Rota Zero
93 Um mês depois - Parte 1
Notas iniciais
Deedee
Um mês depois — Parte 1
Abri a porta do quarto que Haila dividia com Kara, Lila e Dania e a menina não estava lá, nem a Dania. Era muito cedo e o sol mal tinha surgido no horizonte, as meninas dormiam placidamente e a cama da loira estava perfeitamente arrumada. Senti meus dedos se crisparem na maçaneta da porta, ela tinha partido sem mim.
Fechei a porta silenciosamente e pensei em voltar para o quarto, mas mudei de ideia e desci as escadas da casa da Skyla. Eu tinha acordado assustado, algum outro pesadelo com Zoroark e a Team Plasma. Sentei no colchão encharcado de suor e quando meus olhos se acostumaram a penumbra, nem Corin ou Arthur estavam no nosso quarto.
E se Haila e Dania também não estavam lá, eu sabia que eles tinham partido sem mim. Haila vinha falando daquilo fazia algum tempo. Arthur queria voltar para casa, rever a esposa e manter Dania segura, e Haila achava que Corin estaria melhor com eles, por enquanto.
Mas não tínhamos discutido muito a respeito, não tínhamos discutido muito sobre nada. Cada um de nós tinha seus próprios interesses para resolver e eu não a culpava por ter ido sem mim, mas ela poderia ter deixado um bilhete.
Sentado na cozinha, eu observava o dia amanhecer pela janela que dava para os fundos do terreno. As horas pareciam dias, os dias semanas e mesmo que tivesse se passado apenas um mês da derrota da Team Plasma, parecia que aquilo tinha acontecido há décadas e que nunca tínhamos nos recuperado, e eu tinha minhas dúvidas se iriamos nos recuperar realmente.
Às vezes, tudo o que eu tinha vivido nos últimos meses me parecia um sonho, era tudo muito irreal para ter acontecido comigo, o garoto do interior, mas então eu me lembrava do Des, das feridas da Haila, das minhas próprias e sabia que aquilo tinha sido real.
Castelia não existia mais, era só um amontado de escombros e prédios destroçados, o Centro Pokémon funcionava pateticamente, os hospitais estavam lotados e sem medicamentos, e ainda havia focos de incêndio aqui e ali. Havia muitas pessoas e Pokémon mortos pelas ruas e ninguém aparecia para reivindicar seus corpos e a cereja do bolo era que o presidente tinha morrido.
Era verdade que o pai do Grimsley não tinha se mostrado um governante tão bom, mas agora não havia nenhuma figura de poder para reger as coisas. Não havia mais uma figura que as pessoas pudessem culpar ou odiar, nem sequer para dar uma direção, por mais errada que fosse, e isso trazia muita instabilidade para o futuro. Eleições emergenciais foram convocadas, mas ninguém parecia querer assumir na situação que Unova se encontrava, por isso, as eleições eram constantemente prorrogadas.
Eu sabia pelo noticiário que muitos Team Plasma tinham fugido e um número ainda maior superlotava as celas dos departamentos de polícia. Muitos prefeitos tinham optado por valas coletivas para descartar seus mortos e isso se arrastava em uma polêmica sem precedentes. A maioria das cidades não tinha mais recursos nem sabia como recomeçar.
As cidades que tinham ficado em pé em meio ao caos, recebiam refugiados todos os dias. Era possível ver tendas pelas calçadas e parques de Nimbasa, de fugitivos de Castelia que não tinham mais onde morar. Era um cenário horrível, que eu nunca imaginara presenciar.
Eu deveria ter voltado para casa depois de tudo, ver como meus pais estavam, como Asperita estava, mas eu não conseguia me desconectar de tudo aquilo. Nos dias que seguiram a queda de Castelia, eu não tinha voltado para Nimbasa com os outros.
Minha missão na cidade não estava terminada, não ainda. Eu precisava reencontrar Peach e eu não sairia da cidade até ter a Pokémon nas minhas mãos novamente. Eu não podia pedir para Haila ficar, ela precisava de um descanso, de um tempo com Corin.
Eu dividira um quarto no Centro Pokémon com Louis, Clarice e mais meia dúzia de pessoas que eu não sabia quem era. E eu nem me importava, eu mal ficava no ambiente. Assim que o sol nascia, eu descia pela rua destruída, desviando dos escombros, procurando pela Pokémon e só voltava quando a visibilidade lá fora se esvaia totalmente.
Eu ia de mãos vazias, removendo entulhos com o resto das forças que tinha e chamando por Peach até minha voz falhar e raspar na garganta. Seria mais fácil se eu usasse meus Pokémon, mas todos eles precisavam de descanso, nenhum deles tinha se recuperado da minha batalha contra a Team Plasma em Anville e eu só vinha exigindo deles até então.
Deveria fazer quase quinze dias que eu estava ali quando Louis me impediu de sair para uma nova busca. Eu estava muito mais magro e minhas mãos estavam em carne viva de revirar os blocos de concreto. Eu tinha revirado metade da cidade, circulado pelos bosques no entorno da cidade e olhado cada Pokémon morto antes deles serem despachados para um necrotério apropriado e eu não tinha nenhuma pista do que tinha acontecido a Peach.
De acordo com o rapaz, eu iria acabar me matando antes de encontrar a Pokémon. Ele precisou me dar um sermão para que eu percebesse o quão cansado eu estava e que nenhuma das minhas feridas sequer tinham começado a cicatrizar. Clarice e ele se prontificaram em encontrar a Pokémon para mim, mas eu deveria voltar para Nimbasa, cuidar dos meus ferimentos e dos meus Pokémon, que precisavam de um tratamento médico melhor do que Castelia poderia oferecer no momento.
A viagem de volta para Castelia não tinha sido tão longa, eu tinha conseguido uma carona com um conhecido do Louis. Eu me sentia sonolento, mas eu não conseguia mais dormir tranquilamente, as mãos sempre ficavam envolvendo as Pokéball, como se algum Team Plasma fosse aparecer de repente. Puxei o Xtransceiver e tentei ligar para Cassie, tocou diversas vezes até cair na caixa postal, eu já tinha deixado meia dúzia de mensagens pedido para que ela me retornasse, mas decidi por deixar outra.
Eu não sabia o que iria dizer a ela, não sabia como explicaria que tinha perdido a Peach, mas eu recuperaria a Pokémon, não importava o que acontecesse. Eu só precisava falar com ela. Eu não tinha notícias da menina fazia semanas e saber que Flocessy Town tinha caído sem nem ao menos lutar não fazia meu ânimo melhorar. Eu tinha pensado seriamente em pedir que minha mãe fosse até lá, mas ela sequer sabia quem Cassie era e eu não queria colocar a mulher em perigo, por mais que minha mãe soubesse se defender muito bem.
Quando eu voltei para Nimbasa, Haila dividia seu tempo entre depoimentos para polícia e jornal e ficar com Corin. Nós conversávamos pouco, mas eu sabia que ela tinha planos de achar um local que fosse seguro para Corin e sabia que ela não iria deixar a história da Lenora morrer, mesmo que eu não soubesse exatamente o que ela planejava a respeito.
Me ajeitei na mesa da cozinha e derrubei uma pilha de panfletos que estavam acomodados na beirada da mesa. Os papéis se espalharam pelo chão e me abaixei para recolher. No papel plastificado havia um fundo arroxeado com vários desenhos coloridos. Eu não precisava ler para saber do que se tratava. Tinha panfletos desses espalhados por toda cidade, assim como vários outdoors e propagandas na televisão, o grande Contest.
Eu não tinha certeza se aquilo era uma boa ideia, um Contest em tão pouco tempo após os acontecimentos de Castelia, mas Elesa parecia saber o que estava fazendo. De acordo com a líder, um evento cultural serviria não só como uma distração, mas também mostrar que poderíamos voltar à normalidade e não viver apenas a sombra da guerra civil que tínhamos enfrentando.
Claro que havia muito mais nisso, Elesa pretendia não só fazer um pão e circo, mas mostrar aos outros países como éramos fortes e que toda a crise seria superada, com ou sem ajuda internacional. E aparentemente, ela estava conseguindo chamar a atenção, muitas pessoas influentes tinham confirmado presença e Fantina, um dos maiores nomes em coordenadoria da atualidade, seria uma das juízas do evento.
E seria algo que eu ignoraria totalmente e veria da plateia se Elesa não tivesse deixado claro que ela nos queria competindo. E por nós ela queria dizer Lila, Clarice e eu. E mesmo que eu tivesse tentado sair pela tangente, eu sabia que não teria escapatória. Mas como eu iria competir? Todos os meus Pokémon estavam sendo medicados e eu fui empurrando aquela situação com a barriga, até o presente momento, onde Haila tinha sumido como fumaça e faltava menos de uma semana para o Contest.
Lila treinava todo santo dia, na praça perto do Centro Pokémon de Nimbasa, onde outrora, eu estivera em companhia de Haila, treinando Chiclete para o Contest local, Contest esse onde meu desempenho tinha sido um fiasco, igual a todos os outros que eu havia participado. Os Psyduck e o Slowbro pareciam felizes e inocentes, como costumeiramente eram, e treinavam os movimentos acrobáticos que Lila instruía. Ela ainda usaria a apresentação com bolas para a primeira parte, mas seu treinamento em batalha era muito mais agressivo e ela parecia muito mais segura de si.
Eu a acompanhava nos treinamentos, mas a animação dela não me contagiava, nem mesmo quando ela dizia que o número de inscritos tinham aumentado ou que todos os ingressos tinham sido vendidos. Ainda parecia uma diversão macabra perto de todos os problemas que Unova precisava se debruçar.
—- Eu tenho inveja de você – a voz sombria e sonolenta da Kara me assustou e eu derrubei todos os panfletos que tinha recolhido no processo.
— Inveja?
— Claro – ela contornou a mesa e foi até a geladeira, procurando algo para comer. – Fantina vai abrir duas vagas para os vencedores do Contest participarem do Grande Contest em Sinnoh. – Curvei as sobrancelhas sem entender. – Lila não te disse?
— Não – respondi simplesmente.
— Por isso ela tem treinado tanto – isso explicava muita coisa.
— E por que você tem inveja? – Kara me encarou como se eu fosse idiota e revirou os olhos antes de começar.
— É a oportunidade de ouro de vocês, mesmo com tudo o que aconteceu, vocês ainda podem ir para o Grande Contest e eu? Os ginásios estão reabrindo, mas o que eu vou fazer com as minhas insígnias? Não tem um Elite Four ou Champion para batalhar – ela estava comendo um pedaço de torta, que claramente, não pertencia a ela.
— E por que reabrir os ginásios se as insígnias não servem de nada? – Perguntei desanimado. Elesa realmente tinha aberto o ginásio e aparentemente os irmãos do Cilan estavam estudando essa possibilidade, mas Skyla e Cheren continuavam em Nimbasa e nenhum dos dois parecia tentados a voltar para suas cidades e reabrirem os ginásios.
— Sério que alguém tapado que nem você salvou Unova? As insígnias não servem só para os treinadores, se você quiser ser especialista, você pode usar as insígnias para pular algumas etapas do processo – ela terminou de comer a torta com uma grande bocada.
— E o que você vai fazer com as suas insígnias?
— Nada, por enquanto. Se o partido da oposição ganhar as eleições, eles querem mudar todas as leis sobre treinamento Pokémon.
E eu tinha ouvido falar sobre isso, mesmo que não entendesse tão bem. Havia um grupo político que achava que a Team Plasma alcançara tamanho poder porque as regras para o treinamento Pokémon eram muito suaves. Para eles, era inadmissível que qualquer um pudesse ter uma licença sem passar por provas ou um exame sequer. E se isso parecia um discurso digno da Rose pró-Team Plasma, muitas pessoas vinham concordando com esse controle. E se isso fosse realmente aprovado, toda a estrutura sobre treinamento Pokémon poderia mudar.
— Mas a Liga não vai aceitar isso tão fácil, vai? – Questionei incerto. Por mais que cada país tivesse autonomia, era a Liga Pokémon quem regia as regras para todas as profissões que trabalhavam diretamente com os monstrinhos. Kara deu de ombros, não tínhamos como saber.
— Eu não vi você treinar – ela puxou a cadeira e sentou de frente comigo.
— E por que eu deveria treinar? Que chances eu tenho? – Marsh era o que estava em melhores condições e isso não significava muito. Todos os meus Pokémon traziam sequelas irreversíveis das batalhas.
— E por que não teria?
— Um Vibrava com uma asa só, um Lucario que não tem fôlego, fora cicatriz na cabeça do Bacon... você quer que eu continue?
— E o que tem isso?
— Kara, Contest é sobre beleza e graciosidade – cruzei os braços diante do corpo.
— E você acha mesmo que tutus e laços são mais graciosos do que cicatrizes de um veterano que venceu a guerra – ela deu um sorriso aberto, quase animalesco e finalmente, eu entendi o ponto.
Não era só sobre vitória ou derrota, sobre aquilo ser uma apresentação ridícula para entreter o público, eu tinha treinado meus Pokémon para Contest e não para serem guerreiros, e se eu tinha exigido deles em batalha, o mínimo que eu poderia fazer era deixar que eles brilhassem naquilo que eles tinham sido treinados para fazer.
— Você não vai voltar para Striaton? – O maior desejo da Kara era que a guerra acabasse para que ela pudesse voltar para casa e ela ainda estava ali, mesmo que sua cidade natal não tivesse sofrido tanto nas mãos da Team Plasma.
— Eu não vou fazer o Tom viajar com aquele gesso – ela deu um muxoxo. – Alguém tem que cuidar dele.
— Mesmo? – Perguntei desconfiado.
— Eu não vou deixar você e a loira aguada ficarem com toda a glória – isso era muito mais a cara dela. – Aliás, onde ela está?
— Foi resolver umas coisas – desviei.
— Essa hora? Ela te deixou é?
— Cala boca, Kara – revirei os olhos.
— Bom dia – Elesa surgiu na cozinha com um sorriso contido, trajando um robe decorado e caro. Mesmo descabelada, ela estava linda.
— Bom dia – respondemos em uníssono.
A líder foi até a geladeira, mas parou ao ver o prato onde antes havia um pedaço de torta.
— Vocês comeram minha torta? – E o sorriso sumiu do rosto e uma veia saltou na testa.
— Foi o Deedee – Kara apontou para mim, tirando o dela da reta. Vadia.
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Haila
Era uma vila com menos de cem habitantes localizada no pé da montanha. Deedee não tinha gostado de eu sair sozinha, mas eu não queria mais estender esse assunto com ele. Eu não podia convencê-lo de que aquele Team Plasma que eu tinha reconhecido da barcaça, no dia em que eu Lenora fora morta estava mesmo falando a verdade sobre onde eles haviam desovado os corpos. Além disso, ele merecia um descanso.
De qualquer modo, eu não poderia fazer isso depois. Eu tinha que aproveitar o tempo que Corin fosse ficar na casa de Tris e Arthur com Dania. Agora ele era minha responsabilidade. Uma a qual eu não me importava de carregar, mas de agora em diante eu teria que aprender a lidar.
Ergui o chapéu que fazia sombra em minha cabeça e fitei novamente o velhote na minha frente. – Você tem certeza disso?
Ele bufou e bateu o pé no chão. Ele tinha um sotaque forte, interiorano, nada comum em Unova. – Você acha que deixarem uma pilha de corpos em uma clareira perto de uma cidade do tamanho dessa é uma coisa que as pessoas conseguem esquecer? Está me chamando de mentiroso, pintora de rodapé? Todos eles foram enterrados na vala no cemitério.
Cerrei os punhos com força e senti meus músculos vibrarem com o esforço repentino. Ainda sim sorri, – muito obrigado. O senhor foi de grande ajuda.
Aquela não era uma notícia nova. Muitos corpos não reconhecidos, deixados ao ar livre pela Team Plasma tinham sido enterrados em covas comunitárias. Lado a lado, como indigentes. O governo estava em colapso. Muito de patrimônio público e privado tinha sido destruído. Não havia recursos sobrando para identificação de tantos corpos.
Eu estava muito machucada. Exausta. Mas quando eu consegui fugir da barcaça com ajuda de Rose eu me lembro de ter passado por aquela região. Havia uma grande probabilidade de que eles tivessem jogado o corpo de Lenora ali, ao invés de deixá-lo na barcaça enquanto iam para o ataque a Elite Four. Essa informação batia também com o que o Team Plasma havia me dito.
Mas agora, quando eu voltava aquele cemitério, não via como eu poderia resolver isso sozinha. Na minha frente estava um grande espaço de terra batida, um retângulo com mais de oito metros, onde os corpos tinham sido enterrados sem caixão. Onde a terra não estaria hesitando em devorar sua carne. E agora, tanto tempo depois, eu não conseguiria reconhecer a ex-líder. Tudo que encontraria era uma forma contorcida.
Aquele era mais um fim da linha. Eu poderia ir em frente, checar outras possibilidades, mas quando eu cheguei ali, algo dentro de mim gritava que eu estava certa. Que aquele era o lugar onde eu encontraria Lenora e a levaria para a sua família. Onde eu finalmente daria fim a esse assunto e estaria pronta para deixar isso para trás.
Mas mais uma vez eu estava errada. Mais uma vez eu tinha falhado. E o pensamento de deixá-la ali, onde ninguém jamais a reconheceria me destruía. Como qualquer outro ela seria apenas mais um nome num livro de história, como mais uma vítima sem razão para uma guerra sem sentido. Numa lista tão grande que dentro de poucos anos dificilmente alguém se lembraria que ela existiu.
Além de mim. Além dos seus poucos amigos e familiares.
Eu sentia que deveria chorar. Sentia que precisava colocar essas emoções para fora de algum jeito. A antiga Haila choraria. Mas eu não era mais a garota que saiu de Nuvema. A garota que ficara encantada com Tom quando o conhecera. A garota que tinha tido uma crise quando pensou que ia morrer com a febre do deserto e contado tudo para Dee. Não era a garota que tinha sentindo que podia enfrentar o mundo inteiro depois de ganhar uma insígnia em Nimbasa. Nem a que jogara bolo na cabeça de Kara por ciúmes de um garoto. Apesar de essa ser uma ótima lembrança.
— Eu sinto muito que as coisas tenham acabado assim para você, – falei para Lenora. Boa parte de mim sabia que ela não ouviria. Mas nada me impedia de tentar, – eu queria ter sido mais forte para poder te salvar. Eu estava lá. Eu vi. Você foi forte até o final e agora você pode descansar. Todos eles estão sendo punidos.
Não tinha mais ninguém ali, além de mim e de uma mulher de idade avançada que passava um pano de cor acinzentada em uma lápide. Ela tinha me lançando alguns olhares curiosos, mas não se atrevera a me encarar por mais de alguns segundos. As pessoas ainda tinham medo de qualquer pessoa estranha que aparece em suas cidades. Ainda mais uma tão pequena.
Dei uma última olhada para a cova me despedi definitivamente de Lenora.
Fui direto para a estação de trem. Não tinha levado nada demais. Apenas uma mochila com três mudas de roupa. Um pouco de dinheiro que Skyla tinha me emprestado e a Pokéball de Ling. Já fazia um mês e Leaf estava em tratamento no Centro de Pokémon. Serpio estava com a professora Juniper que me pediria para examinar o Pokémon.
O lugar estava vazio, assim como no dia em que eu cheguei, mas para minha surpresa encontrei até mesmo os guichês de venda de tickets fechados. Um único papel impresso colado com fita adesiva na janela informava que o horário de funcionamento era entre seis e quatorze horas.
Olhei o relógio do meu novo Xtransceiver e vi que já havia se passado seis horas desde o fechamento. Não haveria ninguém nem se eu quisesse reclamar. Olhei em volta frustrada, em toda cidade eu só tinha visto uma plaquinha que dizia pousada. Era isso, ou dormir nos bancos de madeira da estação.
Tomei um longo banho e quando voltei para o quarto Ling tinha se ajeitado na segunda cama de solteiro do cômodo. Tinha comido todo o Pokébloco e parecia bem confortável com as patas dobradas sobre o colchão. Eu não tinha dormido muito bem sozinha desde que tudo acabara, e desde então Ling tinha sido uma grande companheira durante a noite. Não que eu precisasse de companhia em Nimbasa, já que dividira o quarto com Lila e Kara na casa de Elesa.
Assim que me ajeitei liguei para Tris. Não precisou de mais de um minuto para que ela atendesse. Ela estava radiante. Naturalmente bonita, com seus longos cabelos castanhos e rosto assimétrico. Agora grávida, suas bochechas estavam coradas e sua pele parecia reluzir.
A nova mamãe abriu um enorme sorriso quando me viu, – você deveria vir logo nos visitar enquanto temos camas sobrando, assim que os gêmeos chegarem você terá que dormir na sala.
— Estou terminando de resolver algumas coisas e em seguida passarei aí para dar um oi, – eu realmente pretendia, mas não sabia quando isso ia acontecer. – Obrigado por tomar conta de Corin por mim.
Ela deu uma piscadela, – eu adoro crianças. Além disso, seria impossível separar Dania de Corin.
— Ainda não acredito que você é tia dela. É muita coincidência que Corin tenha parado aí.
A expressão dela mudou, pareceu endurecer por um breve momento, antes que a feição simpática voltasse. – Quando minha irmã morreu eu quis ficar o mais próxima possível de Dania. Você deve ter conhecido seu pai. Ele era policial e não aceitava que a imposição da Team Plasma... – ela fez uma pausa e olhou em volta, como se quisesse confirmar que ninguém a ouvia, – agora que ele também está morto, Dania não tem outra pessoa com quem ficar. Não é um fardo, não é o que eu quero dizer. Eu a amo.
— Ela tem muita sorte, – disse e era verdade. Corin e eu não tínhamos nenhum parente com quem ficar. Não tínhamos ninguém para cuidar de nós e por isso eu o amaria em dobro. Cuidaria dele em dobro. Não deixaria que o faltasse nada. Porque eu nunca poderia permitir que ele voltasse para casa dos nossos pais. Não praquele homem.
Tris sorriu, um sorriso intenso e sincero. – Corin também tem. E não se preocupe, ele ainda não perguntou por você. Dania e ele tem um plano estranho relacionado às escavações e pretendem ir lá amanhã. Ele parece adorar ficar aqui.
— E adora mesmo. Obrigado por cuidar dele. Você está salvando a minha vida.
— O tempo que precisar, – afirmou antes de finalizar a ligação.
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Acordei de um pesadelo com as roupas grudadas ao corpo. Mesmo sendo inverno eu sentia como se um calor de quarenta graus estivesse inundando o quarto pela janela. Eu estava sentada, provavelmente tinha feito isso ao acordar de mais um pesadelo. Ling estava ainda ao meu lado, em sono profundo.
Eu estava sentindo minha pulsação sob minha pele, na ponta dos meus dedos, no meu pescoço. Eu já deveria ter me acostumado ao som de tiros, ao cheiro de fogo e sangue que insistiam em invadir meus sonhos. Mas um pânico crescente vinha surgindo durante a noite. Fazendo minhas cicatrizes recém-fechadas voltarem a doer.
O quarto estava iluminado somente pela luz da lua, criando véus de luz azulada entrando pelas cortinas que balançava com uma brisa que eu não podia sentir.
— Ainda tendo esses sonhos? – Deedee perguntou saindo das sombras, vindo se sentar aos pés da minha cama.
— Eu só quero ter uma noite de sono em paz. Quero dormir uma noite inteira. É só isso – desabafei. Eu me sentia tão cansada. Um cansaço que parecia tão profundo que chegava aos meus ossos. Fazendo minhas juntas se negarem a continuar. A querer se mover. Eu não queria mais nada. Só queria a inércia.
Ele colocou a mão em minha perna, fazendo um leve carinho, – dificilmente há paz para aqueles que viveram o que você viveu e fizeram o que você fez. – Imagens do último ano vieram à minha mente, como bolhas surgindo do fundo de um lago. Todas as vezes que usei meus Pokémon para machucar pessoas, todas as vezes que usei armas para ir até onde eu precisava chegar. Todos os rostos que eu me forcei a esquecer, que me neguei a pensar se eles teriam morrido por consequências das minhas ações. Eu tinha matado. – Mas se não tivesse matado você teria morrido, – ele completou, – e quem sabe quantos mais.
— Ainda assim, isso não me faz ficar em paz com a minha consciência. Pensar em quantas vidas eu ajudei a salvar parando a Team plasma. E quanto as que eu não consegui salvar? Quantas pessoas tinham morrido por que eu travei de medo? Ou por fraqueza – cuspi as palavras como se fossem veneno.
Deedee pareceu ficar pensativo, – isso não é sobre todas as pessoas que você deixou de salvar certo? Ninguém é tão altruísta assim, não é mesmo?
— Não, – tive que admitir, – ninguém é.
— Por que você se importava tanto com Lenora? Eu nunca entendi isso. Vocês conviveram tão pouco.
Eu tive que me dar um momento, mas só um. Eu nunca tinha me questionado isso, e eu me surpreendi com a facilidade com que as palavras saíram da minha boca, – quando eu saí de casa, era uma garota muito ingênua. Eu pensei que o mundo iria se abrir para mim. Que as pessoas seriam boas. Que eu me apaixonaria. Que completaria a Pokédex de Jaden. Que viveria aventuras emocionantes com meus Pokémon e me tornaria Champion da Elite Four.
“Lenora foi a primeira pessoa que demonstrou bondade para mim. Gratuita e sincera. Ela me deu um presente que definiu quem eu me tornei. Ela sempre estava com um sorriso no rosto e com uma palavra sábia”
“Quando eu comecei a perceber o que o mundo realmente era. Quando Simi morreu e a Team Plasma começou o seu levante, Lenora deixou de ser só uma pessoa e passou a ser uma ideia a qual eu me agarrei com tanta força que era quase como um laço físico que me prendia a ela. A ideia de que o mundo podia ser um lugar melhor. De que parte do que eu imaginei, do que eu tanto ansiei quando sai de casa, não foi apenas a ilusão de uma garota de cidade pequena. ”
— E agora que você finalmente aceitou que ela está morta... – ele deixou as palavras no ar, esperando que eu continuasse.
— E agora que ela está morta, – repeti e notei que as palavras ainda doíam, ditas em voz alta. – Eu preciso aceitar que eu era essa garota de cidade pequena. Que o mundo não está nem aí para os sonhos de uma garota ingênua e que meu pai não estava tão errado. Eu não estava preparada para o que estava por vir.
— Mas essa garota provinciana. A garota que amadureceu ao ponto de admitir que mesmo a pessoa de quem ela mais guarda rancor não estava completamente errada. É a mesma garota que ajudou a mudar o rumo de uma guerra. Que por causa de suas ações e a de seus amigos impediu que inúmeras vidas fossem perdidas quando o extremismo levou a insanidade sanguinária.
Franzi o cenho quase sem perceber e fitei Deedee, – quem é você e o que você fez com meu incendiário? – Perguntei e a dúvida me levou a perceber que Dee não estava ali. Ele estava em Castelia. O Deedee a minha frente sorriu e por um segundo eu consegui enxergar através da nuvem de sonho. Um frio correu minha espinha enquanto a sensação de opressão tomava conta de mi. Como se novamente eu estivesse diante de algo antigo e poderoso.
Então acordei com Ling lambendo meu rosto. Não era mais noite. Era dia e cheiro de terra molhada e grama cortada tinha preenchido o quarto. Segurei a cabeça do Pokémon cervo, empurrando as folhas verdes que pendiam de seus chifres para o lado.
O sonho já se esvaia da minha mente, e de alguma forma eu sentia que com ele, parte do peso que eu carregava estava me deixando também.
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Enquanto eu fazia o checkout, preparada para deixar aquela cidade, reparei um pequeno murmúrio vindo de um canto da pequena salinha que eles chamavam de saguão. Dois homens de meia idade olhavam para mim enquanto conversavam freneticamente, olhando para algo na tela de seus Xtransceiver.
Fechei a cara e assim que peguei o recibo de pagamento fui diretamente a eles. Eu detestava conversinha, principalmente quando ela era sobre mim. Assim que deu o primeiro passo na direção deles, os homens pareceram ficar completamente sem jeito. Um deles abaixou o braço com o dispositivo na mesma hora, o escondendo na lateral do corpo, mas o outro ficou me encarando com cara de tonto. Como se eu fosse uma aparição fantasmagórica.
Quando eu estava quase sobre eles me surpreendi com o que vi na tela. Uma foto minha, de Deedee e dos outros, tirada para um dos jornais que acabamos aparecendo. – Você é uma das pessoas que derrotou a Team Plasma, não é? Haila? – O boco me perguntou.
Fiquei meio sem reação, era a primeira vez que isso acontecia. Desde que nos instalamos em Nimbasa após a queda da Team Plasma, demos vários depoimentos a polícia e vários jornais tentaram nos entrevistar. Cheren, Skyla e Elesa foram praticamente obrigados a dar declarações do acontecido. Mas eu não esperava que a repercussão dos acontecimentos também se estenderia a mim e aos outros.
A mídia internacional ficou focada em Unova durante semanas. Notícias sobre as consequências do que alguns chamaram de guerra civil, outros de atentado terrorista, correram pelo mundo. E agora eu não conseguia deixar de me perguntar, onde Dee e eu nos encaixamos nisso. Se agora, de alguma forma, eram celebridades de um modo macabro.
— Sim, sou eu. Mas acredite, não há nada demais nisso.
O homem pareceu não ter me ouvido, e acompanhado do outro, começaram a me encher de perguntas sobre o ocorrido. Me questionando sobre a queda da barcaça, da derrubada das antenas e para a minha surpresa, se meu irmão era mesmo um dos generais. Notando minha expressão ele ergueu o aparelho no braço e passou o dedo na tela, fazendo aparecer o título da notícia. “Único general da Team Plasma preso é irmão de heroína”. Havia logo abaixo uma foto minha ao lado de Jaden tirada para o anuário da escola dois anos antes.
— Você teve que enfrentar seu irmão? – O outro perguntou.
— Você não sabia que ele fazia parte da Team Plasma?
— Ele matou mesmo Iris?
Recuei um pouco, sem equilíbrio com o choque do estava vendo. Eu não sei se pensei que isso poderia ficar em segredo, ou talvez que as pessoas não se interessaram por isso. Mas agora, minha vida estava sendo invadida. E nada mais seria segredo.
Eu tinha uma escolha agora, negar isso e viver com vergonha de que meu irmão era um dos generais da Team Plasma. Um assassino. Um monstro. Ou eu poderia aceitar o fato e não permitir que ninguém me machucasse com isso. Nunca.
— Ele era um assassino frio, era demente e eu derrotei com minhas próprias mãos, – afirmei com todo o orgulho com que consegui ostentar na voz. – E se querem saber mais alguma coisa, continuem lendo os jornais. Vocês parecem saber mais do acontecido do que eu.
Não esperei para ver suas reações, sinceramente também não me importava. Eu já tinha repassado todo o acontecido várias vezes durante o depoimento à polícia e era obrigada a reviver isso todas em noites em meus sonhos. Eu não permitiria que isso me afetasse mais do que já tinha me afetado.
Quando finalmente cheguei a estação de trem e comprei o ticket, não faltava muito para o horário de partida. Tomei café da manhã ali mesmo. Pão, queijo e achocolatado. Minha mente estava vagueando entre tudo o que eu tinha passado ali e as coisas que eu teria que fazer quando chegasse a Nimbasa.
Deedee estaria nervoso comigo por ter saído sem falar nada. Eu precisaria arrumar dinheiro porque Corin ficaria comigo dentro de mais um dia e eu teria que planejar a viagem para a casa dos meus pais. Isso era uma coisa que eu não poderia mais adiar.
Eu estava completamente desligada do mundo até que ouvir xingamentos ecoando pela estação. A confusão atraiu meu olhar para o outro lado da plataforma onde um homem de bigode robusto espantava um Pokémon com um jornal.
O corpo magro de cor verde, o modo estranho de andar, a cabeça em forma de girassol... levei um minuto para me dar contar de se tratava de um Sunflora. Não um Sunflora qualquer, mas um que se deitava e cobria a cabeça com os braços de folhas quando estava assustado. O meu Sunflora.
Sai correndo na direção do Pokémon deixando meu lanche em cima do balcão e gritei para o homem parar de amolar. Couve-flor levantou a cabeça devagar e me encarou com seus olhinhos escuros. Eu já estava praticamente em cima dele quando ele fez um som de surpresa e veio correndo em minha direção.
— Couve-flor! – Gritei tomada por uma felicidade boba que eu não tinha me dado conta do quanto eu sentia falta. O agarrei, abraçando o Pokémon com força. Ele estava falando sem parar, fazendo seu som típico, como se eu entendesse toda a história que ele estava me contando. Parecia tão perplexo quanto eu.
— Esse Pokémon é seu? – O bigodudo me perguntou. – Ele está perambulando pela estação a mais de mês.
— Sim, ele é meu – contei, apertando ainda mais forte o Pokémon em meus braços.
Quando fui capturada pela Team Plasma e Guerra me contou que libertara meu Pokémon eu não tive mais esperança de que fosse reencontrar Couve-flor. Eu não sabia em que momento ele tinha soltado Pokémon e o raio de busca era grande demais para que eu pudesse definir onde seriam os melhores lugares para procurar. Ao que parecia, a Team Plasma tinha desovado corpos e Pokémon no mesmo lugar.
Além de que tanta coisa aconteceu ao mesmo tempo, que só agora eu tinha tido chance de pensar em ir atrás dele. Mas agora, como um milagre, ele estava ali de novo. – Nunca mais ninguém vai te tirar de mim. – Afirmei e era verdade. A partir de agora eu seria a treinadora que ele merecia. Os meus Pokémon não precisariam mais sofrer por minha causa. Eu me certificaria que cada um deles fosse feliz.
Couve-flor foi do meu lado durante toda a viagem. Fiz questão de fazê-lo comer e de ouvi-lo falar, mesmo que eu não conseguisse entender. E quando estávamos finalmente entrando em Nimbasa tentei colocá-lo em uma nova Greatball, a qual ele ficou sem que o objeto nem mesmo balançasse.
Eu tinha a sensação agora que as coisas de alguma maneira encontrariam de novo seu lugar.
=8=
Todos tentavam se acostumar à nova realidade que a Team Plasma tinha nos imposto. Ninguém conseguiu prever as consequências que as ações do grupo trariam sobre todos. Não havia como, ninguém poderia imaginar que o plano deles no fim das contas seria colocar os Pokémon contra os humanos. E além de teóricos da conspiração, ninguém tinha imagino que os Pokémon poderiam ser tão destrutivos.
E do meio das cinzas, um novo tipo de grupo estava surgindo. Pessoas que tinham perdidos amigos e parentes agora estavam se revoltando com os Pokémon, como se eles tivessem estado em algum momento sobre controle das suas ações. Pessoas mais desinformadas que buscavam um culpado naquele que estava mais próximo.
Era como se não tivessem visto o vídeo que gravei dentro da barcaça, mas ele reverberou por todos os canais de notícia, de Unova e do mundo todo.
E apesar de não ser minha coisa preferida, o Contest sugerido por Elesa era um meio de recuperarmos nossa dignidade. De trazer de volta para Unova sua identidade e mostrar as pessoas que as coisas melhorariam.
Ainda assim, o julgamento de Guerra se aproximava e eu não tinha certeza do quanto isso afetaria a mim ou a Corin. O garoto estava sendo mais durão do que eu podia desejar. Depois de buscá-lo da casa de Arthur eu lhe contei tudo o que aconteceu nos últimos meses, ele me ouviu sem fazer perguntar. Seus olhos demonstraram suas emoções durante todo o relato e no final ele apenas me abraçou e disse que entendia.
Ele ficara pensativo depois. Isolou-se pelas horas seguintes, provavelmente tentando assimilar tudo o que eu tinha lhe dito. E quando ele voltou, havia certa tristeza em seu olhar, mas não duvida. Ele parecia firme. Pronto para tudo o que estava por vir.
Eu estava do lado de fora da casa de Elesa, sentada na calçada junto de Dee, que ainda estava cabisbaixo com a notícia sobre Cassie. Assistíamos a Kara e Lila que quase parecia à mesma depois de todos os acontecimentos, dando comandos alegremente para seus Pokémon aquáticos que pareciam muito contentes em voltar a sua rotina.
A minha primeira atitude foi ligar para a professora Juniper. A última vez que eu tinha falado com ela foi para pedir-lhe que desse uma olhada em Serpio, já que ele não se dava bem com a maioria das pessoas nos Centro Pokémon. Antes disso, foi quando descobri que meus Pokémon estavam registrados em nome de Jaden, isso muito antes de Opelucid cair e eu descobrir o monstro que ele era.
Eu não queria que ela pensasse que eu só ligava para ela quando precisava de alguma coisa, mas boa parte disso era verdade. A ligação demorou a ser atendida como de costume. Quando a mulher surgiu na tela seus cabelos estavam uma bagunça e seu rosto sujo com algo que lembrava carvão. Ela me encarou assustada, como se visse um fantasma, – Por Arceus, Haila. Esqueci de mandar seu Pokémon de volta. Os machucados se curaram surpreendentemente bem e ele está pronto para outra... – ela fez uma pausa, arregalando seus olhos, – não, melhor dizendo, nunca mais repita o que você fez, seja lá o que tenha sido.
Dei uma risada sem muita graça, – não pretendo, acredite em mim. – E era verdade. Eu sentia que finalmente poderia deixar as batalhas para trás. – Mas não estou te ligando a respeito de Serpio. Estou te ligando em relação a Jaden.
Deedee me encarou curioso e o olhar de Corin pareceu mudar por um segundo, um fio de surpresa correu por seu rosto, mas ele pareceu se segurar, voltando a expressão neutra de um minuto atrás. Eu não queria que ele tivesse que esconder as emoções, não de mim. A partir de agora nós teríamos apenas um ao outro e precisamos confiar que poderíamos lidar com o que estava por vir. Eu não tinha a ilusão de que seria fácil.
— Jaden? – Até mesmo Juniper pareceu sem lugar antes de se dar conta do que eu queria saber. Ela abaixou o olhar e depois balançou a cabeça positivamente, – ela me ligou chorando, falando sobre isso. Sua mãe quero dizer. Eles vão estar no julgamento dele e pretendem ir atrás de você para levar Corin para casa.
Não consegui conter o arfar, – ela só falou de Corin, não é?
— Sim, eu... – sinto muito, eu sei. Mas mesmo após todo esse tempo ainda doía um pouco. Doía saber que não haveria casa para voltar. Que não haveria um caminho de volta para minha antiga vida, mesmo que eu não desejasse mais isso. – Não é por causa dela, ela gostaria que vocês dois voltassem, mas seu pai... Ele... – Ela não conseguiu terminar, e não precisava.
Eu sentia o olhar de Corin e Deedee sobre mim. Tinha consciência do que eles sentiam. Pena, porque os dois conseguiam ler através da minha postura firme, o suficiente para saber o que eu estava sentindo. E raiva. A mesma raiva que eu sentia pela impotência, de fazer algo que nem mesmo eu sabia o que era.
— Tudo bem, eu entendo. – Respirei fundo e continuei. – Você consegue me enviar Serpio hoje?
— Consigo sim. E Haila.... Eu acho que o você está fazendo é certo. Eu vou estar aqui para o que você precisar.
Dei um sorriso, o mais sincero que consegui e desliguei. Foi uma surpresa quando eu senti os braços de Corin me envolvendo, me abraçando por trás. No rosto de Deedee havia um leve sorriso. Eu nunca conseguiria prever o quanto aqueles simples gestos me fariam bem. O quanto eu ainda precisava desse gesto de carinho.
A vida era estranha. Imperfeita, muitas vezes selvagem e injusta. O peso do mundo podia parecer tão opressor que não havia como deixar de me perguntar de vez em quando, qual era o ponto? Por que insistir nisso tudo? Por que se esforçar em continuar? Não era como se houvesse uma grande conclusão. Um grande prêmio a ser recebido após o fim das provações. Por que não existia realmente um fim para nada. Até que obviamente se chegasse ao fim.
Era um loop constrangedor de fatos. Às vezes bons, às vezes ruins. Muitas vezes tediosos e incompreensíveis.
Mas mesmo depois de ter passado por tudo. Mesmo com os pesadelos, as dores, as marcas que estariam para sempre no meu corpo e tudo que eu tinha perdido. O que, de alguma forma, floresceu no meio de tudo aquilo parecia valer a pena.
Eu me sentia forte, me sentia pronta e o mais importante, enquanto eu assistia Lila e Kara, na casa de Elesa, onde todas as pessoas que eu conhecia e principalmente me importava, estavam se reunindo, eu me sentia querida. Eu me sentia amada. Amada de uma forma livre.
Não por um laço tão aleatório como sangue. Mas por escolhas que eram tomadas todos os dias. Escolhas como aguentar o humor sempre bom de Lila, ou o humor oposto e ácido de Kara, e agora para aumentar o bolo, o de Clarice, tão ruim quanto.
Como sempre comprar o mesmo que eu comi para Deedee e evitar assim o apocalipse em forma de drama sempre que ele descobria que eu estava tentando evitar o esquema. Como de vez em quando informar para Cilan que ainda estou viva e respirando, mesmo que eu estivesse ótima e ele ainda se recuperando do que sofreu no ataque. Ou os olhares de Tom que ainda conseguiam fazer com que me sentisse nua.
A garota sem amigos, que tinha dificuldade de se relacionar com pessoas, agora estava tão cercada de gente que mal conseguia respirar.
No meio disso tudo, quando Skyla me chamou para conversar, não consegui deixar de me sentir surpresa. Era estranho pensar o quanto Dee e eu tínhamos nos envolvido com líderes de ginásio. Mais estranho ainda saber que tínhamos ganhado sua confia e agora nós tínhamos seu respeito. Como se fossemos iguais.
— Eu tenho uma coisa para te contar, – Skyla comentou em um tom animado enquanto nós apoiamos no muro em volta da propriedade de Elesa. O único lugar pacífico que ainda restara no lugar lotado.
Não havia muitos momentos sozinhos na casa. Mesmo o banheiro parecia ter um cronômetro sobre a porta, espreitando de forma fantasmagórica sua passagem por ele. Cinco minutos e alguém já bateria na porta, perguntando por que você estava demorando tanto. Se viesse de Kara, sem dúvida algum comentário mais sarcástico e baixo seria ouvido.
Mas apesar da falta de costume, eu me sentia muito confortável em volta de tanta gente. Como talvez eu nunca tenha me sentindo na minha casa. Ali eu sentia que podia ser eu mesma.
— A essas alturas do campeonato, espero que seja algo bom. Juro que se você me der só mais uma má notícia eu vou ser obrigada a me jogar do telhado da casa. E tenho certeza que Elesa não vai ficar satisfeita por ter que ficar catando pedaços de Haila pelo gramado.
— Possivelmente seria um ótimo adubo. Quem sabe do que as plantas gostam afinal?
Eu ergui a mão, levando-a a boca, fingindo estar constrangida e ela deu risada.
— É exatamente sobre isso que eu quero conversar com você.
— Depois de sugerir que minhas tripas seriam um bom adubo, percebo que você realmente precisa de dicas de jardinagem. Regra número um; entranhas não.
E apesar de ela ter dado outra gargalhada, sua expressão estava séria. Algo que ela tinha assumido desde a batalha em Castelia. Skyla e Cheren pareciam ter envelhecido dez anos e em dez dias. Não fisicamente, eles não eram tão mais velhos que Dee e eu, mas algo nas suas expressões, nos seus olhares tinha mudado. Eles tomaram a frente de tudo o que veio sobre nós. Seguraram polícia, seguraram mídia, caçaram Team Plasmas fugitivos e evitaram de algum jeito que o exército se envolvesse com o governo.
— Você recebeu a carta, – ela contou esperando que eu soubesse do que ela estava falando. Não “uma carta”, “A carta”.
— A primeira da minha vida, além das que a escola mandou para os meus pais. O conteúdo nunca era bom.
— Então essa deve ser a primeira vez que um lugar de ensino está pedindo que você se junte ao corpo de alunos.
Franzi o cenho, confusa. – Do que você está falando afinal?
— A líder do ginásio tipo planta de Kanto enviou uma carta escrita de próprio punho, pedindo que você faça sua especialização para o tipo planta com ela, – contou retirando um pedaço de papel do bolso.
Olhei para Skyla atenta e depois para o papel em sua mão, esperando qualquer sinal em sua face que indicasse que ela estava brincando ou que haveria mais uma pegadinha a ser dita no final da história, mas ela continuou me fitando, com uma expressão animada.
Mas nada era tão simples assim, nada realmente era. E ao invés de me alegrar, saber que eu perderia essa oportunidade tinha feito com que uma mão envolvesse meu coração e o apertasse. – É uma pena que eu jamais poderia ir.
— Por que não? – Skyla perguntou num misto de choque e repúdio.
— Skyla, as coisas mudaram. Eu não tenho como ir para Kanto agora.
— Você pode levar Corin. Eu tenho certeza que eu conseguiria para ele uma bolsa em um colégio da corporação Pokémon. Ainda mais agora que ele é irmão de umas das heroínas de Unova – disse a última parte de forma pomposa e alegre.
Eu estava começando a me sentir sem ar. – Eu não sei se poderia fazer isso agora. Tem muita coisa envolvida. Quem sabe daqui a um ano ou dois.
Skyla suspirou e colocou a mão no meu ombro, chegando um pouco mais perto de mim. – Eu sei que pode parecer assustador, mas Haila, essa é uma oportunidade única. Na carta há especificações de que sua estadia em Kanto será completamente coberta pelo ginásio. Esse tipo de convite tem data de validade.
— Mas por que eles iriam pagar minha estadia lá? Não faz sentido.
— Eles não estão fazendo isso por você, Haila. Não seja tão ingênua. Você será uma ótima publicidade para o ginásio, – afirmou e o que ela disse era completamente sensato.
Quando meus quinze minutos de fama passassem, o convite seria retirado junto. Não haveria motivo para mantê-lo. Mas caso eu aceitasse, eles teriam uma obrigação moral e uma imagem a zelar. Eles não poderiam me mandar para casa sem medo de eu levar essa carta à mídia.
— Skyla, mesmo que eu aceitasse, ainda me faltam duas insígnias para ser aprovada. E caso você não tenha percebido, todos os ginásios vão ficar fechados por um longo tempo.
— Não é exatamente assim. A corporação Pokémon nunca permitiria que ginásios ficassem fechados durante muito tempo. A Liga Pokémon é uma das maiores fontes de lucro do grupo. – Ela fez uma pausa como se ponderasse se deveria continuar, mas depois relaxou, – há sussurros de nomes a serem convidados para novos líderes de ginásio e após a carta de desligamento de Cathlyn, que sabemos, só foi escrita por pressão da corporação que não queria o nome da desertora ligado à empresa, novos membros da Elite Four terão que surgir.
— E você estará entre eles? – Perguntei esperançosa.
— Não é oficial ainda, mas recebi uma ligação.
Pulei em cima de Skyla e a abracei com força. Eu estava realmente muito contente por ela. Depois de tudo o que ela tinha feito, ninguém merecia mais do que ela. – Parabéns!
Ela me apertou de volta por um instante e depois me afastou, fitando meus olhos, – mas essa conversa não é sobre mim. Estamos falando de você e seu futuro. E por mais clichê que possa parecer dizer isso. Ele começa com suas escolhas de agora.
— Ainda assim o problema não foi resolvido. Quanto tempo até que os ginásios reabram?
— Você não precisa de ginásios abertos para ganhar insígnias, quando você lutou ao lado de líderes. Todos temos uma dívida com você, Deedee e os outros. – Completou a frase, retirando do seu bolso, que agora parecia uma sacola mágica, a insígnia do tipo voador. – Agora você só precisa de uma.
Afastei a mão dela com gentileza e balancei a cabeça negativamente, – eu não posso fazer isso desta forma. Se eu aceitar sua insígnia agora, vou passar o resto da minha vida com a ideia de que eu só cheguei onde estou porque cortei caminho. De que eu não mereço estar onde estou.
— É um pensando muito nobre, mas Haila, você me venceu em batalha. No aeroporto. No dia em que eu neguei que você me acompanhasse.
— Mas não era uma batalha oficial. Você sequer avaliou minhas habilidades.
Skyla gargalhou, – você esqueceu que eu estava do seu lado o tempo todo em Castelia? Eu vi você batalhando ao lado de seus Pokémon, vi seu vínculo com eles e a coragem com que enfrentou toda aquela situação. Você sabe qual é o desafio do meu ginásio? – Balancei a cabeça negativamente. Antes de Marlon, eu pensava que batalhas de ginásio eram só sobre força.
— Vencer as alturas. Meus Pokémon usam ataques sempre do alto, e você e seus Pokémon teriam que usar das argolas, trampolins e trapézios espalhados pelo ginásio para conseguir me contra-atacar. Perder o medo de altura e enfrentar perigos em pleno ar.
“Sabia que um dos medos mais comuns entre pessoas e Pokémon é o de altura? Eu já vi treinadores congelam quando, no meu ginásio, a base onde o treinador fica durante as batalhas é erguida pelo maquinário que eu instalei, deixando-o a seis metros. Eles simplesmente param de raciocinar e se não fossem pelos amortecedores que se abrem junto, vários teriam se machucado feio com a queda. ”
“Mas você? Eu a vi voar a mais de dez andares de altura, segurando-se apenas ao pescoço de um dos meus Pokémon. E ainda assim quando pousou, estava firme o suficiente para se infiltrar no quartel do inimigo e colocá-lo chão abaixo. Se isso não é prova de que você é merecedora da insígnia tipo voador. Eu não sei o que seria”.
— Tecnicamente foi Clarice quem fez isso. Eu estava ocupada demais pensando em como seria bom se eu já tivesse aprendido como estancar um ferimento de bala. Pobre Cilan, – balancei a cabeça negativamente de forma dramática.
Ela segurou minha mão com força, me fazendo abri-la, e depositou a insígnia fria sobre ela. – Aceite.
Balancei a cabeça positivamente e olhei para o objeto decorado em minha mão. Agora eu tinha a do tipo elétrico, aquático e voador. A questão era que devido a problemas nada casuais de morte ou traição, só havia sobrado mais um líder cujo qual eu ainda não tinha batalhado. – Cheren.
— Ele já concordou em batalhar com você. É melhor você não perder. Sem pressão, mas Cheren não está com humor para uma segunda tentativa.
— Então se eu perder para Cheren, não vou me tornar uma especialista?
Skyla deu de ombros, – meu conselho? Nem todas as batalhas são sobre ganhar. Convença-o de que você é merecedora. Até porque, com ele no estado atual, seria difícil até para mim vencê-lo.
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— O que você acha que ela quis dizer com isso?
Deedee olhou para as próprias mãos, sem muita expressão. Estávamos andando pela cidade com a ideia de comprar sorvete, mas nenhum de nós realmente estava interessado em tomar. Aquela tinha sido só uma desculpa para podermos fugir da casa.
Eu usava um boné roubado de Tom, enquanto Dee cobria seus cabelos rosados com a touca da blusa. Não que tivéssemos nos transformado em pessoas completamente diferentes, mas não estávamos nada dispostos a ser simpáticos caso alguém nos reconhecesse. Bem, eu podia dizer isso da minha parte, Dee era incapaz de ser grosso com alguém.
Depois de tudo o que tínhamos passado, de alguma forma, ele tinha mantido melhor sua essência do que eu. Olhar para mim mesma agora era estranho. Quase não podia me reconhecer. Fisicamente, emocionalmente, psicologicamente. Eu só podia tentar descobrir quem eu era agora.
Ou talvez, eu sempre tenha sido isso. Momentos como esses. Tudo o que tivemos que passar.... Talvez só tenha me mostrado quem eu realmente era.
— Bem, nós o vimos durante a batalha em Castelia. Mais eu do que você, se me lembro bem. Mas acho que com a convivência esquecemos que eles são líderes de ginásio. Alguns dos melhores treinadores Pokémon de toda a região. E caso ele não esteja muito disposto a se segurar durante a batalha, você não tem chance alguma de vencê-lo.
Passávamos na frente à entrada do estádio onde nos abrigamos durante o primeiro da Team plasma. Nossos olhares correram pelo lugar por um instante e ele não parecia mais ter o mesmo peso. Era um lugar com boas e más lembranças, todas elas muito distantes agora.
Eu tinha ainda assim uma boa chance de conseguir a insígnia. Eu só precisava descobrir qual era o real desafio do ginásio e conseguir vencê-lo. Cheren podia liberar toda sua força e descontar toda sua frustração em mim durante a batalha, mas isso não importaria se eu simplesmente conseguisse descobrir.
E se eu conseguisse, isso significaria uma grande mudança na minha vida. Mais uma grande mudança. Caso isso acontecesse, eu tinha que garantir que eu manteria o pouco que eu tinha comigo. Não estava disposta a deixar mais nada para trás.
— Tenho uma coisa para te perguntar, mas não quero que você se sinta obrigado a nada.
— Como se você conseguisse me obrigar a alguma coisa, – comentou com um ar sarcástico, ajustando a própria postura para me lembrar do quanto era mais alto que eu, e instintivamente minha mão correu para cima da Pokéball de Leaf.
Os olhos dele foram para esfera de duas cores e depois de uma troca de olhares, à mente dele foi para a mesma lembrança que eu pretendia que fosse. Meses atrás, quando Leaf tinha o deixado pendurado de cabeça para baixo, em um quarto de hotel barato, em Castelia.
O sorrisinho vitorioso morreu aos poucos no rosto dele, sendo substituído por indignação e falso irritamento.
— Você sabe, se de alguma forma eu conseguir essa insígnia, é muito provável que eu vá para Kanto depois do julgamento de Jaden.
— Tenho certeza que você vai dar um jeito. Sempre dá. – Ele respondeu. Dei de ombros. Ainda não tinha certeza do quanto eu queria isso.
Parei de andar, indo para um canto da calçada, deixando as pessoas passarem por nós, e fui seguida por Dee que agora me olhava curioso. – Eu quero que você venha comigo e Corin.
Um sorriso brotou no rosto dele, iluminado como sempre, e isso foi como uma brisa fresca num dia quente. – Ir com você para uma região diferente, te acompanhar durante dois anos, enquanto você se tornar uma especialista fodona? Não sei se sobreviveria.
— Fodona, – repeti com um sorriso no rosto. Olhei para o alto, fingindo ponderar a hipótese, – imagino que eu já seja considerada assim.
— É o que os jornais andam dizendo, senhorita heroína.
Fiz uma reverência e completei, – de nós senhor herói.
Demos uma breve gargalhada, mas quando percebemos que estávamos atraindo atenção das pessoas que passavam, engolimos rápido o sorriso, voltando a andar.
—Eu estou falando sério, – disse sem graça. Havia certa urgência na minha voz, que por mais que tentasse não pude esconder. – Sei que a ideia de passar dois anos em uma região menos desenvolvida, me acompanhando para estudos poder ser uma ideia super entediante, mas eu me sentiria muito mais segura se você também fosse.
“Claro, se você não quiser ir eu entendo. Ainda posso voltar ou você ir durante as férias. Imagino que haja férias. – Comecei a ter uma pequena crise de ansiedade, – por Arceus, tem que ter férias. ”
— Eu adoraria...
— Você não é obrigado, sério. Eu posso dar conta. Vai ser muito estranho, mas Unova era quase uma região estranha para mim quando eu fugi de casa. Não quero que você faça isso por obrigação.
— Haila, eu adoraria ir com você.
Parei novamente na calçada e um homem que usava uma blusa, quente demais para o frio que fazia, esbarrou em mim com força, me amaldiçoando enquanto continuava andando. Eu podia sentir o meu coração batendo com força, e o sangue correr até chegar à ponta dos meus dedos, onde eu podia senti-los pulsar.
— Mesmo?
— Mesmo, mesmo. Não é como se eu tivesse nada melhor para fazer e se há alguém com quem eu fugiria de Unova depois de ter virado uma subcelebridade, sem dúvida essa pessoa é você. – E como a Haila de um ano atrás, eu pulei sobre Deedee o abraçando com tanta força que as feridas que estavam se curando pelo meu corpo voltaram a doer.
Eu não tinha ideia do quanto eu precisava ouvir aquilo de Dee, e o quanto eu ainda precisava dele perto de mim. Nesses últimos meses ele tinha se tornado algo muito além de meu melhor amigo. Melhor amigo era muito vago, irmão muito pouco. December era uma parte essencial de mim.
— Bem, vamos precisar arrumar empregos, – ele começou a divagar, – me diga, por favor, que esse ginásio fica em uma cidade grande. Podemos alugar um apartamento já que não vamos estar em jornada, – a cabeça dele parecia estar a mil, mas mesmo agarrada a ele, eu sabia que ele estava sorrindo, – acho que vi algo na TV sobre haver Contest lá agora.
Quando finalmente consegui soltá-lo, o capuz dele havia caído e um garoto que deveria ter a nossa idade estava parada, olhando para nós dois, com uma cara irritante de bobo. Um momento depois algumas pessoas já estavam parando junto a ele, atraídas pela expressão do garoto.
O burburinho tinha começado de repente. Várias pessoas a nossa volta, se questionando se éramos mesmo nós. Até que alguém deu certeza, imagino que sem realmente ter. E um milhão de perguntas e elogios começaram a ser derramadas sobre nós.
Se fosse Kara ou talvez Lila ali, elas teriam tirado aquela situação de letra. Mas eu não conseguia me sentir confortável com toda aquela atenção, como se tivéssemos feito algo demais.
Eu odiava pensar que aquelas pessoas me viam de forma diferente agora, por fazer algo que todas elas deveriam ter se prontificado para fazer na época. Mas, ao invés disso, elas se acomodaram e esperaram que alguém “cuidasse” de tudo para elas.
Era em parte, tanto culpa deles, quanto culpa da Team Plasma tudo o que tinha havido. E pensar nisso, ter consciências de tudo o que foi perdido, de todos os que morreram, humanos e Pokémon, me deixavam furiosa.
Um homem alto veio na minha direção e segurou meu braço. Eu nunca vou saber se ele pretendia me abraçar ou simplesmente queria me ajudar a sair da multidão. Só consegui entender o que aconteceu quando finalmente Deedee estava me puxando em meio ao trânsito, fugindo de toda aquela gente, que agora olhava para a gente como se o mundo estivesse acabando.
Reagi sem pensar. Minha pulsação acelerou depressa, minha garganta pareceu fechar impedindo que eu conseguisse respirar. De repente os sons estavam muito altos, as pessoas muito próximas. E da mesma maneira que aquilo tinha se formado ao nosso redor, um sentimento opressor começou a substituir a raiva.
Era pânico e eu não conseguia entender do que. Meu corpo se moveu sozinho, como se eu tivesse sido treinada para aquilo minha vida inteira. Acertei o homem entre as pernas com tanta força que foi como se ele desmontasse.
Sua expressão foi tomada por dor e seu corpo tombou em meio às pessoas. No momento seguinte Deedee já estava me arrastando para longe das pessoas, que nos encaravam com um misto de incompreensão e pavor.
Quando finalmente estávamos distantes o suficiente para que Dee achasse que podíamos parar de correr, eu estava tendo uma crise. Minha mente parecia turva, o mundo a minha volta parecia muito grande e ao mesmo tempo tão pequeno que eu simplesmente não cabia nele.
Meu pulso estava a mil, minha respiração falha enquanto meu peito subia e descia como se eu tivesse corrido meia maratona. As vozes, o som dos pneus dos carros no asfalto, o roncar dos motores. Era como se tudo estivesse vindo para cima de mim. A única coisa que consegui fazer foi me abaixar e tapar os ouvidos com as mãos. Fechar os olhos com força e gritar dentro da minha mente para tudo parar.
— O que... – Dee tentou perguntar, mas assim como eu, ele não deveria fazer ideia de onde aquilo estava vindo. – Você vai ficar bem, – disse, mas sua voz parecia distante, como se fosse apenas um eco da verdadeira.
Eu não percebi quando ele se abaixou, nem tive a percepção de quanto tempo levou. Mas Dee simplesmente me abraçou, me envolvendo em seus braços, até que o mundo começou a parecer que estava voltando ao tamanho normal.
E como sempre fizeram, as pessoas apenas ignoraram dois adolescentes sentados no beiral de uma loja e nos deixaram em paz, até que eu conseguisse criar coragem para erguer a cabeça novamente. Aos poucos aquele sentimento foi me deixando e o senso de segurança foi voltando aos poucos.
— O que aconteceu com ela?
— Eu não tenho muita certeza, mas seja lá o que for está passando.
— Temos que tirá-la daqui, agora.
Eu demorei a entender quem estava à minha volta, ainda era como se minha visão estivesse embaçada, mas aos poucos as pessoas foram tomando formas e contornos reconhecíveis. Dee ainda colado a mim, o cabelo verde de Cilan, os braços largos de Tom. De alguma maneira eles tinham se materializado ali.
— Como vocês...? O que estão fazendo aqui? – Quis saber. Minha mente parecia ter tirado férias e as coisas estavam começando a se organizar na minha cabeça naquele momento.
Deedee comprimiu os lábios por um momento, os transformando em uma linha fina em seu rosto. Havia preocupação em seu olhar. – Eu os chamei. Tentei contato primeiro com Skyla, mas ela não me atendeu. Cheren está com Xtransceiver desligado, então...
Cilan se abaixou na minha frente, ignorando a obstrução que estava causando na calçada. – Vem, vamos te levar para casa, – pediu com uma voz doce, estendendo a mão, sem me tocar. Fitei sua mão por um instante antes de criar coragem, antes de finalmente a segurar. Meus músculos doíam, ou talvez fossem meus ossos. Eu não saberia diferenciar.
O carro estava parado um pouco mais a frente e o Ranger dirigiu até que voltássemos à residência de Elesa. Ninguém falou muito no caminho, os ânimos estavam estranhos, como se eu estivesse ferida e sangrando até a morte no banco detrás.
Mas aos poucos a ficha foi caindo e eu me dei conta do que eu tinha tido. O sentimento ainda rondava, como minha sombra, grudada a mim como se sempre estivesse estado ali. Como se fosse parte natural de mim, quem eu era.
Quando finalmente atravessamos os portões, havia somente uma lembrança muscular do que eu tinha passado, mas mesmo depois de verbalizar isso, os meninos não pareceram muito mais tranquilos.
— Você tem certeza de que ela não precisava ver um médico? – Tom perguntou pela terceira vez.
— O que ela precisa agora é descansar, – Cilan disse com uma firmeza que não parecia natural. Só então pude reparar que ele se movia diferente, travado. As bandagens ainda podiam ser vistas sob o tecido da camisa.
— Pelo menos temos que contar há alguém sobre o que houve com ela.
— Ela está aqui e ela só quer comer alguma coisa, – interrompi a pequena discussão que se iniciaria, enquanto Dee descia do carro.
Tom travou, – Haila, eu não quis dizer que... – engoliu em frase antes de conseguir terminá-la. Ele não parecia saber o que dizer.
— Bolo ou torta? –Deedee disse do nada, colocando o braço em volta do meu ombro. – Tenho certeza que sobrou alguma coisa, mesmo com a metade da cidade morando nessa casa. –A voz dele soou completamente casual e animada, como se nada tivesse acontecido, e como água fresca no deserto, eu simplesmente deslizei para ele.
Fitei seus olhos por um momento e o ar preocupado tinha sido substituído por um sorriso bobo, em meio a cabelos grandes e emaranhados. – Prefiro torta.
— Vou providenciar agora mesmo, senhorita Gray, – disse em um timbre mais adulto e sério. Como se fosse um mordomo. Ou o que eu imaginava que eles seriam. – Você vem comigo?
Olhei para Cilan e Tom e eles ainda pareciam perdidos. – Em um minuto. Não deixe Clarice devorar tudo enquanto eu estiver acertando as coisas com esses dois.
Ele olhou para os dois por um momento e depois se virou para mim, dando uma piscadela. – Como se algum dia eu tivesse conseguido fazer Clarice seguir o que eu digo.
Mal Deedee atravessou o portal de entrada e Cilan veio na minha direção, – Haila, eu realmente acho que você deveria se deitar um pouco e descansar. O que você acabou de passar tem muita semelhança com síndrome do pânico. É algo muito normal em pessoas que passaram por circunstâncias como as que passamos nos últimos meses.
— Eu estou bem e sei o que é síndrome do pânico, estresse pós-traumático e essas coisas – ou pelo menos tinha uma noção. – Mas vocês não precisam se preocupar comigo. Eu não preciso de garotos para me salvar.
— Você parecia muito confortável nos braços de Deedee quando chegamos, – Tom disse de forma acusadora.
— Não seja um idiota, – Cilan rebateu antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
— Estão vendo? É exatamente disso que eu estou falando. – Dei dois passos largos e fiquei na frente dos dois. – Eles estavam lado a lado. Seus ombros quase se tocavam. Os de Tom bem mais largos e fortes, enquanto Cilan era mais esguio e mais alto. – Eu agradeço por tudo o que vocês fizeram por mim. De verdade, mas desde que tudo acabou, sempre que eu espirro algum de vocês aparece um lenço.
— Haila, síndrome do pânico é algo sério...
Cilan tentou, mas eu passei por cima, impedindo que ele terminasse a frase. – Não estou me referindo a hoje. Não pense que sou mal-agradecida e muito menos cega. Esses últimos meses tem sido uma loucura e vocês fizeram parte de momentos muito importantes da minha vida. Mas eu preciso que vocês parem.
— Haila, eu só queria...
— Tom, flertar por telefone não te torna meu namorado, – ele pareceu chocado, acertando a postura, –Cilan, um beijo não te torna meu namorado.
— Beijo? – Tom perguntou mudando completamente a linguagem corporal. Seus músculos ficaram rijos e sua voz soou mais grave, quase ameaçadora.
Cilan ficou imóvel por um momento, seu olhar cheio de pânico. – Eu pretendia te contar. Eu não consegui encontrar o momento.
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— Foi durante Castelia, estávamos fugindo de alguns Team Plasma...
— Ainda estou aqui – disse levantando o som da voz.
Então Tom veio para cima de mim, parando a menos de um paço. Ele estava claramente nervoso, sua respiração ofegante. Seu olhar sério. – Mas é como se não estivesse. Pelo menos para mim aparentemente. Você me deixou acreditar que estava a fim de mim e aparentemente esse tempo todo você também flertava com Cilan – agora ele praticamente gritava, apontando para o garoto de cabelos verdes. – É muito fácil estar na sua posição, enquanto nós fazemos papel de palhaços.
Eu recuei, meu coração voltava a bater depressa e por um momento eu tive medo que a crise voltasse a acontecer, mas de algum jeito eu sabia que era diferente. O que eu estava sentindo naquele momento era vergonha.
— Não foi bem assim Tom, – Cilan tentou explicar, mas assim que ele tocou o ombro do amigo, Tom fez um movimento brusco, se livrando do toque.
— Afinal de contas, – Tom perguntou e agora sua voz estava mais calma, quase triste, cansada. – Você gosta de algum de nós?
Em toda minha vida acadêmica eu sempre assisti enquanto as garotas populares atraiam olhares e os garotos caiam sobre elas como se fossem da realeza, vivendo entre os plebeus. Enquanto eu, sempre fui à garota estranha, antissocial, com poucos colegas.
Eu tinha beijado três garotos em toda a minha vida e dois deles sequer eram o que podia ser chamado de atraente. E agora aqueles dois garotos, que muito provavelmente poderiam arrumar coisa muito melhor e menos problemática que eu, estavam me exigindo uma resposta.
— Eu gosto...—as palavras escaparam e os momentos com eles começaram a vir na minha mente, como gostas de chuva. E quanto mais elas me molhavam, encharcando todo meu corpo, tudo o que eu era, me dei conta de que as palavras eram verdadeiras. – Eu gosto de você Tom...
Era assustador. Aterrorizante. Muito mais do que invadir lugares sitiados por inimigos armados, prontos para te matar. Era apavorante a ideia de me abrir para alguém além de Deedee e meses atrás isso seria algo que nunca me passaria pela cabeça. Mas agora, na frente dos dois, por mais que eu estivesse me tremendo por dentro, eu me sentia segura para dizer o que eu realmente sentia. Mesmo que eu soubesse que isso poderia magoar um dos dois.
— Mas... – ele continuou e já havia certeza no olhar dele. Ele sabia o que eu diria. Olhou para o amigo e balançou a cabeça positivamente. Não havia mais raiva ali. Não havia tristeza. Só constatação.
— Tontom eu... – Cilan tentou, mas Tom o impediu, dando um sorriso sincero.
— De todas as pessoas do mundo, pelo menos foi para você, salada de alface, – deu um soco no ombro do sommelier e depois se virou para mim, – só faça dar certo, ok? – Pediu indo pelo mesmo caminho que Deedee tinha acabado de ir.
Cilan acompanhou o amigo com o olhar até que ele desaparecesse pela porta. Não deve ter levado meio minuto, já que estávamos a poucos metros da entrada principal, mas era como se cada passo do Ranger fosse pesado e isso desacelerasse o tempo. O sentimento de culpa ainda estava ali, opressivo. Mas também havia certo alívio.
Se as coisas não tivessem mudado.... Se eu não tivesse mudado tanto depois do primeiro ataque... Mas simplesmente nenhum de nós era o mesmo.
Deedee e Lila ainda tinham sua felicidade, sua bondade. Mas sua inocência havia se perdido. Clarice e Kara ainda eram grandes idiotas, mas não eram mais as mesmas garotas egoístas. E eu, a típica adolescente anti social, agora estava tão cercada por pessoas, que o mero pensamento de e mudar a fazia entrar em pânico.
Bastou um segundo para eu me dar conta de que havíamos ficado somente Cilan e eu ali. O rosto do garoto ainda tinha várias marcas de pequenos cortes, mas seus olhos verdes continuavam os mesmos.
— Então quer dizer que você gosta de mim? – Ele perguntou ainda meio desconfiado, se aproximando de mim. O suficiente para que eu pudesse sentir seu hálito.
— Parece que sim, – e por mais fodona eu fingisse que fosse o tempo todo, por dentro eu estava tremendo.
Eu nunca saberia dizer ao certo se ele tinha se inclinado primeiro, ou se fora meu corpo que havia se movido sozinho. Mas de uma hora para outra estávamos nos beijando. Como o oceano se chocando contra os penhascos de Nuvema durante as tempestades. Eu perdi a noção de espaço enquanto todas as barreiras dentro de mim eram aos poucos destruídas.
Seus lábios estavam colados aos meus e desta vez não havia medo, fuga ou dúvida. Éramos apenas nós. Cilan beijando Haila e Haila beijando Cilan.
A boca de Cilan se movia sobre a minha, macia, doce e quente como sol. Queimando meus lábios, minha pele, meus sentidos. Fazendo todo o meu corpo formigar. Enquanto eu arranhava suas costas, agarrando-me desesperadamente a sua camisa, trazendo seu corpo para mais perto do meu.
O beijo foi ganhando força, selvageria, desejo. Como se nós não fossemos mais pessoas diferentes. Como se precisássemos um do outro para que nosso coração pudesse continuar batendo. Duas partes de um único ser, desesperados por mais, enquanto nos afogávamos naquele oceano.
Eu o senti arfar em minha boca, em parte desejo, em parte dor por causa de suas feridas ainda se curando, mas ele não se permitira recuar, me trazendo ainda mais para perto dele. Me fazendo sentir cada pedaço de seu corpo. Me fazendo arder como se meu corpo estivesse coberto por chamas.
Ele estava me entregando todo o seu ser, enquanto eu podia sentir sua respiração, seu toque, seu coração batendo ferozmente contra o meu. E me afastar daquilo foi como se minha pele fosse arrancada aos poucos, se desprendendo dos meus músculos.
Eu arfava, meu peito subia e descia depressa, enquanto eu voltava a perceber que o mundo ainda existia em volta de nós, forçando meu corpo a se mover para longe do dele. E eu pude sentir o que isso lhe doeu enquanto eu via a ânsia em seus olhos, quase como um ser vivo e faminto.
— Estamos na frente da casa, – sussurrei para ele.
— Eu sei, – ele respondeu quase sem voz, voltando a fechar os olhos. Dando finalmente um passo para trás.
— Podemos conversar sobre isso depois? – Perguntei e ainda podia senti-lo em mim. Agora seu gosto estava na minha boca, seu cheiro na minha roupa e a sensação do seu corpo contra o me inundava.
Quando ele finalmente conseguiu voltar a me fitar, havia luz em seus olhos e de algum modo havia tantas palavras implícitas que palavras naquele momento não bastariam, mas por fim, tudo que ele respondeu foi, – claro.
Ele ajeitou a própria roupa no corpo e por mais que tentasse, não conseguiu conter o sorriso. Não precisei de muito para me dar conta de que não estava muito diferente. Uma hora atrás eu sentia que o mundo queria acabar comigo. Nesse minuto, eu sentia vontade de cantar.
Cilan se virou em direção à porta e me estendeu a mão, de forma casual, como se sempre tivéssemos andando de mãos dadas, – vamos entrar?
E por mais que eu ainda o quisesse, eu precisava de um momento para poder me recompor. Declinei, com um sorriso e ele foi em direção à porta, sumindo através dela. Meu corpo estava encharcado por uma sensação que eu não sabia descrever. Meu coração batia mais devagar, mas ainda forte em meu peito.
Quando toquei meus lábios com as pontas dos dedos, ainda completamente imersa na memória recente, Deedee surgiu ao meu lado. Por um momento me constrangi, mas no seguinte meus músculos relaxaram.
Ele estava com um pedaço de torta em um pratinho, faltando um pedaço pequeno. O fitei e seu olhar entregou que ele tinha roubado um pouco. – Eu não quis interromper.
— Você estava aí há muito tempo? – Perguntei sem olhar para ele. Não precisei para saber que ele continha um sorrisinho.
— O suficiente para pensar em pegar um extintor de incêndio.
— Disse o garoto que tem o apelido de incendiário.
Ele deu uma risadinha irônica, – não é desse tipo que eu estou falando. – Senti uma pontada de vergonha tão aguda que meu reflexo foi soca-lo imediatamente e de algum modo dele conseguiu desviar. – Aparentemente você ainda não totalmente recuperada. Bom para mim.
Me virei para ele e praticamente me joguei, tentando agarrá-lo. – Estou bem o suficiente para quebrar os seus dentes.
Ele deu uma gargalhada e saiu correndo em direção a casa, me obrigando a persegui-lo. Eu precisava lhe dar boas maneiras, se não ele acabaria perdendo todo o respeito.
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