Rota Zero

92 O Último Dia de Castelia - Parte Final


Notas iniciais
Digitei e apaguei um monte de vezes, porque tudo tava virando Spoiler ou ficando muito piegas. História finalmente chegando ao fim deixa a gente meio nostálgico. Vamos pro capítulo então...

Haila

O Último Dia de Castelia — Parte final

Todo o cansaço estava começando a bater naqueles minutos enquanto eu tinha que esperar o reconhecimento que Skyla estava fazendo terminar. O prédio cujo Jaden citará era o mesmo onde ficava o Ginásio e a Galeria de Burgh antes de ser completamente destruída por Team Plasma.

Clarice estava ao meu lado, sentada próximo á janela em um dos prédios que estavam vazios, ao lado do Bank One Plazza. Seu olhar, apesar da enorme barcaça da Team Plasma estacionada acima do prédio, quase reluzindo com o sol da parte da tarde, não se desviava por um segundo da fachada do ginásio.

Cacos de vidro, quadros e vasos partidos ao meio eram a marca que a Team Plasma tinha deixado em sua fachada.

Eu estava faminta, meu corpo doía, mas nada disso fazia a menor diferença. Eu não conseguia parar de pensar em Corin ou Dee. Não conseguia me livrar da lembrança recente de Burgh ou do medo de que Lila e os outros tivessem tido o mesmo destino.

Desde que decidimos vir para Castelia eu sabia que teríamos perdas, mas parte de mim gritava que precisava acreditar que todos nós nos encontraríamos de novo. Que tudo ia ficar bem depois que derrotasse a Team Plasma e que a vida voltaria ao normal.

Mas olhando para Clarice na janela. Para Cilan calado no fundo da sala. Olhando para dentro de mim mesma, cada vez mais eu percebia que estávamos correndo por um caminho sem volta. Desde nos meus sonhos até na minha pele, a Team Plasma sempre estaria ali para ser lembrada. Naquele momento mais do que nunca.

Assim como Clarice e Cilan, agora eu estava vestida com o uniforme preto da Team Plasma. Não tinha sido a coisa mais prazerosa a se fazer, mas não fora tão difícil de arrumar. E mesmo sabendo que eu precisava estar vestida com aquelas merdas para que o plano tivesse sucesso, olhar para aquele brasão no meu peito me trazia náuseas.

Skyla entrou no cômodo como se fugisse de perseguidores. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo deixando seu rosto bem a mostra. Ela estava cansada, mas confiante, – tudo certo. Não há muito tempo para descobrir tudo o que precisamos, mas teremos de lidar com oque temos.

— Você tem certeza que vai ficar bem sozinha? – Cilan perguntou a ela.

— Eu tenho que perguntar isso a vocês, – ela respondeu dando um suspiro. – Não somos muitos, mas estamos aqui por que temos certeza do que queremos e de pra onde vamos. Deixem as dúvidas para trás, mas levem todo o resto com vocês. Cada perda, perda vitória, cada amigo e cada inimigo que enfrentou. Deem tudo de si e salvem Unova garotos.

Olhamos uns para os outros. A equipe mais improvável de todas. Clarice, Cilan, Skyla. Se quiséssemos sair vivos cada um de nós teria que executar sua parte. Confiar uns nos outros.

— Vamos acabar com isso logo.

=8=

Quando a primeira rajada de vento acertou a barcaça da Team Plasma os soldados pareceram entrar em frenesi. Dezenas deles começaram a liberar seus Pokémon e ataques começaram a sair da barcaça um atrás do outro.

Tive que morder a parte de dentro do meu lábio para não gritar quando o Tswanna de Skyla começou a queda livre comigo presa a suas costas. Eu mau consegui manter os olhos abertos, enquanto caiamos cada vez mais rápido. Não tinha tanta confiança de que um Pokémon daquele tamanho pudesse voar comigo nas costas, mas depois de quase dez andares de queda ele abriu suas asas e começou a planar comigo para cima.

Segurei com tanta força suas penas que o Pokémon quase vacilou, enquanto Cilan e Clarice subiam tão rápido quanto nós, montados no Tropius do garoto. Quando atravessamos a janela, estourando o vidro e caindo no penúltimo andar do prédio do ginásio eu não tinha certeza se eu tinha conseguido. Meus instintos me mandaram continuar, mas boa parte de mim achava que eu tinha caído.

Cilan e Clarice me ajudaram a levantar, quase me arrastando para a porta. Não havia soldados no corredor, mas logo que chegamos ás escadas demos de cara com alguns subindo correndo para o terraço. Meu coração se transformou em uma pedra de gelo, mas nenhum deles pareceu nos reconhecer.

Subimos junto com a aglomeração até chegar ao telhado onde Skyla e seus Pokémon atacavam a barcaça com técnicas tão poderosas que a estrutura de madeira já tinha furos. Talvez, sozinhos, mesmos os Pokémon mais fortes não tinham tanta capacidade de destruição. Mas juntos, os três Pokémon voadores de um líder de Ginásio tinham poder suficiente para criar um pequeno tornado que fazia com que as enormes velas brancas do barco voador se agitassem com tanta violência que era facilmente cabível que os mastros se partissem.

Era difícil de andar, ver e ate mesmo respirar com tamanha ventania rasgando a cobertura do prédio. Os Pokémon voavam em círculos, acompanhando Skyla que estava montada em seu Mandibuzz. Batendo asas com tantas forças que o som de suas asas pareciam trovões.

Alguns soldados já estavam se preparando para tirar a rampa que levava até o convés da barcaça quando conseguimos nos esgueirar para dentro. O tumulto realmente tinha facilitado nossa entrada, mas usar Skyla como isca ainda não me parecia certo. Os soldados estavam se amontoando e libertando um Pokémon atrás do outro tentando conter a líder. Por um segundo apenas, enquanto olhávamos para o céu, nosso olhar se encontrou com o da líder. Tempo suficiente para poder ver a determinação e a coragem dela.

Nos mantivemos colados uns nos outros até finalmente conseguirmos descer para o primeiro andar. Havia uma grande quantidade de soldados e um sinal de alerta tocando. E ali era onde realmente começava o problema. Não tínhamos a mínima ideia de pra onde ir. A barcaça parecia ainda vibrar sob nossos pés devido a pequena tempestade de Skyla estava causando lá fora.

— Era melhor se eu tivesse ficado de isca e Skyla tivesse vindo, – Clarice sussurrou quase no meu ouvido.

— Você não conseguiria manter a Team Plasma ocupada sequer tempo suficiente para entrarmos. Sem ofensas, – Tentei corrigir, mas já era tarde e era verdade.

Ela deu de ombros, – talvez.

Quando eu estive ali algumas semanas antes eu decididamente não estava em condições de decorar nenhum caminho, nem de explorar o lugar. Teria que usar a sorte e fazer o que fosse preciso para finalizar o plano.

— Nos espalhamos e salvamos Unova? – Cilan perguntou.

Fizemos um minuto de silêncio enquanto descíamos o próximo lance de escadas porque alguns soldados passavam por nós. Mas logo que estávamos há uma distância segura Clarice abriu o bico, – Vocês já viram filmes de terror? Se nos separarmos a puta é a primeira a morrer, depois o mocinho e se a Final Girl tiver sorte ela sobrevive. E eu não sou sortuda.

— Achei que fosse a puta, – não consegui segurar.

— Não sou eu que troco de homem como troco de calcinha.

— Até porque nenhum garoto te atura tempo suficiente para você precisar trocar.

— Garotas, – Cilan nos repreendeu. Mas era um pouco tarde pra isso. Assim que pisávamos no deck inferior, demos de cara com Rose.

A garota ficou em choque, parando de falar com o soldado que a acompanha, nos encarando por tempo suficiente para chamar a atenção dele. E tudo que eu pude fazer foi sorriso e ir até ela cumprimenta-la.

Cilan segurou Clarice que quase teve um treco quando viu a garota lá dentro, impedindo que ela fizesse alguma merda.

— O que você esta fazendo aqui? – Rose soltou como se não houvesse mais ninguém ali, – quero dizer... – ela simplesmente não sabia como reagir. Soldados e mais soldados surgiam correndo do interior da barcaça, passando por nós gritando uns com os outros.

— Eu sei, deveria estar no convés, mas há tantos soldados lá em cima que nossos Pokémon lutadores não vão fazer a menor diferença. Só tirar o espaço de quem pode ajudar.

— É mesmo Skyla? – O soldado que estava com Rose perguntou, parecendo animado com presença da líder.

— É ela sim. Aparentemente eles estão tão desesperados que não estão nem pensando direito.

Seu olhar pareceu se iluminar com a notícia, – Rose, você vem? Eu não quero perder a oportunidade de poder derrubar Skyla.

A garota olhou pra mim e depois voltou-se para o soldado, – ainda não. Eu precisava mesmo falar com essa aqui.

Ele mal se despediu e subiu as escadas correndo, ignorando completamente a presença de Clarice e Cilan ali, todos estavam fazendo isso. Agradeci mentalmente pela boina que escondia quase todo o cabelo verde de Cilan e a máscara do próprio uniforme que deixava a metade inferior do rosto completamente coberta. Mas diferente do soldado, Rose sabia muito bem quem cada um de nós era.

Ela me agarrou pelo braço e saiu me puxando, enquanto os outros nos seguiam. Depois de virar um corredor, ela abriu uma porta com uma letra e uma numeração, praticamente me jogando lá dentro. – Vocês estão loucos? – Ela sussurrou, mas de algum modo pareceu um gritar.

— Nós vamos acabar com isso hoje, – bati o pé deixando claras nossas intenções.

Rose parecia incrédula, – isso é uma missão suicida...

— Eu avisei a eles, – Clarice a interrompeu. E apesar de praticamente apenas seus olhos estarem aparecendo não era difícil ler sua expressão de “eu te avisei”

Rose precisou de um segundo para conseguir engolir nossa presença ali. – Vocês não tem ideia de onde estão se metendo. Vocês vão ser mortos e me levar junto, – ela parecia estar começando a ter uma crise nervosa.

— Rose, eu preciso saber onde Jaden esta.

Seus olhos estavam lotados de medo e confusão, – vocês não tem chance contra Guerra. Ele vai matar todos nós.

— Ele não vai fazer isso, nós vamos derrota-los e dar fim a essa loucura.

— Você não tem ideia do que esta falando. Você não sabe com quem estão querendo encontrar.

Abaixei a mascara que cobria metade do meu rosto e agarrei o braço da garota trazendo ela para perto de mim, para que eu pudesse enxergar bem seus olhos e ela os meus, – com meu irmão.

Ela ponderou durante um momento. Parecia estar tentando se controlar. Suspirou e balançou a cabeça positivamente como se ainda não acreditasse, – ele esta no terceiro nível. Os aposentes dele tem o numero C04.

— Precisamos saber onde Cobalion está e onde fica a sala das maquinas também, – Cilan veio até o nosso lado.

Rose o fitou por alguns segundos, mas algo nela parecia ter mudado. Até seu tom de voz parecia diferente, quase sem emoção. Ela não estava mais disposta a discutir conosco. Estava pronta para nos deixar fazer o que queríamos fazer, – eu não sei onde está Cobalion, eles não nos deixam saber, mas se há uma chance dele estar aqui, sem duvida o melhor lugar pra procurar seria no laboratório de pesquisas do quinto piso. Ele fica praticamente no fim das escadas não tem como errar. A sala das maquinas fica no ultimo nível.

“– Se vocês estão sozinhos aqui eu sinto dizer que é provavelmente a ultima vez que vamos nos ver. Vocês vieram até sua própria morte.”

— Obrigada, – foi a ultima coisa que eu disse a Rose antes de recolocar a mascara no rosto e sair junto dos outros da sala. Deixamos a garota lá dentro sozinha, vagando pelos próprios pensamentos.

Talvez o que ela nos disse fosse verdade. Provavelmente era. Três pessoas contra um pequeno exército era loucura. Muitos chamariam de burrice. Mas que escolha tínhamos? Mesmo com Dee e os outros tendo diminuído o sinal, se não recuperássemos Cobalion o que impediria a Team Plasma de continuar o usando? Muito estrago já tinha sido feito, muitas vidas tinham sido perdidas. Que outra escolha tínhamos a não ser dar fim aquilo?

Fomos o mais rápido possível pelo corredor até encontrarmos as escadas. Ignoramos completamente os soldados de uniformes pretos e prateados pelo caminho e eles de alguma forma fizeram o mesmo conosco.

Um lance de escada, dois e então eu travei... – Jaden está aqui, – falei para os dois que estavam um degrau a minha frente.

— Precisamos fazer a nossa parte, – Clarice lembrou, falando alto o suficiente para que pudéssemos ouvi-la falando sobre o sinal de alerta que ainda não tinha parado. – Skyla não vai conseguir manter os soldados distraídos por muito tempo.

— O plano era irmos juntos até Cobalion, enquanto Clarice faria a parte dela. Depois voltaríamos por Corin, – Cilan continuou.

— Mas eu não posso fazer isso. Eu não posso passar direto pelo andar onde ele esta e ignora-lo.

— Que chance você tem contra um general da Team Plasma? – Clarice disse em tom de pergunta, mas aquilo era uma afirmação.

— Talvez nenhuma, mas eu tenho que tentar. Tenho que fazer isso agora.

— Essa pode ser nossa única chance de fazer isso, Haila. Eu prometo que voltaremos para buscar Corin, – Cilan tentou.

Fitei os dois uma ultima vez e desci os três degraus que faltavam para chegar ao corredor do terceiro nível. – Eu sinto muito.

— Espere, – Cilan pediu, vindo correndo atrás de mim, – eu não vou deixar que você faça isso sozinha.

— Essa vadia vai acabar nos matando, – Clarice resmungou, – eu vou fazer a minha parte e é melhor que vocês façam a de vocês antes. Se não nada disso terá valido a pena, – disse antes de nos dar as costas, desaparecendo nas escadas.

Olhei para Cilan apenas mais uma vez antes de sair andando depressa pelo corredor, acompanhando a numeração nas portas e de alguma maneira, fleches de Lenora, da sala de interrogatório e de Jaden começaram acender na minha mente.

Tentei afastar as memorias e o gosto ruim que viera a minha boca, focando em como conseguir vencer Jaden em uma batalha caso fosse necessário, mas não conseguia encontrar.

Passamos por mais um grupo de soldados, ainda sem chamar atenção, enquanto seguimos a numeração, caminhando o mais rápido possível até que finalmente ela surgiu no fim do corredor. Quando a alcançamos eu hesitei. Tentei girar a maçaneta, mas a porta estava trancada.

Olhei para Cilan e ele comprimiu os lábios. – Quando eu disse já, esteja preparada para usar seus Pokémon, – apenas confirmei com a cabeça em resposta.

Ele olhou para trás e naquele momento não havia nenhum Team Plasma no corredor. Cilan se afastou, pegou impulso e se jogou contra a porta, arrebentando a tranca com uma só pancada, fazendo um barulho tão alto que chegou a ecoar pelo corredor.

Corri para dentro na mesma hora com uma Pokéball pronta na mão, mas ao contraria do que esperávamos, demos de cara com um quarto simples e vazio. Nos entreolhamos confusos e antes que alguém nos visse ali, ele encostou a porta atrás de nós.

Não era maior do que os quartos dos Centro Pokémon, mas era extremamente organizado. A cama muito bem arrumada. Livros enfileirados na escrivaninha. Um uniforme dobrado aos pés da cama. E ao lado na cabeceira, em cima de um criado mudo havia uma única foto em um porta-retratos.

Fui até ele e o peguei, segurando na altura do meu peito. Senti uma onda de tristeza invadir meu corpo, como se algo dentro de mim tivesse se partido e algo que estava contido estivesse transbordando.

Era uma foto da minha família tirada no aniversário de Jaden. Estávamos eu, Corin e Jaden na frente de nossos pais. A casa estava toda decorada e alegre. Um bolo enorme cheio de velas bem na nossa frente, em cima de uma mesa lotada de docinhos.

A casa estava lotada aquele dia. Cheia de amigos do Jaden da escola e do bairro. Parecíamos uma família feliz. Feliz de verdade, não só fingindo para tirar uma foto. Me sentei na cama por um instante, minhas pernas pareciam ter perdido a força e Cilan veio, se sentando ao meu lado.

Ele deu uma olhadela na foto e depois passou o braço por trás de mim, me puxando para um abraço. A barcaça ainda vibrava com os ataques de Skyla, o alerta ainda soava nas nossas orelhas. E tudo o que eu pude dizer foi, – eles não estão aqui.

— Não, – Cilan respondeu com uma voz calma, como se não estivéssemos sofrendo um perigo terrível ficando ali.

— O que eu vou fazer agora? – Eu tinha colocado todas as minhas expectativas na chance de que Rose saberia onde Jaden estava. Mas agora, no meio da barcaça, eu não fazia a mínima ideia de onde ele e Corin poderiam estar. A única coisa que eu tinha certeza é que eu nunca conseguiria encontra-los vasculhando a nave. Não havia mais tempo e não havia como ter certeza de eles realmente estavam ali.

— Salvar Cobalion, se pudermos. Se conseguirmos fazer isso, talvez consigamos encontrar Corin.

— Que chance nós temos?

— Pouca, – ele não mentiu. Não tinha mais motivo pra isso.

Fechei meus olhos um pouco, deixando que os sentimentos fizessem o que queriam fazer. Ser sentidos. E então eu aceitei que provavelmente não sairia viva dali, e apesar do medo, de alguma forma, isso era libertador.

Sequei meus olhos marejados e me ergui novamente pronta pra terminar o que tinha começado. Ou pelo menos fingindo que estava, porque não havia outra maneira de seguir.

Cilan caminhou do meu lado enquanto deixávamos o quarto de Jaden para trás, com o porta-retratos ainda sobre a cama onde eu havia deixado. Descemos mais dois lances de escadas em que eu podia sentir meu coração bater com força no meu peito e finalmente chegamos ao quinto nível.

Assim que pisamos no corredor percebemos que Rose não tinha mentido. Portas duplas enormes ostentavam a placa Laboratório de Pesquisa. Mas o que ela tinha se esquecido de dizer era que dois soldados armados faziam a segurança da entrada.

— O que vocês estão fazendo? – O primeiro deles perguntou já apontando a arma em nossa direção.

— Esse andar é proibido, – outro nos informou mudando a linguagem corporal completamente.

Dei dois passos na direção do primeiro, diminuindo consideravelmente nossa distância. Eu não tinha a metade do tamanho dele. – Desculpe, os banheiros lá de cima estão lotados. Pensei que pudesse usar um dos daqui debaixo, – falei com a voz mais doce que consegui.

Ele me encarou por um momento, mas não teve tempo de questionar. Agarrei o cano da arma longa e puxei com força, agarrando com as duas mãos. Ele tentou segurar, mas o momento de deslize dele foi o suficiente para que eu tirasse a arma de suas mãos e usasse como taco para acertar sua cabeça.

O golpe acertou na têmpora do homem de mais de dois metros que simplesmente desabou no chão como uma arvore que acabara de ser cortada. O outro soldado gritou qualquer coisa, mas antes que tentasse atirar em mim, Cilan foi pra cima dele, acertando-lhe um chute que o jogara contra a parede.

O homem não teve tempo de recuperar o folego. Mal consegui acompanhar os movimentos de Cilan quando ele socou o homem duas vezes no rosto, o fazendo perder o equilíbrio e cair sentado no chão.

Apenas girei meu corpo, ainda com a arma nas mãos e acertei a testa dele, fazendo a cabeça do soldado se chocar contra a parede e depois pender para frente com força com ele já desacordado.

Cilan arrancou a arma das mãos do soldado e se ajeitou, puxando a camisa para baixo, segurando a arma direito em seus braços. Fiz o mesmo, mas diferente dele minhas mãos estavam tremendo. Eu queria sair dali, mas já era tarde demais pra isso.

Meu coração batia com força, minha respiração estava ofegante e eu podia sentir meu corpo começar a transpirar. Cilan segurou a maçaneta e me fitou um momento, como se pedindo permissão para abrir a porta. Tínhamos atacado Team Plasmas, eles saberiam em breve que tinham sido invadidos. Não tinha outra escolha.

Foi como se tudo ficasse em câmera lenta no momento em que eu balancei a cabeça para ele em afirmativo. A porta se abriu lentamente revelando o laboratório cheio de computadores, pessoas de jaleco branco e soldados ladeando as paredes.

Mais ao fundo, quase no fim da sala Cobalion estava preso em algo que lembrava um aquário, com algemas que prendiam suas pernas, tronco e pescoço, feitas de um metal reluzente. Seu corpo emitia a mesma luz que Virizion emitira mais cedo, porém ao mesmo tempo era totalmente diferente.

Ao ser tocada por aquela luz eu pude sentir algo imenso. Um tipo de pressão, como se eu tivesse mergulhado no oceano a uma profundidade alta e ao mesmo tempo eu soube o quanto Cobalion estava furioso. Era uma raiva tão grande que eu quase hesitei ao entrar.

E por um momento ninguém pareceu estranhar nossa presença ali dentro, mas ao prestar mais atenção ao ambiente meus olhos encontraram Deidran, que encarava um dos monitores com um sorriso de satisfação no rosto.

A arma pareceu se mover sozinha em minhas mãos, ao passo que de alguma forma Deidran percebeu minha presença ali. Nosso olhar se cruzou durante um segundo, antes de eu puxar o gatilho e ele saltar para o lado, senti o arranque violento da arma fazendo meu braço doer, fazendo o tiro explodir a tela de um computador atrás dele.

Então tudo virou uma cena de caos. Soldados começaram a gritar e o primeiro tiro acertou a porta atrás de mim. Saímos correndo pelo laboratório no meio dos cientistas. Havia Pokéball se abrindo e tiros vindo em nossa direção.

Não tinha precisado pensar, meu corpo apenas se moveu. Eu estava indo pra cima de Deidran.

Assim que consegui dar a volta em um dos balcões o Zoroak apareceu, saltando sobre uma das mesas. Dei um tiro, mas ele saltou para lado desviando com facilidade. Estava pronta para tentar novamente quando senti a pancada nas costas me arrancando o ar dos pulmões.

Um cientista tinha usado um frasco para me acertar, fazendo dezenas de estilhaços irem ao chão onde acabei caindo. Cilan acertou o rosto do homem com a arma o fazendo cair sobre a mesa em cima de mim.

Praticamente engatinhei até alcançar o outro lado e quando finalmente consegui me levantar pronta para correr na direção de Deidran, me encontrei com uma arma bem diante da minha cara.

Simplesmente parei de me mover. Cilan gritou, mas os soldados já estavam em cima dele também. Um, dois, três, quatro, cinco. Estávamos completamente cercados em um instante.

— Largue a arma, – o soldado gritou tão alto que tive o impulso de tampar os ouvidos. Mais um deles estava gritando o mesmo pra Cilan.

O cano da arma estava a centímetros do meu rosto, não havia como me livrar daquilo. Engoli seco e joguei a arma para o lado, sendo seguida por Cilan. Nem um segundo depois um dos homens de jaleco já tinha a pegado e saído correndo.

Exceto pela sirene tocando no fundo, o laboratório tinha ficado em completo silêncio. Ninguém parecia acreditar que estávamos realmente ali, vestindo seus uniformes, prontos para acabar com Deidran. Arranquei a mascara do meu rosto e olhei para Cilan. Ele estava com uma expressão dura, seu maxilar estava rígido.

Então Deidran reapareceu. O sorriso tinha voltado para o rosto dele e seus olhos estavam lotados de diversão, – Inacreditável. Mesmo. Sua família sem duvida tem potencial senhorita Gray. – Ele fez uma pausa fitando Cilan e depois se voltou pra mim novamente. – Achei que você estaria com seu amigo de cabelo rosa. Você pensou que teria mais chance vindo até aqui com um falso ex-líder de ginásio?

— Eu não preciso dele pra chutar sua bunda velha.

— Aparentemente você vai precisar de muito mais do que isso, – ele respondeu apontando para os soldados que nos cercavam. Andou tranquilamente até o soldado mais próximo e pediu sua arma. – Eu estou intrigado, tenho que admitir, – balançou a arma enquanto falava, – qual era o plano? Se infiltrar e me matar? Libertar Cobalion?

— Os dois eu diria.

— Vocês chegaram a acreditar que isso ia funcionar?

— Se eu não tivesse uma mira tão ruim você estaria morto. Vocês precisam melhorar a segurança desse buraco.

Ele deu de ombros, – talvez você tenha razão. Mas depois de hoje minha querida, pouco vai importar. Nós já vencemos.

Cilan não se conteve, – enquanto ainda tiver um de nós vivo vocês não venceram.

A expressão de Deidran se endureceu, ele lançou um olhar furioso para Cilan e sem qualquer aviso atirou nele. O garoto de cabelos verdes caiu no chão na hora. Eu corri até ele com o coração na boca, praticamente me jogando sobre ele no chão. Cilan não tinha medo ou dor nos olhos, havia apenas surpresa.

Ergui a camisa dele o mais rápido que pude e me deparei com o furo da bala pouco abaixo das suas costelas. Sangue já tinha começado a ensopar sua camisa preta e de alguma forma já havia manchado minha mão.

— Haila, – ele me chamou, mas não saíram mais palavras. Não porque ele não conseguia dizer, mas porque ele não sabia o que dizer. Aquele era o final do labirinto. Um beco sem saída.

— Eu sei, – respondi e era tudo o que eu poderia dizer e que significava naquele momento um mundo de coisas a mais do que essas duas palavras podiam transmitir. Arranquei a camisa do corpo dele, embolei o mais rápido possível e coloquei sobre a ferida, aplicando o máximo de pressão que consegui.

— Eu não suporto esses discursos de esperança e convicção, – Deidran surgiu, em pé atrás de nós ao lado de um soldado. Nem por um segundo tínhamos saído da mira deles.

A pressão causada por Cobalion, o som constante do alerta, a vibração da nave causada por Skyla. Eu sentia minha mão tremer sobre a camisa de Cilan enquanto eu encarava Deidran na minha frente, sem que eu pudesse fazer nada. Era finalmente o fim da linha.

— Se eu tiver a oportunidade eu vou te matar, – falei cortando o silêncio que tinha se instaurado.

— Mas você não vai ter, – ele disse serio, – você não entendeu ainda, Haila? Acabou. Não importa se uma torre foi derrubada. Se vocês conseguiram recuperar Terrakion ou o maldito presidente. O plano já esta sendo executado e já há resultado dele.

“Mesmo que a maquina seja desligada agora a duvida, o caos e as mortes já aconteceram. Pais vão acordar pela manhã e se perguntar se é seguro deixar seus filhos perto dos Pokémon. Crianças se lembrarão de ver seus Pokémon matando seus pais, seus amigos e crescerão os temendo.

O medo, querida Haila, é o sentimento mais poderoso que alguém pode sentir. Ele se enraíza dentro das pessoas como uma doença até as consumir. Você entende isso, não é mesmo?”

E eu entendia, mas nunca admitiria a ele. Nunca lhe daria o prazer de ouvir, – a menos é claro que eles saibam que foi a Team Plasma que planejou tudo. E que a culpa na verdade nunca foi dos Pokémon.

— Podem desconfiar, mas a verdade é que nunca saberão.

Então ergui meu braço, revelando o Xtransceiver de Fome que confiscamos no barco de Arthur. Apertei um botão e a tela se acendeu relevando a transmissão de vídeo que eu estava fazendo. Skyla estava recebendo todas as imagens e ela faria com que o resto de Unova visse aquilo.

A expressão de Deidran pela primeira vez, desde o momento em que eu o conheci, perdeu aquele brilho. A raiva era tão acentuada que ele já não tinha mais controle. Aquilo deformou suas feições, apagando de vez o sorriso de seu rosto, como se algum Pokémon maligno o possuísse. Seu rosto tomou uma expressão retorcida, tomada pelo ódio, que por um instante fez meu coração gelar.

Seu braço se moveu rápido, erguendo a arma em nossa direção, mas minha mão já estava pronta sobre a GreatBall. Serpio saltou para fora e não precisou de sequer um segundo para ir para cima do homem com mandíbulas abertas.

Então finalmente a grande explosão aconteceu. Por um momento toda a estrutura da barcaça tremeu e no momento posterior ela começou a inclinar lentamente para a direita. Derrubando tudo que estava sobre as mesas, fazendo pessoas e Pokémon irem ao chão. Nos salvando dos soldados que nos tinham na mira prontos para atirar.

Clarice finalmente tinha feito sua parte do plano. Explodir os motores da barcaça e derruba-la do céu.

Mas quando isso acontecesse já deveríamos estar prontos para sair, não tentando nos segurar no laboratório. Tudo estava sendo arrancando dos seus lugares. Cientistas, Soldados e nós fomos arremessados contra a parede. Armários eram arrancados das paredes, cadeiras voavam, mesas se arrastavam em nossa direção.

A sensação de queda veio um instante depois, como um elevador descendo muito rápido. Senti meu corpo sair do chão por um momento, até a Barcaça parar violentamente de novo, jogando todos contra o chão. Bati minha cabeça com tanta força que minha visão começou a escurecer nas laterais dos olhos.

O som era de metal rangendo e vidro se quebrando. Mais explosões estavam acontecendo. As luzes e a sirene do alerta infernal estavam oscilando. Serpio e Zoroak tinham encontrado seu próprio ritmo, se engalfinhando com violência mesmo com tudo que estava acontecendo. Sibilos e uivos se misturavam aos gritos das pessoas ali.

Tentei me agarrar a Cilan e continuar pressionando a camisa dele, mas novamente a barcaça começou a cair, dessa vez criando um movimento de pendulo. Senti a força G nos jogando com violência para o lado direito e depois para o lado esquerdo. Repetindo o movimento sem parar enquanto descia do céu.

Mas dessa vez a barcaça acertou o prédio, rompendo o casco do navio, abrindo um enorme buraco com estacas de madeira e entulho. Mobília e cientistas foram jogados para fora. Soldados tentavam se agarrar. Enquanto Cilan e eu lutávamos para nos segurar aos poucos cabos presos.

Fogo tinha surgido, cabos elétricos soltavam faíscas, farpas de madeira e entulho voavam sempre que a barcaça batia no prédio do ginásio.

De repente ela simplesmente virou. Como em um acidente de carro, onde o veiculo capota, a barcaça virou de cabeço para baixo de uma vez, me jogando em cima de moveis que agora estavam no teto e o teto era o chão.

Tentei gritar, mas não consegui. Fui arremessada contra uma cadeira e a ultima coisa que eu senti antes de apagar foi o gosto de sangue explodindo em minha boca.

=8=

— Haila... Haila... – Eu conseguia ouvir meu nome, mas mergulhada na escuridão do fundo da minha consciência, ele não fazia o menor sentido.

Uma onda de dor foi enviada para o meu corpo de acordo com que minha consciência ia voltando aos poucos. Eu me sentia de alguma forma aquecida e ao mesmo tempo presa. Faltava ar em meus pulmões e o gosto de sangue ainda estava ali.

Quando finalmente juntei forças para abrir meus olhos me dei conta de que Serpio estava ali, ou melhor, eu estava ali por causa de Serpio. Ele tinha se enrolado em mim durante a queda e provavelmente salvado minha vida.

Ele estava desacordado. Tive que lutar para me livrar do seu aperto e dei de cara com um armário sobre ele.

— Haila...

Ergui minha cabeça por entre os destroços e me deparei com Cilan, sentado um pouco mais a frente, encostado a uma viga do teto que tinha se partido e caído. Seu corpo estava lotado por cortes e seu ferimento parecia ainda pior. Uma poça de sangue já começava a se formar onde ele estava.

— Estou viva, – informei ao garoto, trazendo Serpio de volta, caminhando com dificuldade em sua direção. Fumaça estava por toda a parte, mas eu não conseguia ver de onde o fogo vinha.

Ele começou a gargalhar até parar de repente fazendo uma careta e voltando a fazer pressão na ferida com suas próprias mãos. – Eu não acredito que conseguimos.

Me abaixei ao lado dele, passando seu braço por cima do meu ombro e fiz força para cima. – Você vai precisar me ajudar com isso. – Cilan gemeu de dor enquanto se levantava. Estava claro que ele não aguentaria muito tempo, mal se aguentava em suas pernas.

Havia muita destruição na nossa frente. Corpos, destroços e um pouco mais a frente, próximo ao buraco no casco um homem estava preso com uma farpa enorme de madeira atravessando seu peito.

Deidran estava se afogando em seu próprio sangue, agarrado ao pedaço de madeira que sem duvida tinha atravessado seu pulmão. Ele babava sangue que já tinha encharcado sua camisa, se combinando ao que jorrava de seu peito.

Seus lábios começaram a se mover quando ele nos vira, – aju... – mas as palavras se perdiam em meio ao engasgado.

Procurei dentro de mim por só um momento, mas não estava claro que eu não conseguiria encontrar. Eu não estava sentindo nenhum pouco de pena. Se eu fechasse meus olhos ainda poderia ver Lenora sendo assassinada por ele e todo aquele sofrimento ainda era pouco pelo que ele fez a ela.

E apesar de toda minha vontade de assistir enquanto ele morria, eu continuei caminhando junto de Cilan que lutava para se manter consciente, deixando o grande líder da Team Plasma morrer sozinho e esquecido entre os seus.

Foram apenas dois ou três minutos até que conseguíssemos alcançar a saída, mas esses poucos passos carregando Cilan pareceram uma eternidade. Quando olhei para trás, consegui ver entre os destroços que o vidro tinha se partido, mas Cobalion ainda parecia preso. Mesmo assim tive que continuar.

Assim que alcançamos a beirada e eu pude finalmente olhar para baixo e me dei conta da altura que ainda estávamos. Era uma queda de pelo menos um andar e meio em cima de destroços em chamas.

— Acho que é o fim, Haila – Cilan disse com dificuldade me obrigando a soltar seu braço, caindo sentado no chão.

Olhei em volta procurando uma saída, mas não conseguia ver nenhum caminho desbloqueado. Gritos, gemidos e pequenas explosões ainda estavam acontecendo, quase como sussurros carregados pelo vento.

— Se você não calar a boca eu vou enviar meu pé na sua cara, – ameacei e ele apenas gemeu em concordância.

Então a sombra no céu dançou sobre nós. O som do bater de asas de repente já inundava nossos ouvindo atraindo a nossa atenção para cima. Eu mal consegui enxergar em meio a fumaça e os raios intensos de sol, mas Skyla parecia nos ver muito bem.

Um sorriso enorme estava estancado em seu rosto quando ela finalmente desceu, montada em seu Madinbuzz. Mas assim que ela deu uma melhor olhada em nós ele morreu em seus lábios. – Alguém precisa de uma carona?

— Cilan precisa de atenção medica agora.

Skyla apenas afirmou com a cabeça, mas seu olhar se endureceu ainda mais. Eu não sabia como ela resolveria isso, mas ela precisava. – Eu vou voltar para pegar você, – afirmou enquanto seu Pokémon segurou Cilan com as garras o içando para o alto. Ele tinha perdido a consciência, o tempo era curto.

— Eu ainda preciso encontrar Corin.

Ela comprimiu os lábios e enquanto seu Pokémon ganhava altitude, ela gritou, – não morra. –Eu não pretendia ainda, mas não houve como dizer.

Voltei até Cobalion com dificuldade, desviando dos destroços, cientistas que tentavam se levantar e dos corpos no caminho. Zoroak estava com o corpo todo rasgado, morto pouco mais a frente, e pelas marcas fora Serpio, não a queda que o fizera.

Quando alcancei o vidro e olhei através dele percebi que Cobalion estava desacordado. A luz tinha deixado de brilhar, mas era possível ver seu peito subindo e descendo. Ele era tão grande quanto Virizion. Maior sem duvida. E eu não fazia ideia de como tira-lo dali.

Peguei um pedaço de madeira pesado que estava no chão e joguei contra o vidro, o fazendo se despedaçar na minha frente. Apesar da logica me mandar correr, entrei na câmara onde Cobalion estava e com calma soltei a presilha que prendia as algemas de metal no Pokémon.

Primeiros suas patas, depois seu dorso e finalmente fui até o seu pescoço. Tentei ir com mais calma ainda, mas além de meu corpo todo doer, uma centelha de medo crescia dentro de mim exponencialmente.

Quando finalmente consegui soltar, a algema de ferro caiu no chão fazendo o metal tinir. Os olhos de Cobalion se arregalaram na hora e como um movimento brusco ele se levantou. Me joguei para trás ficando presa contra a parede.

Ele só precisou de um momento para se dar conta de mim ali.

Seus olhos enormes encontraram os meus. Vasos sanguíneos pareciam ter se estourando deixando a parte branca dos olhos dele praticamente tomadas pela cor vermelha. Sua respiração estava ainda mais pesada e intenção.

Ele me fitou por um momento ou dois, encarando principalmente o uniforme que eu vestia. Pensei que ele me atacaria, estava pronta pra isso, mas depois do primeiro momento sua linguagem corporal mudou. Minha pulsação desacelerou e eu pude sentir que a dele fazia o mesmo.

E para minha surpresa ele abaixou a cabeça e inclinou um pouco o corpo, como se fizesse uma reverencia em agradecimento. Em seguida olhou em volta e finalmente se abaixou completamente, fazendo um movimento com a cabeça, me indicando seu dorso.

Demorei um pouco para entender e tive certeza que isso o deixou impaciente, então preferi não hesitar, e voltando a temer, montei as nas costas do lendário.

Seu corpo se acendeu novamente, mas dessa vez uma luz mais fraca. O chifre surgiu na sua testa assim como os outros. Ele agiu como Terrakion e disparou por entre os destroços, abrindo caminho com a cabeça até saltar para fora, na segurança da rua.

A cena de caos era imensa. As velas da barcaça estavam em chamas e Team Plasmas tentavam se ajudar a sair de perto do transporte. A estrutura estava partida em partes e os andares superiores tinham sido completamente esmagados. A barcaça tinha se enterrado no chão de cabeça para baixo.

Ao perceber isso Clarice me veio á mente e uma onda de preocupação me invadiu, mas antes que eu pudesse processar isso, os soldados que ainda estavam na rua ao perceberem a presença de Cobalion começaram a gritar e correr para longe. Deixando os feridos para trás, se virando como podiam.

Todos, menos um que ficou parado no meio da rua olhando para nós em choque. – Você está montada no lendário? – Clarice gritou fazendo a onda de preocupação se tornar raiva em um momento.

Cobalion se abaixou e eu desci, me deixando praticamente sobre a calçada. – Como você saiu?

Clarice me olhou indignada, – você achou que depois da explosão eu ia ficar pra ver o que aconteceu? Assim que Corsola usou Explosion dei um jeito de fugir.

Eu tinha uma coisa ou duas para dizer para a garota, mas Cobalion ainda me encarava e eu sabia exatamente o que ele queria. Retirei as Pokeball do cinto e apertei o botão das duas ao mesmo tempo, fazendo Terrakion e Virizion surgirem um atrás do outro.

Os três Pokémon estava muito mal fisicamente, mas a energia que eles transmitiram era completamente diferente. Havia tanto alivio e alegria, mas também havia remorso e culpa. Eu estava zonza e meio confusa. Minhas feridas ardiam por todo meu corpo. Mas acima de tudo eu me sentia contente pelos três.

Então, por um momento Virizion deixou seus amigos para trás e veio até mim. Seus grandes olhos verdes se encontraram com os meus. E eu soube que tinha cumprido com a minha parte e que pra eles tinha acabo.

Virizion fez o mesmo movimento que Cobalion a pouco, como se se curvasse diante de mim em um agradecimento e os outros dois a seguiram. Meu coração parecia que ia explodir. Aquilo era maior do que qualquer insígnia ou liga Pokémon.

Finalmente os três Pokémon se ergueram e seus corpos voltaram a brilhar e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa eles saíram correndo, tão rápido que era difícil de acompanhar. E eu soube que aquela seria a ultima vez que eu veria Sword of Justice reunida.

— Se depender de mim, ninguém jamais vai ficar sabendo que isso aconteceu, – Clarice deixou claro.

— Não precisa, – e realmente não precisava. Eu curtiria aquele momento por muito tempo depois daquilo.

— Então acabou? – Clarice perguntou vindo mancando em minha direção. Havia um corte na sua perna.

Me voltei para o Xtransceiver de Fome e procurei as ultimas chamadas. – Pra mim ainda não.

O aparelho chamou apenas duas vezes antes de Jaden aparecer na tela. – Derrubar a barcaça do céu foi algo surpreendente até para você, Haila.

— Onde Corin esta? – Perguntei sem floreios.

— Comigo, é claro. Se quiser vir para a reunião de família estamos te esperando no porto. Doca seis.

— E como eu vou saber que vocês estão onde você diz dessa vez?

Ele fez um movimento com a cabeça, como se tivesse percebido que realmente havia motivo pra duvidar. Virou o Xtransceiver para Corin que estava amarrado e amordaçado em uma cadeira. Na parede atrás dele havia duas escotilhas de bom tamanho e por ela dava para ver nitidamente o mar. – Isso é o bastante? – Guerra quis saber.

— Eu estou indo atrás de você.

—É exatamente o que eu queria que fizesse, – ele respondeu terminando a chamada.

Suspirei profundamente levando as mãos ao rosto e tentei encontrar minha força.

— Você vai mesmo atrás de um general da Team Plasma sozinha? – A garota perguntou.

— Antes de ser um general ele era meu irmão. E com meu irmão eu posso lidar.

— Mas ele não é mais só seu irmão.

— Nunca realmente foi.

Levei minha mão de volta ao cinto e trouxe Ling a rua. Ela parecia preocupada, mas pronta para o que eu precisasse. Montei na Pokémon e olhei para trás uma ultima vez antes de sairmos correndo em direção ao porto. Deixando Clarice e o que sobrava da barcaça para trás.

=8=

A loucura das ruas tinha acabado, mas ainda estava lotada de carros, lixo e pessoas machucadas. Focos de incêndio ainda deixavam o céu da cidade cinza.

Guiei Ling por entre as ruas e ela deu o máximo de si, correndo o mais rápido que podia até finalmente as docas surgirem na nossa frente. Havia soldados da Team Plasma na doca que Guerra me indicara, mas nenhum deles estava com Pokémon ou armas a vista. E não para minha surpresa, eles me deixaram passar sem nenhum problema.

Havia apenas um iate ancorado. Ele deveria ter o tamanho de uma quadra de basquete, talvez mais. Trouxe Ling de volta para a Greatball e suspirei mais uma vez. Eu sentia na parte mais profunda de mim que aquele seria o fim e eu sabia o que tinha que fazer.

Era a hora de colocar toda a raiva para fora e usa-la como combustível para continuar. E não importava o preço, ou o quão difícil seria, eu tinha que tirar Corin de lá. Corri a língua sobre meus lábios secos e subi a rampa.

Guerra estava sentado em um sofá, parecendo completamente confortável. – Eu sempre quis te ver com o uniforme da Team Plasma.

— Agora que ela não existe mais isso não passa de um pedaço feio de pano, – cuspi as palavras como se fosse veneno, mas não tentei esconder a satisfação na minha voz.

Ele se levantou e ergueu as sobrancelhas. Apontou para o prédio do ginásio que poderia ser visto dali e perguntou, parecendo genuinamente surpreso, – O que? Você acha que aquele é o fim da Team Plasma? – Deu um sorrisinho irônico e continuou, – Haila, você e seus amigos só me fizeram um favor. Com todos os lideres mortos ou presos, eu sou a luz que guiará a nova Team Plasma.

Dessa vez fui eu quem ri ironicamente, – esse joguinho de contar onde o lendário estaria era uma armação para que nós chutássemos a bunda dos seus companheiros, para você assumir o trono de Deidran. Não há mesmo honra entre os ladroes e assassinos.

— Não existe honra, existe apenas quem estará vivo no final para aproveitar os espólios. E esse é o meu reino agora, – falou animado, erguendo os braços em direção á cidade atrás de mim. – Unova entrará em uma nova era comigo guiando seus passos. Nunca mais nenhum Pokémon será oprimido.

— Você não consegue ver não é mesmo? Nunca houve tanta morte humana ou Pokémon em Unova quanto a que vocês trouxeram, desde a batalha lendária dos dragões. A Team Plasma não é luz. A Team Plasma é a sombra que cobriu essa terra e você é a ultima parte dessa doença que infecta esse mundo.

Levei minha mão a Pokéball e Leaf surgiu na minha frente. Ela rosnou assim que percebeu que era Jaden que estava diante de nós e enviou as folhas cortantes pra cima dele sem que eu precisasse comandar.

Guerra pulou para traz do sofá e a luz vermelha iluminou o iate um momento antes de Glaceon saltar na direção de Leaf com o ataque gelado preparado.

O raio congelante varreu o chão do iate, o enchendo de estacas de gelo, mas o ataque não chegou até Leaf que usou seus chicotes para saltar mais longe, parando do outro lado do convés.

— Ice Shard junto de Quick attack, seguido de Ice Fung – Guerra comandou e Glaceon.

Glaceon se moveu incrivelmente rápido. Os projeteis de gelo foram na direção de Leaf tão depressa que ela mal conseguiu se esquivar. Ela tentou corredor, mas antes que desse conta Glaceon já estava sobre ela com a mandíbula aberta, agarrando-a numa mordida tão forte que rasgou a perna dela imediatamente.

Leaf urrou de dor e tentou saltar para longe, mas Gleceon já estava sobre ela de novo. – Swift – tentei comandar.

Os dois Pokémon também eram irmãos, mas Glaceon era muito mais rápido que ela. Assim que a energia em forma de estrelas começou a sair do corpo dela Glaceon estava alcançando o outro lado do iate. – Shadow Ball, – Jaden ordenou.

— Revide com Energy Ball.

As duas esferas se chocaram no ar no meio do caminho entre os dois causando uma explosão que quase me jogou para fora do barco. Me ergui de novo o mais rápido que consegui e só percebi que Glaceon já tinha atravessado a fumaça quando ele já estava sobre Leaf com garras de fora.

Leaf tentou reagir, saltando na direção dele, mas sua perna machucada falhou. Glaceon a agarrou em plano o ar e a arremessou para fora do barco. Os chicotes dela agiram rápido e se prenderam ao parapeito a puxando de volta quase no mesmo instante em que ela tocou a água.

Corri na direção dela, pronta pra iça-la de volta quando o Swift me acertou. Quando recebi a primeira pancada eu perdi a noção de profundidas e girei enquanto caia sobre meu ombro. Cai sobre as estacas de gelo no chão da embarcação e feridas se abriram por todo o meu corpo.

Glaceon saltou praticamente sobre mim obedecendo ao comando de gelo e eu só consegui assistir e gritar de dor enquanto as estacas geladas iam a direção de Leaf, perfurando sua pata dianteira, cortando seu dorso e rasgando seu rosto.

Gritei, me levantando em um pulo, ignorando completamente a dor e me joguei no chão ao lado de Leaf. Ela estava muito ferida. Seu olho tinha se transformado em uma bola vermelha de sangue.

Ela não tinha mais condição de lutar. Serpio estava desmaiado e Ling nunca teria chance contra Jaden. Trouxe Leaf de volta a Greatball segurando para as lagrimas não virem á tona e me virei para Guerra que vinha com Glaceon ao seu lado.

O Pokémon rosnou para mim, como se não me conhecesse a vida toda e encarou o treinador que o trouxe de volta para a Pokéball. Me olhando de cima Jaden voltou a sorrir, satisfeito com o que tinha nos feito.

— Seus Pokémon não são nada perto dos meus, seus amigos de jornada estão longe demais para poder te salvar. O que você tem agora? – Perguntou se aproximando de mim.

Serrei os punhos e deixei toda a raiva sair. Me levantei em apenas um movimento rápido soquei o rosto de Jaden, fazendo-o vacilar e dar um passo sem equilíbrio para trás.

— Tenho a mim mesma.

O soquei novamente, acertando seu peito, fazendo o tropeçar nos próprios pés e cair. Saltei sobre ele e me senti perdendo o controle. Comecei a soca-lo sem parar, acertando seu rosto, peito, garganta, enquanto ele lutava desesperadamente para me arrancar de cima dele, gritando e me empurrando com seus braços, agitando seu corpo como se estivesse tendo convulsões.

Mas eu não parei. Simi, Des, Lenora, Burgh... Todos eles estavam na minha cabeça, no meu sangue que parecia ferver em minhas veias. Fazendo meu corpo se mover sozinho e bater mais forte e mais rápido. Meus punhos já estavam cheios de sangue e eu não queria saber o quanto era meu e o quanto era de Guerra.

Continuei socando até ele parasse de se mexer e seus braços caíssem no chão frio, mas ainda assim eu sentia meu corpo queimar de ódio e cada fibra do meu corpo implorar pra que continuasse. E eu cedi, porque queria aquilo mais do que a própria vida. Continuei batendo até que finalmente eu não tivesse mais força no corpo e as feridas me enviassem uma onde de dor tão grande que eu simplesmente não pude continuar.

Foi quando dois soldados que não deveriam ter mais que a minha idade apareceram chocados com a visão em sua frente. Eu os encarei com os olhos em chamas, as mãos encharcadas de sangue e gritei, – quem é o próximo? – Os dois se entreolharem e voltaram correndo rampa abaixo. O ultimo líder deles tinha caído.

Guerra, o general da Team Plasma, poderia ser um dos melhores treinadores da região. Ter treinados Pokémon que eu nunca teria a chance de abater sozinha, isso era indiscutível. Mas Jaden, meu irmão, nunca fora um lutador.

Ele sempre resolveu tudo com diplomacia, com sua fala mansa que seduzia a todos. Mas ele nunca brigou com ninguém e eu sabia que podia vencê-lo, porque as bestas dentro de nós eram complemente diferentes e ele tinha ajudado a alimentar a minha. Cada morte que vi, cada cicatriz no meu corpo, cada gota de sangue derramado tinha me deixado mais forte. Tinha me ensinado a não parar de lutar enquanto eu conseguisse ficar de pé e a principalmente não depender só dos meus Pokémon.

Me ergui e olhei para ele. Seu rosto cheio de sangue. Seu nariz em um ângulo inumano. – Você não parece tão perfeito agora.

Dei as costas e ele e me arrastei para dentro do Iate. Eu mal conseguia andar. Corin estava em um quarto, ainda amordaçado em uma cadeira e seus olhos se encheram de lagrimas quando ele me viu, mas os meus não. Eu sabia que deveria estar surtando com tudo o que tinha acontecido, mas apesar da minha pulsação estar a mil, eu estava calma.

Arranquei a mordaça da boca dele e comecei a liberar seus pulsos presos por fitas. – Eu sabia que você conseguiria me tirar daqui. Eu sabia.

— Agora acabou.

— O que Jaden fez com você? – Ele perguntou parecendo perplexo com todas as feridas pelo meu corpo e os estado da minha roupa.

— Nada comparado ao que eu fiz com ele.

Ele me fitou com aqueles olhinhos brilhantes quando eu finalmente terminei de desamarra-lo e como se nada mais no mundo importasse ele me abraçou com força, enterrando sua cabeça no meu peito.

Num primeiro momento eu não retribui, mas aos poucos fui desacelerando, sentindo que o mundo estava mais devagar, mais leve. E como uma ancora, Corin me trouxe de volta a mim mesma. O apertei em meus braços e senti o cheiro de seu cabelo, que mesmo cheio de suor, ainda era o cheiro de Corin. O cheiro do meu irmão.

Fechei os olhos e as lagrimas começaram a escorrer uma atrás da outra. Eu não sabia por que estava chorando. Alegria, alívio, dor, tristeza. Era tanta coisa que eu não sabia descrever. E em um momento eu já estava chorando aos soluços agarrada a Corin com tanta força que eu tinha certeza de que ele ficaria sem ar. No momento seguinte eu estava gargalhando, rindo tanto que agora eu não conseguia respirar.

Corin se afastou de mim e me encarou confuso, – você esta bem?

Tudo o que eu pude responder foi, – acabou. – E palavra nunca soou tão doce ou verdadeira.

=8=

O sol já se punha quando finalmente conseguimos voltar para o bordel de Burgh, ou casa noturna, seja lá como ele preferia chamar. Eu estava completamente esgotada, minhas feridas queimavam por todo o meu corpo. Mas apesar do estado da minha camisa, rubra por conta do sangue seco que a manchara quase por completo, os ferimentos eram mais superficiais do que parecia.

Leaf não tinha tido a mesma sorte e apesar de Bianca ter se disposto a levar todos os nossos Pokémon para o Centro Pokémon mais próximo, eu não conseguia deixar de estar preocupado. Mesmo ela usando sua influência como assistente da professora Juniper, com tantos Pokémon machucados por Unova, eu não sabia o quão bem tratados nossos Pokémon seriam.

O mesmo servia para Cilan. Skyla tinha enviado seu Pokémon com um bilhete preso a sua pata para nos avisar de que ela e Cilan tinha conseguido chegar no hospital a tempo. Ele ainda estava em cirurgia, mas os médicos estavam otimistas. Não havia comunicação, vários bairros da cidade estavam sem luz enquanto centenas de feridos tentavam chegar a hospitais, centros Pokémon ou sair da cidade.

Eu estava completamente dividida. Queria poder estar com Leaf, com Cilan. Mas eu precisava deixar Corin em segurança. Precisava saber do grupo de Dee e se Arthur e os outros do barco estavam bem. Eu tinha que ter certeza de que eles não tinham encontrado o mesmo fim de Burgh e de tantos outros.

A memória ainda recente ainda doía. Não importava o quão pouco tínhamos tido contato. Ele tinha marcado minha vida.

Mas ao finalmente chegar no cômodo onde todos se reuniam uma explosão de alivio pareceu explodir em mim. Apesar de todos os nossos aliados estarem ali naquele cômodo, os meus olhos se encontraram imediatamente com os de Dee.

Ele estava coberto por fuligem e poeira, havia pequenos cortes com manchas de sangue nos seus braços e rosto, porem mesmo parecendo ter enfrentado coisas tão ruins ou piores do que eu, assim que ele me notou entrando com Corin e Clarice, o seu sorriso pareceu ter iluminado todo o ambiente.

Não havia mais o zumbido no meu ouvido, a dor dos meus ferimentos, ou o meu cansaço. Havia apenas alivio e felicidade. Eu não sabia como continuaria se soubesse que Deedee não estava mais comigo. Não sei se conseguiria enfrentar o peso de tudo que eu ainda teria que carregar se ele não estivesse mais do meu lado.

Contudo, naquele momento, vê-lo ali e bem era tudo o que eu precisava para poder continuar. Era tudo que eu precisava saber.

Aos poucos, quando passei a notar as outras pessoas no ambiente, me dei conta de que a maioria de nós estava ali. Machucados, sujos, com rostos cansados. Mas vivos.

Corin quase passou mal quando Dania saiu detrás de Cheren, e correu na direção do garoto se jogando em seus braços com tanta força que ele acabou batendo as costas na parede ruidosamente. – Eu vou te matar se você fizer isso de novo, – a garotinha negra gritou começando a chorar, ainda agarrada ao meu irmão.

Todos conversavam alto, contando suas partes do ocorrido, e apesar das vozes soarem cansadas, havia um certo tom de alivio que todos conseguíamos sentir. Até o ponto em que Cheren pareceu perder a paciência com o barulho e a desorganização. Depois de pedir, com um tom que todos entendemos com uma ordem que ninguém estava a fim de descumprir, todos nos organizamos e começamos a nos atualizar do que realmente tinha acontecido naquele dia.

— Eu sinceramente achei que não sairíamos vivos dessa, – Tom comentou, seus olhos encaram o chão, sem nenhum brilho. Eu tinha ouvido ele comentando com Kara que seu Emboar estava morto.

— Nem todos saímos, – Clarice completou, desde que voltamos ela tinha se mostrado muito forte. Estava com seu olhar afiado no rosto, mas eu consegui notar a quão machucada ela estava por Burgh. Saber disso me surpreendeu. Sempre nos detestamos, mas em algum momento tinha surgido respeito entre nós.

E não somente Burgh, ou o Emboar de Tom tinham morrido. Cheren tinha perdido sua Lopunny e seu Snorlax. Clarice jamais encontrou seu Corsola. Alder tinha desaparecido nos escombros e o presidente, bem... ironicamente tinha tido o mesmo fim do filho. E Peach, ninguém sabia que fim tinha levado.

— O sinal foi interrompido por toda Unova. Quando o grupo de Bianca derrubou a segunda antena o sinal passou a ser transmitido apenas aqui, mas infelizmente não temos uma noção de quantas cidades foram afetadas antes disso, – Cheren contou. Ele tinha conseguido contato por alguns instantes com colegas dele espalhados pela região. – Mas Castelia só parou quando o grupo de Skyla salvou o lendário.

— Eu só consegui com a ajuda de Arthur, sem ele e seus Krokodile não teríamos conseguido chegar nem perto do prédio, – Bianca falou parecendo orgulhosa de si própria, mas não deixou de lançar uma piscadela para Louis que ajudava Tom a posicionar a perna quebrada em cima de uma cadeira. Ele se recusara a ir para um hospital até ter certeza que todos estavam bem.

— Se isso sair daqui Tris vai me matar, eu imploro, não contem a ninguém – Arthur pediu. Suas roupas estavam completamente amassadas em seu corpo. Mas além disso, ele parecia bem. – Já não bastasse aquela louca da Team Plasma ter mandado afundar meu barco, eu quase morri afogado. Foram os Pokémon de Lila que nos salvaram.

A garota sorriu no canto e eu não consegui deixar de sorrir junto.

— Todos os comandantes da Team Plasma, exceto Guerra, estão mortos... – Cheren me lançou um olhar travado, como se tivesse dito algo errado, – desculpe, Jaden. E agora ele está sob nossa custodia.

Eu balancei minha cabeça fazendo uma negativa, – Jaden morreu no dia em que conheceu Deidran. Ele estava perdido com seu dom e se tornou algo que eu não posso reconhecer como o garoto que cresceu comigo. – Olhei para Corin, e apesar da tristeza em seu olhar, também havia firmeza. Ele tinha passado por muito e eu daria tudo para evitar que ele tivesse tido que viver essas coisas. – No fim, foi Guerra quem eu entreguei para os policiais.

Cheren fez um sinal com a cabeça que eu interpretei como apoio e de certa forma, afinidade. Não éramos muito próximos, mas acho que situações como essa aproximavam as pessoas.

— Concluindo. Eu sei o quanto isso custou para todos nós, – disse com a voz baixa, mas todos ouvíamos com clareza. Eu consegui enxergar pela primeira vez, por baixa de toda a fuligem, do corte ainda manchado de sangue em sua bochecha e das queimaduras, os olhos de um garoto que tinha crescido em meio à guerra. Forçado a ser um homem e senti meu coração apertar. Cheren era um heroi – Mas agora, acho que posso dizer com certeza, de que a Team Plasma teve seu fim. Nós vencemos.

E havíamos vencido. Contra todas as probabilidades. De alguma forma, em meio ao sangue, a dor e a perda, tínhamos conseguido. E a pergunta agora era; como continuaríamos a nossa vida?

Notas finais
Então, me contém? O que acharam do final dos lendários? De Deidran? Da batalha entre Jaden e Haila!? Digam-nos, queremos a opinião de vocês!