Rota Zero
20 Contrapeso
Notas iniciais
Haila
CONTRAPESO
A noite havia sido longa e como se não bastasse ter que limpar toda a bagunça de Deedee, agora ele estava chorando. Me assustei, para ser sincera, com a reação dele, mas agora que o conhecia um pouco melhor e de certa forma sabia que ele era meio emotivo eu pude entendê-lo.
Toda aquela história também havia mexido comigo, mas eu estava com tanta coisa na cabeça que preferi afastar a lembrança. Infelizmente, diferente de mim, a lembrança parecia bem viva na cabeça de Deedee e isso o arrasou.
Dei dois passos e me abaixei perto dele, colocando a mão sobre seu ombro. Ele ergueu a cabeça e mirou seus olhos molhados em mim por um instante, antes de virar o rosto. Quer saber um segredo? Eu não sei consolar as pessoas.
Então me sentei na areia e ele se soltou também, segurando o Trapinch entre seus braços com força. Não era o melhor lugar pra descansar, tão pouco era hora para isso, mas me ative a acariciar a nuca e os cabelos dele até que a crise de choro passasse.
O sol da manhã era mais fraco e a areia havia perdido todo seu calor durante a noite. Quanto mais deixávamos a floresta para trás, ganhando areia sob nossos pés, mais intensas se tornavam as variações de temperatura.
Não sei dizer quanto tempo nos ficamos ali, mas não demorou tanto quanto eu imaginava para Deedee enxugar as lágrimas e começar a fungar o nariz. – Vamos? – Sugeri quando imaginei já ser tempo suficiente. Ele balançou a cabeça positivamente, então me levantei em um salto e estendi a mão a ele, o ajudando a levantar.
Ele a agarrou e eu comecei a puxá-lo, mas no meio do caminho soltei e ele caiu sentado. O Trapinch em seu colo fez um barulhinho, mostrando que estava em desacordo, Deedee gemeu de surpresa então comecei a rir da cara dele logo sendo seguida por um sorriso acanhado.
– Agora é sério – afirmei estendendo novamente a mão. Com certeza eu me sentia melhor vendo-o sorrindo de novo. Ele franziu o cenho, mas por fim agarrou minha mão e seguimos novamente nossa viagem.
As árvores foram desaparecendo até por fim ser impossível encontrar uma sequer no horizonte. O solo era quase completamente arenoso, a não ser por poucas formações rochosas espalhadas pelo mar de areia.
Algumas bem altas e isso era uma grande mudança na paisagem. Desta forma eu conseguiria me orientar melhor. Desejei que Deedee tivesse capturado qualquer Pokémon voador, não eram meus preferidos, mas seriam muito uteis em situações assim. No entanto, lá estava ele com aquele Trapinch no colo, eu realmente não entendia podia entender o porquê disso.
Ganhamos terreno com bastante dificuldade. Meu tênis começou a se encher de areia e eu conseguia ver no rosto de Deedee, o esforço que ele estava fazendo para dar cada passo. Isso era mutuo.
– Talvez devêssemos viajar durante a noite – Deedee comentou colocando a mão aberta sobre os olhos, fazendo sombra, protegendo-os assim da claridade.
Uma lufada de vento ergueu areia no momento em que tentei falar indo direto para minha garganta. Comecei a tossir e me inclinei, apoiando-me nos joelhos. O garoto se aproximou de mim depressa. Cada passo que ele dava erguia uma pequena quantidade de areia.
Também depressa ele surgiu com sua garrafa d’agua. Não havia muita, precisávamos sair daquele route o mais rápido possível, mas sinceramente, eu não fazia ideia de quanto mais tempo de viagem faltava.
Quando peguei a garrafa, outra lufada fez areia entrar nos meus olhos. Amaldiçoei em um grito enquanto a garrafa de Deedee ia ao chão e o liquido era instantaneamente absorvido pelo solo, deixando apenas uma marquinha escura que aos poucos começava a desaparecer.
O garoto se abaixou rapidamente e agarrou o objeto metálico, mas depois de olhar dentro e virar a garrafa de cabeça para baixo, apenas uma gota se desprendeu da borda.
Me virei na direção contrária ao vento, por sorte a que deveríamos seguir e agarrei a mão do Deedee – se isso for o que eu estou pensando, estamos em sérios apuros.
– E em que você esta pensando? – Ele perguntou quando eu comecei a puxá-lo o mais depressa que pude.
Cada passo era mais difícil que o outro, a nossa frente uma duna de cerca de seis metros impedia minha visão do caminho. Comecei a subi-la aos tropeços sendo seguida por Deedee que acabou se enrolando e escorreu, me puxando para baixo junto com ele.
Quando finalmente paramos Deedee ficou estático. Acompanhei seu olhar na direção do vento me deparando com uma enorme nuvem de areia que vinha em nossa direção, senti meu coração saltar dentro peito. Apenas tive tempo de cobrir o rosto e instintivamente segurar em Deedee.
Foram os piores vinte minutos da minha vida. Abracei Deedee e acabamos caindo no chão. Ventos fortíssimos começaram a nos empurrar e o Trapinch assustado começou a grunhir. Era difícil ficar de pé e até mesmo respirar.
Acabei me soltando de Deedee e sendo arrastada pelo vento, rolei alguns metros pela areia, parando de bruços com alguns arranhões nos braços. Nunca me senti tão assustada na vida, a forçado vento, o som nos meus ouvidos, a força da areia batendo contra o meu rosto. Era uma um pesadelo. Tentei gritar cobrindo a boca, de olhos fechados com bastante força, mas minha voz não conseguiu atravessar o som da tempestade.
Senti a massa de areia começando a me cobrir e então comecei a me debater tentando me libertar, mas tudo que consegui foi gastar energia. Mais e mais areia vinha. O desespero tomou conta de mim e tudo que pude fazer foi me sentar de costas para a rajada de vento e segurar o choro enquanto a tempestade cobria minhas pernas.
=8=
Não sei dizer ao certo quando tudo acabou, mas eu estava viva e coberta até o peito por areia. O deserto havia novamente voltado à calmaria e agora eu não podia sentir sequer uma brisa. Eu estava desorientada, meu coração batia tão forte que eu podia sentir seu pulsar em cada veia em meu corpo.
Me levantei e me mexi bastante tentando tirar areia de dentro das minhas roupas, soltei o cabelo e uma nuvem de pó desceu ao chão, minhas pernas tremiam, mas eu estava viva.
Deedee, me lembrei em um estalo, eu precisava encontrar Deedee. Olhei para trás tomada por uma nova onda de pavor, mas para minha surpresa lá estava ele, vindo em minha direção aos tropeços, coberto por uma camada de poeira, com o Trapinch no colo, seguindo Bacon.
Suspirei aliviada e me larguei, caindo com força sentada na areia. Eu podia sentir as lágrimas atrás de meus olhos, mas eu não iria chorar, já havia tido lágrimas de mais por um dia. Deedee estava bem e isso era tudo que importava.
–Você esta bem? – Ele perguntou quando chegou próximo a mim.
Ergui meu braço e fiz um sinal positivo com a mão. – Eu mataria por um pouco de água – foi tudo o que disse.
– Não tem mais no seu cantil? – Ele me perguntou curioso. Os lábios dele também estavam secos. Ele parecia calmo com tudo, então senti que a calma também estava voltando.
Passei a mão na cabeça de Bacon e me levantei – acabou antes do seu – contei tentando pensar no que fazer. Ao nosso redor só víamos dunas de areia recém-criadas. Eu não sabia ao certo para que direção seguir. Todo o deserto parecia ter mudado. Aquela situação era surreal, eu não podia acreditar. – Acho que agora dependemos totalmente de Bacon pra nos tirar daqui.
O Pokémon me encarou com uma cara curiosa e depois olhou para Deedee. Ele podia ser nossa ultima chance.
Seguimos Bacon por mais de uma hora. Subindo e descendo dunas, vez ou outra encontrando formações rochosas que agora estavam quase totalmente cobertas por areia. Até que algo totalmente inesperado aconteceu.
Um som comum encheu nossos ouvidos. Bacon começou a correr com dificuldade pela areia e Deedee e eu começamos a correr junto dele. Subimos uma duna mais alta e para nossa surpresa e deleite lá estava o mar.
Desci a dunas toda atrapalhada. Quase cai enquanto corria chegando à área molhada. Larguei minha bolsa no chão e me joguei na água.
Eu não poderia bebê-la, mas com certeza aliviaria o calor. A água não estava muito fria, mas isso não diminuiu minha alegria. Esfreguei meu rosto tirando finalmente a camada de pó que a cobria e tive vontade de rir.
Já havia ouvido dizer que o deserto enlouquecia as pessoas, mas nunca imaginei que aquilo poderia acontecer comigo. – Haila – Deedee gritou sorridente apontando para o mar – barcos.
Corri de volta para Deedee e me virei de costas. Lá estavam eles, três pequenos barcos de madeira. Em outras circunstâncias eu preferiria evitar as pessoas, mas eles poderiam nos levar a Nimbasa City ou a qualquer outro lugar. Minha mente estava cansada, eu estava um trapo.
– Ei, aqui – gritou Deedee antes que eu pudesse concluir meus pensamentos. Então cedi e comecei a gritar junto, acenando e pulando para chamar atenção deles.
Eles não demorar muito para nós notar. Um dos barcos se virou e veio em direção à praia. Havia um homem e uma mulher dentro. Cortaram algumas ondas até que finalmente o barco parou em cima da faixa de areia molhada.
A mulher de cabelos castanhos pulou do barco e nos encarou com uma expressão preocupada – crianças, o que vocês estão fazendo no deserto, houve uma tempestade de areia a pouco.
– Nos perdemos – confessei com dificuldade. Pior do que passar por aquilo tudo, era ter que admitir que eu tinha falhado. Se eu estivesse sozinha provavelmente estaria morta. Talvez eu devesse parar de lutar contra isso e aceitar que eu deveria confiar em Deedee.
– Precisamos de ajuda – ele completou.
A mulher olhou para o homem e franziu o cenho de forma piedosa – Arthur.
– Não poderíamos deixar crianças em uma situação dessas, Tris – ele respondeu sorrindo.
Arthur parecia ter por volta de quarenta anos. Meio gordinho, usava um chapéu com pequenas formas coloridas presas a anzóis, uma blusa verde apagada e galochas pretas.
Deedee agradeceu e chamou Bacon de volta e com dificuldade subimos no barco, por fim, Tris nos ofereceu uma garrafa d’agua. Deixei que Deedee tomasse primeiro, afinal, ele e seu Pokémon eram os grandes heróis. Ele deu enormes goladas até não ter mais folego para continuar, depois passou para mim.
No primeiro gole senti que minha garganta não estava legal. Ela doeu ao toque da água, mas sinceramente não liguei. A água estava meio quente, mas não deixava de ser boa. Bebi mais do que podia, até uma tira escorrer pelo meu queixo.
– Prontos? – Arthur perguntou, Tris nos olhou por um instante e afirmou com a cabeça. Então Arthur se abaixou, pegou duas de varias cordas presas à proa do barco, que não deveria ter muito mais que quatro metros e as arremessou na água. Depois mexeu em seu bolso e pegou duas Pokéball.
Deedee ergueu a cabeça tentando visualizar melhor e eu tive a mesma reação. Assim que ele arremessou as duas, dois Mantine enormes surgiram na água. Deedee ergueu uma sobrancelha surpreso. Eles agarraram a corda e começaram a puxar.
O barco se moveu primeiro em um solavanco que quase me fez ir ao chão. Um dos grandes barris dentro do barco quase tombou com o movimento. Depois ele começou a se mover menos bruscamente. Subindo e descendo ao passar de ondas.
Logo, estávamos em alto mar e o balanço diminuiu absurdamente, estávamos indo em direção aos outros dois barcos. E lá, próximo a eles, haviam pequenas boias flutuando em uma grande circulo. – Vocês vieram do Desert Resort? – Perguntou Tris se sentando em cima de um barril.
– Viemos de Castelia City – Deedee respondeu. Tris fechou a cara e cruzou os braços.
– Duas crianças atravessando o deserto, sozinhas? – Ela questionou incrédula.
Se eu não estivesse muito grata pela água jogaria ela no mar, primeiro porque não éramos crianças e depois para ensiná-la a não duvidar da gente. Apesar de não estar muita certa da segunda motivação.
Arthur limpou a garganta e resmungou – não vejo problema nisso. Nós tivemos nossas aventuras nesse deserto na infância e estamos muito bem. – Tris deu de ombros.
Chegando finalmente onde as boias se encontravam pudemos perceber que se tratava de algo como uma rede. Fui até o lado do barco de Deedee e juntos olhamos curiosos para aquilo. – O que é isso afinal de contas? – Perguntei quando não aguentava mais.
– Nos somos criadores – Arthur respondeu. Eu e Deedee trocamos olhares instintivamente. – Criamos Basculin em alto mar como podem ver.
Deedee torceu os lábios e encarou o mar, tentando não olhar pra eles. – Nos estamos tentando estabilizar a espécie nesse habitat depois que a pesca predatório quase os eliminou da região – completou Artur.
Um homem no barco ao lado chegou à beirada carregando um dos barris, o inclinou e jogou o conteúdo na água. De repente os Basculin surgiram, pulando para fora da água, comendo as bolotas marrons que boiavam.
– Aquilo é um tipo de ração especial que preparamos – Tris comentou.
– O que vocês ganham com isso? – Deedee perguntou cansado. A expressão dele estava diferente. Ele era sempre tão positivo, sempre preferia acreditar em todo mundo, mas agora, aquele brilho não parecia estar ali, com tudo, depois do que passamos, isso parecia ser normal.
Tris se aproximou da beirada do barco e encarou junto a Arthur a água dentro do criadouro se acalmar aos poucos enquanto os últimos flocos de ração eram devorados. – A professora Juniper entrou em contato comigo e Arthur há alguns meses, ela acreditava que os Basculin dessa parte da costa poderiam desaparecer.
– Tentamos convencer o Presidente de que se ele não acabasse com a pesca nessa região eles desapareceriam – adicionou Arthur com uma expressão nervosa.
– Infelizmente ele não nos ouviu, então estamos aqui, fazendo o que podemos – concluiu Tris.
Deedee cruzou os braços e os olhou em silêncio. Ele parecia ter suas duvidas, mas era bom saber que alguém estava se preocupando com isso. Esse na verdade, era o tipo de pensamento que nunca havia passado pela minha cabeça.
Como a caça e captura de Pokémon podia interferir na continuidade da sua espécie. Caso muitos treinadores ou Hunters capturassem os Pokémon de um determinado lugar, como este, isso poderia desencadear até mesmo a extinção da espécie em uma determinada situação.
Eles continuaram a alimentar os Pokémon enquanto eu e Deedee continuamos esperando no barco. As roupas no meu corpo começaram a me incomodar, pelo peso e pela rigidez que ganharam.
Ficamos quase o tempo todo calados, apenas observando como eles cuidavam daquelas criaturas. O dia havia sido longo e carregado de situações frustrantes. Desde que resolvemos sair de Casteia tudo pareceu ficar mais difícil. Algo parecia ter mudado.
Por volta de uma da tarde, eles finalmente resolveram voltar para o Desert Resort. Os barcos voltaram em direção à praia, passando pelas fortes ondas nos parando com força na areia.
– Vamos deixar os barcos aqui mesmo? – Perguntei sem entender bem a situação. Não haviam ancoradouros à vista. A maré poderia levá-los.
Tris negou com a cabeça e respondeu enquanto ia novamente para a proa do barco – claro que não, vamos levá-los conosco.
Senti vontade de rir, mas estava tão cansada que meu senso de ironia não estava funcionando bem, agora, ao falar senti um incômodo na garganta, o que deixou mais claro para mim o fato de que agora era hora de me manter em silêncio.
Tris surgiu com quatro Pokéball nas mãos. O que poderia ser? Olhei para Deedee e vi seu olhar caído. Ele estava recostado na lateral do barco quase dormindo. Sua pele estava queimada de sol, apenas supus o quão pior deveria estar a minha.
– Saiam – pediu Tris e quatro Sandile surgiram.
Tris arremessou as cordas e eu tive de me levantar. Eles as agarram enquanto o mesmo acontecia nos barcos ao lado, mas diferente do barco de Tris, os Pokémon agarrando as cordas eram também Krokodile e Krokorok.
Aquele Pokémon me deixou meio atordoada, eu já havia passado por duas situações nada agradáveis com eles, se o Zoroark contasse é claro. A coisa toda de correr pela floresta a noite e o incêndio na lanchonete. Aquele homem podia não ter conseguido escapar, eu não diria isso a Deedee, mas era o que eu achava.
– Prontos meninos – ela perguntou, sendo respondida por pequenos urros. – Dig.
Me segurei a lateral e os Pokémon mergulharam na areia. Um instante depois o barco começou a se mover. Um puxão brusco, como no mar, que fez Deedee distraído ir parar no chão.
Por sorte, com tudo acontecendo em seguida, acho que ele não reparou nos Pokémon. Ele já estava emotivo de mais e dessa vez não dava para julgá-lo.
Logo, nós e os barcos ao lado, estávamos sendo puxados pelos Pokémon pela areia. Deedee se levantou e olhou assustado enquanto subíamos a duna. – O barco esta deslizando sobre a areia – ele comentou incrédulo.
Arthur riu sendo acompanhado por Tris. Caminhei com dificuldade até a proa e olhei para a areia sendo erguida, deixando um rastro mais elevado onde os Sandile passavam. As cordas esticadas desaparecia dentro da areia. Era inacreditável.
– Foi ideia de Tris – comentou Arthur ao ver que eu e Deedee estávamos sem palavras. Estávamos em um barco deslizando sobre a areia. Eu só poderia ter morrido naquela tempestade, pois aquilo não poderia ser real.
Então comecei a rir, como eu gostaria de poder contar aquilo para meus pais, para Corin e Jaden.
Voltei para a parte de trás e me soltei no banco, ainda com o sorriso no rosto. Vi Deedee se esticando na beirada, olhando curioso para aquela situação inusitada. Mais algum tempo se passou enquanto eu olhava as dunas e as formações, indo em direção ao Desert Resort. Enfim, não sei quando dormi, mas ao acordar eu já podia ver a pequena cidadezinha criada em volta das antigas ruínas da civilização que viveu em Unova há milhares de anos.
Depois da descoberta de fosseis dentro das ruínas a região se tornou famosa e dezenas de escavadores partiram para cá. Aos poucos, depois da montagem das cabanas alguns dos trabalhadores foram ficando e aquilo se tornou um pequeno vilarejo.
Eu havia visto um extenso documentário sobre aquilo na TV. Meu pai não havia nos deixado mudar de canal e nos obrigou a ficar na sala, alegando que precisávamos de mais cultura.
Nessa época Jaden ainda estava em casa, seu Glaceon ainda era um Eevee engraçadinho e Corin havia acabado de ganhar seu ovo. Afastei o pensamento depressa, isso me fazia ficar nostálgica, ou simplesmente era o montante de sentimentos acumulados desde Castelia.
Deedee conversava com Tris enquanto Arthur gritava comandos orientando os Pokémon.
Paramos próximos a uma cabana maior, onde a areia começava a ser substituída por terra batida. Os Sandile surgiram da areia ofegantes, enquanto os Krokorok e Krokodile se erguiam orgulhosos.
Deedee comprimiu os lábios ao ver o Krokodile e senti que novamente o peso do que havíamos passado voltando a ele. Era normal eu acho, talvez ninguém próximo a ele tivesse morrido, ele na maioria do tempo parecia uma criança inocente.
Quando tentei me erguer me senti tonta, minha garganta estava bem pior também. Me apoiei a lateral do barco e senti minhas pernas tremerem. Deedee me olhou e franziu o cenho – Haila, está tudo bem?
Tentei responder, mas não consegui falar, a voz não saiu. Tris me encarou e arregalou os olhos. Antes de apagar novamente apenas escutei a voz de Arthur, em um grito agudo – ajudem-na...
=8=
Tive alguns sonhos estranhos. Algumas imagens embaçadas de casa, de Corin e Deidran. Eu estava usando o vestido florido da minha mãe e corria por uma imensidão de areia enquanto eles corriam junto comigo.
A areia em algum ponto se tornava o mar e eu estava andando sobre ele, meus pés tocando a água fresca enquanto Basculin pulavam ao meu redor. Eu estava de alguma forma triste nessa hora, havia algum pesar relacionado a isso.
Então os barcos estavam lá e novamente estávamos sobre areia. A nossa frente Nacrene City surgia. Frente ao museu, Lenora me esperava sorridente. Memórias distorcidas talvez, eu não estava preocupada em entender a lógica dos acontecimentos.
Então tudo escureceu e a dor da minha garganta estava lá, forte e firme, mas agora não apenas lá e sim espalhada pelo meu corpo todo. Tentei abrir meus olhos, mas eles estavam pesados. Havia vozes também, era Deedee.
– Como ela vai ficar? – Ele perguntou. Era quase palpável a preocupação em sua voz.
– Deedee – Tris exclamou, mas eu não conseguia reconhecer nada em sua voz.
Me esforcei o quanto pude e consegui abrir um pouco meus olhos. A luz os fez arder a princípio, de alguma forma eu estava sob lâmpadas fluorescentes, movi um pouco minha cabeça para o lado e lá estavam eles.
Era um quarto simples com paredes feitas de pedra, Deedee estava em pé ao lado da minha cama e Tris em frente a ele. Seu cabelo estava desarrumado e seus olhos inchados. Tive vontade de dizer-lhe para não chorar, mas por algum motivo eu não consegui. Eu estava muito cansada.
– Ela parece ter a febre do deserto – Tris contou coçando a testa – você consegue entender isso, certo?
Deedee pareceu hesitar um pouco, mas depois acabou perguntando – isso é grave?
– Pode ser apenas febre e mal estar, ou até mesmo levar a morte – ela respondeu de uma vez, como se aquela noticia fosse à coisa mais normal do mundo.
E novamente eu estava envolta pela escuridão. Comecei a sonhar com Leaf quando ainda era um Eevee. Eram lembranças de quando ela havia acabado de chocar.
Gostaria de dizer que me apaixonei por ela assim que saiu do ovo, mas aquilo não era verdade. Chorona e carente. Depois de uma semana com ela me seguindo tentei devolvê-la para o meu pai. Ele riu da minha cara, irônico como sempre e afirmou – não aceitamos devoluções.
Fiz birra, a evitei, até mesmo a tranquei em casa uma ou duas vezes, mas ela insistia em me seguir toda vez. Eu não conseguia dar um passo sequer sem que ela estivesse atrás de mim.
Um dia, revoltada com a situação, corri para a floresta tentando ver se ela me perdia. Eu queria ter um minuto sozinha. Nessa época meus pais não me deixavam ir muito longe, mas eu sabia que se eu quisesse despistar a Pokémon eu teria que me embrenhar na floresta.
Infelizmente, para o meu azar, acabei me perdendo junto com ela. Passamos algumas horas na floresta tentando encontrar o caminho de casa, até que encontramos uma clareira no meio do bosque.
Era tarde e eu pensei que talvez pudesse passar o resto da noite ali. Eu não queria passar a noite na floresta, tinha medo.
Dormimos abraçadas uma a outra encostadas a uma enorme pedra coberta por raízes. Quando fomos acordadas na manhã seguinte por meus pais e mais um grupo de pessoas Eevee havia evoluído para um Leafeon.
Desde então ela não saia do meu lado e sempre que eu ficava com medo ela se encostava em mim, me dando coragem.
Acordei mais uma vez e desta vez, havia só Deedee no quarto, ele estava sentado em uma cadeira de madeira e dormia com a cabeça encostada a minha cama, de mãos dadas a mim. Eu estava com muita dor nas costas, então tentei me virar devagar para não acordá-lo, mas assim que o fiz ele me encarou assustado.
Seu rosto estava inchado me impedindo de dizer se ele havia chorado novamente ou não. Nos encaramos por alguns segundos sem dizer uma palavra, mas eu tinha algo a dizer.
– Deedee – comecei e ele de súbito colocou a mão sobre meus lábios.
– Não faça esforço.
Franzi o cenho e respirei fundo – não me diga o que tenho que fazer – respondi com dificuldade. Minha voz saiu fraca e baixa, falhando na tentativa de intimidá-lo. Minha visão ficou turva mais uma vez e senti que voltaria a desmaiar.
Lágrimas quentes lutavam atrás de meus olhos, loucas para sair. Eu não queria morrer sem dizer a alguém – eu amo meus pais.
– O quê? – Perguntou Deedee desorientado.
– Eu fugi de casa – contei-lhe finalmente enquanto a primeira gota descia pelo meu rosto, então novamente voltei à escuridão.
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