Rota Zero

47 (Quase) Todas as Mulheres de Undella


Notas iniciais
Julio sempre pega no meu pé porque eu posto com um dia de atraso. Se é sexta, posto no sábado, segunda, posto na terça e assim vai. Enfim estou aqui e desta vez sem erros!!! Animados com o destino do Deedee e da Haila? Então vamos lá Boa leitura!

December

(QUASE) TODAS AS MULHERES DE UNDELLA

– Então, o que pretende fazer? – Roxie questionou enquanto bebericava seu chá na mesa do café da manhã.

Estávamos tomando café em um restaurante perto do Centro Pokémon, estava um dia ensolarado, mas não muito quente. Chiclete estava ao nosso lado na mesa e Desdemona flutuava preguiçosamente ao lado da líder.

– Vou devolver o Pokémon a ela – respondi brincando com o canudo no meu suco.

Fazia dois dias que Lila e eu tínhamos capturado o Absol. Eu tinha tentado devolver o monstrinho para ela diversas vezes, mas ela sempre refutava. De acordo com ela, mesmo se desejasse ficar com ele, provavelmente o entrosamento entre eles não daria certo.

– Bem, se foram seus Pokémon que o derrotaram é bem possível que isso aconteça. Você mostrou seu valor como treinador, então ele obedecerá você.

– Mas eu não sei o que fazer com ele, quer dizer, agora não é exatamente o melhor momento para eu arranjar um novo parceiro. – Desviei os olhos para Chiclete que estava compenetrado comendo Pokéblocos que Roxie havia lhe dado.

– Talvez isso seja um sinal.

Encarei-a achando que estava me sacaneando de alguma forma, mas sua expressão permanecia séria, como se realmente acreditasse nisso.

Chiclete estava com a maior parte do braço enfaixado e eu teria que voltar ao Centro para trocar as bandagens depois do café, mas seus movimentos não pareciam comprometidos. Na verdade, ir ao Centro havia se tornado um ritual, assim como passar a maior parte do meu dia na companhia de Lila.

Roxie estava muito ocupada com Caitlin, de forma que quase não a via durante o dia. A estrada para Lentimas finalmente tinha sido liberada, e finalmente poderia me encontrar com Ixia, mas a enfermeira do Centro havia me dito que não seria bom viajar com Riolu ferido daquele jeito, e que eu deveria transportá-lo em uma Pokéball para tornar a viagem mais agradável. Infelizmente, essa não era uma opção.

– Talvez você devesse ficar com ele até conversar com Ixia. Você ainda pretende encontrá-lo, certo? – Eu sabia o que Roxie estava pensando. Desde que Riolu havia escapado da Pokeball e minha viagem tinha sido adiada, eu não comentara mais nada sobre o homem.

A verdade é quanto mais pensava sobre, mais deprimido ficava. E se Ixia dissesse que o certo era libertar meus parceiros? Não seriam apenas minhas suposições falando, seria uma prova concreta de que eu só trouxera infelicidade a eles. Mesmo que eu os libertasse, toda a dor que eu havia causado até então nunca seria reparada.

– Eu irei quando a enfermeira do Centro liberar Chiclete para viajar... – Mas não consegui completar minha frase, uma voz alta e conhecida preencheu meus ouvidos.

Lila estava ali, mas não na minha mesa, ela tinha parado algumas mesas antes e falava com Clarice. Eu não tinha reparado na loira ali até então e ela não estava acompanhada de seu Granbull. A coordenadora dos Psyducks falava muito e gesticulava e antes mesmo que Clarice pudesse dizer algo, puxou uma cadeira e se sentou a mesa, fazendo sinal para o garçom.

– Elas são amigas? – Roxie perguntou espiando por cima do ombro. Ela vinha tendo um pouco mais de contato com Lila desde nossas aventuras noturnas e soubera que ela também tinha tido um encontro com Clarice.

– Não na verdade, mas Lila acredita que os coordenadores devem ser unidos. – Expliquei. E acreditava mesmo. Mesmo que Clarice tivesse sido grossa com ela, em um primeiro momento, Lila acreditava que elas poderiam ser amigas, afinal, ambas eram coordenadoras o que já era ter muito em comum. – Ela diz que somos uma classe muito desunida e deveríamos nos basear nos treinadores.

– Desunida?

– Sim, ela diz que há muita competição, mesmo fora dos Contest, mas eu não entendo realmente. – A verdade é que Lila havia me dito muitas coisas sobre esse mundo que eu desconhecia, como a rivalidade entre categorias ou rixas por apresentações parecidas. Mas eu realmente não me interessava por essas coisas. Mesmo depois de dois Contest, eu ainda não me interessava verdadeiramente por aquilo, ainda era apenas roupas e teatralidade frívola, eu não entendia por que as pessoas se importavam com aquilo, nem como tal bobagem poderia ser tão valorosa para minha mãe.

– Você deveria saber mais coisas, afinal é sua área – Roxie comentou, mas não havia acusação, era apenas uma constatação.

– Não que eu realmente tenha optado por isso.

– Odeia tanto Contest assim? – Arqueou a sobrancelha.

– Ódio não, apenas acho inútil. Treinadores, tratadores, especialistas, enfermeiros, cada um tem sua importância no mundo Pokémon, mas os coordenadores não servem para nada efetivamente.

Tudo o que fazíamos era enfeitar nossos parceiros e os exibirmos em apresentações ridículas. Não contribuíamos em nada para mundo, não salvávamos monstrinhos feridos, nem o ensinávamos a se tornarem mais fortes ou explorávamos cavernas em buscas de fósseis, era só um show fantasioso e bobo.

– Então é assim que você vê? – E ela pareceu interessada no meu ponto.

– Bem, sim.

– Então eu sou inútil para você? – Se inclinou na mesa me encarando.

– Do que você está falando, claro que não Roxie, você é uma grande líder de ginásio.

– E fora isso, o que sobra? Sou apenas uma inútil musicista. –Abri a boca para contestar, mas ela me cortou. – Minha música não pode curar uma pessoa doente ou construir um prédio, da maneira como você vê, sou inútil para a sociedade.

– Não é bem isso...

– Minha música pode não ser tão importante ou vital, mas ela serve para trazer consolo, felicidade e animação à vida das pessoas. Assim como os quadros do Burgh ou as apresentações de moda da Elesa. O que fazemos é arte e não pode ser mensurado como todo o resto. Assim como a sua arte.

– Minha arte?

– Contest são as exposições de arte do mundo Pokémon, captar a beleza essencial e mostra-la para o mundo, esse é seu dever.

– Mas isso não me parece certo. Vesti-los como humanos e apresentá-los é tirar a essência deles, não é?

– Há vários tipos de coordenadores, assim como há vários tipos de treinadores. Alguns apelam para adereços e humanização dos Pokémon, mas outros... Você não acha que foi muito corajoso da sua parte se apresentar com um Pokémon Lutador? Elesa me disse que você se saiu muito bem no Contest em Nimbasa. Mostrar leveza e agilidade em um tipo que a maioria dos treinadores vê apenas como músculos e força é uma forma de arte. – Roxie desviou o olhar para Chiclete que a encarava com os olhinhos brilhando. Ele parecia em total acordo com as palavras da mulher.

Eu nunca pensara dessa forma, minha mãe era sempre tão didática e disciplinada com Contest que não me parecia nada artístico ou inspirador. Mas vendo por esse ângulo, talvez Roxie tivesse razão. As pessoas que iam aos ginásios verem as apresentações não estavam ali apenas pela frivolidade do evento. Aquilo de alguma forma as tocava, emocionava, as deixava felizes e inspiradas. E assim como todo o resto, ter um pouco de beleza e entretenimento na vida, era importante.

– Eu não sabia que você entendia tanto de Contest – disse assombrado. Eu deveria saber aquelas coisas e não Roxie.

– E eu não entendo, mas entendo muito sobre arte. – E sorriu.

=8=

– Sobreviveu ao café da manhã com Clarice? – Perguntei me jogando no sofá no Centro Pokémon. Lila se sentou ao meu lado. Seus Psyducks corriam pela ala descontroladamente, esbarrando em outros treinadores, mas a menina parecia não se importar com a algazarra.

Chiclete tinha sido levado pela enfermeira do Centro, que trocaria suas bandagens e faria o último check up para conferir se estava tudo bem com ele.

– Ela não é tão ruim assim – disse com um biquinho. – Estou quase a convencendo a deixar que Grangran tenha um encontro com Bulba.

– Então é por isso que você anda tão amigável com ela? Achei que seria por causa daquela ladainha sobre classe desunida.

– Não é ladainha. – Me repreendeu. – Estou apenas unindo o útil ao agradável. Ela até me disse que terá que mudar de categoria, pois não tem mais sua Audino. – Encarei Lila esperando algum complemento, mas ela não disse nada, o que me fez crer que Clarice não tivesse contado porque não tinha mais a Pokémon. – Vocês batalharam no Contest em Nimbasa, certo?

Chiclete e Audino tinham travado uma luta difícil, mas pensando agora, aquilo não era nada perto do que a Pokémon rosa ainda iria passar. Eu me perguntava onde ela estaria e se estaria feliz. Pensar no destino da Audino me fez lembrar Haila, que eu também me perguntava se estava feliz. Embora eu acreditasse que a vingança não fosse trazer nada de bom a ela, tentava me convencer de que ela escolhera o caminho que mais acreditava lhe trazer felicidade.

Felicidade era algo que eu vinha buscando constantemente nos últimos tempos. Não era algo que eu me importava muito quando ainda vivia em Aspertia, pois acreditava que a vida que levava me deixava feliz, mas agora, depois de tudo que tinha visto e vivido eu me questionava se realmente eu era feliz, se as pessoas que eu conhecia o eram, se eu poderia fazer meus Pokémon felizes.

– Clarice! – A voz de Lila me tirou de meu devaneio. A menina acenava freneticamente para a loira parada no meio do saguão. A coordenadora deu um muxoxo e foi até a recepção, onde outra enfermeira a atendeu.

Vi a menina entregar sua Pokéball para a enfermeira e depois de algumas palavras trocadas, cruzar a recepção e se jogar no sofá ao lado de Lila.

– E então, pensou no que eu disse? — A dona dos Psyducks começou sem rodeios, com os olhos brilhando em expectativa.

Clarice desviou os olhos para os Psyducks que se moviam pelo saguão e analisou-os demoradamente.

– Eu já disse que não.

– Qual é? Grangran e Bulba foram feitos um para o outro, você não pode se impor diante de um amor tão puro. – Falou romanticamente.

– Eu já disse para não chamar minha Granbull dessa forma.

– Mas é fofo. – Lila era uma das pessoas mais sossegadas que eu conhecia, não importava se o olhar de Clarice era de quem queria pular no seu pescoço e bater sua cabeça na mesa até parar de falar essas asneiras românticas, Lila não se importava minimamente.

Clarice revirou os olhos e abriu a boca para responder, mas a voz da enfermeira a interrompeu. Charmander e Bulbasaur tinham derrubado um vaso no saguão e agora havia terra para todo o lado, a enfermeira estava furiosa e queria que Lila desse um jeito na situação.

A garota se levantou e foi até a mulher e os Pokémon ruidosos. Clarice me encarou como se esperasse que minha cabeça caísse do corpo e um silêncio estranho desceu sobre nós. Eu esperava que Lila se adiantasse na limpeza do saguão ou que a enfermeira aparecesse logo com meu Riolu, mas nada disso parecia acontecer em breve.

– Me desculpe – comecei sem realmente ter certeza se deveria dizer aquilo, mas o silêncio opressor estava me incomodando – pelas coisas que disse no Festival.

– Que milagre você lamentando por algo – provocou. Era Clarice, claro que ela não iria deixar passar. Dei de ombros porque não sabia mais o que dizer, agora era esperar ela me espinafrar. – Mas você não estava de todo errado.

– Então você se odeia mesmo? – Me arrependi imediatamente de ter dito, porque Clarice fechou a cara.

– Claro que não, mas eu ando descontando minhas frustrações em você. Em todo mundo, eu acho – admitiu finalmente. Isso explicava porque ela andava tão agressiva e pavio curto. – Eu disse a você no nosso encontro, você tem uma autenticidade que nunca vou conseguir ter. E não importa meu esforço, você e sua autenticidade idiota sempre aparecem para salvar o dia e me fazer parecer patética.

– Isso é estranho.

– O quê?

– Que você tenha me usado de parâmetro. Há tantos outros coordenadores melhores do que eu. Lila, por exemplo. – E meus olhos se desviaram para a garota no saguão e com a ajuda dos Pokémon removia a terra e o resto do vaso quebrado.

– Quem usaria você como parâmetro? – E a voz saiu debochada, mas não soou tão espontânea como deveria.

– Você – arrisquei. As coisas que ela havia me dito no Festival me faziam crer naquilo. Ela enaltecera muitos pontos que eu sequer possuía e que provavelmente não via em si mesma. – Você me vê como um coordenador com talento...

– Eu não te vejo apenas como coordenador – deixou escapar. Era um tom suave, suave demais para ser usado por ela. Eu podia imaginar Alanna falando um “eu te avisei que ela gostava de você” e tentei afastar isso da minha mente.

– Mas você não me vê realmente. – Cruzei as pernas sobre o assento do sofá. Ela me encarou como se não entendesse. – Você vê a ideia que tem de mim, mas não a pessoa que eu sou realmente. Das coisas que você me disse no Festival, eu pareço uma pessoa incrível, mas eu não sou nada disso.

– E imagino que apenas a loira aguada te veja como você realmente é. – A frase saiu com misto de ódio e desprezo, sempre era quando o nome de Haila estava implícito. Eu realmente não entendia como havia surgido tanta animosidade entre elas. No começo elas pareciam sequer se importar uma com a outra.

– Sim e por isso ela não está mais aqui. – Constatei.

– Eu garanto que não te deixaria – ela me olhava como no dia em fomos ao encontro e algo dentro de mim pareceu se remexer. Eu não saberia dizer se era saudade ou esperança, mas eu não poderia me ludibriar por tais palavras.

Eu gostava de Clarice, talvez não romanticamente, mas gostava dela. Mas muita coisa havia acontecido entre nós que sempre seria um empecilho. Nossa rivalidade nos Contest, minha decisão sobre sua Audino, ter ficado ao lado de Haila quando elas brigaram. Por mais que ela me dissesse tais palavras agora, um dia tudo isso voltaria e seria jogado no ventilador. Além disso, eu andava carente com a ausência da Haila, meu elo quase instantâneo com Lila era prova disso. Tentar algum vínculo com Clarice só reforçaria tão falta e não seria justo nem correto com ela.

Havia ainda um agravante. Aquilo era muito assustador, há dois dias ela queria minha cabeça e agora propunha que tentássemos algo. Não sei se tinha mais medo da Clarice psicótica ou boazinha, mas mulheres eram realmente muito assustadoras. Como poderia pensar em romance com uma pessoa que ela desgostava tanto?

– Eu não acho que funcionaria.

– Por que eu não sou a loira enjoada? – Me lançou um olhar repressor que me fez gelar. Cadê as palavras bonitas de cinco segundos atrás?

– Não, não tem nada a ver com a Haila. É só que eu ando muito confuso com meu destino e acho que talvez você também esteja – comecei a me enrolar. – Digo, você me disse que talvez eu não fosse um bom coordenador e eu estou avaliando isso. E você precisa achar alguém melhor para ter como norte...

Ela me encarou demoradamente como se algo em minhas feições pudesse me trair. Então se levantou, ajeitando o vestido.

– Não fique se achando porque acha que te uso como comparativo. Mas talvez você esteja certo, um pouco... Talvez eu devesse me comparar com o David. – E fez uma careta engraçada, como se quisesse parecer divertida e causal.

Em quesitos de coordenação, David era realmente muito bom e merecia todos os louros que os apresentadores dos Contest lançavam sobre ele, mas a sua personalidade não era algo que eu gostaria que alguém copiasse, ainda mais Clarice.

A enfermeira nos chamou na recepção, devolvendo a Pokéball de Clarice e meu Riolu. Ele já estava sem as bandagens e a ferida estava totalmente curada, mas ele ficaria com uma grande cicatriz no braço. De acordo com a enfermeira, eu já poderia viajar, mas seria mais recomendado levar Chiclete em uma Pokéball, mas isso não iria acontecer.

– Você nunca se desculpou pela minha Audino. – Clarice comentou quando a enfermeira se afastou. Não havia raiva na voz, era mais como se ela estivesse curiosa.

– Eu não lamento por aquilo. – E não lamentava.

– Você deve me achar uma coordenadora horrível. – Encarou a Pokeball que tinha na mão, a voz parecia distante, como se lembrasse de algo que eu desconhecia.

– Nós dois somos. – E éramos mesmo.

– Talvez você não seja o único que deva desistir dos Contest – disse me encarando. Eu sabia o que aquelas palavras significavam. Ela esperava que eu as refutasse, lhe desse algum incentivo ou conselho para não desistir. Era como quando minha mãe mudava o penteado e falava que estava feio, só para que meu pai a enchesse de elogios.

– Talvez.

=8=

– O que você disse para ela? – Lila me perguntou enquanto chegávamos ao hotel onde eu estava hospedado com Roxie.

– Nada.

– Nada? Clarice estava furiosa, mais do que das outras vezes.

– Não disse nada demais. – Riolu balançou a cabeça, como se estivesse descrente da minha atitude.

Eu não era meu pai e não iria cobrir Clarice de palavras bonitas. Não importava que eu gostasse dela e se finalmente parecíamos ter nos acertado, minha opinião sobre ela e suas habilidades de coordenadorias não iriam mudar.

Eu não era um bom coordenador, isso era um fato, e nem me preocupava em ser. Mas Clarice estava nesse caminho porque queria e se dedicava. Ela era muito disciplinada e inteligente, mas a frieza que travava seus parceiros exigindo que eles vencessem combates impossíveis era o suficiente para que eu não tivesse totalmente de acordo com sua postura. Ela era uma coordenadora melhor do que eu, mas talvez esse caminho não fosse tanto meu quanto dela.

Só que ela não gostara da minha resposta e me cobrira de insultos e ameaças. O destino da Audino voltou à roda e Lila praticamente teve que me arrastar de lá antes que Clarice voasse no meu pescoço. Mas se ela não queria a verdade, por que fizera tal questionamento? Eu realmente não entendia as mulheres.

– Não me pareceu “nada demais” – Lila insistiu, enquanto atravessamos o corredor que levava aos quartos.

– Ela me perguntou o que eu achava dela continuar como coordenadora... – Abri a porta do quarto e encontrei tudo revirado, como se um furacão tivesse passado por ali.

Roxie corria de um lado para o outro, conversando com alguém no Xtransceiver e jogando coisas dentro de uma mochila que eu nem sabia que ela possuía. A mala estava aberta no meio do quarto com roupas reviradas.

– December. Oi, Lila – ela nos cumprimentou sem nem parar o que fazia. – Certo, certo... – Continuou com quem falava no dispositivo. – Eu irei averiguar. Sim, estou próxima, devo demorar umas poucas horas. – Ela usava um tom sério que eu não ouvia com frequência. – Sim, eu manterei contato. – E desligou o aparelho.

– Roxie...

– Eu preciso viajar – disse me cortando, enquanto jogava coisas dentro da mochila.

– Para onde você vai?

– Um Ranger me ligou, disse que parece haver movimentação suspeita nas proximidades da Rota 13.

– Team Plasma?

– Não sabemos, pode ser qualquer coisa ou pode não ser nada, mas como estou perto irei investigar. – Enfiou o que faltava na mochila e fechou.

– Eu vou com você – disse instintivamente. Não que eu estivesse animado de dar de cara com a Team Plasma ou qualquer grupo criminoso, mas não me parecia correto deixar Roxie sozinha.

– Nada disso, não tenho tempo para ficar bancando sua babá. Além do mais, você veio para Undella por um único motivo, lembra?

– Mas Cheren disse para você não tirar os olhos de mim, achei que iria comigo para Lentimas...

– A ideia era essa, mas meus compromissos com líder de ginásio são mais importantes do que ficar te pajeando. Além disso, você já está bem grandinho...

– Achei que eu não era confiável. – Lila não estava entendendo muito daquela conversa.

– Bem, esses dias você não fez nada que eu tenha colocado em xeque a confiança que depositamos em você. – Fora perder a Pokéball de Chiclete e ter me metido numa bizarra caçada a um Absol.

– Mas Cheren ficará chateado, afinal, ele confiou em você para manter os olhos em mim... – Eu sabia que usar o nome do Cheren para manipulá-la era golpe baixo, afinal, ela parecia ter algum interesse nele e por isso concordou de bom grado em me escoltar, mas eu não estava nem um pouco confiante de encontrar Ixia, ainda mais sozinho. Eu nem fazia ideia de como ele era. Se Roxie estivesse comigo eu me sentiria um pouco mais seguro.

– Se nós não contarmos, ele nunca vai saber. Afinal serão só dois dias – e deu uma piscadela matreira. – Por que você não leva a Lila? – Sugeriu se virando para garota parada ao meu lado.

Eu tinha contado a Lila sobre Lentimas e Ixia, mesmo que não tivesse dito a ela sobre minhas ideologias ou desejo de libertar meus Pokémon, era mais como se fosse ver o velhote por curiosidade. Não seria nada mal tê-la comigo, já que desde que nos conhecemos tínhamos passado o tempo quase todo juntos. Mas nunca pensara em convidá-la para essa viagem.

– Ah, o ar vulcânico não faz bem para meus Psyducks – disse se enrolando. Estava na cara que ela não queria ir. De acordo com Lila, ela estivera na cidade uma vez e o lugar era um buraco. Fora a cinza vulcânica que cobria tudo e a cidade esculpida na pedra avermelhada, não havia nada realmente interessante ali. – Além disso, tenho que aproveitar, de acordo com o mapa de correntes marítimas que a enfermeira do Centro me deu, um grande cardume de Slowbros vai estar nas proximidades de Undella amanhã, eu tenho que aproveitar. – Realmente ela não queria ir para Lentimas.

– Mas eu não tenho como ir para lá...

– Não tem problemas, eu já conversei com o Dutch, ele vai te levar. – Eu não fazia ideia de quem era. – Agora arrume suas coisas, você parte em uma hora e ele não vai te esperar.

=8=

Dutch era um senhor de meia idade que quase diariamente fazia o caminho Lentimas – Undella para suprir a cidade vulcânica com mantimentos. Ele viajava em um caminhãozinho cheio de caixas de peixes e frutos do mar e fedia um bocado.

Ele estava me esperando na saída da cidade, ao lado do caminhão e parecia ser um tipo sossegado e bem humorado, que lembrava meu pai. Roxie foi comigo até lá, me apresentar o sujeito. Dali ela já sairia para a Rota 13 atrás das informações que tinha conseguido do Ranger.

Lila tinha se despedido no hotel, como ela mesma dissera, eu voltaria em dois dias e nós nos encontraríamos no Contest de qualquer forma. Tinha me esquecido que ela havia pagado minha inscrição e eu precisava resolver isso, já que não tinha pretensões de participar, mas ficaria para minha volta.

A viagem demoraria algumas horas e o caminho seria suave por uma rodovia. Havia outra rota pelas cavernas, mas claro que Roxie não me deixaria ir por ela, já que isso significava encontrar Pokémon selvagens pelo caminho.

– Se cuide – Roxie se despediu com um sorriso – e se Cheren ligar, diga que eu estou no banheiro.

Cheren tinha ligado só uma vez, logo no primeiro dia, ela não seria tão azarada dele ligar justo agora que ficaríamos separados.

– E você mocinho – disse bagunçando os pelos do meu Riolu – Tenha paciência com esse idiota, ele vai perceber no momento certo. – Chiclete fez um barulho engraçado, como se concordasse plenamente com as palavras da mulher.

– Você cuide-se também. – Desejei, embora achasse desnecessário, afinal ela era uma grande líder de ginásio.

– Eu irei. O quarto do hotel ainda estará no meu nome, se você retornar primeiro. – Avisou. Então nos despedimos, e ela ficou nos vendo entrar no veículo e partir.

Dutch era um homem de poucas palavras, que preferia gastar seu tempo cantarolando as músicas do rádio e prestando atenção a estrada. Eu estava com a cabeça encostada no vidro da janela, olhando a paisagem lá fora e o dia que avançava rapidamente. Chiclete estava ao meu lado e parecia bastante sonolento.

Cada minuto eu estava mais próximo de Ixia e com mais medo do que ele iria me dizer. Eu havia ido até lá apenas para ouvir suas palavras, mas agora as temia. Esses dias com Chiclete fora da Pokéball tinham sido estranhos e desconfortáveis, mas também tinham me mostrado porque eu prezava tanto o vínculo. E se Ixia dissesse para libertá-los? E a família que eles haviam formado? E se eu fraquejasse em atender seus anseios?

Então me lembrei das últimas palavras de Roxie, enquanto ela me abraçava em despedida. “As palavras de Ixia podem ser importantes, mas a decisão final é sempre sua. Faça o que te fizer sentir bem.” E eu esperava que esse conselho me ajudasse quando eu precisasse escolher.

Notas finais
N/T: O nome é baseado em um filme chamado Todas as Mulheres do Mundo, que conta sobre um cara que se envolve com várias deles, romanticamente ou não. E como Deedee não fez mais nada além de interagir com personagens femininos.. kkkk Bom, Deedee e Haila estão indo para Lentimas e agora? Comentem!