Rota Zero
84 O Peso do Mundo - Parte 1
Notas iniciais
Haila
O PESO DO MUNDO
Havia um monte de vozes exaustadas ao meu redor. Skyla estava em uma ligação com Marlon, andando de um lado para outro, revoltada com a toda a situação em que estávamos. Dee estava tentando evitar que Lila e Kara se matassem, enquanto Cilan tentava entrar em contato novamente com Tom, sem sucesso.
Puxei um pouco a cortina olhando para fora. Estava tudo quieto. Devido ao novo toque de recolher da Team Plasma, apenas um soldado armado estava do outro lado da rua. Sob a iluminação de um poste, passando informações que eu não podia ouvir pelo radio.
Ter chegado a Striaton City era só o primeiro passo e não podíamos mais perder tempo. Fomos para o restaurante da família de Cilan, e agora de pé ali, eu não conseguia sentir a nostalgia que aquele lugar deveria me trazer.
Parecia outra vida a ultima vez que eu entrara ali. Tentando evitar ficar de papo com tom, mentindo sobre ter mais Pokémon, com medo que meus pais me encontrassem. Mal eu sabia que eles nunca apareceriam. Que eu tinha sido manipulada naquela época.
E agora, como se não bastasse, Corin também estava evolvido nessa merda toda. Eu pensei que se o deixasse em casa, naquela cidadezinha no fim do mundo, ele estaria seguro. Que ele estaria livre de passar pelo mesmo inferno que eu estava passando. Mas mais uma vez eu estava errada.
Tentei fechar os olhos para me acalmar, mas as imagens de Lenora, Jaden, Deidran e Des estavam ali para me assombrar. Até mesmo Abobora, aquele pequeno Pokémon que nunca fez mais sequer para uma folha, nunca mais poderia voar por minha culpa.
Eu estava exausta. Meu corpo e dos meus Pokémon estavam chegando ao limite. Nossos aliados praticamente se resumiam as pessoas daquela sala. A Elite Four tinha acabado, não havia mais Champion, os lideres de ginásio já sequer existiam mais. Os últimos em suas cidades, Cheren, Marlon e Elesa, eram a única coisa que impedir a Team Plasma de tomar o controle.
— Parece que estamos chegando ao fim, não é mesmo? – Cilan surgiu ao meu lado, me fazendo dar um pequeno pulo de susto.
Fitei seus olhos verdes. Eles transpareciam muito bem seu cansaço. – Seus irmãos então bem?
— Estão. Eles resolveram me ouvir e pegaram uma balsa para a casa da minha família em Kalos antes da Team Plasma tomar todo o controle.
Balancei a cabeça positivamente. Se eu pudesse, talvez eu também pegasse Corin e faria o mesmo. Quem iria me culpar? – Conseguiu alguma resposta de Tom?
— Não, mas ainda faltam três horas para o encontro. Ainda não temos com que nos preocupar.
— Sei – respondi voltando a puxar as cortinas. O soldado ainda estava ali.
— Corin esta bem, eu tenho certeza disso. Tom sabe se virar melhor do que você pensa.
Eu queria muito acreditar nisso. Mas depois de tudo o que eu tinha visto, eu simplesmente estava explodindo, – isso não é certo.
— O que? – Ele perguntou surpreso.
— Não é certo... Corin é só uma criança, ele não deveria estar no meio disso. A Team Plasma pega tudo o que é bem e destrói. Eles não se importam com nada além de seus objetivos. Não querem saber se pessoas indefesas vão se machucar, quanto sangue vai ser derramado ou quem vai morrer no meio do percurso. Eles só querem destruir tudo para depois governar o que sobrou da ruina. Isso não é certo, – disse novamente e só então notei que estava gritando e todos me encaravam em silencio. Já podia sentir as lagrimas. Prendi o folego e sai correndo para o banheiro, evitando olhar pra qualquer um caminho.
Parei em frente a pia e abri a torneira. O reflexo no espelho me encara. Meu rosto estava cheio de pequenos cortes, olheira fundas sombreavam meus olhos. Quando minhas bochechas tinham ficado fundas daquele jeito? Meu cabelo tinha crescido. Ele quase batia no meu ombro agora.
Enchi minhas mãos com bastante agua e afundei meu rosto nelas. Sentindo a agua fria inundar meu rosto, fazendo-o arder. A quem estávamos enganando? O plano da Team estava quase completo e eles tinham ganhado praticamente todas as batalhas até agora. Se eles pegassem o ultimo lendária a coisa mais esperta que eu poderia fazer era catar Corin em um dos braços, Dee do outro e levamos o mais longe possível disso tudo.
Quando senti o folego acabando, puxei meu rosto de volta dando de cara com Deedee do meu lado. Praticamente pulei em cima da pia de susto, – você sabia que esse é o banheiro feminino?
Ele olhou em volta com um olhar meio critico e deu de ombros – sempre achei que fosse mais limpo. – Se fosse em outro momento eu sem duvida teria rido. – Seria muito estranho se eu dissesse que estou com saudade da época dos Contest e Ginásios?
— Que basicamente foi Castelia e Nimbasa?
Dessa vez ele deu risada, – acho que não fomos muito longe nas nossas carreiras Pokémon. Mas olha só, eu quase ganhei uma fita e você tem duas insígnias.
— Acho que não vai ter grande festival, nem liga Pokémon pra gente.
— Quer voltar pra lá e comer alguma coisa? Daqui a pouco eu finalmente vou conhecer o Corin.
—Vai sim, – respondi sem ter certeza de nada.
— Você vai leva-lo de volta depois que a gente salvar o lendário? Para os seus pais, quero dizer?
Olhei de volta para o espelho, parte de mim me odiava por tudo que eu tinha feito e principalmente pelo que eu não tinha conseguido fazer. Desde Simi, tudo e todos ao meu redor estavam sendo feridos, um a um. Eu não posso deixar que isso chegasse a Corin.
Eu sempre pensei que poderia fazer a diferença, que poderia salvar aqueles que eu amava, mas Lenora tinha morrido bem diante dos meus olhos. Des ainda não estava fora de risco e eu não conseguia mais contar quantas vezes Dee já tinha quase morrido.
Encarei Dee apenas por um segundo, tomando coragem pra perguntar – você fugiria comigo e Corin? –A confusão nos olhos dele foi instantânea, seus lábios se moveram, mas palavras não se formaram. – Podemos esquecer tudo isso e recomeçar. Nós dar a chance de viver os dias de Contest e Ginásios de novo.
— Você tem certeza? – Ele perguntou ainda sem parecer acreditar no que eu estava dizendo.
Eu mesmo não acreditava, mas sinceramente, não sabia mais no que acreditar. Eu estava com medo de mim mesma. Não sabia se conseguiria suportar mais uma perda sequer. – O quanto é possível ter nesse momento.
Ele comprimiu os lábios, me encarando por um tempo sem dizer nada e em seguida soltou, – eu não posso. Eu não posso ir com vocês, não posso deixar as pessoas que ainda acreditam em mim.
— Depois de tudo o que passamos Dee. Tudo o que fizemos, olha o estado de Unova? A Team Plasma esta a um passo de vencer. Já fizemos o bastante e o bastante não fez diferença.
— Fez diferença pra mim, – ele respondeu com mais confiança do que eu poderia esperar dele. Ele tinha certeza do que falava, não havia mais duvida no olhar dele. – Além do mais pra onde fugiríamos? Se não derrotarmos pelo menos Jaden, você e Corin nunca terão uma vida, vocês não estarão seguros em nenhum continente se a Team Plasma vencer.
“Se você tiver que ir eu vou entender. Corin é seu irmão e você tem que protegê-lo, mas eu vou ficar aqui e vou derrotar Jaden. Não importa o que eu tenha que fazer. Mas eu gostaria que você me ajudasse com isso.”
As lagrimas começaram a escorrer e eu não tentei contê-las. Fui até ele e coloquei a cabeça no seu ombro, chorando como há muito tempo não me lembrava fazer. Ele me envolveu em seus braços e me apertou com força. E eu chorei. Chorei por tudo o que tinha que chorar. E December não me largou até que eu conseguisse colocar tudo o que precisava para fora.
Quando eu finalmente parei, sabia que não precisaria mais chorar. Não pelo passado. Deedee estava ali por mim, e eu estaria por ele até que ele não precisasse mais de mim.
=8=
A noite estava muito fria, e mesmo ali onde quase nunca nevava, nuvens de vapor se formavam a partir de nossa respiração. Nenhum de nós se atrevia a dizer uma palavra sequer, a não ser as estritamente necessárias. Pedindo para prestar atenção ao som das folhas, da cidade um pouco além da mata e hora ou outra de algum Pokémon que alertava que algo estava na floresta.
Estávamos todos ansiosos, esperando qualquer sinal de Tom e de Corin. Já passava das onze da noite e a ansiedade de todos era palpável. Kara batia o pé sem parar, encostada ao tronco de uma arvore. Coincidentemente, a arvore da qual Tom arrancara o galho, junto de seu Ratata meses atrás.
Um pouco mais a frente, Lila estava sentada a beira do morro do qual eu cai. E agora, olhando dali, ele não parecia mais tão alto como eu me lembrava. Aparentemente nem mesmo minha memoria era mais tão confiável. O que me fazia perguntar, o que mais eu havia bloqueado, ou mesmo aumentado.
Ou quem sabe eu fosse outro tipo de garota naquela época. Talvez, quando eu sai de casa, cair daquele lugar realmente parecesse assustador. Lembro-me de ter medo do meu pai, medo de me sentar na mureta de Nuvema. De ir muito longe na mata e nunca mais conseguir voltar para casa. Lembro-me do medo de ir mal nas provas da escola e isso me prender a Nuvema para sempre.
Mas por menores que esses medos parecessem agora, eu não os achava idiotas. De certa forma, eu sentia falta desse tipo de preocupação. Ali, no meio da mata, era como se esse tipo de coisa nunca mais fosse significar nada pra mim.
E foi ali, perdida em meus pensamentos, com Dee ao meu lado que o grito de Tom ecoou pela floresta. O som de folhas sendo pisoteadas e troncos estalando preencheram todo o silêncio em um instante. Fazendo todos levarem as mãos a suas Pokeball.
A tensão cresceu visivelmente em todos e eu sabia o que cada um deles estava pensando. Aquilo podia facilmente ser uma armadilha armada por Jaden para me capturar novamente. Ele sabia que se ele envolvesse Corin sem duvida me tiraria do esconderijo. Assim como ele sabia que se envolvesse um lendário, isso obrigaria que pelo menos um líder fosse até o local verificar.
Mas talvez por cortesia, ou mesmo negação, ninguém tinha dito nada sobre isso. Pelo menos até aquele momento, quando ouvimos os gritos do que pareciam soldados, fazendo a floresta ganhar vida de um momento para outro.
Kara e Cilan se colocaram a frente, nitidamente preocupados. Eu tentei diferenciar os sons, mas não consegui encontrar a voz de Corin. Em um instante os vultos surgiram na floresta. O enorme Gorluk, inconfundível, vinha atrás de Tom, como uma locomotiva fora dos trilhos. Destruindo tudo pela frente.
Não vi exatamente quando Skyla libertou seu Swanna, só percebi quando a rajada de vento causada pelo forte movimento das asas do Pokémon bateu em meu rosto. Arrancando folhas do chão e fazendo a copa das arvores balançar.
Em um instante ele parou em pleno voou, enviando uma imensa rajada de agua fervente em cima do Pokémon monólito fantasma de pedra, enviando-o ao chão. No outro, o Pokémon já estava batendo asas novamente, voando em uma velocidade surpreendente em meio as arvores, indo para cima dos próximos Pokémon que já surgiam ali. Nossa ideia de discrição aparentemente tinha ido por agua a baixo.
— Por Arceus, são vocês! – Tom praticamente abençoou quando nos viu.
— Você está bem? – Cilan perguntou segurando o garoto pelos ombros.
Seu olhar estava assustado, sangue inundava sua camisa, enquanto gotas de suor e terra cobriam seu rosto. – Eles surgiram do nada. Tentei segura-los com meu Emboar, para que Corin e Faith fugiam. Quase não consegui sair vivo. Se ela não tivesse sugerido que nos separássemos eu não sei o que teria havido.
Meu coração deu um salto ao ouvir o nome do meu irmão, mas antes que eu pudesse processar muita mais coisa a floresta se iluminou completamente. O Hyper Beam passou quase por cima de nossas cabeças, destruindo troncos de arvores e galhos. Enviando uma nuvem de destroços ao ar que por um segundo se tornou não respirável.
Pulei na gola do garoto e gritei, – onde está o meu irmão? – Assim que consegui recobrar minha orientação.
Seus olhos encontraram os meus, enquanto Kara, Lila e Cilan libertavam seus Pokémon. A mata já estava se enchendo de gritos e urros. Os Team Plasma que perseguiam Tom já estavam sobre nós.
Sua boca se abriu, mas as palavras demoraram um pouco a sair. – Eu não sei. Eles foram para o norte. Nos separamos há dez minutos.
Me virei depressa, tentando me encontrar no meio daquela confusão e fui puxada por Dee, que evitou que eu fosse atingida pelo Stoutland que aparentemente tinha causado tudo aquilo. Segurei seu braço com força e praticamente implorei, – temos que encontra-lo.
Ele quase não teve tempo de responder, Hydreigon e Jellicent já estavam voando sobre nossas cabeças, indo de encontro ao Slowpoke de Lila, Buffalant de Kara e Lilligant de Cilan.
— Haila, – alguém gritou. Corri meu olho por entre as pessoas ali até encontrar Skyla. Seu cabelo esvoaçava de acordo com que o Swanna atrás dela batia asas, enviando ataques aos Team Plasma que tinham acabado de chegar. Protegendo sua criadora com seu próprio corpo. – Vá, – ordenou sem intenção de repetir.
Voltei a segurar a mão de Dee eu sai o puxando desta vez. Fosse por interesse no lendário, ou preocupação por causa do meu irmão. Eu não estava a fim de desobedecer Skyla, daquela vez, a decisão dela estava tomada.
Um soldado da Team Plasma, que não deveria ter mais que a nossa idade, se enfiou na nossa frente. Até aquele momento eu não tinha notado a presença dele ali e pra ser sincera, eu não fazia ideia de quantos deles tinham chegado.
Minha mente parecia ter entrado em loop assim que eu ouvira que Corin estava correndo pela floresta, fugindo da Team Plasma. Era como se o meu próprio pesadelo tivesse criado forma viva. Mas independente de serem cinco ou dez, aquele garoto e Eelektross que flutuava atrás dele, não pareciam dispostos a nos deixar passar.
Saquei a Pokeball de Leaf o mais depressa que consegui. Ela saiu da Pokeball já correndo, seus instintos estavam aguçados, seus movimentos quase tão rápidos quando deveriam ser. Ela saltou sobre o treinador, com as unhas a mostra.
O outro Pokémon só teve tempo de reagir quando percebeu seu treinador deitado no chão, gritando, tentando tirar Leaf de cima dele. A criatura escamosa se moveu o mais depressa que pode, tentando arrancar Leaf do seu treinador com uma mordida, mas ao ouvir meu comando de evasiva, ela saltou como um felino, sobre o corpo do outro Pokémon usando-o como trampolim para saltar até o monte de folhas logo atrás deles.
Treinador e Pokémon se chocaram, rolando pelo chão da mata e antes que pudessem se recompor, Leaf já tinha enviado o próximo ataque. O Energy Ball explodiu quando se chocou contra os dois. Arremessando Pokémon e treinador quase sobre mim e Deedee.
Mas não havia tempo a perder, precisamos continuar o mais rapido possível. Saltamos quase juntos sobre o Team Plasma e seu Pokémon e corremos, acompanhados de Leaf pela floresta. Saltando sobre troncos, evitando buracos, desviando de arvores o mais rápido que conseguíamos naquele breu. Deixando o som da batalha para trás.
Porém, de acordo com que entravamos ainda mais floresta, podíamos ouvir que mais soldados da Team Plasma estavam sendo enviados. Os sons de galhos sendo quebrados e folhas amassadas continuou nos seguindo.
Deedee e eu tivéssemos que nos esconder uma ou duas vezes, nos enfiando em arbustos ou nos espremendo atrás de troncos, tentando evitar dar de cara com os soldados que iam na direção de onde viemos.
Mantive meus ouvidos em pé, tentando ouvir o que eles diziam enquanto passavam por nós, mas além de xingamentos, e ordens uns para os outros, não havia uma sequer palavra dita sobre Corin ou a Ranger que deveria estar com ele.
Quando finalmente achamos o rio, mais de meia hora já havia se passado. Meu corpo e o de Dee estavam cobertos de suor. Tentamos recobrar o folego e tomar um pouco de agua. Meu coração estava batendo forte em meu peito, mas não era só pelo esforço físico. O ritmo cardíaco não desacelerava.
Eu não conseguia deixar de imaginar o pior. De que Corin tivesse sido captura, se machucado, ou na pior das hipóteses, morto. Team Plasma não tinham escrúpulos e eu não conseguia duvidar que eles machucariam um garoto daquele tamanho.
Tentei me controlar. Pensar em maneiras de encontra-lo, mas minha mente parecia presa na ideia de que algo havia acontecido e quanto mais eu pensava nisso, mais difícil era de focar, de pensar, de procurar uma solução.
A floresta era enorme e apenas uma direção da bussola decididamente não era um indicativo de que eu o acharia. Qualquer coisa poderia ter acontecido. Ele poderia estar em qualquer lugar.
Levei às mãos a cabeça e comecei a girar, olhando para cada canto, procurando qualquer sinal. Um nó tinha se formado na minha garganta e eu podia sentir o pânico crescendo dentro de mim.
Foi quando Deedee me segurou. Seu olhar estava preocupado. Ele me fitou por apenas alguns segundos e praticamente sussurrou, – nós vamos encontra-lo. Vamos procurar a noite inteira se for preciso.
Tentei parar, recobrar o controle sobre mim. Respirei fundo, mas aquela angustia estava acabando comigo, – quando você me contou da ligação em Nimbasa eu imaginei por um momento que as coisas ficariam bem. Que eu finalmente pudesse tirar Corin daquela casa. Mas desde que cheguei aqui eu tenho esse pressentimento... Essa sensação de que tudo vai dar errado e que eu vou perdê-lo.
Deedee franziu o cenho e comprimiu os lábios. Eu o estava deixando ainda mais preocupado. Decididamente aquela não era minha intenção, – nós perdemos muita gente, – ele comentou desanimado. Olhou em volta como se estivesse meio desorientado, e depois voltou a me fitar, – mas faremos melhor, lutaremos mais. Não vamos perder mais ninguém, – ele disse como se fosse uma promessa. Eu sabia que ele e nem eu poderíamos cumprir algo assim, mas se ele tivera coragem de dizer, eu deveria ter coragem de tentar.
Balancei a cabeça positivamente, tentando acreditar em algo que eu tinha deixado pra trás. Depois de tantos caírem. Depois de Simi, Des, Lenora, Draiden, Iris, Clay, Marshal e tantos outros. Depois de Roxie e Jaden. Se eu não acreditasse que podia, eu não conseguiria continuar pelos que ainda estavam vivos, pelos que eu ainda me importava.
Serrei os punhos e perguntei, – pronto? – Ele sorriu de forma tímida e cansada e junto voltamos a correr.
Seguimos o curso do rio. Evitando o máximo possível fazer barulho. Tarefa difícil pra pessoas tão desastradas como nós. Mas de alguma forma conseguimos evitar mais de cinco soldados. A lua tinha finalmente saído por entre as nuvens e lençóis de luz se formavam por entre a copa das arvores.
A floresta estava silenciosa, nenhum Pokémon parecia ousar fazer qualquer som. A não ser pelas folhas balançando sob a vontade do vento, as aguas do rio e nossos passos pelo solo da floresta. Aquele lugar seria quase como um cemitério.
Eu já tinha me perdido, não fazia a menor ideia de onde estávamos. Mas não importava. Continuamos seguindo o rio até ouvirmos o primeiro som de vozes em algum tempo. Leaf ergueu as orelhas, tentando encontrar a origem e saiu em disparada. Eram comandos dados a Pokémon e quanto mais nós aproximávamos, mais confirmávamos que se tratava de uma batalha ainda escondida sob as arvores.
Aceleramos ainda mais nossos passos. Chamas pareciam dançar na batalha, fazendo a floresta se acender em laranja e amarelo a cada ataque. Uma mulher gritava exaltada cada comando. Mas o outro treinador não dizia uma palavra.
Vimos primeiro o macaco de fogo. Simisear saltava de uma arvore para a outra, evitando o Swift de um Flareon.
Meu coração praticamente saiu pela boca. Imaginando que fosse meu pai. A única pessoa que eu já conheci que tinha um daqueles. As lembranças vieram à boca com um sabor amargo. Mas ao finalmente conseguir ter uma visão melhor do campo de batalha vi que ali batalhando contra a Team Plasma de uniforme preto estava Corin.
Ele estava com punhos cerrados, mordendo os lábios com força, focado na batalha. Minha primeira reação foi comandar Leaf, mas antes que eu precisasse fazer isso, indo na direção dele o mais depressa possível, Flareon saiu correndo a uma velocidade impressionante, saltou usando uma pedra de apoio e acertou o outro Pokémon com uma pancadas tão forte que o arremessou contra o tronco da próxima arvore.
O Simisear caiu descordado, fazendo um estalo. Provavelmente ele tinha quebrado uma costela. A Team Plasma gritou furiosa, mas antes que ela pensasse em fazer mais alguma coisa, Flareon enviou uma coluna de fogo da direção dela. A mulher trouxe seu Pokémon de volta para a Pokeball e saiu correndo pela mata.
Eu estava ofegando tanto que não conseguia dizer uma palavra. Me peguei parada, estática, a alguns metros de Corin olhando para ele. Algum tempo atrás nunca me passaria pela cabeça ver Corin em uma batalha Pokémon. Ele nunca gostara de violência, nunca quis arriscar que seu Eevee se machucasse por causa de uma brincadeira.
Mas agora, ali entre as arvores, não só seu Pokémon tinha evoluído, como ele estava forte. E talvez, ele não precisasse de tanta proteção quanto eu imaginava. Eu não era mais a mesma pessoa desde que sai de casa, e de alguma forma, Corin parecia também não ser.
Flareon me notou primeiro e só depois de acompanhar o olhar do Pokémon Corin me viu. Ficamos assim por alguns segundo, sem acreditar no que víamos. Então saímos correndo na direção um do outro.
Ele praticamente saltou sobre mim, me abraçando com força. Puxei o corpo dele contra o meu, o aperto o mais forte que eu conseguia. Seu cabelo fedia, seu corpo deveria estar tão suado quanto o meu, mas não havia coisa melhor do mundo do que tê-lo naquele abraço.
— Haila, – ele disse e sua voz saiu chorosa.
— Estou aqui, – respondi sem acreditar que realmente estava.
Quando finalmente paramos de nos abraçar analisei cada pedaço dele, e ele fez o mesmo comigo. Sem duvida eu estava muito diferente, mas ele também estava. Havia crescido, seu cabelo estava maior e seu rosto um pouco mais esguio.
E Leaf parecia fazer a mesma coisa com Flareon. Os dois se cheiravam e lambiam com uma animação que eu não via na Pokémon há muito tempo.
— Você esta bem? – Perguntei ainda sem querer solta-lo.
— Estou, não me machuquei. Acabei me separando de Tom e depois me perdi de Faith. Consegui evitar os Team Plasma até que essa dai me achou atrás daquelas raízes, – contou apontando para uma arvore.
Dee se aproximou um pouco mais, olhando com curiosidade pra gente, – mas aparentemente você deu um jeito nela.
— Hamal fez a parte difícil do trabalho, – comentou parecendo satisfeito, olhando para seu Pokémon. Depois fitou Dee, parecendo confuso.
— Esse é Deedee, meu melhor amigo, – contei parecendo infantilmente orgulhosa.
Mas Dee pareceu bem confortável com o comentário. Ele também parecia aliviado, sorriu e estendeu a mão na disse do menor, – é bom finalmente conhecê-lo.
Antes que o Corin pudesse responder o chão tremeu, nos fazendo perder a estabilidade por um momento. Um barulho como da caverna de Clay antes de desabar encheu meus ouvidos e pedras voaram do chão. Do buraco criado, um Excadrill de quase um metro de altura saltou. Rosnando e mostrando suas garras, ficando entre mim e Corin.
A garota surgiu pela floresta quase no mesmo instante, saltando sobre um tronco caído. – Deixem o garoto, – ela gritou com ferocidade.
Leaf se armou para o ataque, mas eu fiz um sinal para ela parar. A garota estava usando uniforme Ranger e parecia exausta. – Faith, calma. Essa é a minha irmã, – Corin interveio.
A garota pareceu apavorada por um momento. Olhou pra mim e depois para Dee e ainda meio ofegante soltou, – gostei do cabelo.
Deedee instintivamente segurou uma mecha do ninho de Patrat. – Já esteve melhor, você sabe. Mas obrigado, – respondeu sem jeito.
— O que aconteceu com você? – Perguntei sem esconder a insatisfação na minha voz. Ela tinha deixado Corin sozinho. Ele pode ate ter lidado com um soldado idiota, mas se um numero maior tivesse aparecido...
— Nos fomos atacados. Havia três soldados e eu tivesse dificuldade de lidar com eles sozinha. – Respondeu com um tom meio arrogante. – Eu consegui segurar dois deles enquanto Corin fugia, mas o terceiro eu perdi de vista e aqui estou, – explicou erguendo os braços.
O Excadrill da garota não parecia nada bem. Estava com um corte no peito, sujo por terra, mas visivelmente bem manchado de sangue. Fosse lá quem ela enfrentou, ela deveria ter derrotado por pouco.
— Vocês encontraram Tom? Ele esta bem? – A garota perguntou.
Corin me fitou com a mesma preocupação no olhar, – ele esta com Skyla, e mais uns amigos. Sem duvida eles estão bem.
— Então vamos logo para o barco, eles já devem estar chegando lá a essas alturas, – a Ranger disse tentando ainda se recuperar da corrida. – Ele não esta ancorado muito longe do desague do rio.
Eu olhei em volta e só então me dei conta de como a vegetação tinha mudado. Não deveríamos estar muito longe da praia. – Que barco é essa? – Tive que perguntar. Era difícil de confiar esses dias.
— De um amigo, – foi Corin quem respondeu, ele parecia bem com aquilo. Mas notou sem duvida a confusão no meu olhar. Corin mal saia de casa. Apenas ia pra escola e brincava com os garotos da rua. Agora ele conhecia Tom, Faith e aparentemente tinha amigos com barcos.
Dee colocou a mão sobre meu ombro e comentou, – aparentemente vocês tem muita coisa para botar em dia, mas acho melhor fazermos isso em um local seguro.
Concordei meio sem querer. Não havia muito mais opção, ficar perambulando pela floresta sem um rumo era um risco que era melhor não corremos mais. Ainda mais estando em um grupo com quatro pessoas.
Seguimos o rio por mais algum tempo, até que finalmente chegamos ao mar. Faith nos indicou a direção e seguimos por ela até podermos ver o barco. Era um veleiro pequeno, com o nome estampado na traseira. Lagrima da Imperatriz.
Na polpa do navio, havia uma garota de cabelos crespos e pela negra, que assim que nos viu começou a acenar. Dania nos recebeu cheia de energia. Parecia estar morrendo de preocupação com Corin. Eu não a via desde o dia em que Jaden tinha saído de casa. Se a memoria já não me enganava, era ela quem brincava com ele antes dele nos encontrar na mureta.
De dentro do barco, um homem grande surgiu, fazendo a mim e a Dee arfarmos. – Vocês? – Ele perguntou tão surpreso quanto nós.
Arthur, o marido de Tris. O casal que tinha cuidado de mim quando tive a febre do deserto. Ele era o amigo de Corin com barco. – Há quanto tempo Senhor Arthur, – Dee o cumprimentou simpático, como se reencontra-lo ali fosse normal.
— Vejo que vocês ainda estão vivos, – ele comentou parecendo animado. Olhou para Corin e apontou para mim, – então essa é sua irmã? – O garoto balançou a cabeça positivamente, também parecendo meio confuso. – Sabe, tendo os dois aqui agora, da pra notar certa semelhança.
— Quem se parece com quem? – Tom surgiu, subindo a rampa, acompanhado do resto do grupo. Ele parecia bem melhor agora. Seu cabelo estava de volta no lugar e seu rosto não estava mais pingando suor.
— Só eu estou confusa aqui? – Perguntei enquanto o resto das pessoas subia no barco. Enchendo o convés. Todos estavam ali e ninguém parecia ter se machucado.
— Não, – Skyla não perdeu a oportunidade, – eu consigo um pouco de agua aqui? Precisamos nos organizar depressa, a Team Plasma fará o mesmo agora que sabe que estamos aqui.
— Uma líder de ginásio no meu barco, – Arthur comentou parecendo cada vez mais entretido, – é pra já Skyla.
=8=
Eram por volta de três e meia da manhã quando todos conseguiram se recompor e se reunir na pequena sala comum no interior do navio. Contando comigo, havia onze pessoas naquele espaço pequeno. Arthur havia levado o Lagrima da Imperatriz para alto mar para nossa segurança, e agora podíamos sentir com mais intensidade o movimento das ondas.
Muitas apresentações foram feitas e depois que todos conseguiram se reidratar e comer alguma coisa, estávamos ali.
Quem começou foi Corin. Ele parecia nervoso, mas Dania segurava sua mão. – Eu não sei exatamente por onde começar, – ele admitiu meio sem jeito. Suas bochechas estavam coradas.
— Bem, não precisa ficar acanhado por nossa causa, – Skyla tentou ajudar. Nitidamente ela era a quem estava mais impaciente ali, – você pediu para que, – fez uma pausa, tentando se lembrar do nome, – Tom entrasse em contato com sua irmã. Você sabe onde o próximo lendário esta?
Ele comprimiu os lábios e brincou com os próprios dedos das mãos, – não exatamente, mas sei onde ele vai estar. Virizion quer que Haila o encontre na floresta amanhã.
— Como você sabe onde o lendário vai aparecer? E por que ele iria querer me encontrar? – Perguntei realmente sem entender onde ele queria chegar.
— Eu não tenho certeza do porque ele quer você. Mas eu sei que disso, ele quer. E ele precisa que você o encontre na floresta.
— Como você sabe o que o lendário quer? – Skyla perguntou parecendo ainda mais nervosa, – como você chegou a essa conclusão?
— Conte a eles Corin – Tom pediu. Parecia confiante nisso. E parte de mim ainda tenta entender como a relação entre eles havia surgido.
— Contar o que Corin? – Perguntei fitando Tom preocupada.
— Eu consigo fazer essa coisa... – Corin começou, parecendo ter dificuldade de encontrar as palavras, – eu consigo saber o que os Pokémon estão sentindo.
— Como um empata, – Skyla arriscou, dizendo mais para si mesma, tentando entender o que ele estava dizendo.
Kara soltou uma risada perturbadora, chamando a atenção de todos, – colocamos nossos traseiros em riscos por causa de um sonho que o seu irmão teve. Típico.
— Não é um sonho, – Dania rugiu, ficando de pé, – ele pode mesmo se comunicar com os Pokémon.
Kara tentou segurar, mas sua expressão estava tomada por diversão. Seu rosto se contorceu por alguns segundos, mas ela não tentou mais conter. Começou a gargalhar. Fazendo o clima já pesado do navio ficar ainda pior.
Me levantei também e partir pra cima da garota, agarrei a gola de sua camisa pronta para surra-la, mas antes de conseguir acertar o primeiro soco Cilan já estava me puxando, prendendo meu corpo contra o dele.
— Kara, pare com isso. Não precisamos da sua babaquice aqui, – Tom vociferou, parecendo furioso com a reação da garota. – Ele esta falando a verdade.
Skyla se levantou do sofá onde estava sentada e levou a mão ao rosto, parecendo desapontada. – Não acredito...
— Você e seu irmão idiota deveriam ir morar junto na floresta. Ele é tão doido quanto você – Kara debochou cruzando as pernas longas. Parecia satisfeita com sigo própria, como se criar mais desgaste naquela situação fosse ajuda-la a se sentir melhor.
— Eu não estou mentindo, – Corin gritou, mas as gargalhadas de Kara ainda eram a coisa mais alta ali. – Eu não estou mentindo, – gritou ainda mais alto, – eu não estou mentindo – gritou com a voz lotada de desespero e vergonha.
Todos paramos e olhamos para ele. – Eu consigo fazer isso desde que me lembro. Conheci Tom quando Pokémon me chamaram, pedindo ajuda. Dania e eu fomos até a ilha, onde Tom e Ben batalharam contra contrabandistas para me ajudar a chocar os ovos de Volcanora.
“Eu sei que parece loucura, mas é verdade. Eu posso sentir o que eles estão sentindo e se me esforçar consigo ler seus pensamentos, entender suas vozes. E Virizion precisa de ajuda. Ele sabe que os companheiros dele foram capturados e ele sabe que não pode liberta-los sozinho.”
— Como você sabe que o segundo lendário foi capturado? – Skyla perguntou parecendo voltar a se interessar, – ninguém além de nós sabe disso. Essa informação ainda não foi parar na mídia, e com a Team Plasma no controle, nem vai.
— Ele já lhe disse, – Arthur exclamou pela primeira vez, – Virizion disse a ele. Eu sei como isso soa, e acredite, eu tive dificuldade no começo também. Mas eu conheço esses dois, – apontou para Corin e Dania. – Corin consegue mesmo fazer o que esta dizendo.
Caminhei até Corin e fitei seus olhos. – Você é como Jaden. Ele se juntou a Team Plasma e agora ele é chamado de Guerra, – contei sem me preocupar com a reação dele. Corin tinha se mostrado mais forte do que eu imaginava. Ele não parecia mais aquele menino tímido, que mal tinha amigos. Ele tinha crescido e estava aprendendo a se defender, – ele se juntou a eles com o discurso que conseguia ouvir e entender o sofrimento dos Pokémon. Que conseguia entender seus gritos de sofrimento e desespero. E ele estava atendendo a algum tipo de chamado.
Os olhos do Corin se encheram de luz e ao mesmo tempo de trevas, – ele se juntou mesmo a Team Plasma?
— Sim – confirmei sem estender mais. Eu tinha demorado para processar aquela verdade, mas tinha aprendido minha lição.
— Então eu não sou como ele, – respondeu com repulsa na voz. – Os contrabandistas estavam trabalhando para a Team Plasma. Tom me contou depois. Os companheiros de Virizion foram capturados por eles. Se Jaden se juntou a eles, eu não quero ser como ele.
— Nós ajude então, – Skyla incentivou, vindo para o meu lado, – nos conte tudo o que sabe. Se Haila acredita em você, eu também acredito, – completou agora olhando pra mim. Em seu olhar cansado não havia duvida. A vontade dela continuava grande. Skyla não estava vacilando.
— Tudo começou depois da ilha. Eu podia sentir a presença de algum Pokémon, mas não conseguia identificar qual era. Me sentia sendo seguido, vigiado. Até que em uma tarde eu decidi confrontar essa presença e consegui ouvir sua voz pela primeira vez. Era um Pokémon majestoso, e estava me chamando, dizendo que eu era necessário.
“Mas o motivo disso demorou a vir. Um Unfezant entrou pela a minha janela trazendo um recado de Virizion. Que eu deveria ir para a cidade e quando eu chegasse lá eu descobriria o resto.”
— Só que estávamos sob ataque da Team Plasma, – Tom completou, – nós nos esbarramos na confusão e por muito pouco quase não conseguimos escapar dos soldados. Fomos salvos pelos meus companheiros e nos reagrupamos na Escola Ranger. Ficamos lá até sermos atacados pelos soldados, – ele nos contava e de acordo com que falava sua voz tomava um timbre triste.
— A maioria de nós foi morta pela Team Plasma. Eles explodiram tudo, – dessa vez foi Fatih quem falou. – Só saímos vivos por causa do Emboar de Tom.
— Ele se machucou muito durante a batalha, e sem poder leva-lo a um Centro Pokémon... – ele não completou a frase. – Foi quando eu liguei para Arthur, pedindo ajuda para sair daqui. Sabíamos que a Team Plasma tinha tomado o controle de estradas e trens.
— Então Virizion entrou em contato comigo e eu finalmente soube que era a você quem ele queria, – Corin terminou de contar, voltando a se sentar. – Ele vai aparecer de novo, amanha na floresta. E ele acha que você pode ajuda-lo a salvar os companheiros dele.
— Mas por que eu? – Perguntei de novo. Eu entendia a necessidade de salvar os outros lendários. Mas a ideia do lendário pensar que eu poderia ajuda-lo não parecia certa. Minha cabeça estava girando.
— Boa pergunta, – Kara zombou, irônica.
— Kara, – Tom repreendeu.
— O que? Vai contar pra mamãe? – Ela respondeu parecendo revoltada. Olhei para os dois meio surpresa com o comentário. Mas não tive tempo de processar a informação.
Os ânimos tinha se acalmado um pouco e as pessoas voltado aos seus lugares. Sentando quase uns em cima dos outros. – Então qual é o plano? – Deedee perguntou.
Skyla pareceu ponderar. – Corin, Virizion especificou hora e lugar?
Ele balançou a cabeça positivamente, – amanhã quando o sol estiver no centro do céu, onde o circulo foi formado.
— Bem especifico, – Lila ironizou sem maldade. Ela estava com os pés sobre o sofá, abraçando as próprias pernas.
— Circulo formado, – Cilan ponderou, – eu acho que sei onde isso fica. Há uma formação circular no meio da floresta, quase em Nuvema, feita por pedras de tamanhos diferentes. Não fica muito longe de onde capturamos o Zoroak, – comentou olhando para mim e para Tom.
— Então temos hora e local, – Dee acrescentou.
Arthur esfregou a barba deu um suspiro, – se é próximo a Nuvema precisamos velejar um pouco. Vou voltar para a cabine e nós levar até lá, – anunciou se retirando sem fazer muita mesura.
— Então temos um plano – Dee completou.
— E qual seria ele? – Tom perguntou olhando pra nós surpreso.
Todos nós sabíamos qual seria. – O de sempre. Entrar e sair o mais rápido possível antes que sejamos mortos, – Dee anunciou com uma cara um pouco desanimada.
— Parece bom pra mim, – Skyla confessou.
O resto da noite foi relativamente tranquilo. Mas nenhum de nós conseguiu pregar o olho. Corin e ficamos sentados no convés durantes um bom tempo, nos atualizando de tudo que havia acontecido nos últimos meses.
Contei de forma resumida as partes ruins, mais detalhadamente as partes boas. Falei sobre minhas insígnias, sobre Deedee, sobre ter decidido virar treinadora, sobre os Pokémon que capturei e as pessoas que conheci. Falei sobre como acabei me envolvendo na guerra e de forma otimista tentei lhe falar sobre como as coisas estavam.
E ele me contou sobre Hamal, seu Flareon, sobre a ilha, sobre Tom, Bem, Arthur, Dania, Tris. Me contou sobre seu dom e os Pokémon que conheceu. Falou sobre as suas pequenas aventuras e aquilo me fez muito bem.
Mesmo quando morávamos juntos, nunca me senti tão próxima dele. Éramos irmão, mas naquele momento, sentada ali olhando a costa passar, senti como se fossemos também ótimos amigos. Até que ele finalmente caiu no sono, senta-lo ali mesmo, encostado no meu ombro.
Eu até tentei, mas quando o sol começou a nascer, desisti de tentar pregar os olhos. Em determinado momento, quando todos estavam distraídos, Tom veio até nós e se sentou ao lado de Corin.
A principio ele não me olhou, apenas encostou a cabeça a na parede da cabine e relaxou, depois deu uma gargalhada baixa, – de todos os lugares do mundo, esse é o ultimo que eu pensei que te veria.
— Vou admitir que pensei que se voltasse a te ver seria em circunstancias melhores – confessei sem olhar para ele.
— Você mudou muito.
— E você continua exatamente igual – continuei. E era verdade. Olhando para ele ali, parecia que nem um dia sequer havia se passado desde a ultima vez que nos vimos na ponte, antes de eu ir para Castelia.
Ficamos em silencio por um bom tempo. Depois de tanto tempo e tanta coisa, parecia que não havia mais assunto entre nós.
– Você poderia ter me ligado, – ele soltou.
Olhei para ele curiosa. Aquilo não parecia ter mais o menor sentido pra mim, mas aparentemente ainda tinha algum pra ele, – e dizer o que? Se eu contasse a verdade ou mentisse que diferença teria feito?
Ele me encarou parecendo incomodado com meu comentário, – eu queria ter te conhecido melhor, só isso.
— Nunca foi para acontecer, – disse a verdade, – eu estava fugindo de casa, você namorando. –Eu não queria ter aquela conversa.
— Eu não estava namorando, – queixou-se. – Não precisava arrumar desculpa pra dizer que não queria.
— E a Kara? Eu vi vocês chegando no Centro Pokémon aquele dia.
— Kara? – Ele perguntou pasmo, – ela é minha irmã.
Arregalei os olhos e fitei a expressão dele. Ele não parecia estar brincando sobre aquilo. Esse tempo todo eu achei que eles tivessem namorado e Kara o tivesse traído com Des em Nimbasa e tudo isso não passou de uma confusão minha.
Olhei para trás por um instante e não consegui deixar de pensar se eu teria ficado mais tempo em Nuvema se tivesse descoberto a verdade naquela época. Como teria sido minha vida se eu não tivesse ido pra Castelia.
Acabei soltando uma risada, – você pode ficar um pouco com Corin? Preciso tomar um pouco de agua.
Tom estava claramente confuso, mas decidiu não render mais o assunto. Apenas balançou a cabeça positivamente e puxou Corin para perto dele, fazendo o garoto reclinar seu corpo sobre o dele.
Desci as escadas e me deparei com Lila dormindo no sofá junto de Dania. Kara estava sentada com Cilan, tomando algo que parecia chocolate quente. Eu odiava admitir, mas agora que eu já sabia, conseguia notar algumas semelhanças, como olhos, queixo e arrogância. Passei por eles sem dar muita atenção e fui até o banheiro.
A porta estava aberta e levei um susto ao encontrar Deedee lá dentro tentando dar um jeito no seu cabelo, de frente para o espelho. Entrei assim mesmo, empurrando ele mais para o canto e me ajeitei ao seu lado.
— Como foi com Corin? – Ele perguntou quase arrancar um chumaço de cabelo com o pente.
— Bem, eu acho. Ele fez muita coisa enquanto eu estava fora, – contei enquanto abria a torneira e enchia as mãos de agua, – ele cresceu muito. – Afundei meu rosto na agua por um segundo ou dois, para tentar afastar a dor de cabeça.
— E Tom? – Ele perguntou despretensiosamente. Mas eu percebi a malicia em sua voz.
— Aparentemente ele não era namorado de Kara, era irmão.
Ele olhou pra mim surpreso e ficou pensativo por alguns segundos, – então quer dizer que a torta em Nimbasa.
— Sim, ela não merecia.
— Você desperdiçou minha torta à toa.
— Bem, foi prazeroso, tenho que admitir, – acabamos dando uma risada. – Quando isso tudo acabar prometo comprar uma torta pra você.
— Ela te odeia com razão.
— Talvez, mande ela pra fila. Clarice ainda nem teve a chance dela.
— Nem me lembre dela.
=8=
Tentei fazer com que Corin não fosse com a gente. Ficar ali no barco com Dania era sem duvida a coisa mais sensata e segura a se fazer. Mas não só ele tinha crescido como também tinha aprendido a argumentar. O fato de apenas ele conseguir se comunicar com o lendário era um fator decisivo pra sua ida.
E no fim das contas as únicas pessoas que não nos acompanharam, foram Dania e Arthur. Bem a contragosto da menina, é claro. Seguimos as nove pessoas floresta adentro. Seguindo quase em fileira indiana atrás de Cilan.
A floresta ali não era tão diferente da de Nuvema, ou mesmo a de Striaton City. Eu não fazia ideia de como Cilan conseguia se orientar, mas de algum modo ele parecia relativamente confiante em continuar seguindo aquela direção.
Ainda tínhamos umas boas horas de dianteira, e tínhamos levado alguns mantimentos de reserva para nos assegurar de que caso algo acontecesse, poderíamos esperar um pouco mais pelo lendário.
No percurso, as pessoas pareciam mais tranquilas, apesar de nitidamente estarem atentas e reagindo a qualquer barulho estranho que vinha da mata fechada. Skyla tinha chamado um de seus Pokémon para voar pela floresta e nos avisar de qualquer risco.
— Você está sentindo alguma coisa Corin? – Tom perguntou, como se já estivesse habituado ao que o garoto podia fazer.
— Nada demais. Virizion não está por aqui, – ele respondeu curioso com o lugar.
— Ainda faltam mais de uma hora para que o lendário apareça, – lembrei ao grupo. Não queria que eles ficassem pressionando Corin com perguntas.
— Supondo é claro que o lendário tem alguma noção de pontualidade, – Kara resmungou do fim da fila. Ela estava andando desanimada na frente de Lila.
— Sinceramente eu não entendo o que você faz aqui, deveria ter ficado no barco e evitado que suas unhas se quebrassem na trilha, princesa – retruquei acida. Eu não conseguia entende-la. Parecia que Kara era guiada pela noção deturbada de divertimento dela. Só fazia o que lhe interessava, aquilo trouxesse algum lucro ou a divertisse.
O circulo de pedras surgiu na nossa frente de repente. Era uma clareira bem grande, com solo pedregoso na encosta de um morro. Estava claro que aquele lugar tinha sido formado por um deslizamento e coincidentemente as pedras tinham se alojado de forma semicircular.
Mas ainda sim, era um lugar impressionante de se ver. As pedras tinham tamanhos variados, de cerca de um metro até três de altura e dezenas de outras pequenas dificultavam a passagem até o centro do local. O circulo em si era grande. Eu não era muito boa com dimensões, mas poderia dizer que ele quase chegava a ter o tamanho de uma quadra de tênis.
Todos ficaram ainda mais atentos, olhando em volta com curiosidade e ansiedade, mas até aquele momento não tinha sinal de Pokémon nenhum ali. A floresta estava quieta, como se de alguma forma os Pokémon respeitassem ou evitassem aquele lugar.
— Acho melhor descansarmos um pouco, – Lila sugeriu como se tivéssemos muito mais o que fazer. As únicas coisas comigo ali eram minhas Pokéball. O trem havia me dado um grande prejuízo.
O sol foi subindo, ganhando altura por assim dizer, até chegar ao centro do céu. Skyla estava impaciente com seu Pokémon que não aparecia a um bom tempo, enquanto todos estavam cada vez mais agitados esperando algum sinal do Pokémon.
E de todos, desta vez, eu poderia dizer que Corin era o mais afetado. Ele andava de um lado para outro, brincando com a Pokéball de Hamal, seu Flareon nas mãos. Procurando entre as arvores, olhando em volta, circulando.
Me aproximei dele e sem encara-lo comentei como se tivesse certeza, – ele já esta vindo.
— Eu não sei, – alertou com uma voz tensa. – Quando ele esta por perto normalmente consigo sentir. Ele é um Pokémon muito poderoso.
Olhei para ele e me perguntei por um momento como era ter aquela coisa dentro de si. Jaden tinha descrito muito bem como era tê-la daquela vez. Mas de algum modo, quando ele falava, mais parecia uma maldição.
Mas com Corin as coisas eram diferentes, talvez por ser criança e mais inocente ele via o dom com um senso de responsabilidade. Como se aquilo fosse parte dele e ele quisesse ajudar da melhor forma possível. Quase soando como uma benção.
Os dois compartilhavam aquilo e de alguma maneira eu tinha ficado de fora. Por algum motivo eu não tinha herdado o gene prodigioso da família. Forcei minha memoria e tentei recorrer ao tempo em que meus avos ainda estavam vivos, mas por mais que eu me esforçasse eu não conseguia dizer se tal coisa já tinha sido citada por eles. Definitivamente meus pais nunca falaram sobre. Imagino que sequer acreditassem que tais coisas eram possíveis.
Todavia, eu tinha aprendido com o tempo nessa jornada que coisas incríveis acontecem inesperadamente. Sejam elas positivas ou negativas. Olhando para mata, ao lado de Corin, eu não conseguia duvidar nem por um momento que ele realmente tivesse aquele dom e que algo o tivesse chamado ali.
Apenas sei que uma hora passou. O sol não estava mais no centro do céu e nada de Virizion. – Talvez seja como Kara comentou, o lendário pode não ter uma boa noção de hora, – Lila sugeriu, vendo a expressão que estava no rosto dos outros.
— Ele tinha dito uma posição do sol e não um horário, – Kara não perdeu a oportunidade. – Vocês ainda acreditam nessa lorota ou podemos ir embora?
— Poxa Kara, – Tom parecia ter pedido a calma, – a trilha continua no mesmo lugar. Se você sugerir mais uma vez que Corin esta mentindo eu mesmo te farei voltar por ela. – A garota encarou o irmão e fez uma careta.
Algo fez um som e todos olhamos. O vento tinha começado a balançar a copa das arvores e uma nuvem cobriu o sol. Um galho se partiu violentamente do lado contrario ao primeiro som, e mais outro um pouco mais ao lado.
Dee e Faith que estavam sentados se levantaram depressa. Olhei para Corin e ele parecia calmo, mas ainda sim me aproximei mais dele. Skyla recuou um pouco, olhando em volta e como se fosse à coisa mais normal do mundo, Lila disse – pessoal.
O olhar de todos foi na direção dele e em seguida na direção que ela encarava.
Parada, olhando para nós na linha das arvores estava Fome. A general da Team Plasma. Os sons nas arvores encheram a floresta e de repente surgiram soldados de todos os lados. Estávamos completamente cercados em apenas um instante.
— Droga, – Cilan rosnou.
— Parece que vamos ter que dançar amigo, – Tom respondeu ficando ao lado do garoto de cabelo verde.
Skyla olhou para Corin apavorada, – era uma armadilha? –Me pus na frente dele enquanto todos nos íamos em direção ao centro de circulo de pedras.
Soldados começavam a sair da mata um atrás do outro, todos segurando Pokéball. Era muitos deles, mais do que poderíamos derrotar sozinhos. Fome saiu das arvores, andando tranquilamente em nossa direção e ao seu lado, Belamy vinha toda orgulhosa.
— Como isso aconteceu? – Dee perguntou.
— Você nos trouxe para uma armadilha, Haila, – Kara esbravejou, já com uma Pokéball em suas mãos. Todos tinham feito o mesmo.
As Pokéball dos Team Plasma começaram a se abrir uma atrás da outra. Um, dois, três, cinco, dez, vinte Pokémon tinham sido libertados em um minuto. E praticamente todos eles compartilhavam os tipos Bug, Grass e Poison. Então Fome finalmente parou, se encostando a uma das pedras maiores. Abriu um sorriso e comentou sem animo, – achei que vocês seriam mais competentes. Onde está o lendário?
Skyla olhou para mim de novo e eu respondi com uma expressão dura. Corin não tinha mentido. – Eu adoraria saber, – a líder voador responder.
— Um dos seus amiguinhos veio nos contar que vocês encontrariam com o lendário, – Belamy falou depressa. Serrei os punhos e me preparei para atacar. Provavelmente elas estavam encenando tudo aquilo. Corin estava falando a verdade e nenhum de nós tinha feito qualquer ligação durante a noite.
Fome a olhou com preguiça e continuou, – vou ser clara aqui. Ou vocês me contam onde o lendário está, ou ninguém sai vivo daqui.
— Caso você não tenha percebido, não estamos com ele, – respondi sem paciência, – e mesmo que soubesse, eu não contaria.
— Vocês vão tentar nos matar de qualquer jeito. Porque diríamos alguma coisa, – Skyla cuspiu as palavras e o veneno em cada uma delas era palpável.
Fome ergueu as sobrancelhas parecendo surpresa, – tentar? Você acha que conseguirá sair daqui viva? Seu Pokémon de alerta já foi abatido e daqui a pouco vamos tirar vocês do caminho de uma vez por todas.
Skyla engoliu seco e se você não á conhecesse um pouco não teria percebido o vacilo da líder quando ela ouviu sobre seu Pokémon. – Bem, vamos ter que descobrir. Uma de nós vai terminar o dia no seu próprio inferno. Eu garanto.
— Como se eu me importasse com as suas ameaças, – Fome retrucou voltando a sua expressão preguiçosa. – Agora, pegue o que precisamos e vamos acabar com isso. Eu estou esperando a mais de duas horas e minha paciência já acabou faz tempo.
Ante que pudéssemos tentar entender o que a general estava falando ouvi o gritinho de Lila. Quando olhei para trás Faith estava com uma faca de cozinha apontada para o pescoço de Corin. Senti como se uma corrente elétrica corresse por todo meu corpo. Meu coração quase parou de bater.
— Faith, – Tom a chamou, parecendo incrédulo, – o que você está fazendo?
A ranger parecia estar entrando em colapso, seus olhos se encheram de lagrimas, e sua mão tremia com á lâmina pressionando a pele do pescoço de Corin. Ele estava assustado, me encarando com olhos arregalados. – Eu não quero morrer, – a garota gaguejou.
— Nós vamos te proteger, – Tom disse com a voz calma. Mas dois soldados da Team Plasma começaram a dar risada. Tom olhou para o lado furioso e ignorou o fato, tentando focar na garota, – você não precisa fazer isso.
— É tarde demais. Mesmo que você o solte agora eles vão vê-la como uma traidora, fraca – Fome anunciou. Sua voz era tranquilo, quase simpática, mas o peso das palavras fez com que as lagrimas finalmente começassem a escorrer da garota. – Vamos, sua oferta não vai durar para sempre.
— Você nos vendeu sua filha da puta, – Kara trovejou, – você entregou a posição do lendário e a gente.
Ela puxou Corin e começou a dar passos curtos, se afastando lentamente de nós, indo em direção á Fome. – Quando fomos atacados na floresta eles me pegaram. Eles iam me matar, – falou parecendo apavorada.
— Você não precisava fazer isso Faith, eu posso te proteger, – Tom tentou mais uma vez.
— Me desculpa, – a garota falava com dificuldade, – eu ia entrega-lo ontem à noite. Ninguém mais precisaria se machucar. Ninguém viria até aqui hoje. Ninguém ia se machucar. Desculpe-me Tom.
— Façam, – Fome ordenou.
E antes que qualquer um de nós pudesse perceber os dardos de cor roxa estavam cravados por todo o corpo da garota. Os soldados da Team Plasma tinham reagido ao comando da general acertando Faith com Poison Sting. A garota caiu no chão gritando, suas veias começaram a ficar mais grossas e protuberantes. Sua respiração ofegando e seu corpo a se convulsionar.
Belamy agarrou Corin e praticamente o arrastou até perto de Fome. Tentei reagir, mas Deedee não deixou. Ficamos ali assistindo enquanto Faith se contorcia no chão, gritando por causa do efeito do veneno. Tom foi tomado de pavor, olhando completamente apavorado para sua companheira morrendo sem que ninguém pudesse fazer nada.
Não demorou muito para que a garota finalmente parecesse de se debater. Sua cabeça pendeu para o lado, saliva escorria de sua boca e seus olhos ficaram vidrados no nada.
— Seu monstro, – Tom gritou, incapaz de se mover. – Por que você a matou? Seu monstro.
A expressão de fome não mudou. Continuava tranquila, quase entediada, – não é obvio? Se ela traiu vocês tão facilmente, também nos trairia quando achasse mais oportuno. Acreditem, estamos todos melhor sem ela.
Corin estava apavorado, sua expressão não mentia nenhum pouco seu estado. Sua respiração estava muito acelerada, gotas de suor haviam aparecido em sua testa. E eu também estava. Todas as fibras do meu corpo pediam, gritavam, para que eu corresse até lá e salvasse Corin. Mas eu sabia que no primeiro passo que eu tentasse dar na direção dele os dardos me atingiriam.
— Como vamos sair dessa? – Dee perguntou quase em um cochicho.
Olhei em volta mais uma vez, havia soldados por todos os lados. Todo mundo com quem poderíamos contar estava ali. – Eu acho que não sairemos dessa vez.
— Por favor, – Corin pediu e meu olhar voltou a ele. Mas ele não estava pedindo a Belamy ou Fome. Seus olhos estavam fechados, seus punhos serrados. Lagrimas estavam descendo de seus olhos. – Por favor, – ele repetiu com forte e mais alto.
Fome estava olhando diretamente pra ele e um pequeno sorriso tinha brotado em seu rosto. Eu estava querendo gritar. Estava em pânico. Também fechei meus olhos e pedi, mas sem dizer nada. Se há alguma coisa ai, nos ajude.
Foi quando o som explodiu na floresta. Troncos de arvores por todo o lado começaram a estalar e ranger. Galhos se quebravam e o vento de repente sacudiu as arvores com violência. Um brilho iluminou a floresta, um flash verde indo e vindo de um lado para outro.
Os soldados ficaram alvoroçados, olhando em voltando. Indicando onde tinha acabado de ver, mas quando o outro se virara ele já não estava mais lá. De repente o tronco de uma arvore na beira da clareira explodiu, fazendo arvore enorme tombar em nossa direção.
Enquanto a arvore caia, outras tinham o tronco destruído e antes algum Team Plasma pudesse reagir Virizion apareceu. Tinha sem duvida muito mais de dois metros de altura. Seu corpo era quase completamente coberto por uma pelagem de cor verde. Mas o mais impressionante era o chifre luminoso em sua cabeça. Era tão longo quando uma espada, feito de pura energia que dependendo de como você olhava era quase transparente.
— Por Arceus, – Cilan exclamou.
— Finalmente fomos dignos da sua presença, – Fome finalmente mudou de expressão, parecia verdadeiramente divertida. – Qual é sua ligação com essa criança? – Virizion tinha uma expressão não muito difícil de ser lida, quase humana. Nos seus olhos estava clara a raiva. O Pokémon olhou Fome nos olhos e bufou furiosamente.
Depois ele dirigiu o olhar a Belamy. A expressão da Team Plasma se encheu de medo, ela deu um passo para trás, ainda segurando Corin e o Pokémon deu um passo em sua direção. Mas diferente do pequeno passo medroso da mulher, as pernas longe de Virizion o deixou a meio metro dos dois.
— Fome – Belamy chamou a superior. – Faça alguma coisa.
— Fazer o que exatamente? – Fome perguntou parecendo não ter entendido o que a mulher disse.
— Comande o ataque – Belamy respondeu quase tropeçando nas palavras, Virizion estava se aproximando ainda mais.
— Se eu comandar o ataque sem duvida você será atingida. Além disso, não queremos machucar o lendário.
Quando o Pokémon estava próximo o bastante ele se inclinou, levando sua cara enorme até bem próximo do rosto da mulher. Seus enormes olhos vermelhos pareciam estar em chamas. Tenho certeza que Belamy podia sentir seu hálito.
Nenhum Team Plasma teve coragem de dizer uma palavra sequer, até que Belamy empurrou Corin pra cima de Virizion e saiu correndo na direção de Fome. Ela não percorreu dois metros. O ultimo som que a mulher emitiu foi um grito fino enquanto o chifre em forma de espada atravessava as costas da mulher.
Virizion ergueu a cabeça com ela ali ainda espetada e depois chacoalhou, jogando o corpo da mulher aos pês de Fome. A cara do Pokémon agora estava banhada de sangue. Ele bateu os cacos no chão e mais uma vez bufou, como se desafiasse a general.
Fome sorriu, mesmo com o corpo da sua assistente, ou fosse lá como se chama, em seus pés. – Parece que temos uma criança rebelde aqui, – ela enfiou a mão no bolso e tirou uma Pokéball de cor arroxeada.
— Masterball, – Skyla contou com urgência.
Todos nos sabíamos o que aquilo significava. Se ela acertasse, não importa o quanto Virizion fosse forte, ele seria capturado.
— Eu vou te ensinar bons modos, – falou brincando com o objeto em suas mãos. – Movimento de contenção. – Os soldados começaram a dar comandos aos seus Pokémon praticamente ao mesmo tempo. Absorb, Giga Drain, Mega Drain. Ataques que drenavam a energia do adversário. – Vocês sabem por que eu sou chamada de fome? Porque sou especialista nesse estilo de combate. Literalmente devoro a energia dos meus rivais. Alimentando meus Pokémon, os tornando mais fortes, enquanto os outros definham.
Virizion grunhiu e se movimentou com violência, indo de um lado para outro. Encarou fome por um ultimo momento e depois arqueou o corpo, ficando por um momento apenas sobre suas patas traseiras.
Seu corpo todo agora estava brilhando. Quando suas patas dianteiras tocaram o chão a terra tremeu fora da clareira e raízes da grossura de troncos levantaram do solo invadindo a parte de pedra. Derrubando, arremessando e cortando os soldados ao redor. Vinha de todos os lados, com uma brutalidade que eu jamais vi.
Pokémon e humanos tentavam fugir, outros poucos reagir. Mas o ataque espalhou os soldados de tal forma que pela primeira vez vimos Fome vacilar. – É agora, vão! – Skyla gritou.
E essa foi a nossa hora de reagir. Ling, Bacon, Bouffalant, Ratata, Leavanny e Mandibuzz sugiram em um instante. Eu não consegui entender o comando de todos, tudo acontecera ao mesmo tempo. Mas os Pokémon se moveram com uma velocidade incrível.
Chamas acederam o ar, enquanto rajadas de vento ajudaram a espalhar. Folhas cortantes voaram e Pokémon se chocaram uns contra os outros. Ling e eu corremos da direção de Corin, mas a Nedoqueen surgiu abrindo os braços e rugindo.
— Acabe com eles, Rainha. Hyper Beam – Fome comandou.
— Evasiva e Double-Quick – gritei correndo praticamente junto a ela.
O raio de energia veio em nossa direção, saltamos juntas para a esquerda evitando ser atingidas. Me desequilibrei e acabei caindo, mas Ling continuou. Saltou mais alto que já tinha visto fazer e acertou as patas dianteiras na cara do Pokémon venenoso.
— Body Slam – Fome comandou. O pequeno que tinha perdido o equilíbrio moveu seu corpo depressa e foi pra cima de Ling.
Ling saltou para o lado, uma vez e depois outra, se esquivando do ataque do Pokémon, depois se apoiou nas patas traseiras e arremessou a esfera de energia.
Assim que a explosão aconteceu Mandibuzz surgiu do nada, acertando o Pokémon venenoso com o próprio corpo. O impacto foi tão grande que os dois começaram a rolar pelo chão pedregoso.
— Vá atrás de Corin, ela é minha – Skyla ordenou.
Olhei em volta e Corin estava do lado de Virizion que rebatia um ataque atrás do outro. Porem não tive chance de me aproximar, o Pokémon lendário se inclinou e Corin subiu em suas costas. Por um momento eu parei, chocada com o que estava vendo. E tão rápido quanto surgiu, Virizion começou a correr em direção à floresta.
Eu fui desesperada na direção deles e acabei não notando o Beartic na minha frente, ele rugiu na minha direção e preparou o ataque, mas Bacon surgiu do nada. Acertou dois socos com uma força descomunal do Pokémon de gelo, fazendo-o ir para trás a força. Depois cuspiu fogo, tão forte que o calor das chamas fez meus olhos arderem.
— Haila, – Dee gritou. E eu entendi. Ele queria que eu continuasse.
E eu o fiz. Voltei a correr o mais rápido que eu podia, mas Virizion já começando a sair da minha vista. Soldados estavam indo atrás dele. Montados em Zebristrika, Boufflant e Scollepede.
Dei tudo de mim e quando finalmente sai da clareira senti a pancada no meio das pernas. Ling Passou a cabeça por debaixo de mim, me mandando para as suas costas. Ela não esperou que eu conseguisse me equilibrar. Continuou correndo, saltando sobre troncos das arvores arrancadas. E então seu corpo brilhou. Eu pude sentir o calor das suas formas mudando. Ela estava ficando maior, chifres nasciam em suas costas e uma pelagem esbelta substituía a outra simples.
Ling tinha evoluído para um Sandsbuck e agora corria ainda mais rápido. Alcançamos os outros Team Plasmas em um momento. Virizion estava a nossa frente.
As raízes saíram do chão nessa hora. O corpo de Virizion estava brilhando outra vez. Uma atrás da outra se levantavam com violência, chicoteando tudo a nossa frente. Destruindo o solo, derrubando arvores.
O soldado do Scollepede e do Bouffant foram derrubados, e apenas eu e do Zebristrika continuávamos. Uma nuvem de terra e folha te se levantando e os dois Pokémon continuavam correndo sem parar.
Ling saltava e desviada dos obstáculos como se tivesse passado a vida correndo na floresta, seus instintos estavam aguçados e eu podia sentir seu coração batendo depressa enquanto eu lutava para me segurar abraçada a seu pescoço.
A corrente elétrica surgiu do nada quase nos acertando. O Team plasma estava praticamente do nosso lado. Uma onda depois da outra. Ling tinha que desviar do Frenzy Plant e do Thunderbolt.
A segurei com ainda mais força, implorando pra que ela conseguisse e ela atendeu meu pedido. De uma hora para outra ela se inclinou para o lado do Team Plasmas e nos duas nos chocamos contra ele. Cavaleiro e montaria tropeçaram e bateram contra uma arvore com violência.
Quando eu voltei a olhar para frente o ataque de Virizion finalmente estava parando, mas ainda ele ainda corria. O seguimos por mais alguns metros até que finalmente o lendário olhou para trás e diminuiu lentamente até parar por completo.
Enquanto Corin descia, Virizion encarava a mim e a Ling. O Pokémon me assustava, eu não podia negar. O seu olhar era tão intenso que o mesmo seu tamanho enorme não era a coisa mais imponente. Desci de Ling que estava exausta e fiquei frente a frente com o lendário.
De repente, foi como se eu fosse arremessada, senti meu corpo chicotear para trás e minha visão escureceu.
=8=
Só tive o impulso de gritar, meus membros se moveram sozinhos. As cobertas atrapalharam um pouco o movimento, mas o grito ainda sim saiu da minha garganta.
Abri os olhos depressa, buscando Corin e Virizion, tentando entender o que havia me acertado, mas eles não só haviam desaparecido, como também toda a floresta. Deixando a minha frente o teto do meu quarto.
Meu coração estava acelerado e minha respiração ofegante. Me sentei depressa na cama, tentando me orientar e encontrei a estante cheia de livros na parede em frente a minha cama. Eu estava em casa.
— O que esta acontecendo? Eu estou... Louca.
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