Rota Zero

83 Um Trem para Nimbasa - parte 3


Notas iniciais
Vocês sabem que eu não consigo postar nas datas certas, então... Sem mais, boa leitura!

December

UM TREM PARA NIMBASA — parte 3

— Deedee? Deedee – a voz meiga ecoava nos meus ouvidos como trombetas de anjo e eu deveria ter ido para o céu para ser recebido pela Lila. Mas se eu estava no céu, por que sentia o corpo todo doendo? – Deedee?

Abri os olhos lentamente e vi o rosto redondo e moreno sobre mim. Era Lila. A minha amiga Lila, aquela tinha morrido para me salvar e... Levantei, me afastando o máximo que conseguia. Eu estava vivo e tendo uma alucinação? Ou ela tinha voltado para me assombrar?

— Deedee!

— Lila? – Perguntei incerto.

— Sim, sou eu. Quantos dedos você vê aqui? – E estendeu a mão na minha direção me mostrando três dedos em riste.

— Você não deveria estar...

— Morta? – Ela completou sabiamente. – Eu usei o Protect da Butterfree para me proteger das chamas e depois Aqua Ring para resfriar o corpo e curar minhas feridas. E então consegui voltar para o vagão anterior e Kara me encontrou – e sinalizou para a garota que estava há alguns metros e esbravejava com alguém através do Xtransceiver.

— Engenhoso – falei e era mesmo. Eu não podia acreditar que ela estava bem, eu estava tão feliz por não tê-la perdida que senti que poderia chorar de felicidade.

— Marlon diz que você não sabe usar seus Pokémon fora do campo de batalha, você não deve ser considerado um treinador – disse sabiamente.

— Mas você está bem?

— Melhor do que você – e só agora eu percebia que aquilo era verdade. Lila parecia cansada, mas não havia nenhum ferimento além de um corte superficial na bochecha, por outro lado, meu nariz estava sangrando e o ferimento do supercilio tinha aberto novamente e jorrava sangue. Meu moletom estava destruído e sentia dores em locais do corpo que nem sabia serem capazes de doer.

— E Kara?

— Está ótima, só furiosa – deu de ombros como se fosse algo esperado. – Ela está brava porque não tem outra troca de roupa – e olhando-a agora, ela estava completamente coberta de sangue, do cabelo aos sapatos.

— Haila?

— Só achamos você – Lila disse com pesar.

— Nós estávamos no mesmo vagão – expliquei.

— Deedee, você foi arremessado, nós te achamos muito longe dos destroços.

Olhando em volta, eu podia ver o estrago. Estávamos afastados da linha e o trem estava caído sobre o solo. Havia vagões que ainda pegavam fogo e emanavam aquela fumaça escura. A parte da frente, não existia mais, a locomotiva e os primeiros vagões eram só um pedaço de material retorcido e queimado.

— Nós precisamos encontra-la – disse com dificuldade, tentando me pôr em pé. – E ao Cilan e a Skyla.

— Eles estavam no trem? – Lila pareceu surpresa.

— Eles tinham tomado controle do trem e... – de repente, ordenar meus pensamento parecia um tanto complicado. – Eles deveriam estar na locomotiva.

— A locomotiva explodiu – Lila me informou tristonha – toda a frente do trem virou uma bola de fogo, por isso, descarrilhamos.

— Eles devem estar vivos de alguma forma, como você – eu tentei me manter confiante, mesmo que não conseguisse verdadeiramente. A cena da morte de Grimsley me veio à mente e por mais que eu não gostasse dele, ninguém deveria morrer daquela forma.

— É possível – ela deu um sorriso, aquele sorriso típico da Lila, que era sempre ingênuo e cheio de esperanças. – Talvez Haila esteja com eles.

— Isso – embora eu duvidasse muito. – Precisamos ir – mas mal consegui dar um passo e me desiquilibrei, sentindo o mundo girar.

— Você não está bem para isso ainda – Lila me segurou.

— Mas...

— O que ele está aprontando? – Kara se uniu a nós, eu mal conseguia ver seus olhos em meio a tanto sangue seco.

— Ele quer procurar a Haila.

— Por que não estou surpresa? – disse com desprezo.

— Skyla e Cilan também estavam no trem – a morena informou.

— Cilan? – Kara pareceu um pouco mais interessada ao ouvir o nome do ex-líder. – Tá, eu vou te ajudar a procurar, mas vou pôr na sua conta depois.

— Conta?

— É, se eu achar a sua namorada – virou as costas e saiu marchando em direção aos vagões retorcidos. Me apoiei como podia no ombro da Lila e a seguimos.

— Ela só está fazendo isso pelo Cilan – Lila comentou com uma careta.

— Eu sei – respondi com uma tentativa de sorriso. Na verdade, Kara não era uma pessoa má, não era o tipo boazinha também. Ela só precisava tirar algum proveito da situação e certamente colar em Cilan, era um passaporte para voltar para casa.

Eu não sabia precisar que horas eram, mas ainda estava claro. Um grupo de sobreviventes que não seria suficiente para ocupar um vagão se agrupava próximo. Todos estavam sujos, machucados e abatidos, havia Pokémon que circulavam por ali, procurando seus donos. Eles não pareciam querer abraçar a liberdade que a Team Plasma pregava.

— O que aconteceu com a Team Plasma? – Encarei Lila, mas ela parecia não saber.

— Uma parte deles fugiu – Kara explicou enquanto analisava os destroços – Mas muitos deles morreram.

— Como você sabe disso? – Questionei curioso.

— Porque eu não sou uma fraca que nem você que desmaia por qualquer coisa – respondeu atravessada. – Em que vagão vocês estavam?

— Terceiro ou quarto, eu não me lembro – respondi tentando contar mentalmente qual vagão era.

— Você tem uma sorte, hein? A frente do trem virou pó e você está vivo – Kara balançou a cabeça, mas eu não tinha o que responder diante dessa provocação, só esperava que Haila tivesse a mesma sorte.

Andamos mais um pouco, seguindo os destroços e chegamos a um vagão que estava soterrado por outro. O vagão debaixo tinha virado um retorcido de metal, enquanto o de cima rangia vez ou outra como se fosse desmoronar.

Kara só olhou para o destroço e balançou a cabeça, indo em direção ao próximo, mas enquanto passava por ele pude ouvir uma batida bem baixinho. Olhei para Lila, para ver se ela também tinha ouvido, mas aparentemente não. Deveria ser coisa da minha cabeça.

TOC, dessa vez duas vezes, meio ritmado.

— Lila, você ouviu?

— Ouviu o quê? – Ela me encarou sem entender

— Isso? – Outra batida.

— Isso o quê?

— Isso! – TOC. – Tem alguém aqui dentro – apontei para o vagão soterrado.

— Deedee, eu não acho que tenha alguém aí – mas eu podia ouvir o TOC-TOC, tinha alguém ali. Podia não ser a Haila, Sykla ou Cilan, mas tinha alguém vivo ali.

— O que vocês dois estão fazendo? – Kara voltou o caminho ao nos ver parado diante do vagão.

— Deedee acha que ouviu um barulho vindo do vagão.

— Tem certeza? – Kara me encarou desconfiada.

— Sim – balancei a cabeça afirmativamente.

— Se isso for um palpite errado você vai me dever dois favores – constatou antes de lançar a Pokéball e um Conkeldurr aparecer.

— Desde quando você tem um desses? – E embora eu não conhecesse todos os Pokémon de Kara, eu tinha quase certeza que ela não tinha nenhum lutador.

— Agora eu tenho.

— Agora?

— Ela pegou um dos Pokémon que ficou sem treinador – Lila explicou.

— Isso não é errado?

— Você acha? – Kara me encarou cinicamente – prefere o lema Liberdade para os Pokémon? – Não, mas ela poderia sair pegando assim? Eles não acabariam de herança para família ou algo assim?

Kara sinalizou para o Conkeldurr e ele emburrou o vagão de cima para o lado, com um esforço absurdo. Eu podia ver as veias sobressaltarem a pele com o esforço que ele fazia para mover o vagão. No final, mesmo com todo o esforço, ele não conseguiu remover o vagão, apenas abrir uma fresta não muito larga.

— Tem alguém aí? – Lila gritou através do espaço. Demorou um tempo até que um guincho fosse ouvido como resposta.

— Isso é um Pokémon? – Kara perguntou desconfiada.

— Olá? – Lila tentou novamente e recebeu o mesmo guincho como resposta. – Como vamos tirá-lo dali, não dá nem para saber qual Pokémon é – comentou aflita.

— Nós não vamos conseguir tirar o outro vagão – Kara respondeu com um muxoxo.

— Mas não podemos deixa-lo aqui – a morena disse chorosa.

Eu não sabia o porquê, mas ouvir o guincho daquele Pokémon me deixava angustiado. Eu concordava com Lila, não podíamos deixa-lo ali. Dei a volta no vagão, tentando analisar a estrutura e encontrar uma passagem, foi quando eu vi o buraco derretido e retorcido na fuselagem que agora estava ainda mais amassado. Era o vagão onde eu estava, onde Haila estava.

— Haila! – gritei surrando a lata e meu esforço fez o vagão estremecer e o de cima ranger.

— O que está fazendo? – Kara correu em minha direção. – Vai matar a gente desse jeito.

— É o meu vagão, o que eu estava com a Haila – expliquei afobado.

— Se acalme, pode não ser ela – Kara tentou me tranquilizar daquele jeito Kara de ser, que não tranquilizava ninguém.

— Precisamos tirá-la dali. Haila!

— Não grita na minha orelha – Kara bufou e se virou. Então liberou seu Graveler e o Bouffalant. Eles pareciam cansados e machucados. – Muito bem rapazes.

Kara não precisava dar muitos comandos, eles entendiam apenas pela maneira como ela olhava ou gesticulava. Juntos com Conkeldurr, eles fizeram força, tentando empurrar o vagão. A fresta se abriu, grande o suficiente para passar uma pessoa.

— Eu vou – Lila se posicionou, mas a segurei antes de entrar.

— Eu vou – falei com firmeza.

— Mas Deedee, você não está em condições... – E não estava, mas se era Haila, aquele som poderia ser um dos Pokémon dela, ou Abóbora e eu sentia que fosse qual deles fosse, não estava nada bem.

— Por favor! – Lila não sabia o que responder, os olhos desviaram para Kara que parecia pouco se importar com aquilo. Lila deu um passo para o lado, abrindo a passagem.

Embora ainda estivesse claro, a visibilidade dentro do vagão era baixa. Havia muito lixo caído pelos espaços e os restos das poltronas que Metagross tinha destruído. Eu conseguia me arrastar de joelhos e percebia que quanto mais avançava, mais baixo o teto ficava.

Foi então, que entre duas fileiras de banco, vi um Pokémon esverdeado que cobria algo com o corpo. Esse algo tinha o cabelo loiro e estava desacordada, mas respirando. Haila parecia bem.

— Haila – chamei, mas ela não se mexeu. Me arrastei para mais perto, tentando identificar se era Ling ou Serpio sobre a menina, até meus olhos se depararem com um Pokémon diferente. Ele parecia um inseto gigante, com os olhos brilhantes e as asas esverdeadas. Não me era familiar, mas a maneira como me encarou, sim. – Abóbora? – e ele emitiu um som feliz ao ouvir o nome.

Ele tinha evoluído? Mas como? Para proteger a Haila, talvez.

— Eu vou tirar vocês daqui – disse enquanto tentava achar sua Pokéball no bolso. Só então percebi o sangue que gotejava sobre Haila. Por um segundo achei que ela estive ferida, então percebi que uma das asas do Abóbora ficara presa entre as ferragens e estava praticamente arrancada do corpo.

Ele provavelmente tinha usado o próprio corpo, que era mais resistente, para proteger a menina, mas uma de suas asas tinha sido destroçada no processo. Se ele perdesse a asa, como evoluiria para um lindo Flygon? Senti meu corpo tremer, eu não podia vacilar, não agora, não podia mostrar que tinha algo errado.

— Eu vou tirar a Haila, ok? E volto para pegar você, certo? – Ele deu um outro grunhido em concordância.

Com dificuldade, consegui puxar Haila pelos ombros e a arrastá-la para fora do vagão. Ela tinha um caco de vidro enfiado na perna e algumas escoriações, mas não parecia nada grave. O sangue na roupa, a maioria vinha da asa do Abóbora.

Deixei-a com as meninas e voltei para o vagão, respirando fundo e tentando me manter calmo. Eu não conseguiria volta-lo para a Pokéball se ele estivesse preso, mas eu não conseguiria soltá-lo.

— Como você está? – Perguntei ao chegar até Abóbora. Ele parecia muito orgulhoso de si por ter mantido Haila segura e eu estava orgulhoso dele. – Eu preciso ver como está sua asa, tudo bem?

Me esgueirei mais perto e agora eu podia ver melhor, a asa do Abóbora era formada por duas asas menores. Havia um ferimento na parte de baixo da asa, na sessão menor, mas nada muito grave. Entretanto a asa maior, que dava estabilidade no voo estava presa nos destroços. Ele deveria ter feito algum esforço para soltá-la porque toda a ligação da asa com o corpo tinha sido arrancada, sobrando apenas uma pequena membrana que unia as duas partes. Eu podia esperar a ajuda chegar, tirá-lo dali com os equipamentos necessários e leva-lo para receber tratamento no Centro, onde as duas partes poderiam ser reimplantadas. Mas fazer isso, era arriscar deixa-lo dentro de um vagão retorcido que estava prestes a ser completamente esmagado por outro. Ou poderia cortar a membrana, separar a asa do resto do corpo e mantê-lo vivo e protegido, mas ele nunca mais iria voar.

— Abóbora – respirei fundo. – Eu não sei o quão bem você pode me entender, mas para tirar você daqui, eu preciso cortar sua asa – e sentia minhas palavras tremerem. – Eu posso fazer isso?

Abóbora me encarou demoradamente, com aqueles olhos grandes e esverdeados, mas que ainda eram exatamente iguais aos olhinhos pretos para mim. Então com um aceno, ele me deu autorização.

Eu não tinha uma faca nem nada que pudesse cortar, mas achei um pedaço de ferro fino que teria que servir. Minhas mãos tremiam absurdamente e eu sentia lágrimas enchendo meus olhos, mas eu tinha que fazer aquilo. Era dois centímetros de membrana, talvez nem isso, mas quando comecei a cortar, Abóbora começou a guinchar e se debater. Eu podia sentir o vagão ceder a cada movimento brusco que ele fazia e minhas mãos tremerem ainda mais, se eu não terminasse logo, seriamos soterrados ali.

— Deedee! – Ouvi Kara gritar.

Eu tinha que cortar. O sangue jorrava escuro e cobria a visão pouco limitada que eu já tinha. Quando terminei, puxei Abóbora e o arrastei para fora com o resto de forças que eu tinha. Eu tinha ficado cinco minutos lá dentro que me pareceu durar uma eternidade.

Haila já estava acordada, com Lila pendurada em seu pescoço. Ela encarou o Pokémon nos meus braços, a asa faltando e me encarou de volta. Eu sabia que ela se sentia culpada, mas eu sabia que a culpa não era dela.

— O que aconteceu? – Lila empalideceu ao ver o sangue que saia do meu Pokémon. Eu o envolvia em um abraço desajeitado e o sangramento ia cobrindo a roupa esfarrapada.

— Ele só precisa de descanso – menti. Estávamos presos ali, eu não precisava instaurar um pequeno pânico. Sabia como Lila era sensível e não queria causar mais preocupações a ela. Retornei Abóbora para a Pokéball e prometi que daria o melhor tratamento médico que poderia quando chegássemos a Nimbasa.

— O que vamos fazer agora? – Lila perguntou tentando saber o que faríamos a seguir.

— Achar o Cilan e cair fora – Kara respondeu como se fosse óbvio.

— Afinal, o que você faz aqui? – E finalmente Haila percebeu a presença de Kara no nosso grupo.

— Salvando a sua pele, Miltank mal agradecida – Kara fez uma careta.

— Como se eu precisasse da ajuda de uma cadela que nem você – rebateu azeda.

— É mesmo? Então pode voltar para droga do vagão, sua fedelha inútil – e em segundos, elas começaram a trocar insultos gratuitos.

— Gente, pare, por favor! – Lila pediu chorosa. – Eu não acho uma boa ideia ficarmos discutindo, ainda mais aqui, a Team Plasma ainda pode estar perto e...

— Eu não acho que eles ainda estejam aqui – Haila comentou sobriamente encarando as árvores e destroços que no cercavam – eles já conseguiram o que vieram pegar.

— O que quer dizer com isso? – Kara questionou desconfiada, mas antes que Haila fizesse menção de responder um burburinho entre os sobreviventes chamou nossa atenção.

Skyla e Cilan andavam pelo meio das pessoas, tentando acalmar os ânimos. Eu não sabia de onde eles tinham surgido, mas eles eram os únicos rostos conhecidos ali e todos exigiam que eles tomassem alguma providência.

— Por favor, se acalmem – Skyla pediu não muito paciente. Ela estava com o cabelo solto e um corte profundo no braço. – Nós já entramos em contato com Nimbasa e as autoridades locais estão vindo nos resgatar.

Ela tentava falar alto, mas as pessoas começavam a falar por cima dela, fazendo perguntas bastante aleatórias e que pareciam deixar a líder muito irritada. Cilan parecia se dar melhor na função de acalmar a população e explicar o que aconteceu.

— Skyla! – Haila gritou quando viu a líder ter uma brecha. A ruiva sorriu, um sorriso cansado e veio ao nosso encontro.

— Você está bem? – Encarou Haila demoradamente. – Como você... – mas antes que pudesse completar a frase percebeu nossa presença em companhia da loira. – Você não deveria estar em Nimbasa? – Curvou as sobrancelhas ao me ver.

— Eu estava indo para lá – respondi sem jeito.

— Como foram as coisas em Anvile?

— Cheren não te disse? – Questionei incerto.

— Não disse muita coisa – ela me informou.

— Não foi muito bom, na verdade.

— As informações não ajudaram? – E o jeito que Skyla me encarava fazia parecer que ela lia meus pensamentos.

— Na verdade...

— Como você está? – Haila perguntou me cortando, enquanto analisava o braço ferido da líder.

— Bem – respondeu cansada. – Eu não vou perguntar se tiveram problemas com a Team Plasma, porque eu conheço vocês...

— Foi só o de sempre – Haila respondeu como se tudo o que tivéssemos passado no trem não tivesse tido muita importância.

— Aquilo que você disse é verdade? A ajuda está vindo? – Lila questionou ansiosa.

— Vai demorar um pouco, estamos em uma área de difícil acesso, mas a ajuda está a caminho – tentou consolar.

— Que bom!

Não demorou para que Cilan se unisse a nós, e tivesse toda a sua atenção roubada por Kara, que parecia conhece-lo bem e fazia um dramalhão desnecessário de tudo que passara. Era estranho vê-la agir como uma menininha indefesa só para impressiona-lo, quando na verdade, ela não era nada daquilo.

— Como a Kara entrou nessa história? – Haila a encarava enjoada de vê-la paparicar Cilan.

— Nos encontramos ao acaso, em Anvile – respondi e sabia que a loira iria me alugar por isso.

— E como ela veio parar aqui?

— É uma longa história... – respondi com um muxoxo.

— Aparentemente, temos muito tempo para você contar – Haila se sentou no chão, encarando o horizonte.

— Podemos falar disso outra hora? – Questionei usando as mesmas palavras que Haila tinha usado para desviar da conversa sobre Jaden. Eu queria contar a ela sobre Anvile, o lendário e Roxie, mas não ali. Ela pareceu contrariada por um momento, mas acabou concordando.

Ficamos um longo tempo ali, ao lado da estrada de ferro e dos vagões destruídos, até finalmente a ajudar chegar. Helicópteros levaram os feridos mais graves e o restante de nós fomos na traseira de caminhões em estilo militar. Lila dormiu quase instantaneamente quando se acomodou entre Kara e eu, e não demorou muito para que a garota de Striaton também adormecesse. Cilan também foi vencido pelo cansaço e eu estava quase dormindo, embalado pelo balançar do veículo na estrada quando a voz de Haila me trouxe de volta.

— Você sabia que o Grimsley estava no trem? – E só então percebi que a pergunta era direcionada a Skyla e que elas eram as únicas acordadas ali.

— Haila, esse assunto é muito delicado e...

— Sim ou não, Skyla? – Haila questionou firmemente.

— Sim – respondeu contrariada.

— Você sabia que ele é filho do presidente? – Haila parecia não acreditar totalmente naquela história.

— Isso não é um segredo, embora Grimsley não goste de ficar divulgando por aí...

— Então você sabia que ele era o alvo no trem?

— De certa forma – ela cruzou os braços diante do peito – nós não pegamos justamente essa linha à toa – Haila curvou as sobrancelhas, sem entender. – Eu não fui a Victory Road só porque Cheren me mandou. Eu precisava falar com o Grimsley.

— Sobre?

— Não parece, mas ele é um cara bem inteligente, estudou política, tem contatos. Essa guerra é muito mais do que luta e destruição, e Grimsley entenderia os desdobramentos políticos melhor do que a Elesa. Além disso, Cheren, Roxie e eu tínhamos concordado que ele seria um alvo devido suas relações familiares – e o nome da Roxie não me passou despercebido. – Só que quando cheguei a Victory Road, bom você sabe, estava lá. E eu achei que ele tivesse fugido como a Caitlin.

— Sei... – Haila disse secamente, a mente dela parecia processar o que acabar de ouvir.

— Você o encontrou? – Skyla perguntou desconfiada de tantas perguntas.

— Sim e você?

— Não, eu sabia que ele estava no trem, claro, mas quando a Team Plasma atacou, eu não tive tempo para ficar me preocupando com marmanjo – disse cansada. – O que aconteceu com ele? A Team Plasma o levou? – Skyla perguntou. Ela não parecia muito interessada, mesmo que de alguma forma, Grimsley pudesse ser uma importante peça naquele jogo de xadrez.

— Uma parte dele – Haila respondeu sombriamente.

— Uma parte?

— Eles cortaram a cabeça – disse em meio a um suspiro e vi os olhos da Skyla se arregalarem.

— Espera? Ele está morto? – Skyla parecia confusa. – Como vão negociar um resgate desse jeito?

— Eles não querem mais negociar – Haila finalizou, repetindo as palavras do Plasma.

— Tsc – Skyla fez um barulho nada animador com a boca. – Eles vão tomar Castelia – disse em um tom de voz que eu não soube dizer o que exprimia.

— Mas o Burgh está lá – e só então elas perceberam que eu estava acordado prestando atenção a conversa. – Então não acho que vai ser tão fácil – e falando aquilo em voz alta, me soou tão ingênuo.

— Você viu como eles subjugaram o Grimsley facilmente e ele era um elite – Haila comentou. Eu percebia que ela não queria ter esse tipo de pensamento associado ao Burgh, mas era inevitável.

— Bem, os Elite Four não são tudo isso – Skyla comentou se espreguiçando e percebeu nosso olhar de estranhamento. – Quero dizer, eles são bons, vocês sabem – tentou se corrigir – mas você se acostuma com o status. – Haila curvou as sobrancelhas sem entender e eu estava entendendo tanto quanto. – Quando um líder é elevado ao posto de elite, quer dizer que ele é muito bom. Porém, líderes tem batalhas diárias contra treinadores de todos os níveis, mas só os melhores chegam a Elite Four e vocês podem imaginar que não é todo dia que um treinador de nível tão alto aparece. E se você é o suprassumo da elite, por que treinar todo dia?

— Está falando que os Elite ficam vagabundeando enquanto nenhum treinador aparece? – Haila pareceu um tanto descrente.

— Bem, não todos. Marshal treinava. Shauntal tinha outras atividades e quanto ao Grimsley e a Caitlin, acho que não preciso falar – e Skyla fez uma expressão bastante blasé ao citar os dois. – Não estou dizendo que eles são fracos, só estou dizendo que pegar muita confiança nas suas habilidades pode ser um erro.

— Então o Burgh tem alguma chance? – E a frase da Haila não saiu exatamente esperançosa.

— Ele é um excelente líder, mas Castelia é uma cidade muito grande para ele manter sozinho – Skyla foi sincera. – Líderes mais experientes caíram por menos – e provavelmente ela falava de Drayden e Clay.

— Nós deveríamos ir para lá – falei de repente. – Quer dizer, se você sabe que Castelia é um alvo, se formos agora...

— Você sabe que é uma ideia idiota – Skyla cruzou os braços. – Nenhum de nós tem condição de lutar agora. Reagrupar e pensar em uma estratégia é o melhor a fazer.

— E não foi só isso o que fizemos? – Haila comentou atravessada. – E o que adiantou? A estratégia de vocês não salvou a Lenora – rosnou.

— Haila...

— Não me venha com Haila – a voz ficou mais alta e por um segundo, achei que o restante do grupo fosse acordar. – Se tivéssemos agido logo que Lenora foi levada, talvez, ela tivesse uma chance.

— E que chance você teria? – Skyla fechou a cara de tal forma que até Haila diminuiu o tom. – Hoje teríamos dois caixões em vez de um. Você quer que eu assuma a responsabilidade pela morte da Lenora, eu posso fazer. E aposto que Elesa e Cheren também vão assumir suas parcelas de culpa. Mas não haja como se um rompante de impulsos resolvesse as coisas.

— E o que agir cautelosamente resolveu? Metade das pessoas que conhecemos estão mortas – Haila parecia muito irritada. Provavelmente muita coisa tinha acontecido no tempo em que ficamos separados.

— E metade dessas pessoas ainda estão vivas porque agimos com cautela – Skyla foi taxativa. Eu queria opinar, mas infelizmente, eu concordava com os dois pontos.

— Como se isso fizesse diferença para quem morreu – Haila estava mais venenosa e desesperançada que de costume.

— Já chega, Haila. Eu disse que vamos nos reagrupar e pensar em uma estratégia. Precisamos ter o panorama todo antes de agir. Elesa e Roxie podem ter novas informações...

— Você falou com a Roxie? – Deixei escapar e percebi o olhar que Haila me lançava.

— Nenhuma informação desde que nos separamos em Icirrus. Cheren também não sabe dela – disse com um muxoxo. – Mas Roxie sempre se sai muito bem sozinha. Ela deve estar bem – disse com um sorriso sincero. E aquilo fez eu me sentir péssimo. Skyla estava ali, torcendo para Roxie estivesse bem e contando com informações que a líder poderia compartilhar, mas a verdade era muito mais sombria do que isso.

— Ela está bem – dei um muxoxo.

— Você a viu? – Skyla pareceu confusa. Roxie tinha me escoltado metade das minhas andanças por Unova, se eu a vira, era de se esperar que estivéssemos juntos.

— Sim, em Anville.

— Anville? – As sobrancelhas desenhadas se curvaram. – Mas ela não disse que iria atrás da Haila... – e Haila pareceu surpresa com essa informação.

— Disse, mas ela mentiu – minha voz foi ficando cada vez mais baixa. Haila me encarava com estranhamento, provavelmente ela não sabia que Roxie tinha se incumbido de encontrá-la.

— Mas por que ela iria para Anville se mandou você no lugar dela? – Skyla questionou desconfiada.

— Por que ela mentiu sobre isso, mentiu sobre tudo... – e senti minha voz falhar.

— Deedee, eu não estou entendendo aonde você quer chegar – a ruiva inquiriu.

— Ela é uma Team Plasma – disse.

— Quê? – E os olhos cansados se arregalaram e ela pareceu ganhar um pouco de vitalidade.

— Ela é uma Team Plasma – repeti mais confiante dessa vez.

— Isso não faz... – começou.

— Sentido? – Interrompi. Eu sabia melhor do que ninguém que não fazia. –Fome, Guerra, Morte e Peste – enumerei nos dedos – Aida, Jaden, o cara que vimos em Seaside Cave e Twist Mountain e... Roxie.

— Espera, ela é um dos generais? – Haila me encarou. Eu tinha dito sobre Roxie a ela, mas de maneira muito superficial.

— Quando Cheren a mandou para Anville, ele acreditava que haveria pistas que nos levariam a um lendário – Skyla falou lentamente, como se o cérebro demorasse a processar a informação. – Roxie foi atrás dessas pistas?

— Não eram só pistas – respirei fundo antes de prosseguir. – Tinha um lendário lá. – Os olhos das duas se arregalaram.

— Como é?

— Tinha uma caverna fora dos limites da cidade... – e expliquei de forma resumida o que tinha acontecido. O tremor, o lendário, Roxie. As duas me ouviam atentamente. Vez ou outra, eu podia perceber que Skyla não acreditava integralmente no que eu estava dizendo, mas eu não tinha provas para respaldar o que eu dizia. No final, era a palavra de um adolescente contra anos de vivência de uma líder de ginásio respeitada, era compreensível que a líder voador não acreditasse em mim.

— Por que ela te mandaria para o lugar que planejava atacar? – Haila questionou sabiamente e eu não sabia como responder aquilo. A verdade é que os ataques a Anville e Flocessy Town tinha acontecido conjuntamente. Eu não sabia se havia um outro general da Team Plasma no ataque a Flocessy, mas era presumível que sim.

Talvez Roxie esperasse que não estivesse mais na cidade. Afinal eu deveria apenas buscar uma informação e voltar para Nimbasa. Eu não deveria ter perdido tempo sendo preso. Mas havia a morte do professor Juniper, eu não sabia se aquilo fora armado ou realmente tinha alguma ligação com a Team Plasma. Tinha muitas peças que não se encaixavam.

— Vadia – Skyla falou de repente, dando um soco na lataria da caçamba. Cilan abriu os olhos e encarou um segundo antes de adormecer novamente. Kara e Lila sequer se mexeram. – Foi ela quem nos convenceu a fazer um plano B, pelas costas da Elesa – e Skyla tinha um olhar de realização, como se finalmente as coisas fizessem sentido para ela. – Quando decidimos nos dividir entre Anville e o Victory Road, fizemos isso sem o consentimento da Elesa – explicou ao ver que não estávamos acompanhando. – Cheren suspeitava mais de Anville, mas Roxie o convenceu que Victory era um local mais provável para um lendário, por causa posição geográfica e interpretação dos textos... Se realmente os ataques a Anville e Flocessy foram combinados, ela arranjou um jeito de tirar toda a resistência das duas áreas.

— Alder... – comecei, mas Skyla me cortou.

— Alder está em Castelia, dos líderes que sobraram, metade estava em Nimbasa e o resto em Victory Road.

— O ataque ao Victory Road foi uma mensagem – Haila afirmou. – Foi o que Shauntal disse...

— Ela não estava errada, mas não foi só para mostrar a supremacia da Team Plasma, foi uma distração para nos manter longe do lendário.

— Roxie é tão inteligente assim? – Haila questionou. Não que não fosse, mas era um plano com muitas variáveis para ter sido orquestrado de maneira tão precisa.

— Ela deve seguir ordens. Ghetsis não é o tipo que podemos subestimar – Skyla cruzou os braços diante do corpo. – Se a Team Plasma tem dois lendários, estamos mesmo em desvantagem... Fora que Roxie sabe boa parte das nossas estratégias de resistência.

— Como vocês nunca perceberam que ela era a traidora? – Haila deixou escapar e havia uma nota de ódio na voz.

— Não havia motivos – Skyla foi sincera.

— Mas ela entregou a Lenora e... – vi as mãos se crisparem sobre os joelhos. – Você deveria ter suspeitado de todo mundo.

— Como você suspeitou? – Skyla rebateu atravessado. – Vocês passaram mais tempo com a Roxie nos últimos meses do que qualquer um de nós...

— Então você está dizendo que a culpa é nossa – e havia fúria nos olhos claros.

— Não estou culpando ninguém, exceto a própria Roxie.

— Então você acredita que mais ninguém vai nos trair?

— Se você quer entrar nessa questão, a traidora bem poderia ser você. Seu irmão é do alto escalão da Team Plasma, você fugiu misteriosamente e foi a única ver Lenora morta. Além disso, você esteve em todos os locais de lendário, e esse moleque – apontou para mim – faria qualquer coisa para proteger você, inclusive acusar a Roxie. – Haila se levantou abruptamente, e a puxei pelo braço, impendido qualquer chance que ela tivesse de voar no pescoço da líder. – Eu acreditei na Roxie, por que ela era uma líder de ginásio, mas eu acredito muito mais em vocês, porque vocês são meus amigos. – E senti Haila vacilar sob o meu aperto. – Eu acreditei na Roxie, Elesa, Cheren, todos os líderes de ginásio acreditaram. Vocês e seus amigos também acreditaram nela. E não tem nada de errado nisso. A culpa não é minha ou sua por ter acreditado, é dela, porque se aproveitou do voto de confiança que demos.

Haila pareceu um tanto contrariada, mas se sentou, com uma expressão indecifrável no rosto. De certa forma, Skyla tinha razão, não era culpa de ninguém a traição, exceto da própria Roxie. Se fossemos começar a desconfiar de todos, não conseguiríamos nos unir para derrotar o verdadeiro inimigo. Aquilo não era infalível e poderia haver outro traidor além da Roxie, mas uma caça às bruxas naquele momento só iria desestabilizar mais o grupo.

— Eu ainda acho que deveríamos ir para Castelia – Haila começou depois que pareceu um pouco mais calma. – Eles têm dois lendários e a cabeça do Grimsley em uma bandeja, o que mais precisam para derrubar a cidade?

— Até onde sabemos, ainda falta um lendário – Skyla comentou.

— E daí? Que diferença faz? Eles já não têm a maioria? – Haila parecia controlar o misto de raiva e desdém que sua voz queria transmitir.

— Se eles forem mesmo invocar o Sword of Destiny como diz os livros, precisam dos três lendários principais – Skyla explicou pacientemente.

— E para que precisar de um poder lendário quando eles já dominaram toda a Unova?

— Para que se contentar com o poder dos homens e você pode ter o poder dos deuses? – Eu não fazia ideia de que tipo de poder eles teriam se reunissem o trio lendário, mas deveria ser algo colossal.

— Isso é besteira! – Haila cuspiu as palavras.

— Pode até ser, mas eles acreditam nisso, ou não teriam movido tantos esforços para recuperar os lendários.

— E vamos esperar eles recuperarem todos e nos massacrar? Não está vendo que já estamos perdendo? – E tom da loira foi ficando mais amargo.

— Eu disse que não adianta nada agir de cabeça quente. Vamos nos reagrupar e... – Skyla começou com o discurso, mas Haila a interrompeu.

— E eu disse que estamos perdendo tempo com isso...

— Se vocês quiserem ir para Castelia, eu não vou impedir – Skyla nos encarou demoradamente. – Mas, não esperem que eu chore se vocês morrerem lá. – E com isso, deu o assunto por encerrado e se recostou, da melhor maneira que pode, ao lado de Cilan.

Haila abriu a boca para retrucar, mas mudou de ideia e se apoiou no metal da caçamba do caminhão. Havia fúria no olhar dela, e outras coisas que eu não saberia precisar. Talvez medo, desesperança, coisas que definitivamente não combinavam com ela.

Eu pensava nas coisas que sabia, na morte da Lenora, nos acontecimentos do Victory Road que sabia por alto, na morte do Grimsley que presenciara e em como todas essas coisas estavam de alguma forma, atreladas a Roxie.

Eu ainda tentava desesperadamente dar motivações as ações dela. Tentava me apegar ao fato que ela deveria ser uma agente infiltrada ou algo do gênero, e que tudo não passava de um engano, mas quando mais eu mentia para mim mesmo, mais a realidade surrava minha cara.

=8=

Eu não lembro exatamente quando chegamos a Nimbasa, mas já estava escuro. Alanna foi quem nos recebeu. Ela parecia bastante preocupada com nossa segurança. Achei que ficaríamos em um hotel ou no Centro Pokémon, mas Alana dissera que Elesa nos queria seguros, de modo que todos fomos abrigados na casa da líder.

Haila, Kara, Lila e eu dividimos um quarto minúsculo e ficávamos praticamente empilhados uns sobre os outros. Não que algum de nós se importasse, já que só queríamos um espaço para dormir. Skyla e Cilan foram remanejados em outros quartos, mas eu não sabia muito bem como eles estavam dispostos.

Na manhã seguinte, quando acordei, Haila não estava mais no quarto e fiquei sabendo por Lila que ela tinha levantou bem cedo e levou nossos Pokémon para o Centro Pokémon. Eu sabia que ela estava preocupada com seus parceiros, mas sabia também que ela sentia um tanto culpada pelo que acontecera a Abóbora.

Estranhamente, os dias se seguiram e tudo parecia terrivelmente sossegado. Nenhuma das cidades que a Team Plasma tinha sob controle parecia resistir ao seu comando, elas pareciam funcionar perfeitamente, como se a série de ataques nunca tivesse acontecido. Além disso, e nenhuma outra cidade foi invadida nesse meio tempo. Era tranquilo como em qualquer outra época do ano, a televisão quase não falava mais da Team Plasma. Nenhuma notícia sobre o ataque ao trem tinha aparecido nos noticiários ou qualquer informação sobre o Grimsley. As transmissões aconteciam como se tudo fosse perfeitamente normal e não houvesse uma guerra prestes a acontecer, e por isso mesmo, era muito assustador.

Eu mal tinha visto Haila nesses dias, ela passava a maior parte do tempo com a Alana ou discutindo com a Kara enquanto fazíamos alguma refeição. Lila passava boa parte do tempo no Xtransceiver, fosse conversando com a avó do Des ou conversando com os pais ou coletando informações com o Marlon. Kara gastava o tempo que tinha pendurada em Cilan, tentando convence-lo a escolta-la até Striaton. E embora a casa fosse da Elesa, eu não a tinha visto, nem nenhum dos outros líderes. O escritório, que Cheren tinha transformado em sua sala de pesquisa, estava uma bagunça, mas ele nunca estava lá.

Durante o jantar do quarto dia, Alana estava na cabeceira da mesa e com uma aparência muito apagada. Ela parecia bastante preocupada com o Ben, que não dava sinal fazia algum tempo e Kara tentava consolá-la daquele jeito nada consolável, que não demorou muito para resultar em uma briga entre ela e Haila.

No meio da discussão, o Xtransceiver de Alana começou a tocar e ela se levantou, com um sorriso de orelha a orelha, só poderia ser o Ben. Ela pediu licença e foi para a varanda. Não dava para entender o que ela falava, mas parecia bastante feliz e aliviada. Então me lembrei da conversa com Kara, sobre gostar de alguém e me senti ligeiramente deprimido. Eu não tinha nenhuma garota para me deixar contente daquela forma, exceto Haila e Lila, mas eu não via nenhuma delas dessa forma.

Kara e Haila ainda discutiam e me lembrei que não consegui perguntar a garota de Striaton, se o Des era o mesmo Desmond que foi seu namorado. Ela não tinha dito nada a respeito no curto tempo em que estivemos em Icirrus. Talvez não fosse o mesmo, e eu tivesse só me confundido.

Eu ia perguntar sobre isso, mas de repente, uma risadinha de Lila cortou o ambiente.

— Qual é a graça? – Kara perguntou ressabiada.

— Nada, é só, ver vocês discutindo assim faz as coisas parecem tão normais – Lila comentou com uma expressão leve, que era algo raro nos dias recentes. – Além disso, as coisas têm estado mais tranquilas. Quer dizer, conversei com Marlon e ele disse que está tudo calmo em Humilau.

— Vai ver a Team Plasma já conseguiu o que queria – Kara comentou despretensiosamente.

— Você é burra ou o quê? – Haila curvou as sobrancelhas. – É claro que eles só vão parar quando dominarem tudo.

— Ah é, esqueci que você acredita nesse plano de dominação mundial – Kara retrucou com desdém.

— E se não é isso, o que seria?

— Eu sei lá, eu não sou um gênio do crime – Kara comentou como se pouco se importasse. – Mas se depois de dias de atividade tudo está tranquilo, talvez já tenham conquistado seu objetivo. – Talvez esses ataques em massa tenham sido só um chamariz só para desviar o foco.

— Claro, faz muito sentido – Haila fechou a cara, emburrada. Não era uma ideia tão estupida, mas até onde sabíamos, a Team Plasma queria os lendários, eles tinham dois deles, mas se já tivesse capturado o último, suspeito que saberíamos.

— Bem, independente deles terem cumprido seu objetivo ou não, é melhor estarmos preparados – o sorriso no rosto de Lila murchou um pouco.

— Tudo o que eu quero é voltar para casa – Kara tamborilou os dedos no tampo da mesa. Haila ia reclamar, mas o Xtransceiver da menina de Striaton começou a tocar e ela levantou abruptamente da mesa. Eu podia ouvir ela chamar a pessoa de mãe, mas a maneira direta e um tanto histérica com que ela conversava com a mulher, fazia parecer que ela não tinha nenhum respeito pela matriarca.

Lila aproveitou a deixa e começou a tirar a mesa, removendo a louça e os talheres. Nos oferecemos para ajudá-la mas ela recusou gentilmente, me deixando a sós com Haila e era a primeira vez que isso acontecia desde que chegamos a Nimbasa.

— Não vai ligar para sua mãe? – Haila questionou.

— Ah... e o que eu iria falar? – Eu nem lembrava mais da última vez que tinha falado com a velha, acho que na última que tinha estado em Nimbasa.

— Que está vivo? – Haila deu de ombros como se fosse uma resposta óbvia.

— Ela vai reclamar um monte do meu sumiço. Que eu não tenho consideração, você sabe... – e Haila conhecia a ladainha da minha mãe.

— Pelo menos você tem para quem ligar. – Golpe baixo, eu estava choramingando por não ter uma namorada preocupada, mas Haila não tinha ninguém.

— Você não pareceu muito surpresa quando contei sobre a Roxie – mudei de assunto, mas falar sobre Roxie não era um assunto confortável.

— Eu confiei a vida toda no Jaden e deu no que deu – disse em contentamento. – Acho que não sou uma boa julgadora de caráter.

— Skyla está certa, não é sua culpa que eles trariam sua confiança.

— Isso não torna mais fácil aceitar que pessoas morreram porque eu confiei nas pessoas erradas – e aquele brilho selvagem e sombrio cruzou seus olhos. – Antes, eu só pensava que quando isso acabasse, eu pegaria o Corin e teríamos uma vida boa juntos. Agora eu só penso se isso vai realmente acabar...

— Claro que vai, a Team Plasma não vai vencer. Eles nunca tiveram sucesso antes, não vai ser agora que... – Tentei ser animador e esperançoso, mas parecia um pouco vazio meu discurso.

De repente, a porta da saleta se abriu e Skyla apareceu. Ela tinha olheiras enormes.

— Haila, eu posso falar com você? – fez um sinal para a loira. Haila me encarou por uns segundos e se levantou, seguindo a líder pela porta.

Eu também pensava em quando a tudo aquilo iria acabar, mas eu tinha certeza que por mais que demorasse, nós iriamos vencer.

=8=

Eu tive uma noite de sonhos estranhos e quando acordei, ainda não tinha amanhecido. O sol começava a tentar atravessar as nuvens arroxeadas que flutuavam pela noite. Tentei voltar a dormir, mas fiquei rolando no colchão. Eu não me lembrava do que tinha sonhado, mas certamente tinha a ver com a Roxie, Team Plasma e o Zoroark.

Me troquei e desci para o segundo andar. Ficar rolando na cama, só iria atrapalhar o sono das meninas. Eu planejava tomar um copo de leite e talvez dar uma caminhada matinal pelas ruas de Nimbasa, mas quando cheguei no final da escada, percebi que a luz do escritório estava acesa.

Cheren estava sentado no chão, no centro da sala, com um enorme mapa de toda Unova diante de si. Tinha uma pilha de papel revirado e livros espalhados que parecia que um tufão tinha passado por ali. Havia uma televisão ligada no canal noticiário, mas não exibia nada de interessante. Ao lado do líder, uma caneca fumegava e pelo cheiro, deveria ser café.

Era a primeira vez que o via desde que chegara a Nimbasa e me lembrei de que queria conversar com ele sobre a Roxie, mas ele parecia tão compenetrado que achei melhor não atrapalhar. Me virei para deixa-lo a sós.

— Vai ficar uma cicatriz bem feia nesse seu supercílio – me virei e ele ainda estava compenetrado estudando o mapa, quando ele tinha me visto? Instintivamente toquei o ferimento, que já estava bem melhor. Mas provavelmente ficaria mesmo uma cicatriz. – Por que você não entra? – E ele finalmente me encarou, fazendo um gesto, indicando um lugar diante dele.

— Achei que você estava trabalhando e não quis... – mas antes de terminar, ele me lançou um olhar de “entre logo” que só me calei e ocupei o local indicado.

Ficamos um longo tempo em silêncio, ele estudava o mapa e por vezes, bebia o conteúdo da xícara. Eu não tinha ideia do que fazer e por isso só o observava.

— Skyla me contou da Roxie – ele disse de repente – era isso que você não queria me contar ao telefone?

— Bem, sim – disse sem jeito.

— Eu sinto muito – e eu não entendi por que ele estava se desculpando – fui eu quem coloquei a Roxie no seu caminho. – No primeiro ataque a Nimbasa, foi Cheren quem mandou Roxie me pajear.

— Não é sua culpa... – comecei, mas ele cortou.

— Claro que sim, eu não deveria ter te envolvido nisso de qualquer forma – e ele me encarava de forma tão profunda que parecia ver através de mim. – Se eu tivesse te mandado de volta para casa... – e a frase morreu, como se ele não soubesse como completar.

— A guerra aconteceria de qualquer forma – eu respondi.

— Eu sei, mas você não estaria envolvido tão diretamente nas coisas.

— Não dá para saber o que teria acontecido se eu tivesse escolhido outra coisa – dei de ombros. Cheren me encarou por um tempo, então concordou com um aceno e voltou a atenção para o mapa. – Você está bem com essa história da Roxie? – Questionei e ele me encarou por baixo da franja. – Quer dizer, vocês eram grandes amigos e...

— Eu não esperava isso dela – comentou sombriamente. – Não esperava de nenhum de nós – os dedos arranharam timidamente a superfície do mapa.

— Talvez a estejam obrigando – tentei argumentar. – Sei lá, sequestraram a família dela e... – Mas enquanto eu falava, Cheren balançava a cabeça negativamente.

— É a Roxie, ninguém vai obriga-la a fazer o que não quer – e eu compartilhava desse pensamento.

— Então talvez, ela seja uma infiltrada...

— Deedee, Roxie escolheu o caminho dela – me cortou.

— Mas em filmes...

— Você anda assistindo muitos filmes – deu um meio sorriso, como se falasse com uma criança.

— Não muitos – e o último que eu me lembrava tinha sido na casa dos pais da Lila.

— Provavelmente mais do que eu – disse me encarnado com uma expressão curiosa.

— Eu sei que parece meio absurdo, mas talvez ela seja uma espiã ou... – e apesar de tudo, eu ainda buscava justificativas para as atitudes da Roxie, por mais que soubesse que ninguém a obrigaria a fazer nada que não quisesse.

— Olha, eu entendo como se sente. —Ele me interrompeu – Eu confiei na Roxie para cuidar de você, para buscar informações, confiei nos planos dela e nas histórias que ela me contou. Eu confiei pela amizade que tínhamos e pela capacidade dela como líder e, sim, eu estou com muita raiva por tudo o que ela fez – os dedos se crisparam em torno da caneca de café. – Mas eu não tenho tempo para isso agora, eu preciso encontrar o último lendário, reagrupar a pouca força que temos e criar novos planos....Quando tudo isso acabar, eu vou ter tempo para odiá-la o quanto eu quiser.

Parecia muito maduro e focado e fiquei pensando se um dia eu seria daquela forma. E eu nem precisava ficar mais velho para saber que a resposta era não.

— Eu sinto muito pela Lenora – pedi e vi os olhos perderem um pouco de brilho e os dedos apertarem ainda mais a caneca.

— Ela foi uma das minhas tutoras e fez questão que eu assumisse o ginásio quando ela se aposentou – e por um segundo os olhos desviaram do meu, como se controlasse a vontade de chorar. – Eu deveria ter feito mais por ela.

— Você vai ter tempo para se lamentar depois – disse automaticamente. Aquilo soou grosseiro e achei que ele fosse me repreender, mas Cheren deu um sorriso fraco.

— Você tem razão – ele tomou um longe gole da caneca antes de me encarar novamente. – Deve ser difícil para você descobrir sobre a Roxie – disse em uma tentativa de consolo. – Ainda mais da maneira como foi – com a Roxie tentando me matar, sim, tinha sido difícil.

— Não mais do que para você – rebati sem pensar.

— Para mim?

— Vocês têm, tinham um lance, não? – Falei rápido antes que minhas bochechas corassem. Eu me lembrava da Roxie tecendo elogios ao líder e de como eles eram muito próximos.

— Acho que o Marlon não iria gostar de te ouvir falando isso – e deu um sorriso, como se estivéssemos tendo uma conversa casual em períodos de paz.

— Bem, eu achei que...

— Eu gosto da Roxie, mas não desse jeito – Cheren se ajeitou melhor no chão. – Ou gostava, não sei mais – balançou a cabeça. E apesar de tudo, Cheren parecia muito mais tranquilo do que eu esperava. – Bem, chega de papo furado – ele se espreguiçou lentamente – de volta ao trabalho.

— E o que nós vamos fazer agora? – Cheren me encarou como se nós fosse muita gente, mas acabou respondendo.

— Preciso achar o último lendário antes da Team Plasma e talvez tenhamos uma chance de reverter o quadro.

— E achar só o lendário vai resolver? – Perguntei duvidoso.

— Provavelmente não, mas essa é a minha parte da missão. Reagrupamento e planos de guerra são responsabilidade da Elesa e da Skyla.

— E onde o lendário está?

— Em algum lugar por aqui – apontou para uma floresta densa no mapa, nas imediações de Nacrene, mas era uma área enorme, maior que os tuneis em Twist Mountain. Sem um ponto exato nunca iriamos encontrar.

— E como você vai encontra-lo? – E o líder balançou a cabeça desanimado, como se não fizesse ideia da resposta. – Então, talvez devêssemos... – comecei, mas meu Xtransceiver começou a tocar.

A água tinha secado, mas ele ainda fazia um barulho muito engraçado. Só podia ser minha mãe para me ligar tão cedo.

— Sim?

— O que aconteceu com o seu cabelo? – O rosto do outro lado do visor perguntou. Era um rapaz familiar, mas eu não conseguia me lembrar. Ele usava um uniforme de ranger e parecia muito afobado.

— Quem...

— Deixa para lá – ele desviou a atenção do meu cabelo – cadê a Haila? – Um ranger procurando a Haila? Só poderia ser...

— Tom? – Perguntei sem muita certeza.

— Olha, você lembrou de mim – e deu um sorriso no visor. – Então, e a Haila?

— Ela está dormindo, eu acho.

— Eu tentei ligar para ela, mas ela não me atendeu – disse com uma expressão dramática.

— Eu acho que ela perdeu o Xtransceiver – e no meio de todas aquelas batalhas e coisas perdidas, eu não sabia mais quem tinha o que.

— Bem, pode avisar a ela que sabemos onde o Viziron está – meus olhos se arregalaram e percebi que os de Cheren também. – Ela estava atrás dos lendários, não? O Ben disse... – mas alguém comentou alguma coisa e Tom desviou sua atenção da tela por um minuto.

— Tom, como você sabe do lendário?

— Eu não sei, o Corin que sabe – Corin não era o irmão da Haila? E por que ele sabia do lendário? – Diga a ela para nós encontrar daqui a três dias, as 22 horas, no local onde nos conhecemos na floresta de Striaton.

— Espera...

— Eu preciso ir – e desligou antes que eu realmente entendesse o que estava acontecendo.

Quando a chamada acabou, vi Cheren me encarar, ele trazia uma expressão bastante desconfiada no rosto.

— O que diabos foi isso?

— Tom quer que eu diga a Haila...

— Deedee, eu ouvi, mas quem é ele, e como ele sabe do lendário? – As sobrancelhas estavam curvadas de forma muito pronunciada

— Tom é um ranger e acho que é amigo do Ben – era o que eu lembrava da Kara ter me contado.

— Certo, e como ele sabe do lendário? – Eu entendia sua desconfiança.

— Aparentemente, Corin sabe.

— E quem é Corin?

— Irmão da Haila.

— Como Jaden?

— Bem, sim, mas ele tem dez anos, eu acho. – Eu não lembrava ao certo, mas deveria ser a mesma idade da Cassie.

— Como um garoto de dez anos sabe onde um lendário está? – Eu não fazia ideia. – Olha, eu não quero jogar um balde de gelo nessa notícia, mas você sabe que isso não é nada confiável.

— Mas não é tão fora da informação que você tinha – tentei protestar, mas ele parecia muito desconfiado, e imagino que os recentes acontecimentos com Roxie, o tivessem deixado com um pé atrás.

— Deedee, eu sei, mas você sabe... – mas do nada o líder se calou e toda atenção dele se voltou para a televisão.

Um novo telejornal tinha começado e a âncora anunciava que alguns membros do alto escalão da Team Plasma estavam em Castelia para negociar com o presidente. Ela dizia que as discussões iriam começar naquele dia e deveriam se arrastar por toda a semana, até terem uma posição do governo. Não ficava claro quem realmente iria a reunião, mas com certeza, teria um dos generais e talvez Ghetsis.

— No trem, a Team Plasma disse que não iria mais negociar – comentei.

— E eles não vão – Cheren afastou o cabelo do rosto. – Depois dos últimos ataques, Castelia fechou suas saídas e está fortemente armada. Não teria como a Team Plasma atacar sem causar muitas baixas, mas é muito mais fácil de fazer isso se já tiverem infiltrados lá.

— Mas se claramente é uma armadilha, por que permitir que eles entrem na cidade? – E era um plano muito descarado, até para mim.

— Por que o presidente não pode se negar a negociar. Se recusar é dar sentido as palavras da Team Plasma – e eu me lembrava da Aida dizendo que a equipe encontrava resistência em negociar com as autoridades.

— Mas de certa forma, eles são terroristas, não? Grimsley disse que o presidente não negocia com terroristas – e o discurso do elite ainda estava na minha cabeça.

— O problema é muita gente já não os vê assim – Cheren explicou – armaram para obriga-lo a negociar.

— E o que vamos fazer agora?

— Acorde a Haila, eu vou convocar uma reunião – ele se levantou, pisoteando nos mapas no processo.

— Reunião?

— Acho que vamos ter que acreditar nesse tal Tom – disse saindo pela porta.

=8=

— Pegaram tudo? – Kara gritou enquanto desalojávamos o quarto que Elesa tinha nos cedido.

— Que tudo? – Lila lançou um olhar atravessado. Kara e eu tínhamos perdido tudo em Anville, Lila tinha perdido seus pertences e os da Haila no acidente de trem. – Ninguém mais tem nada.

— E por que você está indo com a gente mesmo? – Haila lançou um olhar atravessado.

— Não estou indo para a sua missão idiota, menina. Só quero voltar para casa – Kara respondeu apática.

— Como se você não tivesse interesse pelo Tom estar na jogada – provocou, mas Kara só deu de ombros.

Quando descemos as escadas, Skyla nos esperava com uma grande mochila nas costas, ladeada por Elesa e Alana. A líder elétrica parecia muito preocupada e entendia bem porquê.

Quando Cheren realizou a reunião de emergência e expôs a ligação que eu tinha recebido de Tom, todo mundo pareceu um tanto animado. Haila principalmente. Não era só sobre seu namoradinho, mas principalmente sobre o irmão de quem ela não tinha notícias há meses. Claro que ela me encheu de perguntas, ficou furiosa por eu não tê-la chamado e mais ainda por não ter arrancado informações suficientes sobre o Corin. Mas expressão no rosto dela era leve e feliz, como eu não via fazia semanas.

Embora o próprio Cheren não estivesse totalmente convencido do que ouvira de Tom, ele conseguiu convencer os demais, com a exceção de Elesa. Ela ainda mantinha o discurso sobre manter os civis fora, principalmente crianças e não queria tomar medidas desnecessárias e nem envolver pessoas que não fossem confiáveis e cometermos o mesmo erro do que com Roxie.

No final, Haila disse que iria, mesmo que fosse uma armadilha e que não perderia a chance de encontrar o irmão. Kara disse que iria por causa do Tom e eu iria por causa delas e Lila iria porque todos íamos. Cilan disse que não nos deixaria sozinhos e Skyla que não deixaria outro lendário nas nossas mãos. De forma que acabamos nos tornando um grupo mais volumoso do que o necessário.

Então arrumamos algumas poucas coisas e na manhã do dia do encontro, nos preparamos para sair bem cedo.

— Eu ainda acho que você deveria ir para Castelia com o Cheren – Elesa comentou com Skyla.

— Eu não vou deixar esse bando de crianças sozinhos – Skyla respondeu.

— Nós não somos crianças – Haila respondeu amarga.

— E eles não estarão sozinhos – Cilan praticamente brotou ao lado da Elesa.

— Elesa, nós já conversamos sobre isso – e o tom de Skyla era mais leve. – Mudar o plano agora...

— Mandar todos vocês para uma floresta com uma pista não muito confiável não é exatamente o que eu chamo de plano – Elesa fechou a cara.

— É a única pista que temos – Cheren cruzou os braços. – Não adianta mandar todos para Castelia, não sabemos o que vai acontecer lá. E além disso, Burgh e Alder estão lá.

— Eu não sei por que vocês me elegeram como líder, se nenhum de vocês ouve o que eu falo – Elesa deu um muxoxo.

— Melhor irmos logo – Cilan comentou balançando as chaves do carro entre os dedos. Eu sabia que iriamos de carro parte do caminho, mas não sabia como iriamos para Striaton, do outro lado do rio.

Kara e Lila se despediram e foram em direção ao carro, Skyla se despediu da Elesa, mas a líder voadora não parecia muito satisfeita em se despedir.

— Você vai mesmo para Castelia? – Questionei me voltando para Cheren.

— Bem, não ainda, mas se for necessário, e provavelmente será – ele revirou os olhos.

— Se você for, tome cuidado – e soava estranho eu dizer aquilo para um líder de ginásio. Ele apenas acenou com a cabeça e respondeu um você também quase inaudível. Balancei a cabeça em concordância e virei as costas para ir ao carro.

— Deedee – Cheren me chamou – Tome cuidado também, e quando tudo isso acabar, talvez a gente possa ver um filme – e ele parecia muito sem graça em dizer aquilo. Principalmente por que todos estavam olhando para ele. Era um desejo bem simples, mas era o tipo de coisa que tinha se tornado incomum e fútil de fazer nos últimos meses.

— Cara, você é tão transparente – Cilan deu um tapinha no ombro do Cheren e o líder pareceu um tanto desconcertado.

— Do que você está falando?

— Você não mudou nada da época que era treinador – Cilan provocou com um risinho.

— Eu não faço ideia do que você está falando...

—- Você era assim com o Hilbert também, as pessoas sabem se cuidar sozinhas, sabia? – Cilan saiu em direção ao carro enquanto Cheren bufava.

Terminamos de nos despedir e nos acomodamos no carro. Era um veículo espaçoso, para acomodar seis pessoas, Haila e eu nos acomodamos no último banco e ela se largou preguiçosamente no espaço. Cilan girou a chave na ignição e finalmente partimos.

— Desde quando você e o Cheren são tão amigos? – Haila questionou com um sorrisinho.

— Sei lá – respondi. E não sabia mesmo. Eu tinha comentado dos filmes, mas não imaginei que ele tivesse se atido a isso. Mas considerando que ele vivia em função de encontrar os lendários, ver um filme parecia um grande passo para sua rotina.

— Deedee – Haila comentou mais baixo e percebi que ela encarava o restante do grupo para ver se alguém prestava atenção a nossa conversa. – Eu preciso te contar uma coisa...

— Sobre a Lenora? – E era o assunto que ela tinha evitado todo esse tempo.

— Também – ela deu um suspiro. – Mas principalmente sobre o Jaden.

Notas finais
Para variar, eu não betei, então não me matem se tiver algo errado. Beijokinhas e até!