Rota Zero
41 Selvageria - Parte 1
Notas iniciais
Haila
SELVAGERIA
Ao todo dezessete pontos para cobrir os furos que Serperior havia deixado no meu ombro. Passei aquela noite e o dia seguinte inteiros no hospital. Perdi muito sangue, então estava zonza demais para discutir com Desmond enquanto ele me arrastava para lá.
Eu não queria precisar mais da ajuda dele, não queria ser um fardo pra ninguém. Do que adiantava a insígnia que eu tinha ganhado de Elesa se sequer podia capturar um Pokémon selvagem sozinha?
Depois da alta decidi não ficar no hotel, aquele quarto infernal estava me enlouquecendo, então fechei a conta e me mudei para o Centro Pokémon. Lá tinha espaço demais, silêncio demais.
Eu só queria ficar perto de Leaf e de qualquer coisa que me parecesse familiar. Eu estava correndo para qualquer coisa que me lembrasse do Dee.
– Estou indo pegá-los agora – confirmei a Cilan que estava sentado em uma Praça de Accumula Town. Era o final do quarto dia desde o retorno a Driftveil e tanto Leaf quanto Serperior estavam em observação desde então. O quadro dos dois já estava muito melhor, porém os enfermeiros do Centro queriam testar seus reflexos para saberem se suas feridas não tinham afetado sua mobilidade.
Eles foram levados até lá por Desmond. Apaguei assim que cheguei ao hospital e só fiquei sabendo do que aconteceu no outro dia. Os ferimentos de Serperior, principalmente o buraco aberto em seu dorso era muito mais grave que o corto na perna de Leaf e os furos de dentes em suas costas.
Segundo Desmond eles haviam sido levados às pressas para a uma chamada “ala de emergência” e tinham sido tratados por um ótimo medico. Ele teve de deixar seu Pokedex no Centro Pokémon para ser identificado, porque segundo ele os enfermeiros que estavam em plantão no momento ficaram aterrorizados com o estado dos Pokémon.
Uma serie de perguntas haviam sido feitas a ele e por pouco quase não chamaram a polícia e tomaram meus Pokémon.
Cilan franziu o cenho e suspirou – o que pretende fazer com Serperior?
Desci os últimos degraus da escada e andei a passos largos até o balcão. Essa era uma pergunta difícil que eu vinha me esquivando desde que voltara a Driftveil City.
– Não sei, vou usá-lo contra Clay e talvez depois eu o solte onde o peguei.
– Usá-lo? Você está falando como se ele fosse apenas um objeto – o garoto resmungou me fazendo corar de vergonha. O comentário me levou a Deedee e incontestavelmente a Team Plasma, o que definitivamente não ajudou a melhorar a situação.
Até mesmo Leaf, eu tinha permitido que ela fosse surrada, que apanhasse até não ter mais forças para se levantar. Talvez, no fim das contas, eu também não fosse tão diferente de Clarice.
Me lembrei de December me contando sobre a pobre Audino da garota. De como aquela garota da Team Plasma havia deixado seu Tyranitar esfolar a cara já deformada da Pokémon. Balancei a cabeça negativamente, me forçando a afastar essas ideias. Leaf ainda assim escolheu lutar por mim, quanto a Audino, ela fugiu na primeira oportunidade. Isso deveria dizer alguma coisa.
– Não é como se eu tivesse algum afeto por esse Pokémon – soltei sem pensar. Infelizmente essa era a verdade. – Terei de aprender a lidar com ele tanto quanto ele comigo.
Cilan pareceu processar a informação. Ficou calado durante alguns segundos olhando para o nada e depois ajeitou o cabelo antes de enfim falar.
– Quando uma pessoa não gosta de um sabor, às vezes mudar o tempero ajuda. – Não consegui conter o sorrisinho de deboche, ele me encarou e depois começou a rir – você vai mesmo rir de mim sempre que eu filosofar?
Dei de ombros – você só conhece metáforas de comida, ué. – Finalmente estava no balcão de atendimento, – tenho que ir. Depois nos falamos, mande um abraço para Tom – ele fez um sinal positivo com a cabeça e juntos desligamos os aparelhos.
Eu estava ansiosa pela liberação dos Pokémon, o prazo estava quase por vencer e a luta com Clay, julgando que Dan estivesse certo, não seria nada fácil.
A enfermeira chegou até o balcão praticamente junto a mim. – Então você voltou – ela me cumprimentou com um tom preguiçoso. Todos os funcionários do balcão já me conheciam a essa altura, eu visitava-os pelo menos três vezes ao dia, o que aumentou ainda mais a antipatia que eles tinham a mim. Ouvi em meio aos cochichos o que eles pensavam de mim assim que descobriram que eu era dona de Serperior e Leaf – finalmente estamos livres de você.
Senti uma onda de energia correr pelo meu corpo. – Graças a Arceus. Como eles estão?
A enfermeira fez um sinal para que eu esperasse e trouxe as Pokéball, as peguei cheia de alegria e aguardei as recomendações. – Eles se recuperaram bem. Mais dois dias de descanso e eles estarão cem por centro.
– Eles podem batalhar antes disso? – Perguntei preocupada. Eu não tinha aquele tempo.
A enfermeira debruçou-se sobre o balcão com um olhar fuzilante e limpou a garganta antes de começar a falar com um tom recheado de incredibilidade. – Olha aqui mocinha, seus Pokémon não são brinquedos que você passa cola e pode voltar a usar. Eles tem sentimentos e sentem dor. Você é muito abusada, eu deveria chamar o pessoal da corporação para toma-los de você e leva-los para um abrigo.
=8=
– O que mais ela disse? – Desmond quis saber, ansioso pelo informativo do dia. Ele não tinha saído do meu pé desde a floresta, me visitara no hospital e até mesmo flores levara.
Eu queria mandá-lo para longe, dizer-lhe que o que ele fizera já era o bastante, mas o maldito senso de obrigação me prendia a ele. Seu Pokémon havia se ferido tentando me defender e ele havia literalmente se jogado em cima de Serperior tentando me soltar do Wrap.
Toda vez que eu o via falhava na tarefa de tentar não pensar em Serperior como um monstro. A lembrança da mordida e do aperto asfixiante tinham se juntado a minha crescente lista de traumas. Por burrice minha eu quase tinha morrido mais de uma vez.
Tomei um gole do meu refrigerante e inspirei profundamente, – Disse que eu era louca e que se meus Pokémon chegasse naquele estado novamente no Centro Pokémon ela faria o mesmo comigo, com suas proprias unhas. Que pessoas como eu não deveriam ser treinadoras, sequer viver onde há Pokémon – respondi sem animo, – e que eles estão em condições pra isso, mas não é recomendado. – Des abriu a boca, mas por fim não disse nada, talvez esperando que eu dissesse a conclusão da historia de terror. – A enfermeira disse outra coisa também.
– Ela também disse que deveria quebrar suas mãos para não segurar outra Pokeball novamente na vida, ou foi só comigo?
– Disse que eu tinha um Pokémon muito selvagem e que tiveram que sedá-lo para pode tratar suas feridas, por isso ele decididamente não estaria em condição de batalhar até pelo menos até quatro da tarde, quando o efeito do sedativo tivesse se dissipado de seu organismo por completo, – voltei a suspirar – e depois disse que arrancaria meus olhos se eu maltratasse esses “pobres Pokémon”.
O garoto ficou em silêncio um pouco, mexeu com o garfo em sua torta, mas não levou nenhum pedaço à boca. – Você deveria ter ouvido o que eles me disseram quando cheguei com os três. Aquela mulher gorda do balcão colocou as mãos na cintura e me xingou de nomes que eu não imaginava que existiam. Ela é bem criativa – comentou com uma expressão divertida. – Eu tinha a esperança que você fosse libertá-lo depois de recuperado. – Desmond mudou de assunto. Ele se sentia estranho em relação à Serperior. Lierpard ainda estava internado o que impedia que o garoto se afastasse muito do Centro Pokémon e consequentemente de voltar a fotografar.
Algo assim também me ocorreu, porém devido a circunstancias aquele não parecia ser um quadro possível. Eu não podia culpar o garoto por pensar daquela maneira, afinal de contas eu não havia dito nada sobre meu passado pra ele. Apenas o essencial. Não éramos confidentes, ele não era Deedee.
– Preciso ganhar a insígnia do Clay – esclareci um pouco meus objetivos. Era tudo com que eu tinha que me importar no momento, afinal sem insígnia, sem Skyla, sem Team Plasma, sem nada.
– A vantagem é sua, afinal Clay tem Pokémon tipo Ground.
– Steelix e Sandslash – disse sem animação.
– O que tem?
– São esses os Pokémon que ele ira usar, tecnicamente não tenho vantagem alguma.
A expressão de Desmond foi tomada por dúvida, – como você poderia saber?
– Não é da sua conta – respondi em um tom meio grosso de propósito, eu não queria que ele rendesse assunto.
Ele se largou na cadeira, ficando com o corpo um pouco reclinado e me encarou. – Ok garota. Se você sabe quais Pokémon ele vai usar, você já montou uma estratégia, certo?
Ergui o olhar e comprimi os lábios. Não, não tinha pensando em nada além da força de um Steelix. O grande monstro de metal, pelo que eu já havia ouvido falar, podia atravessar paredes com uma cabeçada. Talvez Serperior tivesse uma chance, porém Leaf, mesmo tendo se mostrado mais forte, não conseguiria abatê-lo, ainda mais estando em recuperação. – Obviamente – respondi sem emoção.
Ele me encarou um pouco incerto e deu de ombros, aparentemente esperando que eu desse relato da minha estratégia, mas eu não o fiz. Eu o devia inegavelmente. Depois de tudo o que ele fizera por mim de graça na montanha, mas me angustiava a ideia de elegê-lo como amigo, enfiá-lo no lugar de alguém que ainda deixava um buraco no meu peito.
A essa altura do campeonato a última coisa que eu poderia me dar ao luxo era confiar nas pessoas. Ninguém além de Skyla e Deedee. Se é que ele ainda me considerava como amiga.
Senti um aperto no peito. Eu não queria ter que fingir mais que estava bem. Eu tinha conhecimento das olheiras que adornavam meus olhos, do mal estar e o incomodo constante no meu ombro. Eu estava exausta, tanto fisicamente como mentalmente, mas não podia parar.
Não podia, ou teria de ver o sorriso no rosto do meu pai ao me ver voltando pra casa com tudo o que construí nessa viagem nas mãos. Apenas Leaf com uma nova cicatriz e um livro de folhas marcadas pela água do rio.
– Espero que tenha um bom plano, porque Steelix não são brincadeira – Des comentou olhando para a torta dele, cabisbaixo.
=8=
Eu queria apenas esperar as horas passarem e correr para o ginásio, o prazo estava por vencer e agora tudo estava em jogo. Eu só precisava que desse certo uma vez. Só precisaria que Clay cometesse um erro e eu poderia vencê-lo.
Mas não o fiz naquele dia. Quando por volta de duas da tarde minha cabeça começou a doer resolvi voltar pro Centro Pokémon. Eu não podia enfrentar um líder de ginásio naquele estado, eu mal podia organizar meus pensamentos.
Ou talvez isso fosse apenas parte da minha ansiedade. Eu não queria forçar os Pokémon a batalharem ainda, por mais que o desespero já estivesse quase tomando conta de mim. Eu não sabia quanto tempo demoraria pra chegar a Skyla, mas tinha uma noção melhor agora de mapas. O caminho não era nada curto. Porém, por tudo em jogo por pressa seria muito burrice.
Fui para o meu quarto e libertei Leaf. Ela ficou eufórica ao me ver depois de dias em recuperação, saltou sobre mim e eu a abracei com força. – Obrigada mais uma vez. Senti sua falta também.
Ela fez seu típico barulho estranho, quase como um leve ronronar e eu sorri. Ela era meu único porto seguro. Era a única certeza que eu tinha no meio de todo o desespero e dúvida. A única coisa realmente boa que meu pai me fizera.
Acariciei suas costas e encontrei as pequenas marcas, quase imperceptíveis em meio aos seus pelos da mordida de Serperior que havia a lançado para cima. Então inclinei o rosto e lá estava a marca do corte em sua pena. Os pelos não escondiam ali a cicatriz ainda rosada em sua perna. Toquei com os dedos e Leaf não pareceu estar em desacordo. Apenas continuou quieta me olhando e balançando a cauda.
– Parece que agora você tem cicatrizes de guerra – comentei baixinho. As cenas da batalha não deixaram de voltar a minha mente. Leaf tinha lutado mais sozinha do que comigo. Tinha tomado decisões de ataque, esquiva e até mesmo combinações das quais, muitas eu já havia usado com ela.
Agora eu tinha uma noção melhor das habilidades dela. Talvez esse tempo todo eu não tivesse conseguido explorar todo o potencial dela. Suas habilidades eram melhores do que eu imaginei todo esse tempo ou talvez a necessidade e a fúria tivessem trago algo para fora que nem ela própria imaginava que tinha.
Olhei para outra Pokéball e senti minha pulsação mudar o ritmo. Se eu quisesse ganhar a batalha contra Clay eu precisaria controlar Serperior. Seus movimentos eram muito rápidos e os saltos impressionantes que ele havia dado durante a batalha poderiam ser de grande utilidade contra Clay.
Peguei a Pokéball dele e a arremessei para o alto. Todas as minhas dúvidas em relação ao Pokémon naquele momento pareceram minúsculas, sem importância. Meu coração começou a bater forte enquanto o raio vermelho deixava a criatura no tapete, um metro ou dois a minha frente.
Eu queria dizer que toda minha preocupação se dissipou quando reparei que ele estava dormindo, enrolado em si próprio, mas isso não era verdade. Seu dorso subia e descia lentamente com uma tranquilidade irreal. Soltei o ar que prendi instintivamente e tentei relaxar os músculos.
Leaf estava o encarando fixamente. Nós duas podíamos sentir a tensão correndo pelo ar. Porém, Serperior não parecia ter notado que o tiramos da Pokéball, ele não tinha movido um músculo ou feito qualquer barulho.
Aproveitei a oportunidade para examiná-lo pela primeira vez. Mesmo a distância era clara a mancha circular em seu corpo, oriunda do Hyper Beam de Lierpard. Percebi também outras marcas e arranhões, pequenas linhas finas que desenhavam seu corpo escamoso. Aparentemente, ele já havia se metido em várias brigas, provavelmente com Patrat que tentou comer.
Meu coração batia forte quando dei meu primeiro passo para fora da cama. Recuperei a Pokéball e dei mais alguns passos pequenos para frente, evitando fazer qualquer som. O Pokémon parecia sereno enquanto dormia, quase amigável.
A ferida no meu ombro parecia latejar com mais intensidade ao decorrer da minha aproximação. Meus olhos começaram a se encher de lágrimas e minhas pernas não pareciam mais tão firmes. Eu tinha medo de Serperior, eu tinha medo do Pokémon que capturara. Como eu poderia vencer o líder do ginásio assim?
Então ele fez um ruído e depois ergueu a cabeça lentamente. Uma onda de energia correu meu corpo, meu coração parecia estar na boca, batendo tão forte que quase chegava a doer. Eu estava apavorada de novo.
=8=
Acordei cedo no outro dia, coloquei algumas coisas na mochila e fui até a saída da cidade que levava a montanha. Desmond estava certo sobre uma coisa, se eu tinha uma chance de saber quais Pokémon Clay usaria, eu tinha uma vantagem sobre ele. Por isso precisava usá-la.
Peguei o Pokedex de Jaden e suspirei. A foto do meu irmão estava estampada na parte esquerda superior. Os espaços vagos ali eram uma lembrança forte da promessa que eu havia feito a ele, mas agora isso não importava mais.
Rodei até encontrar a miniatura de Steelix. Olhei para os dados por alguns segundos relembrando o que havia visto na noite passada, tamanho, peso e altura. Em seguida olhei para seus ataques naturais, haviam muito poucos tipo Ground o que acabou me surpreendendo. Dig, Sandstorm, Buldozze. Porém muitos ataques tipo Rock que se acertassem Leaf seria K.O.
Leaf não tinha força suficiente para derrotar o Pokémon sozinha, mas sem duvida ela poderia cansá-lo com facilidade. Ela era pequena, ágil e esperta, eu apenas precisava pensar em algum tipo de habilidade que ajudasse Leaf a escapar caso Steelix resolvesse lançar pedras em sua direção. Não poderia me dar ao luxo de achar que ela se sairia bem contra algo assim.
Graças a Arceus o livro da folha tinha a resposta para aquilo em um dos seus primeiros capítulos. “Uso das habilidades naturais dos Pokémon Planta”. Agradeci a Lenora mentalmente por ter me presenteado com aquilo.
A enfermeira havia dito que em dois dias Leaf estaria completamente bem, mas eu não podia confiar. Caso ela sentisse algum tipo de dor, ou o ferimento tivesse deixado algum tipo de sequela que impedisse a mobilidade essa nova saída poderia ajudar.
Era a primeira vez que nos fazíamos um treinamento tão especifico. Leaf começou a correr, mas não parecia tão ágil como quando batalhou contra Serperior. O que apenas serviu para me certificar de que ela não estava completamente bem.
Fechei os olhos e tentei medir a consequência das coisas. Meu prazo de sete dias terminava hoje. Eu deveria chegar a Mistralton City até a madrugada se quisesse cumprir a tarefa que tinha recebido de Skyla, mas forçar Leaf e Serperior a lutar poderia significar minha derrota o que claramente me atrasaria mais ainda.
– Um dia de atraso não fara com que Skyla desista de mim – sussurrei e pedi para que Leaf viesse até mim. A única maneira de conseguirmos vencer Clay era pensar em uma maneira de distrai-lo e esperar que o livro da folha estivesse certo, que essa técnica pudesse mesmo ajudar Leaf na agilidade.
Precisávamos treinar, mas por hoje, seria apenas um aquecimento.
=8=
Chegamos em frente as grandes portas de metal por volta de dez da manhã do dia seguinte. Eu estava uma pilha de nervos, parecia que Butterfree dançavam em volta de uma fogueira no meu estômago, venerando algum deus Pokémon maldoso.
Toquei o interfone e depois de alguns minutos ouvi a voz de Dan. – Achei que não voltaria mais, já faz dias – ele comentou com a voz divertida.
– Não graças a sua ideia – respondi olhando para o aparelho na parede. – Você sabia o tempo todo, certo? – Dan tinha passado no Centro Pokémon durante os dias em que meus Pokémon estavam internados. Aparentemente levando os Pokémon de Clay para receber cuidados, ou quem sabe apenas seguindo a fofoca de que uma dupla de treinadores tinha sido atacado por Serperior na montanha que se espalhara pela cidade.
Ele limpou a garganta e o timbre da sua voz mudou para algo mais sério. – Sei muito mais do que você pensa. Serperior são Pokémon no último estagio de evolução. Eles se desenvolveram na selva, você não esperava que eles fossem dóceis, não é mesmo?
– Você vai abrir isso aqui ou eu vou ter que derrubar? – Perguntei me cansando do joguinho. O interfone ficou mudo e depois de um “tick” metálico as portas começaram a se mover. Meu coração estava batendo tão forte que eu podia sentir a sangue correndo pelas minhas veias.
Olhei para Leaf e apontei a Pokeball em sua direção. – Até daqui a pouco – sussurrei antes de trazê-la de volta.
No final do corredor o garoto estava em pé, de braços cruzados me encarando com um olhar frio. Caminhei a passos largos até finalmente alcançá-lo. – Clay está no subterrâneo, vou levá-la até ele – concordei com um movimento de cabeça e começamos a caminhar.
Seguimos por alguns corredores até finalmente pararmos em frente a um elevador. Assim que o pegamos, ele começou a descer e eu estranhei. Apenas a parte onde pisávamos se moveu.
– Não chegue muito perto da beirada – o garoto aconselhou – você não quer perder um membro.
Continuei imóvel até que de repente as paredes cimentadas e as portas de metal desapareceram. Logo estávamos em uma enorme caverna, iluminada por holofotes presos a pedra. O cheiro de terra encheu meu peito junto a um calor úmido.
– Caramba – exclamei sem intenção.
– O ginásio fica a trezentos metros de profundidade – Dan revelou com um sorrisinho no rosto.
Criei coragem e dei dois passos medrosos para frente. Lá embaixo, presos a parede por enormes barras de metal havia uma plataforma onde alguns funcionários conversavam. E ainda assim havia mais para se descer depois daquilo.
O elevador chegou à plataforma com um tranco leve, mas que me fez sentir frio na barriga. Dan caminhou devagar em direção aos homens e os cumprimentou. Mais a frente, ele pegou um capacete amarelo de uma caixa e o arremessou em minha direção. O segurei com um pouco de dificuldade e criei coragem para seguir o garoto.
A plataforma era forrada com um tipo de tela espessa que deixava o enorme buraco abaixo de nós claramente visível. – Se isso aqui desabar esse capacete vai me servir de quê? – Perguntei me aproximando dele novamente. Ele sorriu e apontou para o elevador seguinte, esse com proteção dos lados para o meu alívio.
Quando finalmente chegamos ao solo me deparei com algo parecido com um trenzinho. Era como um vagão com assentos, porém sem paredes ou teto.
– Nossa carona – ele revelou estendendo a mão para me ajudar a subir naquilo. Fiz uma careta e tratei de subir eu mesma.
Conforme o trenzinho seguia os trilhos, a temperatura parecia aumentar, ou talvez fosse apenas minha sensação de claustrofobia. Quando paramos eu estava começando a suar. Dan pulou primeiro e depois estendeu a mão para me ajudar. Ignorei a gentileza e saltei na terra que parecia meio úmida sob meus pés.
Pegamos um corredor menor, que era escorado por vigas de pedra clara e finalmente chegamos a enorme galeria que abrigava o ginásio tipo Ground da região de Unova.
Clay estava sentado no chão acariciando um pequeno Drilbur, um Pokémon com a pele preta que ostentava garrar de metal nas patas superiores. Quando nos viu chegando ajeitou o chapéu na cabeça e se levantou com um pouco de dificuldade.
– Pidovizinha, achei que tinha dito para não voltar mais por aqui – ele comentou parecendo sinceramente surpreso.
– Não, você disse que queria uma batalha com dois Pokémon – respondi o encarando com firmeza.
Ele bateu as mãos uma na outra tentando limpá-las um pouco e depois ergueu a sobrancelha cabeluda. – Pois bem, agora quero uma com três Pokémon.
– O quê? – Perguntei incrédula. Cheguei a dar um passo para trás tomada pela surpresa do pedido.
– Você me ouviu, não me faça repetir – ele respondeu fazendo um movimento com a mão em direção à saída. – Três Pokémon ou nada – completou parecendo entediado.
Retirei a Pokéball de Leaf da bolsa e a joguei na direção de Clay, a Pokémon surgiu já em posição de ataque. Fui em direção a ele, em passadas largas e cheias de fúria. – Você não me fez passar dias no hospital para mudar de ideia agora.
Dan saiu correndo atrás de mim no meio do ginásio enquanto eu ganhava espaço me aproximando de Clay. – Haila – ele me chamou com um tom repreensor.
– Você vai batalhar comigo nem que eu tenha que te obrigar a isso, seu velho escroto – gritei finalmente o alcançando. O velhote estava de olhos arregalados, parecia não acreditar no meu ataque de fúria. – Leaf, Vine Whip.
Clay deu um passo pra trás e olhou para Leaf que o acertou mais rápido do que eu podia esperar. O velho gritou de dor ou surpresa e depois me encarou com olhos em chamas. A chicotada o tinha acertado o ombro e o estalo chegara a ecoar pela galeria.
– Você está louca garota? – Mais um golpe o acertou e dessa vez ele deu uma pequena corrida para o lado, tentando sair do alcance dos chicotes.
– Você acha que estou louca? – Gritei correndo na direção dele, o empurrando assim que me aproximei o suficiente para tocá-lo, fazendo-o ir para trás meio sem equilíbrio como consequência. – Você acha que estou louca? – Repeti, gritando mais alto ainda – Leaf, porque parou? – Leaf acertou outro golpe, dessa vez arrancando o chapéu de sua cabeça.
Dan estava parado atrás de mim, imóvel olhando para o seu mestre chocado.
– Louca, você é louca – Clay gritou e saiu correndo em dispara. – Se quer tanto batalhar, então vamos batalhar. Mas eu juro por Arceus, garota insolente, você vai se arrepender disso.
– Se você conseguir – gritei tão alto que minha garganta arranhou. Agora não tinha mais volta, era tudo ou nada. – Tente a sorte gorducho.
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