda não contara a ninguém sobre o caderno, mas, ali, no apartamento de Verônica, se deu conta de que havia uma pessoa em particular para quem talvez ele pudesse contar.

Mas, primeiro, um pouco de encenação e passar um tempo divertido com Ibrahim e um bom filme.

- Sim. Vamos mesmo.

Os dois brindaram, e deram play no filme.