Rota Zero
42 Selvageria - Parte 2
Notas iniciais
Haila
SELVAGERIA PARTE 2
Eu estava no meio da arena de batalha. Meu coração estava a mil enquanto seguia Clay com os olhos. Ele foi até um painel preso à parede e digitou alguma coisa em um teclado luminoso. Um compartimento se abriu e uma série de Pokéball surgiu, sendo expostas lado a lado. Ele pegou duas delas e fechou o compartimento – Danmian, você pode ser o juiz?
Olhei para trás e o garoto estava com o Drilbur no colo. Ele balançou a cabeça positivamente e sorriu – Será um prazer – então começou a andar em direção ao seu posto, não antes de me olhar como se fossemos donos de um grande segredo.
Clay recuperou seu chapéu, o pegando com violência do chão. Em seguida, fomos para nossos postos. – Eu te desejaria boa sorte Pidovizinha, mas seria hipocrisia minha.
– Não vou precisar dela hoje – respondi tentando parecer o mais segura possível.
– Não tenha tanta certeza, eu não vou pegar leve.
– Eu não ia querer isso – menti. – Leaf – a chamei e a Pokémon ficou em posição.
Clay estalou os dedos e depois arremessou a Pokéball bem para o alto. Quase tão alto que por pouco não bateu no teto da galeria. Um raio vermelho surgiu e foi tomando conta de grande parte do lado dele da arena. O monstro de metal brilhante surgiu, abrindo a enorme boca e rugindo estrondosamente. Quase tão alto que pude jurar sentir a cavernar vibrar.
– Será uma batalha dois contra dois. Apenas o desafiante poderá trocar de Pokémon durante a batalha, que só terminará quando os dois Pokémon do desafiante ou desafiado estiverem sem condição de continuar. Se estiverem prontos – Dan deu a deixa – podem começar.
– Leaf, Razor Leaf e em seguida... – antes que eu pudesse terminar meu comando Steelix se moveu bruscamente erguendo terra do solo. A arena foi tomada por uma nuvem grossa de poeira e instintivamente levei a mão aos olhos tentando me proteger da corrente de ar que teve início. Ele estava usando Sandstorm.
– Dig – Clay gritou – em seguida Icefang, Steelix. Vamos acabar com isso de uma vez.
Abri meus olhos com dificuldade a tempo de ver o Pokémon desaparecendo na terra. – Leaf, Agility. – A Pokémon tentou correr, mas a nuvem de poeira atrapalhava sua visão, retardando seus passos. Ela parecia estar desorientada, sem saber pra onde ir.
O chão tremeu mais uma vez e começou a se romper bem abaixo dos pés de Leaf. Eu mal conseguia ver devido à poeira e o incômodo nos olhos. A cabeça de metal, maior que o próprio corpo da Pokémon surgiu de repente, a arremessando para o lado junto a pedaços do solo.
Meu coração ganhou aceleração. Steelix parecia muito maior do que qualquer descrição do Pokédex. Antes mesmo do monstro sair completamente do buraco sua mandíbula foi tomada por um brilho azulado e seu corpo a se inclinar para abocanhar a Pokémon. –Leaf, feche os olhos e corra.
A Pokémon me obedeceu meio desorientada e saiu em dispara na direção da parede da caverna desviando do ataque quase mortal do enorme Pokémon adversário que se chocou contra o chão com força o fazendo estremecer.
– Razor Leaf – gritei depressa e a Pokémon reagiu.
– Dig – Clay gritou e Steelix se inclinou, jogando seu corpo com tudo contra a terra. Porém, antes que ele desaparecesse por completo o ataque acertou seu dorso. Algumas folhas ricochetearam, mas algumas conseguiram fazer seu trabalho. – Sua Pokémon é rápida, mas não tem força Pidovizinha, quando tempo ela irá durar? – Cerrei os punhos e olhei para Leaf.
– O quanto for preciso, seu idiota. Leaf lembre-se do que treinamos.
– Stellix, Firefang, depois Smack down, em seguida Iron Tail – Clay gritou esmurrando o próprio ar. Um instante depois o Pokémon estava vindo novamente, pedras se soltaram do chão voando pela arena enquanto Leaf corria.
Com a boca em chamas o Pokémon veio na direção de Leaf. A Pokémon correu até a parede da caverna e se jogou para o lado de uma vez, fazendo o Pokémon de metal se chocar com uma força esmagadora. – Energy Ball – comandei depressa.
Os efeitos da nuvem de poeira haviam diminuído um pouco, mas não o bastante. Leaf estava se movendo mais depressa e estava obedecendo meus comandos sem hesitar, mas aquilo não parecia o bastante. Ela girou seu corpo de uma vez e a esfera de energia surgiu depressa, mas sua expressão foi tomada por dor e a energia se dissipou.
Ela caiu no chão sem se apoiar a pata traseira e por pouco não foi atingida por Steelix que se jogou violentamente para cima dela. Leaf balançou a cabeça e praticamente encostada em Steelix tentou novamente.
A bola de energia se formou com um bom tamanho, explodindo na parte superior do corpo do Pokémon de metal. Ele urrou movendo o corpo um pouco para trás e depois voltou a se jogar na direção de Leaf. – Vamos – Clay gritou fazendo saliva voar da sua boca – Iron Tail.
– Sério? – Gritei pra ele. – Achei que estivéssemos em um ginásio tipo Ground e até agora você usou vários tipos, menos o que você detém o titulo. – Clay me olhou furioso, seus lábios estavam comprimidos com força e seu olhar estava fixo em Leaf – Quick attack – comandei.
O líder de ginásio me olhou por um segundo surpreso, mas um segundo depois voltou a se concentrar na batalha. Leaf mudou de direção e foi de encontro a Steelix. A cauda do Pokémon Iron/Ground brilhou e ele fez um movimento brusco, jogando com força o corpo para o lado. A cauda acertou o chão a poucos centímetros de Leaf que saltou se esquivando com maestria.
– Esse é o grande Steelix? – Comentei dando uma risada irônica, o mais alto que pude. É claro que eu estava fingindo, estava nervosa por dentro porque tinha noção da diferença de força e poder entre Steelix e Leaf, mas eu sabia que o Pokémon não agia sozinho, ele seguiria os comandos de seu trainer. Eu só tinha que conseguir irritar Clay o suficiente para conseguir diminuir sua capacidade.
O enorme Pokémon pareceu odiar o comentário, urrou de uma forma grotesca e começou a girar o próprio corpo, se jogando contra a parede. Um buraco se abriu e um momento depois ele tinha desaparecido de novo.
– É melhor se calar Pidovizinha... – Clay rosnou.
– Ou o que? – Gritei batendo no peito. Dan soltou uma risada esganiçada e recebeu em troca um olhar fuzilador do mestre.
– Steelix , Gyro Ball – Clay gritou batendo o pé com força no chão. Mal terminando de dar o comando pedras começaram a cair do teto da galeria e de repente o monstro de metal estava jogando seu corpo em forma circular em cima de Leaf.
Tive o impulso de gritar, mas não houve tempo. Ela seria esmagada assim como Simi. Outra cortina de poeira se ergueu, enviando pequenos pedaços de pedra e terra na minha direção.
Protegi meu rosto com os braços e gritei. A Pokémon me respondeu na mesma hora, fazendo de forma esganiçada, seu típico barulho, e a mão que de repente apertava meu coração pareceu se afrouxar.
– Mande mais seu idiota – continuei a irrita-lo sem conseguir ver nada, a arena estava totalmente tomada de poeira. Até mesmo os holofotes pareceram perder a força.
– Já mandei se calar – o homem gritou parecendo nervoso – Sandstorm – Clay ordenou e a cortina de areia de repente se transformara em uma tempestade, enviando lufadas de terra para todos os lados.
Dei um passo para trás e gritei sem conseguir ver nada além do meu nariz. Mas eu já tinha estado em uma tempestade de areia antes e aquilo não me apavorava mais – Magical Leaf. – Me abaixei e esperei as consequências. O brilho roxo começou a se espalhar, as folhas estavam sendo carregadas pelo ataque de Steelix, indo para toda e qualquer direção.
O Pokémon de metal urrou mais uma vez e em seguida senti o chão tremer. Ele havia usado Dig e a Sandstorm já perdia força. Poucos instantes depois consegui encontrar Leaf, coberta por uma camada de poeira, a quatro metros de distância.
Cerrei os punhos e gritei de novo:
– É só isso, bundão? – Aos poucos comecei a ver Clay, ele estava de cabeça baixa enquanto segurava seu chapéu na cabeça com uma das mãos, tão coberto de areia quanto eu ou Dan.
Ele ergueu a cabeça e dei um sorriso quando vi seu olhar cheio de raiva. Estava dando certo.
– Steelix, venha – o líder de ginásio ordenou e o Pokémon surgiu pela direita, fazendo pedras voarem enquanto ele saia do chão, tão perto de Dan que o garoto teve de correr para se proteger. – Você acha que isso aqui é brincadeira, Pidovizinha? – Ele perguntou com um tom carregado de raiva – vou te mostrar que não é. Vá pra cima de Leafeon Steelix e não pare enquanto não vê-la desacordada. Smack Down.
Finalmente tinha dado certo. – Leaf, Quick Attack e Agility – comandei com um sorriso no rosto. Parecia um comando inconsequente devido a ferida na sua perna, mas se tudo saísse como o plano eu venceria essa disputa.
Leaf fez seu som típico, desta vez tão cheia de determinação quanto na batalha contra Joltik de Elesa no qual ela tinha perdido depois de receber o Gastro Acid. As coisas tinham mudado pra nós. Estávamos mais fortes, mais decididas. Iriamos lutar até não ter mais forças.
Ela ganhou uma velocidade incrível e se jogou contra Steelix que fazia o mesmo vindo do outro lado da arena, porém antes de se chorarem ela acertou com seu chicote no chão e se impulsionou para o lado, desviando do ataque no último instante, fazendo Steelix bater com força no chão. – Maldição – Clay gritou – de novo Steelix.
O Pokémon moveu o corpo, o botando em posição e se atirou contra Leaf e o mesmo movimento se repetiu. Desta vez fazendo todo o chão da caverna realmente tremer.
– Vai precisar de mais do que isso – comentei cruzando os braços.
Desmond estava certo, eu detestava admitir, mas saber o que o inimigo usará contra você é uma vantagem incrível se você tem chance de se preparar. Steelix estava se cansando, enquanto Leaf se mantinha muito bem. Se a força não podia vencer essa batalha, a inteligência poderia.
Leaf não poderia depender sozinha de sua agilidade por causa do ferimento em sua perna, mas o livro da folha tinha sido uma luz divina. O capitulo que tratava sobre as habilidades naturais dos Pokémon planta ilustrava ricamente como usar os chicotes dos Pokémon como apoio, para defesa, saltos e esquiva. Foi apenas questão de algumas horas de treinamento para Leaf aprender a dominar o movimento.
Clay estava olhando para os dois Pokémon fixamente enquanto Steelix destruía o chão do ginásio, errando ataque após de ataque. – Energy Ball – Gritei animada. Talvez houvesse mesmo uma chance.
– Iron Tail – Clay gritou para minha surpresa, mas ao invés de Steelix usar contra a esfera de energia, o Pokémon desviou do ataque e acertou Leaf a arremessando para o lado. A pancada a fez arfar e até mesmo moveu areia do chão, tamanha sua velocidade.
Steelix saltou como podia e em seguida estava em cima de Leaf – Evasiva com Agility – pedi com urgência. Leaf saltou para o lado com seus chicotes, se esquivando do ataque e tentou sair correndo, mas o chão do ginásio agora estava praticamente todo irregular devido às pedras arremessada ou arrancadas do chão por Steelix com o Smack Down, sem falar dos enormes buracos causados pelo Dig.
O monstro de metal, no entanto não tinha dificuldade em se mover. Arrancou tudo da sua frente como uma locomotiva e finalmente acertou Leaf, jogando seu corpo contra ela. Uma pequena nuvem de poeira surgiu e Leaf voltou a gritar.
Vi seu corpo voando novamente, batendo com força contra as pedras do lado da arena de Clay. Eu queria pedir que ela revidasse, mas a lembrança de Serperior a mordendo e a arremessando para o alto tomou conta de mim. Eu não podia exigir tanto, eu não podia agir como Clarice, não podia agir como a Team Plasma dizia que faríamos. Ela era minha parceira, minha melhor amiga.
Porém, antes que eu pudesse processar, um pequeno feixe de luz cortou a sala. Era um fraco Solar Beam que por pouco não acertou Steelix. Ela estava se erguendo com dificuldade, levantou a cabeça e fez seu típico barulho o mais alto que pôde e encarou seu adversário também ofegante a alguns metros.
– Sua jogada foi boa Pidovizinha, mas faltou um pouco de lucidez. Sua Pokémon não vai conseguir correr com o chão da arena desse jeito e definitivamente ela não tem mais energia pra batalhar – Clay disse sério, não parecia estar alegre com a sua constatação. Seu olhar ainda estava tomado de raiva, ele parecia querer mais.
Peguei a Pokéball de Leaf e a trouxe de volta. – Quem disse que esse era meu plano espertalhão? Seu ego inflado é claramente maior que o seu talento. Skyla deveria ter me dado tarefa mais desafiadora – menti com todas as forças que tinha.
A expressão de Clay antes de raiva, agora estava tomada de ódio. Provavelmente eu tinha arranjado uma inimizade para o resto da vida. Peguei a Pokéball de Serperior e suspirei. Meu coração que já estava batendo depressa pareceu acelerar como nunca.
Eu não sabia se podia contar com a colaboração de Serperior ou se ele se voltaria contra mim de novo. Se tentaria me atacar ou não. Eu tinha arriscado todo o tempo de caça para encontrá-lo e agora era a hora da verdade.
Olhei para Dan um instante antes de jogar a Pokéball de Serperior o mais longe que pude. O raio vermelho deixou o Pokémon no centro da arena. Ele balançou a cauda na mesma hora fazendo o barulho do chocalho preencher a caverna.
– Steelix, Iron Tail – Clay reagiu no mesmo instante. Pude jurar ouvir o som de metal rangendo quando a cauda de Steelix brilhou e foi em direção a Serperior.
– Evasiva – gritei tão depressa quanto pude. Serperior se jogou para o lado, deslizando sobre a terra e pedras com tamanha leveza que não parecia tocar o chão. Um misto de euforia e angustia me tomou por um instante, antes de perceber que ele estava vindo em minha direção. – Serperior use Leaf Blade – ordenei o mais confiante que consegui, mas o Pokémon não me ouviu.
Clay ajeitou o chapéu, tirando-o do seu ângulo de visão e bufou – Steelix, Sandstorm. – Depois de um movimento brusco com a cauda a arena foi tomada por pó. A respiração ficou difícil e a visão pior ainda, eu não conseguia ver três palmos a minha frente. – Dig e em seguida FireFang – Clay gritou em meio a densa nuvem.
Dei dois passos para trás quando ouvi o som de chocalho, Serperior parecia estar em cima de mim. Meu coração começou a bater depressa, ele ia me atacar de novo e desta vez Desmond não estava ali. Comecei a olhar em volta, girando a cabeça de um lado para outro rapidamente, tentando encontrá-lo na arena, mas não dava pra ver nada.
Pensei em gritar algum comando, mas temi que ele me encontrasse pela voz. Ouvi o som que ele fazia com a garganta e entrei em pânico. Dei as costas para a arena e sai correndo em direção ao fundo da caverna. Ele estava atrás de mim, só podia estar.
Quando cheguei ao fundo e olhei para trás o efeito da Sandstorm tinha diminuído um pouco. Eu podia ver a mancha verde, ainda no meio da arena. Seu dorso estava erguido e sua cabeça, girava de um lado para outro, tão desorientado quanto eu.
O chão tremeu e como um monstro surgindo das profundezas Steelix abriu a terra sob Serperior e o agarrou com mandíbula em chamas. O corpo de Serperior pendeu para o lado enquanto, em um movimento que não demorou um segundo, Steelix o arremessou para o alto.
Sua cauda brilhou sem que Clay precisasse comandar e enquanto Serperior caia Steelix o acertou com Iron Tail o mandando em direção à parede da caverna. O Pokémon caiu se convulsionando, girando o corpo de um lado para o outro, tentando se orientar para se reerguer.
Ele não tinha sequer estado perto de mim. Entrei em pânico sem nenhum motivo. O que eu estava fazendo? O Pokémon nunca tinha estado em uma arena, nunca tinha obedecido a humanos. O que tinha me feito pensar que eu poderia simplesmente capturá-lo e levá-lo direto para uma batalha? Ele não estava pronto.
– Se está com medo pode desistir – Clay cuspiu as palavras como veneno – não é vergonha admitir o fracasso.
Eu ainda estava encostada na parede contraria a Clay, agarrada a pedra e coberta por terra. Que cena patética deveria ser aquela. Mais uma vez eu tinha conseguido mostrar o quão fraca eu era, mais uma vez estava falhando como treinadora.
Balancei a cabeça tentando tirar um pouco da terra que pesava minha cabeça e comecei a andar de volta a arena. Eu tinha que conseguir que ele me ouvisse. – Serperior – gritei muito mais alto que o necessário.
Talvez por ter me entendido ou porque tenha o assustado, mas ele me encarou – preciso que me empreste sua for... – ele não permitiu que eu terminasse a frase. Serpeiror comprimiu seu corpo e saltou. Enquanto ganhava altura moveu sua cabeça bruscamente arremessando dezenas de folhas cortantes em Steelix.
O Pokémon de metal pareceu sentir dessa vez. Urrou alto o bastante para a caverna voltar a vibrar e depois começou a se mover tentando desviar. – Smack Down – Clay pediu olhando para Serperior que agora estava no chão, serpenteando na direção do Pokémon.
Steelix estava bufando, ajeitou seu corpo e se jogou na direção de Serperior. O impacto contra o chão da caverna foi forte, o chão tremeu com mais força e algumas pedras caíram do teto da galeria atrás de Dan. – Clay – o garoto chamou olhando com o cenho franzido para o buraco recém-aberto.
– Agora não – Clay mandou sem desviar o olhar da arena.
A cauda de Serperior brilhou e eu me lembrei do ataque na floresta, era um Dragon Tail. Ele voltou a saltar e no instante seguida estava na altura do rosto de Steelix. O Pokémon de metal mal teve tempo de processar a informação, o ataque o acertou em cheio, mandando o enorme Pokémon ao chão.
– Serperior – tentei chamar sua atenção, mas ele não parou. Assim que tocou o chão começou a girar a cabeça e um tornado de folhas se formou. Steelix foi atingido em cheio, gritando de dor na mesma hora.
A criatura de metal tentou se levantar, mas outra vez Serperior se jogou contra ele, o mordendo na cara.
– Steelix, Icefang – Clay pediu depressa, ainda desorientado com os ataques sucessivos.
Steelix não o respondeu, parecia atordoado e com dor. Começou a girar a cabeça de um lado para o outro tentando se livrar da serpente presa a si. Serperior parecia um boneco, seu corpo comprido balançava como uma fita ao vento.
Quando finalmente Steelix conseguiu se desprender Serperior voou para o final da arena, caindo alguns metros atrás de Clay. Meu coração deu um salto e um momento depois eu estava correndo pela arena.
– Clay, corra! – Pedi tentando alcançá-lo.
Ele me olhou assustado e depois para trás. Um brilho verde já havia tomado conta do rabo do Pokémon, ele ia usar o Leaf Blade. Não houve tempo para reação, o ataque acertou o velho em cheio, no meio do peito. Seu corpo gordo foi arremessado para dentro da arena, caindo com força nas pedras soltas. Dan gritou cheio de pavor o nome do seu mestre e começou a correr também, jogando o Drilbur que ainda estava em seu colo na direção da saída.
Eu já estava em cima de Clay que choramingava e amaldiçoava em voz alta. Tentei buscar a Pokéball de Serperior, mas em meio a angustia, procurei no bolso errado da minha bolsa. Steelix enquanto isso reagiu, rugindo ferozmente e se jogando contra o Pokémon.
Os dois começaram então uma troca de golpes intensos, se jogando um contra o outro, hora com a cauda brilhando, hora tentando morder e agarrar, outra com ataques a de efeito, praticamente sobre nós.
Tentei ajudar Clay a levantar enquanto a galeria inteira parecia tremer ao redor. – Maldita seja você e seu Pokémon – o velho gritou com a mão sobre o peito. Sua jaqueta estava rasgada e agora um leve tom de vermelho começava a se espalhar onde o Pokémon havia acertado.
Dan gritou quando finalmente nos alcançou. O tremor na caverna ganhou força e um enorme bloco de terra se desprendeu do teto caindo exatamente onde eu estava antes de sair correndo.
Uma nuvem de poeira se ergueu e outros pedaços começaram a cair. – Temos que sair daqui – Dan disse com urgência – alguém pare esses Pokémon.
– Mil demônios, você destruiu meu ginásio, você destruiu – Clay começou a repetir.
Eu entrei em pânico. Queria sair correndo, queria gritar de volta com Clay, queria trazer Serperior de volta, mas não conseguia reagir. Meu coração estava batendo depressa e meus olhos ardiam devido à poeira se levantando.
Uma sirene começou a tocar e tudo pareceu entrar em colapso. Uma das paredes começou a se rachar enquanto mais e mais blocos de terra se desprendiam do teto. Comecei a correr junto com Dan e Clay tentando encontrar a Pokéball de Serperior na bolsa.
Um bloco maior caiu e para a surpresa e horror de todos, caiu sobre Steelix que desapareceu em meio a terra e poeira. – Steelix, não... Steelix – Clay gritou já com a voz rouca.
– Simi – sussurrei olhando para a caverna entrando em colapso atrás de mim, procurando Serperior em meio a toda a destruição. Tivemos que arrastar Clay a força para o corredor que nos tiraria dali em meio a gritos de perda e de ódio.
Ouvi o som do chocalho e um segundo depois Serperior se atirou para fora da galeria, passando por nós como um foguete. O som da terra caindo, a poeira e o tremor. Eu queria abandonar Clay, eu queria correr, eu queria gritar.
Quando finalmente alcançamos o trenzinho, o corredor por onde viemos começou a desabar. Uma nuvem de poeira veio tomando conta de metro a metro até finalmente nos alcançar. E de repente todo o som e tremor cessaram.
Nenhum de nós teve coragem de dizer nada por um tempo, ficamos quietos, imóveis apenas ouvindo a respiração acelerada um do outro. As lágrimas começaram a correr, deixando linhas marrons no rosto de Clay.
Sua expressão estava tomada por ódio quando ele finalmente me encarou. – Saia daqui – gritou com a voz rouca e cheia de fúria – saia, saia agora... Maldita. Suma antes que eu te mate.
Travei um momento, apavorada com o olhar do líder de ginásio, no outro sai correndo seguindo os trilhos em desespero. Agora eu também estava chorando. Chorando de pavor, chorando de medo, chorando por Simi e porque eu estava sozinha.
Tudo tinha dado errado, tudo. O Pokémon de Clay tinha morrido e ele me odiaria pelo resto da vida por aquilo. Ouvi o som do guinchar de Serperior e o vi a poucos metros de distância. Ele estava enrolado em si mesmo com a cabeça mais a cima lambendo uma ferida aberta provavelmente onde Steelix tinha mordido.
Não tive dificuldade para trazê-lo de volta, mas sinceramente eu não sabia se queria. Eu só precisava sair dali, precisava sair correndo de novo e me trancar no quarto. Eu não tinha conseguido a insígnia, não tinha conseguido controlar Serperior assim como não tinha conseguido salvar Simi.
Mordi a parte de dentro da minha boca para não gritar, as lágrimas estavam escorrendo cada vez mais depressa. – Por quê? Por quê? – Comecei a sussurrar olhando para o teto. Então ouvi o som do trem vindo atrás de mim. Meu coração gelou, Clay estava vindo.
Eu não tinha feito por querer. Eu não queria que ninguém se machucasse. Cerrei os punhos e abaixei a cabeça enquanto a armação de metal parava na minha frente. – Vamos, suba – olhei para cima e era Dan, tão coberto de terra quanto eu e para meu alivio Clay não estava lá.
Balancei a cabeça positivamente e me sentei do lado dele. Ele moveu alavanca e o trem voltou a se mover depressa. O som de sirenes reverberava pelos trilhos. Suspirei tentando me acalmar, mas meu coração batia tão depressa que tive medo de que ele parasse de bater.
Cerrei os punhos com mais força e olhei pra cima. Meu peito parecia estar sendo pressionando, eu estava prendendo a respiração como se até mesmo isso pudesse terminar de ferrar o pouco que ainda sobrava. Como eu queria gritar.
– Não foi sua culpa – Dan soltou em meio ao nosso silêncio me trazendo de volta da quarta dimensão onde tinha sido jogada. – Mesmo se você quisesse Serperior e Leafeon não conseguiriam derrubar a galeria do ginásio. Clay deveria ter parado seu Pokémon quando o primeiro bloco se desprendeu. Eu tentei chamar sua atenção, mas infelizmente isso foi uma fatalidade.
Olhei pra ele e avaliei seu rosto. Não parecia haver o mesmo tom de deboche de sempre, ele estava sério, me olhando dentro dos olhos. Senti a angustia diminuir, meus músculos relaxaram um pouco. Talvez não fosse mesmo minha culpa, talvez tenha sido apenas uma fatalidade. Então parei de prender o ar, a culpa não era minha.
“Simi foi uma fatalidade” me lembrei de Deedee dizendo. – Obrigada – respondi voltando a encarar os trilhos. A vida parecia estar querendo me dar uma lição.
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