Rota Zero
5 Voltando para Casa
Notas iniciais
December
VOLTANDO PARA CASA
Eu estava ali, novamente na entrada de Aspertia City. As roupas sujas, o cabelo cheio de folhas, os braços com arranhões e mordidas e um rasgo bem grande em uma das pernas da calça. O tal Patrat havia vencido e só me restara voltar de cabeça baixa para casa.
Estava tão distraído com minhas lamurias que só percebi que esbarrara em alguém quando ouvi um resmungo estranho. Encarei o garoto com quem esbarrara. Alto, magro, cabelos negros e longos. Cheren, líder de ginásio de Aspertia. Nós tínhamos quase a mesma idade e ele já era líder de ginásio enquanto eu... Bem, vamos pular essa parte.
– Você tem um machucado feio ai – ele me mediu de cima a baixo e focou nas marcas de dentes que Patrat deixara no meu braço – o que aconteceu com você?
– Nada – resmunguei. Eu não conhecia Cheren, não a ponto de contar meus problemas. Tinha o visto algumas vezes, mas não era nada além de um cumprimento e um sorriso cordial, mais por obrigação de ser simpático do que porque eu realmente queria ser. Minha mãe tinha grande admiração por ele e costumava nos comparar.
– Aparentemente, você estava em batalha com um Pokémon – coçou o queixo, pensativo – mas, se você está assim, em que estado está seu parceiro? – Pelo olhar repressor que me lançava, deveria achar que eu era um daqueles malucos que coloca seu Pokémon para lutar até sem energia nenhuma.
– Ele está bem.
– Eu não acredito nisso. Você deveria saber que é uma grande irresponsabilidade fazer seu Pokémon lutar até as últimas forças, é exaustivo para ele e pode ser perigoso para você. Além disso...
– Eu disse que ele está bem! – Interrompi o sermão gratuito – Bacon não lutou – ele me olhou com uma expressão engraçada, provavelmente tentando avaliar quem seria Bacon – eu me esqueci dele – completei ao ver a expressão confusa no rosto do líder.
– Como assim, você se esqueceu? – Ele parecia ainda mais confuso.
– Em casa – a expressão dele se converteu do espanto para o deboche e percebi que ele se controlava para não rir escandalosamente.
– Mas como você pode ter se esquecido dele? E seus outros Pokémon?
– Eu não tenho outros, sai em jornada hoje – e desta vez a expressão dele foi realmente de espanto.
Eu não estava com paciência para toda aquela situação, então me despedi com um aceno de cabeça e tomei rumo para casa, ou tentei, porque Cheren me puxou pelo braço.
– Você é filho da Adizia Charleston, não? – Mas ele não me esperou responder – sua mãe, eu tenho uma grande admiração por ela – e ela por você – mas nunca conseguimos conversar adequadamente. Ela é muito ocupada e eu tenho minhas responsabilidades como líder – finalmente soltou meu braço e sorriu sem graça – talvez eu possa te acompanhar até em casa, só para dizer um oi.
Ele me encarava com aquela cara contente e esperançosa, parecendo uma fangirl alucinada. Eu poderia dizer que não, que a mulher não estaria em casa ou qualquer outra coisa, mas só dei de ombros e ele tomou aquilo como um sim.
Mal abri a porta de casa e ouvi minha mãe gritar um “filho idiota” da cozinha. Ela veio a passos apressados reclamando da minha incompetência e irresponsabilidade, mas parou ao ver Cheren parado ao meu lado. Encarou-me como quem não entende nada e eu dei de ombros, porque entendia ainda menos.
Bacon estava na sala brincando com Violeta. Ela voava pelo ambiente enquanto ele pulava nas almofadas do sofá, tentando alcançá-la. Parecia feliz e animado, muito diferente da reação receosa que tivera ao meu lado, e isso me deixava um pouco desconfortável. Mesmo que eu não gostasse de Pokémon e não tivesse a menor vontade de treiná-los, Bacon era meu parceiro e eu queria que ele gostasse de mim.
Minha mãe estava tagarelando na porta, convidando Cheren para almoçar conosco. Ele parecia realmente feliz por ter aquele contato com ela. Pareciam mãe e filho falando de Pokémon e eu me senti sobrando.
Fui até a sala e sentei no sofá diante da televisão, liguei o aparelho e sintonizei em qualquer canal. Qualquer som que encobrisse os gritinhos animados da minha mãe seriam o suficiente. Bacon parou de pular nas almofadas, ficou no outro móvel me encarando desconfiado. Violeta, como sempre, veio pousar na minha cabeça.
A mordida que recebera do Patrat estava doendo absurdamente e eu sentia como se meu braço fosse cair. Eu estava vendo meus planos irem por água abaixo. Como eu ficaria um mês fora de casa e depois voltaria sendo a imagem real da derrota? Eu provavelmente não sobreviveria uma semana. Eu não sabia nada de Pokémon e nem tinha vontade de por Bacon em batalhas. Se ele já não gostava de mim agora, muito menos gostaria depois que o mandasse para ser surrado até ficar inconsciente.
Estava tão cansado que nem percebi que me acomodara preguiçosamente no sofá, os olhos foram fechando e os sons se tornando mais distantes. Não sei quanto tempo dormi, mas quando acordei o programa na TV já tinha mudado. Eu podia ouvir o barulho de água vindo da cozinha e Bacon estava aninhado no meu colo, ressonando baixo, enquanto Violeta se equilibrava na minha cabeça.
Eu estranhei a presença roliça no meu colo. Eu tinha certeza de que o bicho não gostara de mim nem um pouco. Talvez, por ver Violeta despreocupada aninhada nos meus cabelos, isso tenha lhe dado um pouco de segurança, mas realmente não tinha como saber. O movi o mais delicadamente que pude e o coloquei sobre um par de almofadas felpudas, depois fiz o mesmo com a Pidove. Então me levantei devagar e fui até a cozinha.
Da porta, pude ver a mesa parcialmente arrumada. Apenas um prato coberto e um copo, além de um par de talheres e apenas meia toalha cobrindo a mesa. Minha mãe estava sentada de costas para a entrada e conversava com Cheren, que lavava a louça. Aparentemente, eles já tinham almoçado. A conversa estava animada e novamente me senti sobrando.
– Não estou dizendo que December não seja capaz, mas... – o moreno estava concentrado lavando os copos.
– Mas, ele é muito velho? – Minha mãe questionou.
– Bem, já conheci pessoas que saíram em jornada mais velhos do que ele, mas eles tinham um objetivo definido e December aparentemente não tem nenhum.
– Realmente, ele não tem – mas ela não parecia chateada dizendo isso. A voz estava tranquila e até entusiasmada.
– Talvez não seja uma boa ideia ele sair em jornada se não está tão interessado nisso – fechou a torneira e secou as mãos no avental florido que usava (e que pertencia a minha mãe).
– Talvez você possa ensinar algo útil para ele.
– E o que eu posso ensinar?
– Você vai saber na hora – e por algum motivo, o rosto de Cheren corou, como se aquilo fosse um elogio.
– Mas, talvez ele não queria aprender – disse sem jeito, retirando o avental.
– Ele vai aprender. Não é, Deedee? – Maldita mulher, sabia que eu estava ali sem nem precisar me ver. Cheren me encarou, ligeiramente surpreso por me ver ali. – Mas primeiro você precisa se alimentar – e apontou para o prato sobre a mesa. – E depois trocar essas roupas, sua aparência está horrível.
=8=
Ali estava eu novamente, na saída de Aspertia City. Desta vez com Bacon na pokéball e Cheren me acompanhando. Ele não parecia realmente motivado em estar ali, mas provavelmente o fazia para agradar minha mãe.
– Bem, você sabe qual a coisa mais importante em uma batalha Pokémon?
– Vencer – ele me encarou como se eu fosse um moleque idiota – o quê? Não me diga que vencer não é importante...
Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo.
– Vencer é importante, mas não apenas isso. Existe algo maior durante a batalha que é a conexão entre você e seu parceiro – explicou professoral. Exclamei um “ah” e ele teve certeza de que eu era idiota. – Batalhas não servem apenas para machucar seu Pokémon ou dominar outros, mas servem para criar um vínculo entre treinador e seu Pokémon. – ele me encarou – você não está entendendo nada do que eu estou dizendo...
– Entendo, na verdade – eu sabia sobre as batalhas e que era o treinador quem guiava o Pokémon, mas eu estava ali para ser um coordenador. Não era só beleza que importava? – Eu entendo esse lance, mas eu vou ser um coordenador, então, acho que esse conselho não serve para mim.
– O vínculo é sempre importante, não importa que caminho você deseje seguir. Além disso, você precisará de outros Pokémon fora o Tepig. E precisará batalhar para adquirir Pokémon novos.
– Eu não tinha pensado nisso.
– Além disso, seus Pokémon vão precisar de treinamento para participar dos Contest, não é apenas a beleza que é avaliada – ao ver minha expressão de ‘como assim, não é só a beleza?’ ele sorriu – sua mãe nunca te explicou como funciona um Contest?
– Já, na verdade, mas eu nunca prestei muita atenção nisso.
Achei que ele fosse me dar um sermão por não saber nada sobre o Contest ou como ser um coordenador, mas ele apenas sorriu.
– Eu sei que você não é muito interessado em Pokémon, mas pense nessa viagem como uma forma de se aproximar do Tepig. Apesar de tudo, você parece gostar dele.
Senti meu rosto corar, minha afeição pelo animal recém-adquirido era assim tão nítida? Minha vontade foi responder que eu poderia me aproximar do Bacon vivendo em casa, mas avaliando a situação, ele ficaria mais próximo de Violeta ou minha mãe e no final, ainda teria medo de mim.
– Se você precisar de algo pode me liga. – e me passou seu número. Até que Cheren não era assim tão chato e arrogante quanto eu imaginava. – Agora essa é sua chance de me provar que sua mãe está certa e eu, errado.
– Errado sobre o quê? – Perguntei sem entender, deveria ser parte da conversa que eu não ouvira por estar dormindo.
– Errado sobre você – de novo isso, minha mãe dissera algo semelhante quando eu parti, mas eu ainda não sabia o que era o erro e o que eu deveria provar – agora, treine bastante e volte aqui só quando estiver pronto.
– Pronto?
– Para me derrotar – e com um empurrão, ele me colocou fora dos limites da cidade. Eu ainda não gostava de Pokémon e ainda não desejava me tornar coordenador, mas talvez fazer o tal vínculo com Bacon pudesse ser divertido.
=8=
Rota 19. O dia já estava na metade e em breve as sombras avançariam sobre as copas das árvores. Não me alegrava nada ter que passar meu primeiro dia fora de casa dormindo em uma floresta cheia de Pokémon selvagens. O jeito era apertar o passo e sair dali o mais rápido que conseguisse, até chegar à próxima cidade.
Estava chato e solitário e minha vontade era libertar Bacon para que ele andasse ao meu lado. Mas, apesar da minha tremenda burrice, eu sabia que um Pokémon mal treinado podia fugir e eu definitivamente não queria perder Bacon.
Fazia mais ou menos três horas que eu estava andando, o sol lentamente se punha no horizonte, dando ao final do dia um colorido alaranjado. Eu estava aliviado por não ter cruzado com mais nenhum Pokémon selvagem e porque se tudo desse certo, eu chegaria a Floccesy Town no começo da noite. Estava tão feliz pensando na cama quentinha que dormiria em alguma hospedaria da cidade que não vi um buraco enorme e pisei em falso.
Fora o tombo gigantesco que levara, a dor do tornozelo torcido e pavor de saber que não conseguiria andar tão rápido quanto antes e que ainda estaria preso na floresta quando a noite avançasse, tinha um Patrat bem mal-humorado me encarando no meio da grama. Pelo olhar raivoso que me lançara, deveria ser o mesmo da manhã, mas não havia como saber e talvez Patrats não gostassem de humanos invadindo seu território.
Sem pensar muito, puxei a pokéball e libertei Bacon. O monstrinho olhou para o Patrat invocado e tremeu de medo, sem saber o que fazer, recuou até encostar-se ao meu corpo espatifado, o olhar apavorado foi de cortar o coração. Eu queria ter dito algo, palavras de incentivo, que dessem força e coragem, mas só consegui soltar um gemido de dor ao tentar me levantar.
O Patrat selvagem não parecia nem um pouco comovido com a cena e avançou sobre meu Tepig. Bacon conseguiu escapulir meio sem jeito e caiu no chão. Patrat avançou novamente e Bacon começou a correr. Em poucos segundos, estavam correndo em círculos como acontece nos desenhos matinais e eu tinha vontade de rir de tão estranha era a cena.
Bacon precisava atacar, mas eu não sabia nenhum golpe que ele possuía. O porquinho já mostrava sinais de cansaço com a correria enquanto o Patrat parecia em plena forma. Finalmente, consegui me colocar em pé e pegar minha pokédex enfiada na mochila.
– Bacon, ataque! – O bicho olhou para mim como se esperasse algo mais específico – ah, Tail Whip – eu não fazia a menor ideia do que aquilo resultaria e me senti constrangido ao vê-lo tentar executar um ataque com aquela cauda curta e enrolada.
Patrat não pareceu nenhum pouco abalado com aquela ação e deu uma poderosa cabeçada no meu Tepig, fazendo com ele até ficasse zonzo. O bichinho estava apavorado e era visível que queria sair daquele conflito logo. Também não me agradava vê-lo apanhar daquele jeito, então fiz algo que a maioria dos treinadores não fariam.
Ao ver o selvagem avançar novamente sobre Bacon, dei-lhe um chute com meu pé machucado (e como aquilo doeu). Chamei Bacon de volta para pokéball e fugi. Fui andando do jeito que dava, mais saltando do que andando e morrendo de vontade de ligar para que minha mãe viesse interceder por mim.
Eu me sentia idiota por fugir, mas mais idiota ainda por colocar Bacon em uma situação tão arriscada. Desse jeito, nosso vínculo nunca se formaria. Minha fuga não foi a mais silenciosa e discreta possível, eu vi árvores e gramas farfalhando e Pokémon selvagens se aproximando e me espiando. Eu estava machucado e ferrado e ficando com muito medo. Ao menos o tal Patrat parecia não estar me seguindo.
Meu pé doía, eu começava a sentir falta de ar e as sombras estavam se alongado nas árvores e tornando tudo mais difícil de enxergar. Eu precisava cuidar de mim e cuidar do Bacon. Eu queria chegar logo a Floccesy Town.
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