Rota Zero
48 Consenso
Notas iniciais
Haila
CONSENSO
Suspirei olhando para a janela do avião, que fazia a curva sobre a cidade de Lentimas, se preparando para o pouso. Ventos fortes assolavam a cidade vulcânica, erguendo uma nuvem de poeira escura no ar, dificultando ainda mais o avião de alcançar o chão.
Apesar de tudo aquilo estar diante de mim, minha cabeça estava distante. Eu não conseguia me livrar da sensação de estar perdida como no dia em que fugi de casa. Skyla estava certa, viver com a consequência dos meus atos parecia ainda mais difícil a cada dia.
Tornar-me uma especialista em Pokémon Grass era tudo o que me restara agora, mesmo que meus únicos Pokémon não estivessem contentes em me seguir. Eu estava cansada de me perguntar que tipo de treinadora eu era e me arrepender a cada minuto de que caminho tinha decidido tomar depois da morte de Simi.
Precisava seguir em frente, encontrar uma forma de chegar até Leaf e Serpio e adquirir mais conhecimento. Fosse lá como fosse, teria de fazer isso sozinha agora, esses eram os últimos dias como acompanhante de Desmond.
O último trabalho dele antes de voltar para a revista em Castelia era fotografar um bando de Camerup que normalmente, segundo ele, poderiam ser encontrados nas planícies no sopé do vulcão em Lentimas.
Não tinha como saber o que me aguardava se eu continuasse a jornada, mas sem duvida eu não encontraria nada em Castelia além de cartazes machados pelo tempo com a minha foto e o rodapé “Desaparecida”.
O avião tremeu ao tocar a pista, me fazendo segurar com força no braço do assento me tirando completamente dos meus devaneios. Trazendo-me o torpor e a ardência constate que a ferida ainda se curando no meu ombro trazia, mesmo que bem tênue agora.
Ao descer do avião fomos envoltos por uma lufada de ar quente e seca. O sol nas montanhas era supreendentemente quente fazendo-me arrepender por estar vestida com aquela blusa cinza. Ao longe, se erguendo com imponência sobre a cidade o vulcão Volgavia, se fazia ser notado. Contemplei sem palavras a visão de tirar o folego.
– Quer me acompanhar ao jantar com o pessoal da revista? – Desmond questionou ignorando completamente a vista deslumbrante daquele lugar. – Temos canapês deliciosos – completou em um cochicho.
– Vou dispensar – respondi sem lhe direcionar o olhar – o último evento que fui onde havia canapês acabei dormindo sentada no chão.
– Que seja, trago alguns nos bolsos pra você – prometeu ainda falando baixinho.
– Mal posso esperar – encorajei fingindo interesse.
=8=
Depois de passar gel no cabelo pela milésima vez, deixando-o completamente empapuçado com a pasta verde sem cheiro o garoto empurrou os cabelos para trás mais uma vez, deixando-os completamente esticados.
Vestia uma calça jeans escura e uma camisa social branca. Parecia até mesmo uma pessoa séria, caso você não o conhecesse e o seu histórico familiar.
– Como estou? – Desmond quis saber, fazendo uma pose estufando o peito.
– O menino dos olhos da vovó – esclareci com um sorriso no rosto.
– Sério mesmo, você vai continuar com isso? – Perguntou me olhando carrancudo.
– Pelo resto da sua vida, ou enquanto eu me lembrar – expliquei puxando os pés para cima da cama – e eu tenho uma memória muito boa. – Deixei que minha cabeça pendesse para o lado pesadamente e enfatizei – muito boa.
Ele balançou a cabeça negativamente e prendeu o Xtransceiver ao braço.
– Nós vemos amanhã de manhã então. Se eu chegar cedo te chamo no seu quarto.
– Não precisa se incomodar – retruquei antes que ele realmente tomasse aquilo como uma boa ideia.
Deu-me um beijo molhado na testa, que sequei fazendo um som de reprovação e nojo e saiu cantarolando pela porta. Provavelmente tinha um encontro com outra Kara da vida nesse suposto jantar.
Fiquei estirada na cama do menino durante algum tempo pensando em Leaf e Serpio. A relação que os dois tinham era completamente estranha pra mim e eu só podia julgar como respeito, mas e quanto a mim? O que passava na cabeça de Serperior quando me via? Minhas tentativas de dar-lhe comandos tinham sido frustradas e agora Leaf insistia em acompanhar o novo parceiro.
Fiz uma careta olhando para o teto e tomada pela frustração decidi sair para caminhar. Tudo o que eu precisava era um tempo para botar minha cabeça no lugar e encontrar um caminho pra seguir.
Decidi dar uma volta pela cidade, como sempre fazia quando chegava a um lugar novo. Desci as escadas do Centro Pokémon de dois em dois degraus e passei depressa pelo saguão onde várias pessoas conversavam animadas nos sofás, dispostos de forma circular, em volta de uma mesa cheia de comida.
A rua estava relativamente vazia, apesar de ser menos de nove da noite, apenas algumas pessoas passeavam com seus Pokémon. A maioria deles Pokémon tipo Fire. Como o Camerupt, Tepig e Torkoal. Se houvesse um ginásio ali, sem duvida não seria de meu agrado enfrentá-lo.
O pensamento me forçou a lembrar de Leaf e de como ela me olhara no aeroporto de Skyla. Algo em seu olhar ainda me cortava por dentro, como se dissesse algo que eu deveria saber, mas eu não tivesse capacidade para tal.
Resisti à tentação de tirar Leaf da Pokéball, sabendo que ela me seguiria de mal grado caso eu o fizesse e acabei me sentando em uma fonte em forma de Samurott próxima a uma lanchonete que exalava cheiro de pão fresco. Peguei as Pokéball de Serpio e Leaf e as mantive nas mãos por um longo tempo, tentando refletir no que deveria fazer para que eles me obedecessem.
Quando algo em minha visão periférica me fez arfar. Não pude acreditar a princípio, meu coração acelerou, batendo tão depressa que eu podia sentir o sangue correr por todo meu corpo.
Era December e andando atrás dele preguiçosamente Chiclete. O Pokémon me lançou um olhar por um segundo, dando alguns passos mais ágeis em seguida atrás de Deedee que estava distraído demais para reparar em mim e até mesmo no seu Pokémon.
Um sorriso se fez no meu rosto enquanto eu via o garoto se afastando. As probabilidades de eu encontrá-lo em Lentimas eram mínimas, aquilo não podia estar certo. Levantei-me e sai correndo, me escondendo atrás de um poste para poder olhar mais de perto.
O cabelo negro atrapalhado e longo, parecendo o mesmo ninho de Patrat. O jeito de andar preguiçoso e aquele não poderia ser outro Pokémon se não chiclete. Mordi o lábio inferior sem conseguir conter a vontade de gargalhar, eu estava sendo tomada por uma euforia estranha vinda do nada.
Dei mais uma olhada, tombando o corpo para o lado e o encarei de cima a baixo mais uma vez tentando confirmar mais uma vez se era ele mesmo. Tive o impulso de correr até ele, mas minhas pernas não se moveram.
Foi inevitável que toda nossa discussão voltasse como uma bala para minha mente. Dee podia não ser rancoroso, não costumava ter raiva de ninguém, mas sem dúvida víamos o mundo de forma diferente quando nos separamos.
Mesmo depois de termos brigado, eu ainda o considerava como amigo, mas o que aconteceria se quando eu fosse falar com ele o garoto me tratasse com indiferença? Leaf estava me evitando, Dee era o último fio de corda que me ligava ao que eu era antes de tudo isso acontecer. Talvez fosse melhor guardar isso como uma boa lembrança do que constatar que não temos mais nada em comum e suportar seu desprezo.
Eu não tinha o tratado bem, havia dito coisas terríveis a ele, que me arrependia profundamente, mas eu conhecia o mundo bem o suficiente para saber que arrependimento não fazem palavras ditas serem esquecidas. Não havia garantia, apenas esperança e depois de tudo que vivi não sabia se tinha estrutura para perder de vez Deedee.
Olhei para trás mais uma vez, um aperto forte agora tomava conta do meu ser. Deedee estava sumindo no fim da rua, virando uma esquina antes do mercado de placa luminosa. Sai correndo feito uma doida, desviando das pessoas na calçada como um Purllion arredio.
Quando virei à esquina já ofegante meu coração quase parou, Deedee estava a menos de quatro metros olhando para o Xtransceiver de cabeça baixa. Me joguei para trás novamente, desaparecendo na curva do prédio o mais rápido que pude.
Coloquei a mão sobre o peito que subia e descia depressa, tentando limitar o som da minha respiração forte. Aparentemente o treinamento que tinha usado com Lenora não tinha sido suficiente. Eu não tinha talento para seguir as pessoas.
Não queria que ele me visse, eu precisava colocar minha cabeça no lugar antes de poder falar com ele, mas ao mesmo tempo eu não queria perde-lo de vista. Eu tinha noção de que DeeDee e eu tínhamos nos separados há poucas semanas, mas passar por tudo aquilo com Serperior na floresta, Clay e Skyla tinha parecido um ano.
Muita coisa tinha mudado na minha cabeça desde então. Pude ver sobre outro ponto de vista que nem tudo o que December me dissera na noite em que brigamos estava equivocado. E chegar a essa conclusão apenas piorava toda aquela situação. Por mais que eu quisesse apenas desculpas não colocaria nossa amizade nos eixos depois de tudo o que eu disse a ele.
O comparei com Clarice e coloquei a relação dele com seus Pokémon em xeque. Disse que eu o carregava, enquanto a verdade era que sem ele eu nunca teria chegado aonde cheguei. Nunca teria ganhado minha única insígnia ou tido a oportunidade de conviver com tantos líderes de ginásio.
Mas ainda assim ele concordava com a Team Plasma e via suas ações com bons olhos. Eu não culpava mais a Team Plasma por matar Simi, havia conseguido entender que ações levam a reações e nem sempre podemos controlar o que essas reações em cadeia geram. Mas não conseguia deixar de sentir rancor por tudo que houve, assim como Clay levaria de mim para o resto da vida.
Como eu lidaria com a situação se agora Deedee realmente fosse conivente com a Team Plasma? Como ainda sim poderíamos ser amigos se ele concordara com algo tão absurdo quanto os métodos usados pela organização?
Mas tudo aquilo eram apenas suposições, eu só saberia ou não se falasse com ele, mas a coragem me faltava.
Dei mais uma espiada pela lateral do prédio, ele estava voltando a se mover. Esperei que tomasse uma dianteira e fui me esgueirando atrás de carros estacionados, postes e o espaço entre um prédio e outro.
Chiclete sabia que eles estavam sendo seguidos. Vez ou outra cheirava o ar, ou olhava para trás, mas não parecia verdadeiramente interessado em revelar para Deedee, apesar de estar prestando bastante atenção em mim.
Em determinado ponto Deedee parou, lançou um olhar rápido para Chiclete e caminhou até um coreto, localizado no centro de uma pequena pracinha cercada por árvores antigas e altas. Sentou-se em um banco e abaixou a cabeça. Parecia estar perdido em seus próprios pensamentos.
Riolu ficou parado do outro lado do coreto, de frente pra mim, no entanto abaixou a cabeça e deixou pra lá.
Me escondi detrás de uma árvore. Podia ver o rosto de Deedee de lado, ele fitava o chão quieto, com olhos vazios. O que será que havia acontecido com ele? Eu o conhecia o suficiente para saber que ele não estava bem e que Chiclete estava se portando de forma estranha, mas não dava para dizer.
Apoiei minhas costas na árvore, me escondendo por completo e suspirei profundamente. Eu estava com medo, isso estava claro pra mim. Medo de que as coisas nunca mais voltassem a ser como antes, medo de que ele não me quisesse mais por perto.
Se Deedee não pudesse me entender, se nós não conseguirmos nos entender ninguém mais conseguiria. Trinquei os dentes e comecei a repetir isso na minha cabeça como um mantra. Me forçando a acreditar, me apegando a possibilidade. Eu não tinha mais que isso.
Cerrei os punhos e fui em direção ao garoto. Meu coração estava batendo depressa, minhas mãos que eu mal fechara já suavam, mas eu tinha que fazê-lo. Tinha que tentar ou me arrependia disso para sempre.
Subi os primeiros degraus da escada e só então ele notou minha presença. Primeiro me lançando um olhar preguiçoso, mas em seguida suas feições foram tomadas por surpresa. Ele se levantou depressa e apoiou-se no banco onde estava sentado.
Chiclete pareceu verdadeiramente interessado agora, me lançou um olhar sério e eu o cumprimentei com um movimento de cabeça e um pequeno sorriso. Ele fez um pequeno movimento, respondendo ao cumprimento silencioso.
– Incendiário – o cumprimentei com a última palavra que usei para me despedir.
Ele demorou um pouco para responder, parecia genuinamente assustado, me fazendo perder o pequeno sorriso que tinha brotado em meu rosto. – Haila, o que você está fazendo aqui? – Sua voz transmitira o que seu rosto não conseguia esconder.
Tive o impulso de abaixar o olhar, mas não o fiz, continuei olhando Deedee nos olhos. – Estava de passagem e vi você de longe – lancei um pequeno olhar para Chiclete que se manteve quieto, sendo conivente com minha mentira. Umedeci os lábios e aumentei o aperto de meus punhos antes de continuar – como você está? – Perguntei sem jeito. Eu queria ter pensado em algo melhor para dizer antes, mas agora era tarde.
– Eu estou bem, mas por que você está aqui?
É claro que ele tinha que ir direto ao ponto, senti um leve enjoou de nervosismo e depois de hesitar respondi – eu acho que precisava me desculpar com você. Você sabe... Por como nos despedimos.
– Haila, eu... Sério, você não veio até aqui para isso, não é?
– Bem, eu vim pra Lentimas hoje acompanhando um... – eu não queria falar sobre Desmond agora, – conhecido e quando te vi passando senti que precisava, você sabe, te ver.
– Não há nada para você se desculpar, na verdade. Nós só decidimos seguir rumos diferentes.
– Não foi bem assim. Naquele dia eu estava muito nervosa com toda aquela historia dos meus pais e Jaden. A morte de Simi ainda era muito recente e ao invés de ver a situação como um todo disse coisas para você de que me arrependo – comecei a dizer depressa, tentando não deixar o nervosismo assumir o controle e me travar, – eu só queria que tudo aquilo não tivesse acontecido.
– Como você disse, você estava abalada pela morte do Simi. Eu não soube ser um bom apoio para você naquele momento... – Ele fez uma pausa enorme e desviou os olhos pro chão. – Talvez seja eu quem deveria pedir desculpas... Mas mesmo que eu o faça, isso não muda a maneira como as coisas aconteceram. Então eu realmente acredito que não há nada para se desculpar, nenhum de nós.
Percorri os olhos pelo rosto dele buscando algo que eu não sabia dizer o que era, talvez alguma animação em me ver ou talvez apenas um pequeno brilho, mas as conversa estava caminhando exatamente como eu temia que pudesse acontecer.
Ficamos algum tempo calados, o que pareceu uma eternidade pra mim. Eu não queria que as coisas terminassem assim – eu só precisava ter certeza que você soubesse que tudo o que eu disse foi da boca pra fora e que eu realmente não acho que você seja como Clarice. Espero que você não tenha levado nada daquilo a serio. Eu devo muito a você e a estupida fui eu por achar que podia deter a Team Plasma assim.
– Então, você desistiu da sua vingança?
– Ainda não acho que as atitudes da Team Plasma estejam corretas, mas percebi que vingança e justiça são duas coisas diferentes. Eu não seria melhor do que eles fazendo a coisa certa pelos motivos errados.
– Isso me parece bom. – E sorriu, mas não era como geralmente sorria, parecia um sorriso cansado. – Bem, eu preciso ir. Foi bom ver você.
As palavras dele me atingiram como um soco no estomago, senti o ar escapar por um instante. Fui firme como tinha que ser e balancei a cabeça positivamente – entendo. Foi bom te rever.
– Mande um oi para Leaf, por mim.
Fiquei parada ali um instante de pé enquanto ele passava por mim indo em direção as escadas. Dentro de mim os sentimentos pareciam ter enlouquecido. Eu estava entorpecida pelo nervosismo, como se um espelho houvesse se quebrado em dezenas de cacos e eu estivesse esperando cada um deles cair no chão antes de me mover. Quando uma lembrança brotou dentro de mim.
O olhar de Leaf não tinha sido muito diferente do que ele me lançara há pouco. Meu ultimo fio estava se partindo. Senti a maldita lagrima descendo involuntariamente, percorrendo meu rosto com uma rapidez voraz. Balancei a cabeça negativamente, um movimento sutil que ninguém ficou sabendo. Eu tinha perdido tudo.
Tinha perdido tudo, então não restava mais nada a perder. – December, seu maldito incendiário – gritei me virando para ele. O garoto parou no meio da escada e olhou para trás assustado, acompanhado de Chiclete que se manterá imóvel até então – você não vai fazer isso. Não você.
Quando ele abriu a boca tentando dizer a primeira palavra me atirei em cima dele, sem me importar em que altura estávamos. Fechei meus olhos com força e senti o impacto de vez, uma dor forte percorreu meus braços e meu peito. Eu estava no chão sobre Deedee que fazia uma carreta horrível. – Eu não fui atacada por um Pokémon selvagem, quase morri afogada, depois num desabamento de uma caverna e fui chutada por Skyla para agora você me ignorar seu incendiário desgraçado. Comece a conversar comigo como gente ou eu juro por Arceus que enfio meu pé inteiro no seu traseiro ossudo. – Tomei um pouco de ar recuperando o folego e continuei – você é meu melhor amigo Deedee, todo o resto do mundo pode ter mudado, mas essa continua sendo minha única constante. Não foda com isso.
– Você não deveria dizer essas coisas – me puxou pelo braço quando fiz menção de me levantar. Parecia que ele iria chorar, pois seu semblante estava melancólico e os olhos muito brilhantes.
– Dizer o que, afinal de contas? – Questionei perdida.
– Sobre sermos melhores amigos, você diz isso e faz parecer que está tudo bem... Eu... O que eu vou fazer se nós brigarmos de novo? Eu não posso simplesmente aceitar que você vá embora se nós não nos entendermos mais... Então talvez seja melhor as coisas ficarem como estão. – Ele ainda segurava meu braço e apertava com força diante de cada palavra que dizia. – Eu achei que nós nunca mais fossemos nos ver de novo e eu poderia ficar bem com isso, com o tempo. Mas se eu não acho que posso fazer isso sempre... Quer dizer, você está aqui agora, mas e se você for embora por que eu disse algo que você não gostou?
Meus olhos ainda estavam molhados ou eu estava chorando de novo, não consegui conter o pequeno sorriso que brotava em meus lábios, – sem duvida nenhuma você vai dizer Dee e muito provavelmente ainda vamos brigar muito. Não posso prometer que não vamos. Mas eu posso te prometer que nunca mais vou te deixar. Mesmo que eu tenha que te arrastar. Por onde eu for você vai comigo... Enquanto você quiser.
– Ham, Haila? – Uma voz divertida se fez ouvir – você poderia ter me dito que tinha um encontro. – Ergui a cabeça e me deparei com Desmond com um enorme sorriso debochado no rosto.
Me levantei em um salto, sendo seguida por Deedee que também parecia constrangido. – Você poderia cuidar da sua vida.
– Beleza, mas eu tenho uma ótima memoria – ele completou se aproveitando da situação, – muito boa memoria.
=8=
Levei um pedaço de bolo à boca enquanto escutava Deedee terminar de explicar o porquê de Chiclete estar fora da Pokeball o tempo todo, nos encarando de forma ameaçadora. Na verdade mais a Dee do que a mim. – Nunca poderia imaginar que você faria algo do tipo. Você sempre teve uma afinidade enorme com seus Pokémon.
Desmond, Deedee e eu fomos tomar café da manhã juntos no dia seguinte. É claro que ainda havia uma sensação estranha ar, algo ainda parecia errado entre Dee e eu, mas ainda sim eu sentia como se tivesse encontrado alguma coisa que a muito estava faltando.
– Você falou sobre quase morrer ontem – Dee puxou o assunto, levando a xicara branca aos lábios.
– Eu capturei um Serperior selvagem, mas no meio do percurso ele me atacou – puxei a gola da minha blusa um pouco para o lado, revelando as marcas vermelhas e os pontos que ainda estavam ali. – Não fosse por Desmond provavelmente eu teria morrido. – Desmond que engolia um pão quase inteiro fez um “joia” com o polegar.
Deedee pareceu ficar surpreso, mas depois sorriu, – é claro que você pegaria um Pokémon assim.
– Bem, – Des não se conteve, falando de boca cheia mesmo. – Foi o Serperior que pegou ela. Duas vezes, alias.
Lancei um olhar ameaçador na direção do garoto mesmo sendo verdade. Eu não queria sair dando cada detalhe ruim da minha jornada sem Deedee logo de cara, não que eu pretendesse esconder nada dele. Depois do deserto fui sempre totalmente sincera com ele, mas queria poupa-lo de tudo que vivi.
O que acontecera com Clay ainda pesara no fundo da minha consciência, ecoando junto com os gritos do ataque de Nimbasa. Eu achei que se um dia voltasse a encontrar Deedee que meus pesadelos iam diminuir, mas a primeira noite depois disso apenas tinha trazido de volta tudo com mais intensidade.
Porque agora não só o medo de Nimbasa e a dor por Simi estavam presentes. Eu nunca tinha sentido a morte tão perto quanto sentira agora que passara por tudo aquilo e talvez de certa forma, agora eu entendia que a vida não pode ser controlada. As coisas simplesmente acontecem.
– Que engraçado, aparentemente Serperior consegue ter mais encontros seguidos com uma garota do que você – ironizei me lembrando de Kara. Vadia. Acompanhei o sorriso involuntariamente de Dee e tudo pareceu se aliviar, então continuei – e como já te contei Leaf também não está bem comigo. Eu sei que errei com ela quanto as minhas atitudes, mas mesmo depois de pedir desculpas ela continua se recusando a me seguir. Eu não entendo – confessei colocando as mãos atrás da cabeça.
– Sei como é – revelou lançando um olhar discreto para Chiclete que estava sentado sozinho na mesa ao lado, olhando para o movimento de pessoas mais a frente. – Ainda não sei o que fazer com Chiclete... espero que Ixia possa me ajudar.
– Ixia?
– É um homem que pode falar com os Pokémon. Bom, talvez não falar, mas ver como eles se sentem sabe, como um médium eu acho.
– Como eu nunca ouvi falar sobre ele? – Perguntei intrigada – pode ser só enrolação.
Ele deu de ombros – tive uma boa indicação... Ele é irmão do Alder – falou baixinho – e caso realmente não seja real, o que eu tenho a perder?
– Eu já ouvi falar sobre ele, parece ser realmente algo sério – Desmond completou limpando a boca com a manga da blusa. – Acho que saiu uma matéria sobre ele na revista, ou era alguém de Kalos, não me lembro.
Eles estavam certos. E talvez se esse tal de Ixia fosse real ele poderia me ajudar a me reconciliar com Leaf. Nunca tínhamos passado tanto tempo desse jeito, eu estava disposta a tentar – eu posso ir com você?
– Claro, talvez ele também possa te ajudar – deu de ombros.
– Bem garotos – Desmond interrompeu levantando da mesa com suas coisas. Mochila, câmera e todo equipamento, – meu prazo é curto. Assim que terminar essas fotos encontro com vocês.
Deu um aperto de mão rápido em Deedee e tentou me dar outro beijo na testa, mas me esquivei colocando a mão na frente – até mais menino da vovó. – Ele deu um sorriso claramente irritado e foi embora.
– Torçamos pra que sim – admiti voltando para o assunto. – E quando vamos?
Lançou um ultimo olhar nervoso para Chiclete e ficou em silêncio por um instante, com certeza ponderando tudo que estava em jogo nessa conversa. Eu também estava nervosa, mas nada se comparava ao que ele estava sentindo.
Levantei-me e fui até o lado dele da mesa, repousando minha mão sobre seu ombro e esperei que ele me encarasse – vamos fazer isso juntos – afirmei com convicção. Ele me fitou por alguns instantes e por fim balançou a cabeça positivamente.
Ele podia achar que eu estava tentando acalmá-lo, mas por fim quem estava se acalmando era eu. Era bom ter Deedee por perto de novo, mesmo que as coisas nunca mais fossem ser como antes, porque no final não éramos mais as mesmas pessoas.
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