Rota Zero
18 Esse tipo de garota
Notas iniciais
Haila
ESSE TIPO DE GAROTA
Infelizmente, como um escritor disse outrora “a vida não é uma fabrica de realização de sonhos.”. A bicicleta não tinha seguro e adivinha só quem teve que arcar novamente com o prejuízo causado por December?! Graças a Arceus minhas horas extras e uma bonificação, que eu não sabia que podia ganhar, cobriram totalmente a metade dos estragos. Que era o que eu havia combinado com o pessoal do Casteliacone caso isso ocorresse.
Quanto a minha permanecia como funcionaria, digamos que eles não foram tão solícitos. O trabalho braçal, diferente do fácil de Deedee, me rendeu um bom bocado de bolhas e uma quantia razoável de grana. Mais até do que eu havia pegado do cofre em casa antes de fugir. O que salvou, temporariamente minha jornada, se é que eu podia a chamar assim.
Agora novamente eu estava sem rumo e sem um modo de ganhar dinheiro.
Voltei para o hotel e encontrei Deedee se arrumando para a tão grande exposição de Burgh, que sinceramente eu esperava também pegar fogo. Ele me olhou de rabo de olho enquanto ajeitava a camisa de uniforme no corpo e depois se sentou pesadamente na cama com uma expressão deplorável. – Não adianta ficar desse jeito – resmunguei também desanimada.
– Não terem encontrado o corpo dele não é prova de que ele esteja vivo – ele comentou cabisbaixo.
Coloquei as mãos nos bolsos e caminhei preguiçosamente pelo quarto até ficar na frente dele. Segurei seu cabelo, como sempre desarrumado, e puxei fazendo–o olhar pra mim.
Ele ficou assustado por um segundo, então sorri – pense pelo lado positivo, Bacon evoluiu. Eu sinceramente não esperava por aquela.
Tive quase certeza que vi seus olhos se encherem de luz. A mesma luz da evolução. Sua expressão se tornou mais calma então ele sorriu, talvez forçadamente, mas já era um começo. – Você vai comigo a exposição? – Ele perguntou passando a mão no cabelo depois de eu tê-lo soltado.
– Imagino que deveria, te deixo sozinho por um instante e você assedia uma garota e coloca fogo em bicicletas e bares alheios. Don Juan – Ironizei pegando minha toalha e algumas peças de roupa amassadas da minha bolsa.
Ele pareceu se desanimar novamente o que acabou me deixando irritada. Peguei o objeto vermelho e branco do meu bolso e depois de apertar o botão fazendo-o aumentar de tamanho o arremessei.
O raio de luz vermelho deixou Leaf no chão. A Pokémon se orientou depressa e fez algo como um cumprimento, emitindo seu típico barulho estranho. – Se ele ficar com essa cara quero que você use o Vine Whip e o enforque, entendeu? – Ordenei tentando deixar minha voz com o tom mais autoritário que pude.
Deedee pareceu se assustar e deu um pulo, parando em cima da cama de olhos arregalados – Haila... não – o ouvi dizer enquanto fechava a porta atrás de mim.
Não que eu esperasse que Leaf fosse mesmo me obedecer. Ou mesmo que Deedee fosse continuar deprimido com o desaparecimento do homem do restaurante. Mas quando sai do banheiro pronta para a exposição e me deparei com Deedee pendurado de cabeça pra baixo pelos chicotes de Leaf eu não consegui conter o choque e a gargalhada.
Ele cruzou os braços fazendo uma careta e Leaf não pode mais conter seu peso, deixando-o cair com força sobre a cama que rangeu. – Isso era mesmo necessário? – Ele perguntou meio desolado.
– Vamos – o chamei enquanto terminava de prender a trança que havia feito no cabelo. Ele saltou da cama e encarou Leaf meio temeroso – como Bacon está? Depois te dou o dinheiro do Potion, ok.
– Ele está bem, aquela coisa o curou bastante – ele respondeu olhando para a mochila dele, provavelmente onde estava a Pokéball – Ainda não me acostumei a nova forma dele, sabe – ele comentou, depois voltou a me encarar com uma expressão melhor. – E não precisa, eu estava te devendo – ele me respondeu enquanto íamos em direção ao corredor – não me lembrava que o Centro Pokémon era tão longe.
– Centro Pokémon – repeti baixinho. Quase duas semanas haviam se passado desde chegamos a Castelia City, mas parecia ter se passado muito mais tempo.
Deedee me encarou curioso, mas se manteve quieto enquanto caminhávamos em direção à galeria. Então algumas lembranças me vieram à cabeça, Lenora havia sido assaltada e agora esse cara havia aparecido do nada falando sobre o Team Plasma.
Dois anos atrás, quando rumores de que o Team Plasma havia capturado um Pokémon lendário e o usado para congelar uma cidade tudo me parecia muito distante e surreal. Em Nuvema, os dias sempre se passaram devagar, nunca, nem mesmo em tempos de crise tivemos participação direta com os acontecimentos do resto da região.
– Você acha que Burgh estava certo? – Perguntei a Deedee quando finalmente podíamos ver o prédio da galeria surgindo a nossa frente. – Quero dizer, sobre o Team Plasma?
Deedee demorou um pouco a responder e então olhou pra mim com uma expressão indecifrável – eu sei o que ouvi, mas ele é um líder de ginásio. Se não pudermos confiar neles, confiaremos em quem?
Dei de ombros e olhei para o vestido que estava usando. Ele era branco com pequenas flores coloridas. Uma coisa bem primaveril e chamativa. Não era nada meu estilo.
Minha mãe o havia comprado algumas semanas antes. Dei uma risada e contive o máximo que pude a expressão deprimente que havia tomado conta de mim. Deedee me olhou e quando percebi que ele iria me questionar sorri. Um sorriso largo e falso. – Espero que sua namorada esteja de bom humor hoje.
As maçãs do rosto dele foram tomadas por uma leve cor rubra, o que me fez sorrir de verdade desta vez.
Assim que entramos na galeria nos deparamos com a garota do vestido amarelo, para máxima ficção da cor no rosto do garoto. – Oi – eu disse com um sorriso debochado e ela me respondeu séria e fria.
–Você esta atrasado – informou a Deedee que pareceu desapontado. Deu dois passos largos e colocou seu braço por entre o dele puxando-o com força – precisamos de você, depressa.
Fiquei olhando enquanto os dois desapareciam em meio aos quadros de arte me deixando sozinha. Passei as mãos pelo rosto frustrada e calculei quanto tédio poderia sentir. Comecei então a procurar, inutilmente qualquer lugar onde eu pudesse me sentar.
Mas ainda para meu azar dei de cara com Burgh que acompanhava os últimos detalhes da exposição de perto. Quando ele me viu fingiu automaticamente surpresa, suspirando alto e cobrindo a boca com a mão. Bem másculo, como sempre.
– Minha querida, como está? – Ele perguntou cordialmente, sendo acompanhado por seus discípulos.
Fiz uma breve mesura e pensei em sair correndo dali, mas antes que pudesse fazê-lo Deedee ressurgiu com sua namoradinha. Os dois carregavam dois grandes vasos com tulipas brancas pela sala. Burgh as viu e seus olhos se arregalaram. O quanto alguém pode ser teatral?
– Não nesse canto – ele pediu parecendo chocado – Clarice, por favor.
Os dois pararam de súbito e encararam Burgh desorientados. Ele correu até eles e em um instante esticando suas enormes pernas finas os alcançou. Agarrou os vasos envolvendo-os com os braços e atravessou a galeria quase por completo deixando-os perto de um quadro abstrato, bastante colorido.
Tentei imaginar que diferença fazia, enquanto os três discípulos o encaravam de olhos fixos e curiosos.
Uma hora e meia depois as portas foram abertas e uma a uma, pessoa vestidas com muita elegância preencheram o local. Não de som, como no museu de Lenora. Estranhamento o ambiente nos fazia cochichar sem perceber. Como se fosse algum lugar mítico ou sagrado.
Me ative a andar atrás de Deedee enquanto ele cuidava de pequenos detalhes como ajustar um vaso, acertar um quadro na parede e suportar os pedidos frescos de Burgh, que não parecia suficientemente satisfeito com os canapês servidos.
Por longas, torturantes, quatro horas continuei ali, até que por fim pessoas pararam de chegar e as demais a ir embora. Perambulei em dado momento por um corredor e encontrei inexplicavelmente a porta para a arena de batalha aberta.
Olhei para trás rápido esperando que Clarice estivesse pronta pra me tirar dali com um grito, mas não vi ninguém. Então entrei. Metade das luzes estavam acessas e o brilho amarelo dos falsos favos de mel presos ao teto trouxeram um ar aconchegante e terno ao lugar.
Caminhei melancolicamente até o centro do tablado e olhei em volta me lembrando da derrota quase, se não totalmente, humilhante de uma semana atrás. Desde então vinha treinando, mas aquela Vespiqueen, tanto quanto aquele Krokodile da noite anterior ainda pareciam um desafio distante de ser alcançado.
Me perguntei se Jaden havia se sentido como eu. Se a saudade de casa e o medo continuavam com ele constantemente como comigo.
Voltei em direção à porta e me encostei na parede, deixando meu corpo escorregar até que eu estivesse sentada no chão. Me senti de repente exausta e minhas pálpebras se tornaram pesadas como chumbo. Então não sei quando cai no sono, apenas sei que acordei com a mão de Burgh sobre meu ombro.
– Posso me sentar com você? – Ele pediu já se sentando. Me assustei a princípio, mas o sono e lentidão me impediram de ter qualquer reação agressiva. Sorte dele. – Haila – ele me chamou depois de alguns minutos constrangedores – por que desistiu de nossa batalha?
A pergunta me pegou de surpresa – porque eu não tinha capacidade para vencê-la.
– As lutas de ginásio não servem apenas para os lideres avaliarem os treinadores, mas também para que eles passem por estilos variados de batalha – ele começou, não parecia o Burgh dono de uma galeria. Ele estava se portando com o orgulho de um líder de ginásio. – Focar em um único tipo força os treinadores a criar estratégias, desenvolver seu próprio modo de pensar em batalha. Talvez você devesse ter usado outros tipos de Pokémon ao invés de entrar numa batalha com tipos desvantajosos.
Suspirei e decidi contar a verdade – eu só tenho aqueles dois Pokémon. Eu não tinha mais nenhum para poder usar.
– E porque tipos planta? – Ele quis saber.
Dei de ombros e perguntei bocejando – e você não deveria estar em uma exposição de arte?
Fui seguida por Burgh que passou a mão com força pelos cabelos cacheados e pestanejou lentamente – estive, horas atrás. December estava atrás de você. – O susto dessa vez teve mais impacto, me levantei depressa e perguntei quase gritando que horas eram e ele me respondeu que quase eram sete.
– Tenho que ir – arrisquei enquanto caminhava meio zonza em direção à porta. Quando finalmente alcancei a maçanete olhei pra trás e encontrei o olhar de Burgh – e desculpe-me por dormir na sua...
– Desculpada – ele respondeu olhando para frente com um sorriso engraçado no rosto. Não o afetado de sempre, algo mais sentimental eu diria. Então vi enquanto ele abaixava a cabeça e fechava os olhos.
Essa imagem permaneceu na minha mente enquanto eu saia da galeria vazia e caminhava sob as luzes amareladas dos potes até finalmente chegar ao hotel. Subi as escadas depressa e ofegante cheguei ao nosso quarto.
Deedee estava lendo o livro de sua mãe enquanto Bacon se encolhia sobre os lençóis, com seu rapinho torcido empinado para cima. – Onde você esteve? – Ele perguntou nervosamente quando me viu.
Me joguei na cama abrindo os braços e suspirei – estava dormindo no chão da galeria.
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas no fim acabou desistindo, apenas deixou uma onomatopeia escapar, “hum”, voltando logo sua atenção para as páginas brancas.
Estranhei de cara a situação, Deedee sempre perguntava mais do que devia. Foi inevitável olhar suas feições enquanto ele lia. Vi seus olhos se mexendo de um lado para outro enquanto ele buscava as palavras. Ele até que era bonito, a sua maneira não Tom de ser.
Até que por fim, depois de um suspiro, ele disse – Burgh e eu conversamos hoje.
– Sério? – Perguntei com um tom meio irônico – isso pra mim é novidade.
– Ele me disse que haverá um novo Contest em Nimbasa City dentro de algumas semanas.
Então eu finalmente entendi. Deedee estava indo embora. Senti um aperto no peito imediatamente. Algo inesperado e forte. No entanto apenas respondi – entendo.
O rabinho enroscado de Bacon se balançou e ele ergueu a cabeça depressa como se houvesse se assustado com algo. Seus olhinhos estavam molhados provavelmente pelo sono. Dei um sorriso contido e tive vontade de ir abraçá-lo, infelizmente, eu não era esse tipo de garota.
– Você vai quando? – Perguntei enquanto tirava o tênis. Eu estava exausta e tudo o que eu queria era receber uma noticia dessas.
Ele me encarou por um tempo e depois de espremer os olhinhos e erguer a sobrancelha de um modo meio infantil ele me soltou um grande e despretensioso – não sei.
Contive o sorriso e me armei com minha expressão carrancuda. Alguém precisava colocar alguma coisa na cabeça desse garoto – que tipo de coordenador não participa de Contests?
Ele ergueu o livro e o balançou – parece que, segundo isso aqui – ele comentou desanimado – nenhum. – Meus gritos motivacionais pareceram não ter surtido muito efeito sobre ele de qualquer forma.
Busquei o livro que havia ganhado de Lenora nas minhas coisas e me aprofundei o máximo que pude na leitura, mas um monte de pequenas coisas estavam me incomodando. O roubo de Lenora, o ataque da noite anterior, a expressão de Burgh e agora a partida não datada de Deedee.
Ficamos em silêncio um bom tempo, até que não suportei mais a situação e pedi o Xtransceiver dele emprestado. Ele me olhou com estranheza e depois de não aguentar mais acabou perguntando – porque você não usa o seu?
– Eu vou pegar a Pokéball de Leaf – resmunguei e vi a expressão dele mudar por um segundo de estranheza para pavor. – Eu sei, parece estranho, mas quantas vezes você me viu com um?
Ele deu de ombros e se esticou na cama até chegar a sua mochila no chão e pegar o objeto, me entregando por fim. Pensei em me levantar e ligar do lado de fora, mas estava tão cansada que mal podia ficar de pé.
Já havia decorado os números, depois de olhá-los tantas vezes era inevitável. Assim que coloquei o aparelho no pulso e disquei ele atendeu. Nem sequer demorou dois toques.
Tom estava em um lugar bastante iluminado, meu coração deu um salto assim que o vi surgindo naquela minúscula telinha. – Olá – ele disse curioso, depois abriu um enorme sorriso e estragou o clima dizendo – Elisa. Achei que nunca me ligaria.
Deedee que havia voltado a pegar seu livro olhou sobre o mesmo com uma expressão assustada, como se ele imaginasse que eu atravessaria o aparelho e surraria quem errou meu nome. Minha vontade era essa.
– Meu nome é...
– Haila – ele me interrompeu – eu sei, mas gosto de te ver nervosa.
Acabei, mesmo sem querer, sorrindo. O que estragou totalmente meu plano de parecer ameaçadora. – Fiquei sabendo o que aconteceu com Lenora.
– Kara me disse que vocês se encontraram no ginásio – é claro, a vadia não iria perder a oportunidade – conseguiu aquela insígnia?
Dei um sorriso torto, agora realmente cheio de raiva e mudei de assunto – alguém se machucou?
Ele moveu o braço bruscamente e pareceu estar se sentando em uma cadeira. – Não, foi coisa de profissional. Aparentemente invadiram o Museu à noite e levaram o livro sem que ninguém notasse.
Deedee a essas alturas já havia perdido o completo interesse pelo livro e me olhava curioso. Desviei meu olhar apenas por um segundo pra ele e depois voltei a encarar Tom. – Menos mal, eu acho.
– Você ainda continua em Castelia? – Ele me perguntou sendo charmoso, ou era apenas uma das facetas dele, não dava mais pra dizer. Infelizmente, ou talvez felizmente, ele namorava e eu também não era esse tipo de garota.
Balancei a cabeça positivamente e desliguei. – Se ele ligar – disse entregando o dispostivo para Deedee – não atenda.
– Mas...
– Só não atenda – ele balançou a cabeça positivamente e foi guardar o objeto.
A manhã seguinte foi muito tranquila. Deedee não trabalhava mais para Burgh e eu, por causa dele, estava desempregada. Fomos a uma lanchonete melhor, depois que fiz Deedee prometer que não botaria fogo nela. Mais tarde fomos ao Centro Pokémon comprar as últimas coisas que ele precisaria para a viagem, como Potions, Pokéballs e Pokéblocos.
Ele especialmente não parecia muito animado com a partida, o que tornou tudo mais difícil ainda. Depois de quase duas semanas dividindo o quarto com o garoto era meio difícil não se apegar a ele.
Enquanto dávamos uma volta pelo porto, uma das poucas oportunidades que tivemos, aproveitei para olhar para o mar. Mesmo tão longe, ele conseguia parecer o mesmo. A vista, depois de tirar os navios de cruzeiro é claro, era a mesma de casa.
– Acho que já tenho tudo – ele soltou chamando minha atenção. Balancei a cabeça positivamente e olhei para a sacola na mão dele. Muito mais do que aquilo deixaria sua mochila muito pesada. – Você acha mesmo que eu devo ir amanhã?
– Daqui até Nimbasa City é um caminho meio longo – comentei como se realmente soubesse.
– Vem comigo – ele disse baixinho. Eu o encarei e parei de andar, sendo seguida por ele automaticamente. – Se quiser sabe.
– Acho que você vai precisar de uma orientadora. – respondi com um sorriso crescente no rosto. Vi o rosto dele se encher de luz de novo e toda aquela angustia, que eu não sabia estar sentindo pareceu desaparecer.
Por pouco tempo infelizmente. Coincidentemente, atrás de Deedee, preso a um poste, estava meu rosto em uma plaquinha de “Desaparecida”. Minha expressão se encheu de pânico no mesmo instante. – O que aconteceu? – Ele perguntou se virando.
Segurei seus ombros e quase gritei – nada, temos que ir. – Agarrei seu braço e comecei a puxá-lo para o outro lado da rua. Quase fomos atropelados, mas ainda sim seria melhor do que ser pega.
O peito do Deedee estava subindo e descendo depressa, ele me olhou apavorado e exclamou – calma.
Passei a mão pelo cabelo e suspirei. Eu já havia me perguntado algumas vezes como me sentiria se isso acontecesse. A resposta era, nada bem.
=8=
Fiz questão de tirar Deedee da cama bem cedo no outro dia. O sol mal havia se erguido e eu já estava terminando o banho. Ele estava sentado na cama de olhos meio fechados e bochechas infladas.
– Pronto? – Perguntei agarrando minha bolsa sobre o criado-mudo, a jogando no ombro.
Ele se levantou meio zonzo e agarrou a mochila – isso era mesmo necessário? Odeio acordar essa hora.
– A floresta depois de Nimbasa é bem grande e em seguida entraremos em uma rota de deserto – expliquei ansiosa.
Deedee, todo envolvido, fez questão de se despedir de todos na galeria antes que pudéssemos voltar pra casa no dia anterior, desaparecendo novamente e me deixando sozinha e mal-humorada, perto daquelas obras incompreensíveis de Burgh. Por sorte, não vi nenhuma placa grudada a nenhum outro poste pelo caminho. O que não diminuiu muito meu medo. Se aquilo estava nos postes, provavelmente a policia também havia sido avisada.
Depois disso, eu sequer havia pregado o olho durante a noite. Meus olhos ardiam e por mais que eu já tivesse escovado os dentes minha boca continuava com um gosto estranho. Talvez ferro, pois inconscientemente eu havia mordido meu lábio inferior causando um pequeno corte.
Atravessamos a cidade antes de o sol estar muito alto. Foi estranho ver os enormes prédios perdendo altura e aos poucos sendo substituídos por pequenas casas e estabelecimentos. O volume de pessoas também caia enquanto atravessávamos os bairros, seguindo a rua principal em direção à rodovia.
Quando vimos finalmente à placa que demarcava a saída da cidade Deedee coçou a cabeça, ainda meio sonolento e me perguntou – você tem certeza sobre esse trajeto?
– A menos que você queira arriscar pedindo carona, ou andando duas semanas na rodovia.
– Mas você não... – tentou questionar. O fuzilei com o olhar e o vi congelar. Havia sido sem querer, mas Leaf tê-lo pendurado de cabeça pra baixo havia deixado Deedee afiado, do jeito que eu gostava.
Encontramos a trilha, aparentemente famosa na região, próxima a primeira curva acentuada da rodovia, então adentramos pela floresta de árvores baixas. Ele tinha razão de certa forma ao dizer que eu não conhecia a região. Se fosse isso que ele ia dizer.
As árvores e o relevo eram bem diferentes naquela parte de Unova. O clima era mais seco e as arvores baixas e contorcidas. Não como as florestas próximas a Nuvema, onde havia tanta abundância de sombra e riachos.
Talvez por isso, nossas primeiras horas de caminhada haviam sido difíceis e cansativas. O sol ganhou força com o passar da tarde e agradeci por nossas garrafas de água serem térmicas. Tive vontade de soltar Leaf, mas a ideia dela debaixo daquele sol não me animou.
O mapa e as informações que busquei na noite anterior não estavam ajudando. Não haviam grandes montanhas onde eu pudesse me orientar e a trilha por vezes desaparecia, sendo substituída por grama amarelada e seca ou simplesmente um rastro de terra batida e areia.
– É impressão minha ou nós já passamos por aqui? – Deedee perguntou enquanto andava atrás de mim.
– Não – respondi seca sem ao menos me virar. Eu poderia muito bem nos levar até a cidade mais próxima, Deedee tinha que confiar em mim.
– Haila – ele me chamou mais uma vez. Então me virei e o vi apontando para o chão com uma expressão assustada. Lá estavam nossas pegadas, mas não só dois pares, mas várias idênticas.
– Estamos perdidos – afirmei erguendo os braços para o alto, os soltando em seguida pesadamente. Chutei a terra sob meus pés e segurei a língua, porque Arceus sabe o quanto eu gostaria de xingar.
Deedee passou a mão pelo cabelo e mordeu o lábio inferior. – Acho que tenho uma ideia.
– Como colocar fogo em alguma coisa? – Perguntei com a voz carregada de raiva. Deedee me encarou meio assustado e se manteve calado olhando pro nada. Então a realidade bateu na minha cara.
Eu tinha dado a ideia, eu tinha nos enfiado nessa e eu estava sendo novamente uma idiota com Deedee à toa.
Caminhei um pouco chegando até um montinho de terra mais elevado e olhei para o horizonte. Castelia já não deixava mais nenhum vestígio e a frente de nós, apenas uma planície interminável se estendia. Algumas árvores mais altas, mas tudo irracionalmente parecia igual.
– O que você tem em mente? – Perguntei quando ele finalmente me alcançou.
– Eu não me lembro onde vi isso, mas acho que Bacon pode ajudar – ele comentou tirando um dos braços da mochila, deixando que ela pendesse no ombro contrario. Depois encontrou a Pokéball de Bacon e a lançou para frente.
Bacon surgiu em seguida com seu rabinho engraçadinho, olhou em volta, depois pra Deedee e só então pra mim. Ele parecia uma bola com pernas rechonchudas – Bacon, precisamos encontrar a trilha, conto com você – informou Deedee para o suíno que guinchou concordando e depois de cheirar o ar partiu em uma caminhada frenética.
Franzi o cenho quando Deedee começou a correr atrás dele. Aquela era nossa melhor opção no momento de qualquer forma.
Caminhamos por mais alguns minutos. Passamos uma extensa região de árvores contorcidas e por fim Bacon nos deixou em uma trilha mais ampla, onde o chão não era tão desforme e não haviam galhos para desviar.
Deedee se inclinou e passou a mão na cabeça de Bacon como agradecimento, deixando o Pokémon com um ar bastante satisfeito. Então caminhei até eles e me abaixei, ficando abaixo do olhar do roliço.
– Obrigada, você foi genial – seus olhinhos pareceram brilhar e eu não consegui segurar o sorriso. – Quanto a você – disse me voltando para Deedee – tenho que te pedir desculpas. Você tem sido incrível.
Deedee pareceu ficar confuso de novo e perguntou – Desculpa pelo quê?
Revirei os olhos e dei um empurrão nele. Ele pareceu ficar mais desorientado ainda, então o abracei fazendo o garoto ficar rijo. Quando o soltei apenas disse – por nada, incendiário – fazendo-o apenas arfar.
Que tipo de surpresas ele ainda guardava?
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