Rota Zero
19 Mãe
Notas iniciais
December
MÃE
Tinha escurecido rapidamente e embora tivéssemos avançado um bocado, o caminho ainda se estendia inóspito diante de nós. Assim que o sol sumiu, o calor escaldante foi substituído por um vento frio vindo do leste. Havia um morro de areia encimado por um grupo de árvores retorcidas sem folhas e Haila sugeriu que acampássemos ali.
Não era um local confortável, mas era abrigado do vento e tinha muitos galhos caídos no chão, que poderíamos usar para fazer uma fogueira. Eu não tinha experiência com nada daquilo e só fiz o que a garota me pediu. O céu já estava bem escuro quando finalmente acendemos a fogueira, com a ajuda de Bacon e libertamos nossos Pokémon.
A despeito do meu desconforto por estar sentado no chão de terra e estar comendo uma marmita sem graça, nossos parceiros pareciam felizes em correr em campo aberto e brincar uns com os outros. Haila também não parecia incomodada, ao menos não com isso. Ela não fazia o tipo menininha e isso era um consolo. Mas suas reações estranhas e o jeito soturno com que encarava o caminho que nos trouxe de Castelia me deixava preocupado.
– Haila, aconteceu alguma coisa? – Ela parou de comer e me encarou. – Você parece diferente...
– Fala isso porque eu te abracei? Não fique imaginando coisas, Deedee idiota, eu não tenho interesse em garotos descabelados.
– Não é nada disso! – Senti meu rosto corar. – Embora você ter me abraçado tenha sido assustador – ela fechou a cara e vi uma veia saltando na testa. Acho que acabei deixando-a irritada. – Quero dizer, fico feliz que você tenha vindo comigo, mas achei que você tivesse outros planos. Sem falar que você praticamente nos arrastou de Castelia... – Ela fez uma careta e moveu os lábios de um jeito engraçado.
– Eu estava enjoada de Castelia – disse simplesmente e me encarou dando o assunto por encerrado. O resto da refeição aconteceu em silêncio.
Quando terminamos, Haila se levantou e foi servir nossos Pokémon com Pokéblocos. Eu fiquei vendo-a cuidar deles, ela levava muito jeito para a coisa, poderia ser uma tratadora de sucesso se seguisse por esse caminho. Bacon agora era quase da altura de Chiclete e Simisage e parecia meio desengonçando com sua nova forma, eu ainda estava me acostumando a ela, afinal, para mim, Bacon seria sempre o porquinho engraçadinho.
De repente, fiquei com uma súbita vontade de ligar para Cassie. Eu não falava com ela desde que me despedira em Virbank City e já estava com saudades da voz de vitrola enroscada que ela tinha, queria contar sobre Bacon e perguntar mais sobre o tal Team Plasma, mas infelizmente, meu Xtransceiver não tinha sinal naquela rota. Então fiz uma nota mental de ligar para ela, e também para minha mãe, quando chegássemos a Nimbasa.
Haila voltou se espreguiçando, parecia bastante cansada. Ela remexeu dentro da bolsa e tirou o que parecia ser um cobertor enrolado. Ela desfez o embrulho, revelando um saco de dormir. Ajeitou-o próximo a fogueira e removeu os sapatos, só então percebeu que a encarava.
– O que foi? – Seguiu meu olhar e viu que eu encarava o saco arrumado – Você nunca viu um saco de dormir?
– Vi, mas...
– Não me diga que você não tem um? – Aquele olhar incrédulo de sempre.
– Claro que tenho – e graças a minha mãe que enfiou um na minha mochila, pois eu nunca teria me atido a esse tipo de coisa.
– Então?
– Bem, eu não nunca fiz isso antes, eu não faço a menor ideia de como usar – ela bufou depois de revirar os olhos e resmungou um ‘filhinho da mamãe’ antes de se levantar e me ajudar a organizar o meu.
A fogueira crepitava e a madeira estalava. Haila estava encolhida dentro do seu saco de dormir, Leaf e Simi encolhidos em torno dela. A garota deveria estar mesmo cansada, porque já ressonava baixo do outro lado da fogueira. Bacon estava deitado ao meu lado, Chiclete estava mais afastado, ele nunca gostava de dormir colado a ninguém. Eu ainda tentava me acostumar ao chão duro e a falta de mobilidade que o saco de dormir provocava, mas não podia negar que gostava do cheiro da madeira queimada e que o céu estava incrivelmente bonito. Enquanto observava as estrelas, me lembrei de tudo o que acontecera nesse tempo em que fiquei fora de casa. Era assustador e eu ainda não queria me tornar um coordenador, mas eu me sentia estranhamente feliz. E com essa felicidade boba, acabei adormecendo.
Não sei que horas eram, mas senti algo se remexer dentro do meu saco de dormir, resmunguei e virei pro outro lado, mandando Bacon ficar quieto. Depois de sentir as patas ásperas me arranhar e pedir novamente para que o suíno sossegasse, me lembrei de meu Tepig evoluíra e agora tinha o dobro do tamanho, de forma que não caberia no espaço diminuto. Puxei uma das pontas do saco só para ver uma forma alaranjada e dois olhos negros me encarando. Ótimo, tinha um monstro dentro do meu saco de dormir.
Meu grito ecoou pela noite e quando Haila finalmente se sentou, esfregando os olhos, eu já estava pelo menos cinco metros dali, gritando e apontando para o saco de dormir. Bacon e Chiclete estavam em posição de guarda e logo Simi e Leaf assumiram a mesma postura. Haila, quando finalmente pareceu mais desperta, ficou apreensiva e me encarou interrogativamente, mas a expressão se desfez quando o monstro saiu do emaranhado que eu tinha feito no colchão e foi iluminado pela claridade da fogueira.
Era o menor Pokémon que eu já vira, tinha o corpo arredondado e andava de um jeito engraçado, como se estivesse aprendendo a caminhar. Ele encarou a garota do outro lado da fogueira, o grupo de Pokémon em torno dele e finalmente para mim. Soltou um guincho engraçado e correu na minha direção. Eu não sabia que bicho era e nem me alegrava acordar com ele me espreitando, não era só porque era minúsculo que não era perigoso.
Conforme se aproximou, cortei a volta e me escondi atrás de Haila, que deu muxoxo, desalentada.
– December, você tem ideia de que horas são? – Nossa fogueira já estava quase extinta e bem ao longe podia se ver o céu ganhar outra tonalidade de azul, mas ainda estava terrivelmente escuro. – E todo esse escândalo só por causa de um Trapinch? – O bichinho tinha feito à volta e corria na nossa direção, coloquei as mãos sobre os ombros da loira e a empurrei para frente, como um escudo. Ela resmungou de novo e tirou minhas mãos, me encarando com um olhar fuzilante. – Vá dormir! – Ordenou, mas não me movi. – Leaf – E a vi buscar a parceira pelo canto de olho.
Antes que pudesse argumentar, senti os chicotes da quadrupede me envolverem e me içarem no ar. Nem Chiclete nem Bacon fizeram menção de me socorrer, bando de traíras. Sem muita delicadeza, Leaf me jogou sobre o saco de dormir, fez seu barulho característico e se enrolou ao lado de Haila.
O Trapinch vinha correndo na minha direção e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa pulou sobre minha barriga e rapidamente se aninhou ali.
– Haila, o que vou fazer com esse bicho? – Eu estava meio apavorado, afinal era um Pokémon que eu não conhecia.
– Não quero saber, apenas cale a boca e durma – puxou a ponta do saco e virou para o outro lado me dando as costas. Bacon, Chiclete e Simisage se acomodaram em torno da fogueira, o Trapinch já tinha adormecido e eu fiquei ali, encarando o céu que assumia uma coloração anil, sem entender nada.
Demorei a dormir, mas o cansaço me venceu. Quando acordei, o dia já estava claro e quente. A fogueira estava apagada, os Pokémon corriam animados pelo chão de terra e Haila parecia já ter feito o dejejum. Eu me sentei, esfregando os olhos e só então percebi que o Trapinch estava no meu colo, me encarando ansioso. Quando percebeu que o notei fez um barulho engraçado, mas eu não fazia ideia do que era.
Haila se aproximou, encarando a criaturinha por um tempo – estranho, até onde sei Trapinch não aparecem nessa região – não que eu tivesse dado muito crédito ao comentário, afinal a rainha da inteligência tinha nos feito andar em círculos no dia anterior, duvidava que soubesse onde estávamos para respaldar tal afirmação. Ela se abaixou ao meu lado e tentou fazer um carinho no Pokémon, mas este tentou mordê-la.
– Parece que ele gosta de você e só de você – arqueou a sobrancelha descrente de como isso poderia ter acontecido.
Me levantei e ajeitei minhas coisas, enrolei o saco de dormir e fiz o dejejum rapidamente, já que Haila parecia estar com pressa e ficava me perguntando a cada cinco minutos se eu já estava pronto. Depois de conferirmos tudo e recolhermos nossos Pokémon nas pokéball, dei um pedaço de Pokébloco para o Trapinch, me despedi e voltamos a rota que Bacon havia localizado. Não demorou muito para que Haila me puxasse pelo braço.
– Ei – e apontou para trás. Só então percebi que o pequeno Trapinch nos seguia. Ele tentava nos acompanhar com aquelas perninhas curtas. Fiz um “xó” parecido com o que minha mãe fazia para espantar os Spearow do nosso quintal, mas não surtiu efeito algum. Haila revirou os olhos. – O que vai fazer? – Encarei-a sem entender. – Com ele – indicou o Trapinch com a cabeça – creio que seja um bebê porque ele é muito pequeno. Talvez ele tenha se perdido e agora ache que você é a mãe – a última parte saiu com um gracejo e percebi que ela estava se divertindo com a minha situação.
– Bem, talvez devêssemos procurar a mãe dele – ele tinha parado a uma pequena distância e me encarava como se esperasse algo.
– Mas nós não temos tempo para isso – na verdade nós tínhamos, o Contest seria só na outra semana, não sei por que ela estava com tanta pressa – você poderia capturá-lo – sugeriu.
Peguei uma pokéball e fiquei encarando o bicho, ele era muito pequeno e muito frágil, se eu mandasse Bacon ou Chiclete para batalhar, ele certamente tomaria uma surra. Peach mandaria o coitado diretamente para Arceus. Guardei o dispositivo e fui até ele, desajeitadamente peguei-o no colo e ele pareceu muito feliz com a minha atitude.
– O que você está fazendo? – Haila me encarou quando emparelhei com ela.
– Não sei – e eu realmente não sabia.
=8=
O sol estava escaldante, o chão estava ficando mais arenoso, as árvores mais esparsas e meus braços estavam dormentes de carregar o Trapinch, mas ele não nos alcançaria andando e se eu fizesse Haila andar mais devagar, ela cortaria minha cabeça. Ela me indagou várias vezes por que não o coloquei em uma pokéball, mas eu disse que uma batalha iria matá-lo. Professoralmente, ela me explicou que um Pokémon tão jovem não mostraria resistência à captura, mas só sorri, a verdade é que tinha esperança de devolvê-lo a mãe e por isso, não queria torná-lo meu.
Era noite quando chegamos ao deserto, as árvores ficaram para trás e o chão se tornou totalmente arenoso. O vento fustigava e nos fazia engolir areia. Eu queria descansar ali mesmo, mas Haila disse que seria péssima ideia acamparmos em um local tão aberto. Depois de muito andar, finalmente achamos um parede de alvenaria. Parecia ser a ruina de uma construção maior, mas naquela altura pouco me importava o que era, apenas queria deitar e dormir.
Improvisamos uma fogueira próxima à parede e nos reunimos próximo às labaredas. Trapinch se encolheu dentro do meu saco de dormir, dividindo o espaço comigo. Estava quase adormecendo quando Haila me chamou.
– Seria mais fácil se você o carregasse na pokéball – finalizou com um bocejo.
– Mas se eu fizer isso, ele será meu – encarei o céu, estava escuro e sem estrelas.
– E qual o problema com isso?
– Quando encontramos com a mãe dele, irei devolvê-lo, então não faz sentido capturá-lo.
– O deserto é enorme, vai ser muito difícil de encontrá-la – me encarou por baixo da franja loira. – Mas se você acha que esse é o certo a fazer... – deu outro bocejo, então sorriu, me desejou boa noite, se ajeitou no saco de dormir e adormeceu quase imediatamente.
O dia seguinte foi exatamente como os outros, terrivelmente quente e entediante. Haila e eu quase não conversávamos, tentávamos poupar energia e não engolir areia arrastada pelo vento. Quando a noite chegou, não encontramos nenhum local seguro para nos abrigar, o que fez com que Haila nos arrastasse pela rota, se dormíssemos sem um mínimo de proteção acabaríamos sendo soterrados pela areia.
Meus pés já estavam dormentes quando avistamos um ponto luminoso um pouco a frente, avizinhando a rota que seguíamos.
– Talvez seja um viajante, como a gente – falei animado. Talvez fosse uma pessoa legal que nos cedesse um pouquinho do calor da fogueira.
– E talvez seja tipo aquele que encontramos na lanchonete – cruzou os braços, mal humorada. Por que ela tinha que ser tão negativa?
– De qualquer forma, vamos ter que passar por ele, afinal, ele está ladeando a rota – Haila soltou um muxoxo e me pediu para ser cauteloso.
Pouco tempo depois chegamos ao local, uma grande fogueira ardia, cozinhando alguma coisa que cheirava muito bem. Contra o vento estava uma barraca azul, que protegia as chamas. O lugar parecia convidativo e confortável e eu me indaguei por que nenhum de nós tinha uma barraca.
Um rapaz saiu da barraca, tinha por volta dos vinte anos e o rosto lembrava os galãs de cinema. Apesar da expressão séria, ele abriu um largo sorriso quando nos viu.
– Ora, ora, o que temos aqui? – Me encarou, mas desviou os olhos para Haila e a analisou demoradamente. – Jovens viajantes, eu presumo. Vocês parecem cansados, por que não sentam e se aquecem um pouco? – Indicou um tronco de madeira retorcido para que nos sentássemos.
Haila pareceu não gostar muito da ideia, mas eu estava tão cansado que desabei sobre o banco improvisado. Finalmente pude soltar o Trapinch, que se aninhou aos meus pés, aproveitando o calor da fogueira.
O rapaz se chamava Kean e era um treinador Pokémon. Ele era bastante cortês e comunicativo, dividiu seu jantar conosco e nos ofereceu um espaço na barraca para passarmos a noite. Ele era um treinador experiente, mas que não fora bem sucedido ao enfrentar a Elite Four. Agora, ele estava refazendo sua jornada e treinando duro para enfrentar os campeões da região novamente. Contei a ele sobre ser coordenador e Haila resumiu o assunto dizendo que era minha orientadora. Eu não entendia toda aquela animosidade, mas achei que era devido ao cansaço.
– O seu rosto me é familiar – disse de repente, encarando Haila. Vi-a corar sob a luz da fogueira.
– Tenho certeza que nunca nos vimos antes – respondeu prontamente.
– Ah, você é a garota do cartaz... – estreitou os olhos como se isso o fizesse enxergá-la melhor.
– Que cartaz? – Encarei Haila que tinha mudado de expressão, ela pareceu empalidecer, mas logo o rosto ficou tenso, como ficava quando eu fazia algo estúpido.
– Você deve estar se confundido, meu rosto é muito comum – apesar de dizer isso calmamente, ela o encarava com desagrado. Algo deveria estar errado, nunca Haila diria que seu rosto era comum, mesmo que isso fosse verdade.
– Eu tenho certeza que você é... – mas ele se interrompeu quando o Trapinch fez um barulho alto e engraçado dentro do sono. Só então o treinador pareceu perceber a presença do ser laranja adormecido aos meus pés. – Então, você tem um Trapinch?
– Bem, ele não é meu, mas...
– Eu conheço esse Trapinch – me interrompeu como se uma realização o tivesse atingido – era meu – meus olhos se arregalaram e ele percebeu – mas não se preocupe, pode ficar com ele se quiser, é só resto de breed.
– Resto de breed? – Curvei as sobrancelhas, sem entender. Senti Haila colocar a mão sobre a minha, como se tentasse me impedir de perguntar tal coisa.
– Sim, ele é filhote da minha Flygon. Mas ele não tem as skills certas, então descartei.
– Como assim, skills certas?
– Jaden me disse que alguns treinadores buscam o Pokémon perfeito – a voz de Haila saiu baixa e sombria, como se contasse um segredo que não poderia ser revelado. – Esses treinadores produzem vários filhotes, só para escolher o melhor.
– Você, como coordenador, deve entender bem o conceito – e sorriu esperando que eu concordasse. – Trabalho duro é muito importante para a evolução e aprendizado do Pokémon, mas cada monstrinho tem características únicas. Pense em uma Butterfree, elas são lindas e ganham vários pontos nos Contest, mas mesmo a mais bela Butterfree comum não pode superar a beleza de uma Butterfree rosa. Todo o seu trabalho duro e esforço será jogado no lixo quando um coordenador aparecer com uma dessas. Isso é uma característica inerente aquele monstrinho que só pode ser replicada passando-a para as próximas gerações.
“Então por que não combinar as melhores habilidades de dois Pokémon vencedores e fazer uma cria perfeita? Claro que combinações genéticas não são facilmente reguláveis e por vezes você tem Pokémon insatisfatórios, como esse Trapinch – e encarou a criaturinha com desdém – Minha Flygon tem ótimas skills de velocidade e o pai possui Earth Power, entretanto, esse ai, herdou as habilidades do pai apenas, pois sua velocidade e força são risíveis.”
– Então você o abandonou só porque ele não é perfeito? – Haila estava bem irritada.
– Não teria motivos de carregar um Pokémon inútil – ele não parecia minimamente incomodado com as coisas que dizia, era como se tivesse sido educado de tal forma. Para ele, buscar o Pokémon perfeito deveria ser o ideal de todo treinador.
– Mas, ele é só um filhote – argumentei.
– Estamos no deserto, o ambiente natural dos Trapinch, ele acabaria se acostumando – deu de ombros. – Além disso, não há porque ficar tão irritado, você o salvou, não?
– Mas você não pode descartá-lo assim – minha voz saiu entredentes e senti que estava tremendo. Fazia muito tempo que eu não ficava verdadeiramente irritado com algo.
– Se não gosta dos meus métodos, por que não resolvemos isso com uma batalha Pokémon? – E puxou a pokéball do bolso.
– Nós vamos resolver numa batalha sim – mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, pulei sobre ele, derrubando-o no chão. A pokéball rolou pela areia quando sentei sobre seu peito e comecei a esmurrá-lo. Eu nunca tinha batido em ninguém antes e não tinha ideia do que estava fazendo, mas me lembrei do meu velho dizendo que todo homem tem seus instintos naturais, então eu estava contando com eles.
Pude ouvir Haila gritar algo, mas eu estava cego dentro do meu ódio para entender que aquilo foi um aviso. Do nada, Kean levantou um dos braços e desferiu um soco no meu rosto, foi tão forte que eu apaguei antes de bater na areia.
Quando acordei, já estava absurdamente claro. Haila estava agachada ao meu lado com o Trapinch no colo, ele resmungou feliz quando me sentei. Meu corpo doía, o chão abaixo estava quente e meu cabelo cheio de areia. Eu tinha um corte nos lábios, os nós dos dedos estavam esfolados e pela dor na parte esquerda da cabeça, eu deveria estar ostentando um belo olho roxo.
– Bom dia, herói – cumprimentou sarcástica.
Olhei em volta e vi o resto chamuscado da fogueira, mas a barraca não estava mais lá. – O que aconteceu?
– Digamos que Kean achou que era melhor ir embora – encarou o horizonte. – Só fique sabendo que não vou arrumar as coisas para você da próxima vez – ela sorriu torto.
– Arrumar?
– Ele queria resolver as coisas com uma batalha Pokémon, então... – Trapinch pulou no meu colo, enquanto a loira se levantava com um sorriso vitorioso.
– Como você venceu? Quer dizer, ele disse que era experiente e tudo mais.
– A Flygon tinha mesmo ótimas habilidades, mas a capacidade dele de comandá-la – cruzou os braços – até meu irmãozinho faz melhor. De qualquer forma, Simi e Leaf o colocaram no lugar.
– Dois contra um não é meio injusto?
– Acha que eu deveria ter sido correta com aquele tipo de pessoa? – Na verdade, eu achava, mas não disse nada, afinal, Haila tinha salvado o dia.
Me levantei e espanei as roupas, tirando o excesso de areia, arrumei minhas coisas e me preparei para mais um dia de caminhada.
– Acho que você deveria ficar com o Trapinch, afinal, foi você quem venceu a luta – disse me voltando para a menina.
– Ele é até interessante – desviou o olhar para o bichinho enrolado nas minhas pernas – mas acho que ele já escolheu seu treinador. – Ela terminou de ajeitar a mochila e saímos em caminhada.
Trapinch andava ao nosso lado e por isso estávamos em ritmo mais lento, surpreendentemente, Haila parecia não se importar. Encarei a criaturinha que andava alegremente entre nós e senti um aperto no coração. Eu queria devolvê-lo a mãe, mas isso nunca iria acontecer e mesmo com tudo o que eu ficara sabendo, ainda estava relutante em ingressá-lo ao meu time. Era como se eu não fosse bom o suficiente para suprir a mamãe Flygon.
Nós caminhávamos em silêncio e minha mente vagava pela conversa na noite anterior, quantos outros Trapinch ele tinha dispensado? Vencer era assim tão importante para tratá-los como objetos? E o que aconteceria a Flygon quando o Trapinch perfeito nascesse? Ela provavelmente não seria mais necessária e teria o mesmo fim que seus filhotes.
– Deedee, sobre a história do cartaz... – Haila começou, mas parou subitamente. – Você está chorando? – Só assim percebi lágrimas quentes descendo pelas maçãs do rosto. Tentei reprimi-las, mas acabei fungando e soluçando. Quando mais me esforçava para parar, mais lágrimas brotavam e mais vontade de gritar eu tinha. – Deedee? – A voz de Haila soou assustada, como eu nunca ouvira antes.
Cai de joelhos na areia aquecida e gritei para o nada, deixando minha voz ser copiada pelo eco. Puxei meus cabelos em um desespero que não sabia sentir e as lágrimas evaporaram rapidamente quando atingiram o chão arenoso. Fazia muito tempo que não me sentia assim, mas eu simplesmente queria abandonar tudo e voltar para casa.
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