Rota Zero
94 Um mês depois - Parte 2
Deedee
Um mês depois — Parte 2
O dia estava claro e bonito, o céu azul, as nuvens vagando lentamente pelo firmamento. Eu podia ouvir a algazarra da plateia que lotava o estádio, com cornetas e vozes animadas, como se dentro das paredes do estádio o mundo fosse protegido de todo mal e tristeza.
Havia um número razoável de treinadores ali, as roupas eram bem menos pomposas do que dá última vez e havia um silêncio sóbrio e reconfortante que era quebrado apenas pela barulheira vinda do lado de fora.
— Achei que o rosa era o mais excêntrico que você poderia chegar – uma voz disse animada. Meus olhos fitaram o rosto conhecido e sorri quando ele sorriu de volta. O cabelo tinha crescido, mas ele continuava igualmente pálido, Misha.
— Ah – passei a mão pelo cabelo, sem graça, o rosa tinha sido deixado de lado para que cada mecha assumisse uma cor diferente, como um reluzente arco-íris – coisa da Haila – ele me encarou confuso, provavelmente por não saber quem Haila era, mas sorriu novamente antes de complementar.
— Bom te ver, espero que possamos batalhar novamente – e se afastou, conversando com outras pessoas.
— Acho que ele gosta de você – Clarice me deu uma cotovelada, espiando Misha do outro lado do vestiário.
— Gosta? – Gaguejei, e instintivamente, Cheren veio a minha cabeça.
— Sim, você tem esse magnetismo natural que faz as pessoas se afeiçoarem a você – ela respondeu. Ah, era esse tipo de gostar e me senti aliviado ao perceber isso. – Talvez seja o mesmo comigo.
— Achei que você fosse apaixonada por mim – provoquei.
— Talvez eu seja, talvez eu tenha só confundido meus sentimentos – e Clarice falava aquilo de forma tão segura e confortável que parecia outra pessoa. Os acontecimentos em Castelia, a morte do Burgh, tinha a afetado mais do que qualquer outra pessoa e ela parecia muito mais madura agora.
Ficamos em silêncio, eu podia ver David, que estava sentado em um canto; Emma, e sua pequena Petilil tinha evoluído para uma graciosa Liligant; havia mais alguns rostos conhecidos, mas eu não me lembrava os nomes, Lila estava dando as últimas instruções aos Psyduck e parecia bastante nervosa.
— Ela está tremendo – Clarice também encarava Lila.
— Ela tem uma chance real de ganhar – disse displicente. – Bem, aparentemente Fantina mexeu uns pauzinhos e aqueles que tiverem o maior número de fitas vai para o Grande Contest em Sinnoh.
— Mesmo?
Eu não sabia de onde Kara conseguia essas informações, mas de acordo com a garota, por conta de tudo o que tinha acontecido em Unova, seria impossível exigir que os candidatos tivessem o número de fitas necessário, mesmo se uma mesma pessoa tivesse vencido todos os Contest que aconteceram, ainda não seria o suficiente. Então, Fantina aprovaria aqueles com o maior número de fitas. Lila, assim como David e Wilber, tinham uma fita, e chances muito mais reais do que as minhas, que não tinha vitória alguma. E falando em Wilber, meus olhos correram por todo o vestiário, mas não o localizei em canto algum.
— Você não parece muito interessada – comentei ao notar a expressão de desinteresse da garota.
— Bem, eu tinha desistido da carreira de coordenadora, estou aqui por mera formalidade – também conhecido como Elesa a obrigou.
— E o que você pretende fazer agora?
— Sinceramente, eu não sei. Poderíamos reabrir o ginásio, mas ele foi totalmente destruído. Além disso, muito provavelmente Louis assumiria o ginásio e não eu. E você? Você sempre disse que não tinha talento para Contest.
— Bom, eu acho que vou para Kanto por um tempo.
— Kanto?
— Acho que seria legal conhecer outros lugares – desconversei. Por mais que Clarice estivesse mais madura, eu não sabia quão bem ela reagiria ao ouvir que eu só estava indo por conta da Haila.
De repente, a voz de Cindy retumbou no vestiário e do pequeno monitor pudemos ver ela aparecer na arena e fazer as honrarias. O tom dela era animado como sempre e ela parecia a mesma da última vez que eu a tinha visto. Depois do discurso de introdução, ela apresentou os jurados do Contest, Elesa, como era de se esperar, Fantina, que era o principal motivo de haver tantas pessoas ali e Bianca, e eu não podia imaginar o que ela sabia sobre Contest. Antes de finalizar, Cindy apresentou um convidado especial, que estava ali apenas para dar sua opinião técnica, mas sem funcionar como um dos jurados efetivamente, Adizia Charleston, minha mãe.
Eu percebi todos do vestiário me encararem com suspeita e todo meu estado de torpor e relaxamento simplesmente desapareceu. E de repente, minhas mãos começaram a suar. Eu pude ouvir David fazer um comentário maldoso e Lila e Clarice me encaravam como se eu tivesse escondido um grande segredo, mas eu não sabia que a mulher estaria lá. Tínhamos conversado ao telefone no dia anterior, e ela não tinha me dito nada sobre estar em Nimbasa.
Depois das apresentações, Fantina assumiu o microfone e fez um discurso poderoso sobre luta e perseverança, mas minha mente não processava palavra alguma, tudo o que eu podia processa era o fato da minha mãe estar lá. Quando a líder de Sinnoh terminou, Cindy retomou o microfone e pediu um minuto de silêncio por todas as vítimas de Unova. As fotos de alguns coordenadores começaram a aparecer no telão, eu não lembrava da maioria daquelas pessoas, mas ali estava Wilber, com o mesmo sorriso vitorioso que exibira no Contest de Undella.
Cindy chamou o primeiro competidor e explicou as regras do Contest novamente. Depois de uma apresentação não muito impressionante, Fantina e Adizia discorreram sobre as técnicas usadas pelo competidor, que pareceu muito constrangido de ser analisado daquela maneira, com alguém apontando seus erros e acertos diante do público.
Ouvi Misha resmungar que esse tipo de avaliação era comum nas competições de Sinnoh e senti meu ânimo se esvair lentamente. Uma coisa era ter uma nota ruim, outra era ter alguém dizendo diretamente que você tinha perdido meio ponto por estar fora do tempo da música ou não ter feito a ação distribuída igualmente pelos lados da arena. E Adizia não pegaria leve por eu ser seu filho.
=8=
A maioria das apresentações foi bastante contida, quase como se nos sentíssemos culpados de exaltar a beleza naquele momento e as avaliações de Fantina e minha mãe não foram tão cruéis quando eu esperava. Lila fez sua apresentação com as bolas, Clarice fez uma apresentação tocante usando a Granbull e flores, a música quase fúnebre que as acompanhava era claramente uma homenagem a Burgh. Misha fez uma apresentação com sparkles coloridos e luzes junto do seu Ampharos, que certamente seria muito mais bonita de se ver a noite. As apresentações foram passando rapidamente, até finalmente chegar minha vez.
Eu não estava minimamente seguro daquilo, mas eu não podia recuar. Pisei no palco e pude ouvir vários burburinhos correndo a plateia. Eu não era só o garoto do cabelo esquisito, nem só o filho de Adizia Charleston, agora eu era um dos salvadores de Unova. Pude ver Haila e Kara sentadas quase atrás dos juízes e a loira sorriu quando nossos olhos se encontraram. Cilan, Skyla, Tom e Ben também estavam ali, acompanhados de Alana e a pequena Nissya, mas Cheren não estava em local algum.
Lancei a Pokéball no ar e tudo ficou em silêncio, como se eu tivesse sido transportado para outro lugar. Abóbora estava majestosamente no centro da arena, com uma fita colorida atada em uma das antenas, e com um movimento delicado, bateu a única asa que lhe restava. Uma controlada nuvem de areia se formou e lentamente os grãos se depositaram no chão de forma ordenada, até formar uma pequena construção, como um castelo feito por uma criança na praia.
Não era preciso ou perfeito, fosse porque Abóbora ainda não dominava totalmente seus poderes, ou por eu não ter treinado direito, mas o resultado estava bom. A música começou, uma b-side de um dos discos da Roxie, e pude notar uma careta no rosto de Elesa diante da escolha da música. A areia mudou de forma, formando a silhueta de pequenos Pokémon que logo foram destruídas por uma silhueta maior e amorfa, que lentamente se tornou um Zoroark. A música foi acelerando enquanto as figuras se intercalavam entre serem construídas e destruídas, Abóbora fazia quase tudo sozinho, eu apenas orientava vez ou outra. Algumas daquelas formas e como elas eram destruídas não eram parte dos meus comandos, e eu sabia que era a assinatura pessoal do Pokémon, a maneira como ele tinha visto a guerra.
As figuras se tornaram uma cidade, com suas casinhas desajeitadas, que foi destruída pela fúria do Zoroark de areia. Quando a música se tornou mais dramática, outra figura apareceu na areia, a silhueta delgada do Virizion. A areia em torno dele era mais brilhante e oscilava quase magicamente, reluzindo na luz da manhã. As duas figuras se digladiaram até que tudo explodiu em uma grande nuvem de areia fina e brilhante, por alguns instantes, apenas a luz do sol refletindo sobre o meu cabelo colorido podia ser visto através da nuvem que se desfazia, como um arco-íris nascendo após uma tempestade.
Eu ainda podia ouvir Haila me dizendo o quão arriscada aquela ideia era e poderia minar totalmente minhas chances no Contest se eu fosse mal interpretado, mas eu sentia que se eu ia me expor, então por que não o fazer daquela forma? Aquelas batalhas, as pessoas e Pokémon que tínhamos perdido não deveriam ser esquecidas, apenas porque era algo horrível de lembrar. Todo e qualquer menor sacrifício deveria ser lembrado, afinal era graças a esses pequenos feitos que ainda estávamos ali. E ela sabia que eu falava de cada pessoa que tínhamos encontrado no caminho, de Des, Lenora, Burgh, até mesmo do Grimsley, mas principalmente da Cassie.
— Certo, se você quer tanto fazer isso, eu vou te ajudar com os treinos do Abóbora – ela disse com um muxoxo e eu sabia que ela estava preocupada com o julgamento do Jaden, mas aceitou me ajudar. – Eu tenho uma ideia para o seu cabelo – disse por fim – se você busca tanto por redenção, então precisa ser um final de acordo.
E por isso, naqueles segundos, enquanto apenas meu pequeno arco-íris reluzia sob sol, enquanto a cortina de areia se desfazia, eu senti que tinha feito as escolhas certas e senti que se Cassie pudesse me ver, ela teria muito orgulho de quem eu tinha me tornado, e isso bastava para mim.
O silencio que se seguiu após a minha apresentação fora ensurdecedor, eu podia ver a plateia me encarar, ainda em choque, inclusive minha mãe. Havia algo nos olhos dela que pareciam um misto de orgulho e medo, como se houvesse uma parte de mim que ela não reconhecesse mais.
Haila ficou em pé e começou a me aplaudir, seguida de Kara e lentamente, o ginásio se encheu de um aplauso contido. Elesa queria aquele circo para as pessoas se esquecerem da guerra, e eu tinha acabado de abrir aquela ferida. Esperei pelos comentários de Fantina ou minha mãe, mas as duas simplesmente me estudavam, então fiz uma pequena reverência, que Abóbora acompanhou delicadamente e nós retiramos da arena.
Quando cheguei ao vestiário, Lila me encarava com os olhos úmidos e havia um clima bastante desconfortável, mas apesar de tudo, eu me sentia bem em ter feito aquela apresentação e estava orgulhoso de como Abóbora tinha se saído.
=8=
As notas demoraram a sair e surpreendentemente Clarice tinha ficado em primeiro lugar. Ela ficou espantado quando viu seu rosto através do monitor com uma pontuação perfeita. Lila, Micha, David e Emma também tinham passado para a segunda rodada, junto de outros candidatos. Meu rosto apareceu ocupando a última vaga, enquanto Elesa e Bianca tinham me dado notas altas, Fantina tinha arrastado minha pontuação para baixo, mesmo assim, eu ainda tinha o suficiente para avançar para a fase de batalha.
A primeira batalha apareceu no telão, Clarice contra uma garota com um Zebstrika. Foi uma luta rápida, a Granbull avançou com velocidade e uma precisão de comando que eu nunca vira Clarice fazer. Ela sequer precisou deduzir os pontos da adversária, com dois ataques, mandou o outro Pokémon para fora da arena. E por mais que ela dissesse que não estava mais interessada em Contest, ela entrou no vestiário com um sorriso satisfeito e até sua Pokémon carrancuda parecia sorrir.
Lila foi a próxima, contra um garoto com um Conkeldurr, e fosse porque Kara tinha um desses, ou porque realmente os treinos das garotas tinham surtido algum efeito, Lila venceu facilmente com a ajuda de Bulba. Quando eles retornaram para o vestiário, o Psyduck mandou um beijo apaixonado na direção de Grangran, que a Pokémon fingiu não ver.
As lutas de David e Misha também foram bastante curtas, os dois venceram sem grandes dificuldades. Minha cara apareceu no telão e eu batalharia contra uma mulher com um Vanilluxe e meu estomago revirou, ela tinha vantagem sobre o meu tipo.
Cindy fez as honras e apresentou os dois lados, os placares apareceram e então a batalha começou. A mulher comandou um ataque assim que Cindy saiu do caminho e tudo o que Abóbora conseguiu fazer, foi saltar para o lado desviando do raio de gelo. Minha mente trabalhava tentando achar uma estratégia. Mas nada do que eu pensava eu poderia usar, não ali. Eu passara meses travando batalhas sem regras, onde todos os meus Pokémon podiam estar em campo, não importava se era feio, violento, errado ou cruel, o que importava era vencer. Mas eu não podia fazer aquilo ali, onde cada bater de asas e ataque certeiro contava pontos de beleza e graça.
— Sand Attack – ordenei, eu precisava ganhar tempo para pensar. Eu tinha desvantagem de tipo, mas Abóbora tinha experiência no campo de batalha, isso deveria servir. – Sand Tomb.
A cortina de areia se tornou um turbilhão em volta do Pokémon sorvete e o lançou rodopiando para fora da arena. Eu não pude deixar de sorrir, não era a minha intensão um ataque tão preciso. Ataque esse que só tinha ensinado ao Abóbora por insistência da Haila, mas tinha sido bastante útil. A mulher resmungou ao ver o Pokémon abatido, mas não havia nada que ela pudesse fazer. Abóbora deu um saltinho feliz, era sua primeira vitória em um Contest e ele não se cabia em felicidade. E aquilo me contagiou, não custava nada me dedicar um pouco mais durante as batalhas.
Depois de mais algumas batalhas, a primeira rodada terminou e fomos para a segunda rodada. Lila enfrentou um garoto com um Pokémon fantasma, foi uma luta sem graça, que ela venceu sem suar. David praticamente dizimou seu adversário, que mal conseguiu coordenar seus ataques diante da agressividade com que David comandava seu Serperior.
Clarice e Misha se enfrentaram em uma batalha extremamente demorada, era visível que Misha tinha muito mais estratégia, mas a batalha em Castelia tinha deixado Clarice mais determinada e resiliente. Cada ataque era preciso e bem executado e os pontos nos placares iam diminuindo vagarosamente. A batalha acabou por tempo, Misha com dez pontos a mais do que a garota.
Ela não parecia abatida com a derrota, havia uma expressão confiante como se tivesse feito a melhor batalha de sua carreira. Quando ela voltou para o vestiário, Lila lhe deu um grande abraço de consolação que desajeitadamente Clarice retribuiu.
Subi na arena, Emma do outro lado. Aquele não era meu dia de sorte, outro Pokémon com vantagem sobre meu Vibrava. Respirei fundo e Abóbora deu um ruído confiante. Quando mais rápido eu a tirasse do campo de batalha, seria melhor.
Comecei com na batalha anterior, uma mistura de Sand Attack e Sand Tomb, mas a Liligant fixou suas raízes no chão da arena, o tornado de areia causou algum dano e despetalou a flor sobre sua cabeça, os pontos foram deduzidos, mas a Pokémon teria chance de revidar e o fez rapidamente com um Mega Drain.
Uma das raízes atravessou o chão da arena e se prendeu em uma das patas do Abóbora, então a Pokémon reluziu, enquanto suas escoriações sumiam e as pétalas perdidas nasciam rapidamente. Meu Vibrava, por outro lado, fraquejava e arfava enquanto tentava soltar a pata da raiz. Meus pontos foram deduzidos e todo o meu esforço com o ataque combinado tinha desaparecido.
Emma comandou um novo ataque e Abóbora só teve tempo de desviar. Eu precisava de um plano, mas eu não conseguia pensar em nada. Talvez fosse porque minha mãe estava assistindo e balançando a cabeça negativamente para cada comando que eu dava, eu parecia rodar apenas em círculos. Atrás da minha velha, Haila gesticulava loucamente. E eu não precisava entender nada daqueles braços balançando para saber que ela estava furiosa com a minha falta de ação.
Haila era quase uma especialista em Pokémon de planta, eu conhecia quase todos os ataques que Emma estava usando, eu não deveria vacilar tanto assim. Emma tinha feito outro ataque, e apesar de Abóbora ter desviado, meus pontos tinham caído pela metade.
— Petal Dance – a garota ordenou confiante, era um ataque poderoso, mas que precisava de segundos de preparação e deixava a guarda totalmente exposta.
— Earth Power – e Vibrava se pôs em posição, o chão vibrou antes de uma coluna de pedra surgir e atingir a Liligant, as pétalas que se formavam em torno dela caíram no chão e a Pokémon foi lançada do outro lado da arena. Eu tinha usado aquele ataque pouquíssimas vezes e era a primeira vez que Abóbora o executava com tamanha precisão e força. A Pokémon tentou se pôr de pé, mas as pernas folhosas falharam e ela foi o chão.
O placar de Emma apareceu, descontando os pontos da garota até chegar ao zero e Cindy encerrou a partida.
Lila me cumprimentou com um abraço quando cheguei ao vestiário, feliz pela minha vitória. Eu tinha vencido, e embora Abóbora estivesse feliz, aquilo não tinha o gosto da vitória. Eu tinha vacilado diante do olhar reprovador de Adizia, e eu não podia vacilar diante disso, eu tinha enfrentado coisa muito pior na guerra. E mesmo que eu não tivesse pretensões reais de vencer o Contest, ainda era uma batalha e se eu não estava fazendo aquilo pelas minhas ambições, estava fazendo pela memória da Cassie e pela felicidade de Abóbora.
As semifinais começaram com as narrações exageradas de Cindy, e os primeiros competidores apareceram no telão: Lila contra Misha. O que me deixava com David. Ele deu um sorrisinho quando viu minha expressão de desagrado. Seu Serperior, muito maior do que o de Haila, se enrolou perigosamente aos seus pés e senti Abóbora vacilar diante daquela presença ameaçadora.
Lila e Misha se acomodaram cada qual em um lado da arena e se cumprimentaram com um sorriso cordial, o grande Ampharos contra o pequeno Bulba, e eu não queria ser negativo, mas havia grandes chances da Lila ser dizimada.
Os placares mal tinham aparecido sobre o campo quando Misha ordenou um Thunder Shock tão intenso que o campo se cobriu de eletricidade e os holofotes mais próximos explodiram fazendo a plateia se agitar. Os monitores no vestiário piscaram junto com as luzes e quando a imagem voltou, eu podia ver os cabelos do garoto, Lila e Cindy bagunçados pela estática. Eu esperava ver Bulba apagado no meio da arena depois de tamanha descarga elétrica, mas ele estava protegido atrás de uma parede transparente. O Reflect que tinha nos salvado tantas vezes.
Lila reagiu se lançando para o ataque, mas Ampharos desviou habilmente. Enquanto assistia a batalha me perguntava o que tinha acontecido com Asta, o Manectric que eu havia enfrentado em Undella.
— Morreu durante um ataque da Team Plasma – David rosnou, me encarando atravessado – pelo jeito você não consegue salvar todo mundo, herói.
Só então percebi que tinha murmurado as palavras alto o suficiente. David partiu para o outro lado do vestiário e Clarice se acomodou do meu lado.
— Misha é de Black City – a menina explicou.
— Oh.
— Não é culpa sua a morte do Asta – ela tentou me consolar.
— Eu sei – respondi firme.
— Então não se culpe...
— Eu não estou.
— Não é o que a sua cara está dizendo – e nos encaramos, eu não fazia ideia de que cara eu fazia, mas por mais que eu não me sentisse realmente culpado, não podia negar que aquele sentimento de que eu poderia ter feito mais por Unova ainda existia. – O Misha está feliz com a Yuni, é isso que importa agora, não é? – Ela tinha amadurecido um bocado e tinha razão.
Minha atenção voltou para o monitor. Os placares de Misha e Lila estavam empatados, com quase nenhum ponto sobrando, e os dois Pokémon pareciam bem cansados. Misha ordenou um novo ataque e o corpo de Yuni brilhou, com faíscas voado por todo lado. Bulba (e a arena) não iriam suportar um novo Thunder Shock. Ele liberou o ataque ao mesmo tempo em que Lila ordenou um surf. E a parede de água se chocou contra a explosão elétrica. O impacto das duas forças criou uma fumaceira absurda e um cheiro de queimado possível sentir do vestiário. Quando finalmente a coluna de água se desfez, Yuni estava em pé no centro da arena, o pelo ligeiramente carbonizado. Ela tinha ficado presa entre o surf e o próprio ataque e tomado parte dos danos. Do outro lado, Bulba não parecia em condições muito melhores, ele estava molhado e parte das penas estavam chamuscadas, o resto das forças reunidas para se manter em pé, os pontos de ambos foram deduzidos, pela agressividade e falta de graciosidade do ataque.
Cindy começou a discorrer como aquilo era uma apresentação e não uma batalha, e não era a primeira vez que ela usava aquele discurso. Ela tinha dito as mesmas palavras durante a batalha de David, mas por mais que ela tivesse razão, era difícil desassociar as batalhas com uma luta pela vida. Enquanto ela continuava seu discurso, Yuni fraquejou e foi ao chão, completamente apagada. Misha invadiu a arena, abraçando a Pokémon e Lila aproveitou para fazer o mesmo e conferir se Bulba estava bem. Ela então caminhou até o garoto de Black City e liberou Charmander, usando o Aqua Ring no Ampharos desmaiado.
Apesar de haver uma ambulância do Centro Pokémon disponível, a plateia aplaudiu a atitude de Lila emocionadamente. A dupla saiu da arena, acompanhada de seus Pokémon, sem esperar pelo resultado da batalha; em tese, ambos tinham invadido a arena antes do final da batalha e deveriam ser desclassificados, mas a mesa julgadora votou pela vitória de Lila, fosse pelo fato de Bulba ainda permanecia de pé ou pela atitude nobre que ela tivera.
Depois que os ânimos da plateia se acalmaram, Cindy chamou os próximos competidores. Clarice se despediu me desejando boa sorte, mas o clima entre David e eu não era nada bom enquanto nos encaminhávamos para a arena.
— Eu nem deveria tentar, claro que eles vão dar um jeito do grande salvador de Unova vencer – David provocou assim que assumimos nossas posições. – Mas para o seu azar, meu Serperior come insetos como o seu no café da manhã.
Abóbora balançou a única asa violentamente enquanto Serperior sibilou. Eu nunca tinha vencido uma batalha contra o David e aquela não seria fácil, mas eu não iria desistir. Eu iria faze-lo engolir aquelas palavras venenosas contra o meu Vibrava. Se eu vencesse, teria que enfrentar Lila na final, o que não me agradava, mas eu pensaria naquilo depois, meu foco seria todo em destroçar David e tirar aquele risinho prepotente da cara.
— Eu vou acabar com isso bem rápido – David cantarolou do outro lado do campo.
Ele começou com um salto na direção da Abóbora, um bote perfeito, com tinha tentando contra o Skarmory. Abóbora saltou para o lado, desajeitadamente. Serperior repetiu os ataques enquanto meu Pokémon se esforçava para desviar.
A última batalha contra Emma tinha sido mais demorada do que eu esperava e Abóbora não era acostumado a ficar muito tempo em campo, já o Serperior do David parecia em plena forma. Eu precisava de um plano.
— Abóbora, Sand Attack – gritei e a cortina de areia se fechou rapidamente sobre a arena. Não que aquilo fosse suficiente, mesmo que de forma mais lenta, Serperior ainda conseguia encontra-lo no meio da arena. – Abóbora, lembra da nossa apresentação?
Não precisei dar outro comando, rapidamente, ele controlou a cortina de areia e quando Serperior o encontrou, saltou abocanhando um Vibrava feito de areia, oculto pelo turbilhão da tempestade de areia que ainda fustigava a arena.
— Agora – gritei e uma coluna de pedra surgiu sob o Pokémon, mandando-o para o outro lado. A cortina de areia se desfez a tempo de David ver seu Pokémon ser atingido por um Earth Power perfeito.
O placar dele surgiu deduzindo seus pontos pela metade e ele espumou furioso.
— Cadê seu Serperior assustador agora? – Provoquei e ele pareceu ainda mais bravo.
— Serperior, Leaf Tornado – e basicamente ele tinha usado meu truque contra mim. Uma tempestade, só que de folhas se formou varrendo a arena e atingindo Abóbora. Ele foi arremessado para trás, em meio as folhas afiadas que voavam desordenadas. Meu placar apareceu, reduzindo pontos, mas eu não tinha tempo para me preocupar com isso.
Em meio a tempestade de folhas, Serperior saltou novamente, a boca aberta para um bote preciso. Abóbora se desesperou e deu um pequeno salto, agitando a única asa em um malformado Steel Wing que ele não sabia fazer e nem conseguiria. Foi a brecha que David precisava. Serperior atravessou a guarda baixa e enrolou o corpo em um aperto enquanto as presas imobilizavam a única asa restante.
— Abóbora – gritei enquanto ele se debatia tentando se libertar, mesmo que agora ele fosse um Vibrava, eu ainda o via como meu pequeno Trapinch que mordia meus cadarços. Eu precisava de uma estratégia, mas não havia o que ele pudesse fazer naquela situação – Não desista, lute!
E talvez movido pelas minhas palavras e por tudo que havíamos passado juntos, os olhinhos brilharam antes dele cravar os dentes na pele escamosa. Os dentes eram muito menores do que quando era um Trapinch, mas a força da mordida ainda era mesma, pude ver ele forçar as presas pontudas até rasgar a pele escamosa e o sangue começar a jorrar. Serperior se desenrolou, se afastando o suficiente e deixando um rastro vermelho no chão da arena. Meu placar apareceu e os pontos foram deduzidos, parte por ter tomado o ataque e parte por ter usado uma estratégia desesperada para conseguir me safar.
— Isso é um absurdo – David rugiu. – Esse seu ataque é digno de desclassificação e você só vai perder uns pontos – enquanto ele gritava, eu podia ouvir uma agitação na plateia. – Mas é claro que seria assim, quem iria mexer com o filhinho da mamãe – e os olhos presos na minha mãe, que tinha uma expressão bastante avessa no rosto. – Agora que você é uma celebridade, o grande salvador de Unova, com um monte de gente para abrir o caminho para você, deve estar se achando – ele apontou o dedo acusadoramente.
— Se eu tivesse passado por ser filho da Adizia, teria ficado em primeiro lugar, não?
— É claro que eles não iam deixar tão na cara, você acha que eu sou idiota? – Achava. – Você acha que só porque você é o salvador de Unova eu vou ter medo de um moleque magrelo que nem você? Aposto que você ficou escondido todo esse tempo atrás dos líderes de ginásio e só roubou os créditos no final.
— David, já chega! – Elesa se pôs de pé, mas foi prontamente ignorada.
— E estou dizendo alguma mentira? Alguém acha mesmo que esse garoto que nunca sequer ganhou um Contest conseguiria proteger alguma coisa? – Sorriu desdenhoso. – Você sequer deveria ter sido aceito no evento, um Pokémon estupido com uma asa só, isso é uma piada? Contest é sobre beleza e graça, o que um Pokémon defeituoso tem a ver com isso? Ah é, você é amigo pessoal da líder de Nimbasa e filho da grande Adizia Charleston. – Senti meu sangue ferver diante daquelas palavras. – Eu exijo que ele seja desclassificado.
— O movimento não foi primoroso, mas não o suficiente para uma eliminação – Fantina falou pomposamente, mas David continuou gritando, exigindo minha desclassificação e logo uma parte da plateia o acompanhava em coro.
— Você não se garante na batalha? – A voz de Adizia retumbou alta, enquanto ela se levantava ao lado de Elesa. – Você não disse que seu Serperior comia Vibravas no café da manhã? Não está parecendo...
— Escuta aqui, sua velha, não se meta, você está aqui só para se aparecer, suas avaliações nem valem nada nessa competição. – Minha mãe fechou a cara diante da ofensa. – Você é um frouxo mesmo, não basta essa anomalia que você chama de Pokémon, precisa ser defendido pela piranha da sua mãe! – E aquilo era a gota d’água. Ele podia falar de mim, provocar, mas falar mal do Abóbora ou da minha mãe não iria passar batido.
Atravessei a arena e voei para cima dele. Em segundos, nós tínhamos nos engalfinhado, trocando socos e chutes. Eu podia ouvir a plateia, os apelos de Cindy, até mesmo os sons de Abóbora e Serperio, confusos com nossas ações. Senti mãos tentando nos separar, e eu já não sabia mais para onde meus socos e pontapés estavam indo. De repente, a algazarra toda se calou e eu vi que tinha acertado Adizia, que tentava nos apartar. Ela me lançou um olhar mortal, antes de me arrastar para um lado, enquanto Bianca fazia o mesmo com David. Cheguei no vestiário esperando que a velha fosse me xingar de todos os nomes possíveis, mas ela tinha um risinho no rosto.
— Não vai me xingar?
— Por colocar sua chance no Contest em risco sim, mas foi lindo ver você socar aquele cretino.
— O que vai acontecer agora? – E só então percebi que meu nariz estava sangrando.
— Eu diria desclassificação – ela colocou as mãos na cintura. A bochecha estava começando a inchar.
— Como você está? – Me voltei para Abóbora que parecia um tanto amuado. Eu só podia supor que era por conta das palavras de David. Eu ainda sentia meu sangue borbulhar, horas antes ele estava tão feliz por ter sua primeira vitória em um Contest e agora ele estava cabisbaixo após ser chamado de anomalia. – Não é culpa sua – me abaixei e coloquei a mão sobre a cabeça. – Você foi incrível e eu estou muito orgulhosos de você – sorri. E ele pareceu se sentir um pouco melhor. – Tudo o que conseguimos hoje foi porque trabalhamos juntos, não é? – E ele fez um ruído satisfeito.
— Você ficou maluco? – Elesa entrou como um tornado no vestiário. – O que foi aquilo, Sra. Charleston, a senhora não deveria ter se metido no meio da briga daquela forma?
— O garoto me ofendeu – a mulher se empertigou.
— Eu entendo, mas esse tipo de violência... – a modelo deu um muxoxo. – E você não poderia ter se controlado? – Ela me encarou.
— Não – saiu automaticamente. – Quer dizer...
— Eu te entendo, vocês dois – ela se dirigia a minha mãe também. – Mas isso era para ser um evento feliz, para as pessoas se esquecerem da guerra e não bastou sua apresentação ter tacado a realidade na cara deles, vocês batalham como se fossem se matar e terminam saindo no braço como um bando de bandidos?
— Foi você quem achou que seria uma boa ideia todo esse circo – retruquei. E tinha mesmo virado um circo, mas não da maneira como a líder esperava.
Ela abriu a boca, como se fosse retrucar, mas mudou de ideia.
— Sabia que suas ações vão ter consequências – disse antes de sair.
Assim que Elesa saiu, o silencio desceu entre nós no vestiário e eu nunca desejei tanto que Clarice ou Lila estivessem ali. Lila ainda deveria estar na ambulância do Centro e Clarice, eu não fazia ideia.
— Eu sinto muito – disse diante do silêncio opressor – por ter falhado e não ser motivo de orgulho para você. –Nos encaramos demoradamente.
— Realmente – ela cruzou os braços diante do corpo – você é uma decepção – ela disse sem rodeios. – Eu passei toda a minha vida tentando te direcionar para o caminho certo, te transformar em um coordenador que eu pudesse ter orgulho e que carregaria o nome dos Charleston sem nenhuma mácula. Alguém para assumir não só o meu legado, mas o de todas as gerações da nossa família. Alguém que seria um coordenador melhor do que eu jamais seria. E você não é nenhum um terço do que eu, Adizia Charleston, esperava. – Eram palavras duras e cruéis, mas eu as conhecia, eu tinha vivido toda a minha vida a sombra daquele sobrenome, daquela mulher e dos seus incríveis feitos. – Eu olho para você, e existe uma parte sua que eu não reconheço mais – ela prosseguiu. – Tem uma selvageria no seu olhar, uma força nos seus ataques que eu nunca vi jamais nenhum Charleston fazer antes. E existe essa união e fidelidade com seus Pokémon – ela lançou um olhar caloroso para Abóbora – e eu nunca esperei que você, que sempre foi indiferente aos Pokémon, pudesse criar um vínculo dessa forma dessa forma. E por mais que exista uma parte minha que não te reconheça mais, uma parte minha que se sente culpada por ter te obrigado a sair de casa e fazer uma escolha, uma parte minha que fez você ir de encontro com a guerra... – as palavras oscilaram e os olhos estavam úmidos – eu, como sua mãe, tenho muito orgulho da pessoa que você se tornou.
Aquelas palavras foram quentes e acolhedoras, sem as típicas cobranças que Adizia sempre fazia. Não era só eu que me sentia culpado por ter errado, ela também se sentia culpada por toda a pressão que tinha colocado nos meus ombros. Nos abraçamos e foi um abraço confortável e sincero e embora nós sempre tivéssemos nos amados, apesar das nossas diferenças, aquela era a primeira vez que isso parecia tão tangível.
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Eu estava na arena ladeado por Lila, Misha e David. A plateia tinha se acalmado e minha mãe tinha voltado ao seu lugar. Eu podia ver a expressão apreensiva no rosto da Haila e aquilo me deixava ainda mais nervoso. Achei que Cindy iria começar com seu discurso habitual, mas Fantina pegou o microfone.
— Amigos, nos reunimos aqui hoje para um momento de festa e alegria – a voz dela era profunda e poderosa. – Um momento para lembrar a beleza e a comunhão com nossos Pokémon. Um momento para pensarmos em todos os momentos bons que vivemos até agora. E claro, tivemos um show belíssimo, apresentações de danças lindas e comoventes. Um show de luzes tocante – ela delicadamente apontou para Misha – uma grande homenagem ao Burgh, um dos mais notórios líderes de Unova – e os olhos dela se fixaram em Clarice que agora estava na plateia, ao lado de Haila. – Então tivemos batalhas de tirar o folego – ela disse empolgada, caminhando pelo tablado – lutas que foram verdadeiras obras de arte. – Mas tivemos uma amostra de que nem tudo pode ser apagado ou esquecido – os olhos vagaram para David e depois para mim. – A guerra sempre vai deixar marcas profundas em todos nós, e pode nos tornar pessoas violentas, invejosas e irracionais. Pessoas que acham que a violência é a melhor saída para as adversidades, pessoas que não podem enxergar a beleza além da verdade plastificada a qual fomos condicionados. Mas... – fez uma pausa dramática – sempre haverá pessoas para mostrar que a arte não é apenas beleza, haverá pessoas para mostrar garra, mostrar determinação, mostrar solidariedade – e os olhos se prenderam em Lila – pessoas que vão nos mostrar que devemos ser bondosos e complacentes, pessoas que vão usar a arte para despertar o melhor em nós. E eu espero que essa seja a maior lição que aprendemos hoje, que no final sempre haverá esperança e caridade – ela terminou com convicção e a plateia aplaudiu apaixonadamente.
— Assim – ela retomou fazendo sua voz ficar mais altas que os aplausos – nós, da banca de juízes, e a senhora Charleston, decidimos pela desclassificação de David Elser e December Hanks.—A plateia reagiu e pude ver uma expressão tristonha no rosto de Clarice e Haila, mesmo que elas não parecessem surpresas com a decisão. – Por suas práticas desportivas e falta de compreensão dos objetivos de um Contest. Dessa forma, a senhorita Lila Davis é a grande vencedora do Contest – disse com um floreio exagerado – não apenas por sua magnifica atuação como coordenadora, mas por seu espirito de grupo. – A plateia aplaudiu calorosamente, seguido de vários gritos e incentivos. Lila parecia não entender bem a situação, mas um sorriso bobo se formou nos lábios.
Com isso ela tinha duas fitas, e era, de uma maneira muito estranha e torta, a maior vencedora de Contests daquele ano. E eu estava muito contente por ela.
— Como tínhamos dito anteriormente, serão duas vagas para o Grand Contest e decidimos, por unanimidade, que Misha deve receber essa oportunidade, pelas batalhas magnificas que ele nos demonstrou – A plateia aplaudiu novamente, enquanto Misha dava um sorriso bem mais contido. Ele parecia um pouco desconfortável com a “vitória fácil” e o sorriso sumiu quando David resmungou que ele não tinha nenhuma fita e não deveria ser merecedor do prêmio.
Fantina o encarou com visível desagrado, mas como o som dos aplausos cobriu o comentário ácido, ela se restringiu. Ela então finalizou com um floreio quando as palmas cessaram e convidou todos os competidores a participarem dos Contest em Sinnoh, se assim desejassem.
A cerimônia de premiação foi bonita, havia chuva de papel picado e glitter voado por todo lado, enquanto Fantina entregava as fitas para Lila e Misha, o prêmio vinha acompanhado de uma ficha de inscrição para o Grand Contest e uma passagem de avião para Sinnoh. Bulba e Yuni, agora recuperados, ganharam coroas de flores e faixas coloridas. Houve vários aplausos, fotos e em determinado momento, Haila e Kara invadiram o palco, abraçando a garota efusivamente.
Cumprimentei Misha e a garota e voltei para o vestiário, pegar minhas coisas. David já tinha saído e não tinha mais ninguém por lá. Encarei aquelas paredes e me senti um tanto melancólico, eu não tinha vencido nenhum Contest e por mesmo que repetisse que nada daquilo me interessava, como um mantra. Eu sabia que meus companheiros tinham se esforçado muito para chegarmos até ali e eu gostaria de ter dado algum orgulho a eles.
— Você sabe que violência dentro do Contest é uma atitude condenável – me virei e Fantina estava na porta. Era a primeira vez que ficávamos tão próximos e ela parecia muito mais alta. – Mas você tem talento – ela complementou.
— Obrigado – disse sem jeito.
— Sabe, no meu primeiro grande Contest, eu estava muito nervosa, principalmente porque sua mãe estava lá. Ela estava grávida e era o último evento oficial dela, mesmo assim, ela dizimou todos os concorrentes, eu sequer tive chance – ela deu um sorriso nostálgico. – Sua mãe é uma mulher incrível, mas ela tem o dom de eclipsar as pessoas em torno dela – finalizou condescendente. – E creio que o mesmo aconteça com você... – ela se aproximou e me estendeu uma passagem para Sinnoh.
— Isso não é só para os vencedores do Contest? – Perguntei desconfiado.
— Não é como se fosse uma vaga para o Grande Contest, é só uma passagem. Elesa me disse que você é bastante amigo da Lila, achei que gostaria de acompanha-la – mas por mais que as palavras soassem levianas, eu sabia que havia mais ali. – Como eu disse, você tem algumas atitudes condenáveis, mas um grande talento...
— A nota que você me deu na apresentação parece ir em desacordo com isso – interrompi.
— Sua apresentação foi muito sensível e tocante, e eu diria que foi uma das melhores, mas minha função aqui é julga-lo tecnicamente e você ainda precisa de muita técnica. Mas é por isso que eu estou aqui, você é um diamante que precisa ser lapidado e não acho que isso irá acontecer se você ficar na sombra da sua mãe – e eu podia ver através dos olhos escuros que ela estava sendo sincera e acreditava mesmo no meu potencial. – Se você aceitar, e se interessar, eu posso te tornar meu pupilo.
— Eu não...
— Aceite a passagem, mesmo que você não tenha interesse, você pode acompanhar sua amiga – ela empurrou a passagem na minha mão e saiu, com o vestido roxo bruxuleando atrás de si. Encarei a passagem meio amassada nas mãos, eu nunca tinha levado minha carreira de coordenador a sério e nunca ninguém pareceu me levar a sério, aquelas palavras de Fantina tinham causado em mim um efeito maior do que eu esperava.
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Minha mãe ficou até o dia seguinte, almoçamos juntos, e ela simplesmente decidiu me arrastar por todos os cantos de Nimbasa, ela falava pelos cotovelos, falando sobre suas missões em Aspertia, me perguntando sobre a guerra, comentou outras frivolidades que eu não dei muita atenção, mas eu gostava de ouvi-la falar. Aquilo desviava minha atenção do julgamento e dos depoimentos que eu teria que fazer em breve.
Por várias vezes ponderei em contar sobre o convite de Fantina, mas sempre desistia. Eu sentia que era algo que eu deveria escolher sozinho, sem influências negativas ou positivas. Eu tinha prometido a Haila que iria para Kanto, e eu não conseguia me imaginar sem ela, parecia a escolha óbvia a se fazer, por outro lado, sair da sombra da minha mãe e seguir meu caminho como coordenador parecia uma daquelas raras oportunidades que eu não deveria desperdiçar.
O dia tinha sido bastante agradável e leve, como eu não tivera desde que deixa Aspertia. Era quase como se a guerra e todas as sequelas não existem durante aqueles minutos ao lado da minha velha. E se viver sobre a sombra de Adizia poderia ser um fardo, estar com a minha mãe era um momento feliz.
Eu esperava que ela fosse ficar até após o julgamento, mas ela partiria naquela noite. Segundo ela, meu pai precisava dela e ela só tinha aceitado o convite porque Fantina fizera muita questão. Foi com ela até a estação, de onde ela pegaria um transporte até um porto improvisado que a levaria até Virbank e Aspertia, nos despedimos de forma calorosa e prometi voltar para casa assim que o julgamento acabasse.
Havia um clima tenso quando voltei para a mansão de Elesa, o julgamento seria no dia seguinte e a maioria de nós deveria depor. Alana estava no jardim com Ben, e eles me cumprimentaram com um aceno quando passei por eles. Quando entrei podia ouvir barulhos na cozinha, e as vozes animadas de Kara e Lila se destacavam. Eu estava cansado e fui direto para o quarto. Desabei na cama e quando acordei, achei que fosse de manhã, mas ainda estava escuro.
Tentei voltar a dormir, mas fiquei virando na cama. Eu julgava estar nervoso por conta do julgamento, mas eu não tinha tanta certeza disso. Levantei e descia as escadas. Quando passei pela biblioteca a luz estava acesa e pensei em conversar com Cheren, mas da porta aberta podia vê-lo sentado na mesa; ele estava com a cabeça apoiada no tampo, adormecido. No sofá, Nissya dormia profundamente. A biblioteca estava parcialmente arrumada, com caixas de papelão por todo lado, aparentemente, ele estava se preparando para voltar para Aspertia.
Passei direto e fui para a cozinha, até chegar ao jardim dos fundos. Estava uma noite agradável e sem vento. As estrelas estavam bonitas no céu e a cidade estava totalmente silenciosa, como se dormisse profundamente. Meu nervosismo não era por conta do julgamento, a passagem para Sinnoh estava enfiada no meio da bagunça da minha mochila e eu vinha tentando não pensar naquilo, mas o Grande Contest seria em algumas poucas semanas e eu precisava tomar uma decisão.
Eu sabia que Lila ficaria feliz, eu sabia que Haila ficaria chateada, eu não sabia como minha mãe reagiria e eu não tinha certeza do que escolher. Era o destino da minha vida, eu não poderia fazer uma escolha leviana sobre isso, decidir entre Kanto ou Sinnoh, ou até mesmo por permanecer em Unova afetaria toda a minha vida e não só a minha.
Peguei as Pokéball do bolso e libertei Bacon, Marsh, Abóbora e Chiclete. Todos estavam recuperados de seus ferimentos e me encararam curiosamente.
— Eu admito que nunca fui um treinador muito bom – comecei e pude ver o receio cruzar os olhos escuros. – Eu nunca fui muito disciplinado, nem levei o treinamento de vocês a sério – minhas mãos se esfregaram nervosamente. – Eu não sei o quão bem vocês podem me entender, mas eu acho que precisamos ter essa conversa.
“Haila – e os olhinhos brilharam e Abóbora até fez um ruído alegre, – sim, eu sei que vocês gostam dela. Ela vai viajar para um lugar muito distante e nos convidou para ir com ela, e eu pensei em aceitar – eles fizeram barulhinhos animados e eu podia entende-los, não era só pela Haila e pelo carinho que eles tinham por ela, mas também pelo vínculo que nossos Pokémon tinham criado. ”
“Mas, recentemente, uma outra pessoa, a mulher do Contest, ela me convidou para irmos para outro lugar – e eles pareceram intrigados – essa mulher, a Fantina, ela disse que gostaria de treinar a gente, para que possamos ter mais chances em um Contest. Os Contest em Sinnoh são mais difíceis, vocês sabem e vai exigir muito mais de todos nós – eles murmuraram entre si e pareciam bastante animados com a possibilidade. Os olhos de Chiclete brilharam em expectativa, assim como os de Abóbora e Marsh se ajeitou pomposamente como se aquela fosse sua chance de brilhar. ”
“Eu... eu não sei qual das duas opções escolher, é uma decisão muito importante para todos nós – respirei fundo – eu quero muito estar com a Haila, mas eu sei que vocês gostam muito de participarem dos Contest, e de alguma forma, eu sinto que temos alguma chance em Sinnoh e nós vamos estar com a Lila – disse vagarosamente, esperando que eles entendessem cada palavra que eu dizia – por isso, eu não posso fazer essa escolha sozinho. Não é sobre mim, entendem? Por isso, eu quero saber o que vocês querem, podemos com a Haila, ou com a Fantina, ou podemos ficar aqui, se vocês quiserem. ”
Eles me encararam por um tempo, como se absorvessem cada palavra que tinha dito, então encararam uns aos outros e começaram a conversar entre si, em uma conversa cheia de barulhos estranhos e guinchos que eu só poderia imaginar o que significavam. Eu sempre fora um tanto egoísta nas minhas escolhas, ir atrás da Haila, me envolver na guerra, abrir mão deles porque achava que a Team Plasma estava certa, eu nunca os consultei para saber como eles se sentiam, eu sempre tinha escolhido, presumido o que eles queriam ou seguido o que eu desejava, eu não podia continuar vivendo como se fosse só por mim.
Eles pararam de resmungar e me encararam, Chiclete deu um passo à frente e gesticulou algo que eu não fazia ideia, mas eu não precisava entender seus resmungos e ações, eu sabia o que eles tinham escolhido. E de repente, aquela ansiedade tinha desaparecido.
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