Rota Zero
73 Doce Apatia
Notas iniciais
December
DOCE APATIA
— ... e então foi isso que aconteceu – conclui, enfiando as mãos no bolso da calça surrada.
— E você veio até aqui para me contar isso? – A voz de Dan ecoou pelo quarto escuro. Apesar dos primeiros raios de sol que tentavam ultrapassar as nuvens grandes entrarem através das persianas da janela, o quarto ainda estava mergulhado em escuridão.
Eu tinha narrados os eventos do hotel, da chegada da Team Plasma ao sequestro de Haila, mas sem inflexão ou sentimento, como se estivesse contando a um amigo o resumo de um filme que vira na televisão.
— Vocês são amigos, não? – E minha voz saia tão automática e irreal que parecia que alguém falava através de mim.
— Eu e a pidovezinha? – Deu uma risada exagerada. – Certamente me importo mais com uma pedra do que com ela – completou mordaz. Mas por mais agressiva que suas palavras fossem, seu tom não o seguia.
Encarei o dia lá fora através das fitas da persiana. Amanhecia rápido, mas o sol não ganhava destaque. Ainda nevava, e os flocos brancos e puros desciam rodopiando pelo céu, tentando ocultar a sujeira e sangue da noite anterior.
— Você é bom – disse ainda encarando a vista sem graça do hospital. Senti os olhos de Dan faiscarem na minha direção.
— O que quer dizer?
— Você prometeu ao Clay que nos manteria seguros, e cá estávamos todos inteiros – voltei e encarei-o.
— Diga por você – e mexeu o cotoco que restara do braço.
— De qualquer forma eu não pude mantê-los seguros – encostei na parede do quarto, perto da porta.
— E desde quando isso é sua responsabilidade?
— Eu sou o mais velho, automaticamente isso é minha responsabilidade.
— Se é sua responsabilidade – e me analisou de cima a baixo como se pudesse extrair uma resposta dessa análise – você não deveria estar atrás da Team Plasma resgatando sua donzela? – As sobrancelhas se arquearam, pontuando a provocação.
— Sim, eu deveria – respondi simplesmente.
O silêncio desceu no quarto. Dan se apoiou nos travesseiros e virou a cara para o outro lado, sinal que eu deveria deixa-lo em paz. Fiz uma pequena mesura e me retirei do dormitório.
Sai para o corredor que estava cheio, pessoas iam e vinham com os mais variados tipos de ferimentos. Muita gente estava ali por causa do ataque ao hotel e a sala de espera estava cheia de pessoas ansiosas por notícias de parentes.
Me sentei em um banco ao lado da Lila, ela estava encolhida e chorava copiosamente, não sabia se por Desmond ou Haila, mas imaginava que por ambos.
Encarei o teto branco e iluminado e podia ouvir o zumbir do resistor da lâmpada que vez ou outra oscilava, quase imperceptível. Era uma diversão boba, mas aquilo era o suficiente para me consumir.
Eu deveria estar chorando, histérico e desesperado porque a Team Plasma tinha levado Haila. Jaden a tinha levado, mas eu não conseguia sentir nada dessas coisas. Não que eu não me importasse, longe disso, mas era muito para eu processar. Parecia fora da minha realidade, como se não tivesse acontecido realmente e como se em segundos a porta do hospital fosse se abrir e Haila e Desmond apareceriam seguros e bem.
Eu tinha vivido coisas horríveis, tinha visto Draiden morrer nos meus braços, tinha segurado Dan enquanto Des amputava seu braço, tinha visto dois lendários se engalfinharem até as tripas de Keldeo colorirem o chão, tudo isso era mais do que Jaden levar Haila embora, sem feri-la, mas era diferente. De certa forma, antes, eu era apenas uma plateia para os acontecimentos. Eram coisas que aconteceriam mesmo se eu não estivesse lá, a Team Plasma ainda derrubaria a barragem ou iria atrás dos lendários, mesmo se eu estivesse no conforto da minha casa em Aspertia, mas com Haila era diferente.
Eu não conhecia Jaden e nem sabia como a Team Plasma realmente agia, mas eu sabia que ele não estava lá sob ordens de ninguém, ele estava lá por ela. E pela primeira vez a minha existência fazia diferença nessa equação. Se Haila e eu nunca tivéssemos nos encontrado, talvez ela estivesse de volta a Nuvema. Talvez se eu tivesse sido mais sensato, teria a impedido de ir até a barragem em Opelucid e Jaden nunca saberia seu paradeiro. Eu era menino e era mais velho, eu deveria ter cuidado dela, de todos na verdade.
Eu sabia que as coisas seriam diferentes agora, Haila não estava mais ali, Des poderia não estar se não saísse bem da cirurgia e algo dentro de Lila tinha se quebrado e ouvi-la chorar daquela forma me fazia ter certeza que não haveria mais sorrisos fáceis e piadas ingênuas.
No meio de tudo isso eu deveria estar sendo consumido por frustração e desespero. Deveria ter raiva, raiva de mim mesmo por não ter conseguido mantê-los seguros, mas eu só conseguia me sentir atordoado e ausente, como se simplesmente tivesse aceitado a culpa que me coubesse.
— Se você ainda está pensando nisso, você já sabe a resposta – meu olhar deslizou da lâmpada e encarou o rosto cansado e surrado a minha frente. O cabelo branco cheio de fuligem e sangue seco adornava a sobrancelha clara.
Roxie enfiou um copo de café fumegante em minhas mãos e ofereceu outro para Lila, que aceitou com um gemido. Ela tinha ido até a cafeteria do hospital pegar algo para comer.
— Você sabe que é uma ideia estúpida – complementou.
— Não estava pensando em nada – respondi verdadeiramente.
— Eu sei o que você está pensando – se sentou na cadeira diante de mim.
— Você não sabe – e saiu tão alto e forte que a voz ecoou pela sala de espera e o choro de Lila cessou por um minuto.
A líder deu um suspiro e apoiou o rosto na mão, me encarando. Roxie sabia muito sobre mim, mas não sabia como eu me sentia porque nem eu mesmo tinha certeza do que sentia ou de como eu deveria me sentir.
Havia fogo, pessoas desesperadas, Pokémon e uniformes pretos por todo o lado, uma gritaria e barulheira infernal capaz de atordoar, e de repente, não havia mais nada. As chamas tinham diminuído até quase apagarem, os civis não eram mais visíveis em todos os cantos, os Pokémon tinham voltado para suas Pokéball e os uniformes pretos tinham sumido, e com eles, Haila. O silêncio se instaurou, junto com a neve que caia e cobria os rastros de destruição.
Eu estava cansado, assustado e sujo. A bandagem do meu braço tinha caído e as queimaduras em contato com os flocos de neve que derretiam ao tocarem meu braço me davam uma sensação de vazio e solidão. Estava frio, e eu estava apenas com a camiseta do pijama. Meus dedos estavam azulados, assim como meus lábios, mas meu corpo tinha desligado esse tipo de percepção.
Peach estava caída, desacordada, a neve se acumulava na pelagem de cor diferente e ela parecia um boneco de neve caído. Eu não sabia se ela estava bem, mas a retornei para a Pokéball. Só então percebi Skyla ao meu lado, o cabelo solto e bagunçado, um grosso cobertor nos braços. Lila estava adormecida dentro dele, ela parecia bem.
Cheren e Cilan estavam abaixados ao lado de um montinho no lado esquerdo do prédio. O líder de Aspertia falava muito alto no Xtransceiver, enquanto Cilan parecia fazer algum tipo de procedimento de emergência. O montinho era Desmond, eu não sabia se ele estava morto, mas certamente não estava bem. A mancha de sangue na parede do hotel escorria lentamente, aquilo a neve não conseguiria apagar.
Quando as sirenes se fizeram presentes e as luzes dos giroflex coloriram a neve que acumulava de vermelho e azul, meus joelhos cederam e fui ao chão. Era como um vento gelado soprando diretamente sobre mim e me trazendo para a realidade. Eu tinha perdido Haila e talvez perdesse Desmond. Eu tinha colocado Peach em perigo e tinha sido inútil quando a Team Plasma invadiu nosso quarto. Eu tinha tentado protegê-los na clareira da floresta e tinha fracassado em proteger a mim mesmo, mas agora, eu não tivera força nem de reação, eu tinha sido invisível e inútil e aquilo iria me consumir pelo resto da vida. Estava frustrado e com medo, e raiva, mas não do Jaden ou da Team Plasma, mas de mim por ser totalmente irrelevante.
Me levantei e deixei meus pés marcharem sobre a neve que derretia, andando cegamente para lugar algum. Eu precisava recuperar Haila, precisava. Não sabia como, mas iria achar um jeito. Não sabia para onde tinham ido, mas eu não poderia perder tempo me recuperando e pensando, eu precisava agir.
Senti alguém me puxar pelo braço: Cheren.
— Aonde você vai?
— Haila – respondi automaticamente. E me virei para continuar andando, mas ele me segurou.
— Deedee...
— Eu preciso salvar a Haila – puxei o braço. Mas ele aumentou o aperto, me impedindo.
— Você não pode ir contra a Team Plasma, não desse jeito, você nem tem Pokémon aptos para batalha – protestou com razão.
— Eu não tenho tempo – puxei o braço, mas ele não cedeu. Eu não tinha tempo, quanto mais eu demorasse, mais longe Haila estaria e mais frio o rastro dela ficaria.
— Você vai morrer se fizer isso.
— Eu não... Haila vai morrer se eu não fizer nada – e senti lágrimas queimarem atrás dos meus olhos. Jaden era irmão dela, mas eu não fazia ideia do que ele estava pensando ou do que era capaz.
— Fique calmo – ele tentava ser o mais sereno que conseguia no momento – nós vamos salvá-la – e tentou esboçar um sorriso.
— Como fizeram com a Lenora? – saiu sem querer, mas eu não estava realmente me importando. Tudo que eu queria era pegar minha mochila e ir atrás da Haila, fazer algo e não apenas ficar e esperar. Eu queria ser útil.
— Deedee – e a voz dele saiu mais agressiva dessa vez. – Você tem que entender que as coisas não funcionam assim...
Eu sabia que ele estava chateado por Lenora ter sido jogada na história, mas eu também estava. Era da Haila que estávamos falando. E agora eu entendia perfeitamente como ela se sentia diante da inércia para encontrarem a ex-líder. Eu não ia deixar que o sequestro de Haila fosse só mais um, esquecido no meio do horror que a Team Plasma propagava.
— Você não se importa com a Haila – e eu estava gritando tão alto que os sons das sirenes pareciam abafados. – Para você tanto faz o que aconteça com ela – eu sentia meu sangue ferver e queria socar a cara dele já que Jaden não estava ali. – Mas eu me importo com ela – e puxei o braço com tanta força que finalmente ele me soltou. – Eu vou atrás dela, com ou sem a sua ajuda – bufei e sai batendo os pés na neve.
— December – ele chamou e tinha muita raiva carregada na voz e foi a última coisa que eu ouvi, antes dele fechar o punho e me apagar com um soco.
Em algum momento, eu acordei e já estava no hospital, ainda era a mesma noite. Eu estava no ambulatório, com uma enfermeira que se esforçava para ser simpática enfaixando meu braço novamente, ela fazia depressa, pois precisava atender outros pacientes. Antes de me mandar embora, me deu um comprimido para dor e um sorriso afável. Enquanto isso, Desmond tinha ido direto para sala de cirurgia e Lila estava na sala de espera.
Skyla, Cheren e Cilan tinham se reunido com as autoridades locais para saber a gravidade do ataque e preparar a cidade. Roxie deveria estar com eles, mas tinha ido direto ao hospital. Eu sabia que ela estava lá para evitar que eu fizesse alguma estupidez ou fosse atrás da Haila, mas seja lá o que a enfermeira tivesse me dado, eu estava em um estado letárgico, como se tudo não passasse de uma piada de mau gosto.
Eu não sabia por que tinha ido falar com Dan. Talvez porque o choro ininterrupto de Lila estivesse me irritando e tentando me trazer para uma realidade a qual eu parecia alheio, talvez porque quisesse falar com alguém que não tivesse pena da minha situação, talvez porque apenas estava no hospital. Ter falado com ele não fez eu me sentir melhor, nem pior, nem diferente, mas me fez ver claramente que apesar da idade, eu não tinha responsabilidade nenhuma sobre mim, menos ainda sobre os outros. E isso, entre tantas outras coisas, se somava aos meus fracassos.
– Você sabe que a Haila é durona – Roxie me puxou de volta das lembranças das últimas horas. Não disse nada, apenas desviei o olhar para o teto e a lâmpada amigável. Me lembrava da rockstar fazendo a loira prometer que iria cuidar de mim, e ela havia cumprido a promessa, mas eu nunca conseguiria retribuir isso.
Eu me perguntava onde Haila estaria e o que Jaden planejava para ela. Naquele dia, em Opelucid, ele parecia inclinado a recrutá-la, mas ela nunca aceitaria. Não depois do Simi, não depois de tudo. Mas ele não parecia o cara que tomaria um não como resposta e eu não fazia ideia de como ele reagiria quando ela o mandasse tomar naquele lugar, mas não seria nada bom.
— Nós vamos resgatá-la –disse firme, colocando a mão sobre o meu joelho.
— Como? – Meus olhos voltaram para a líder.
— Vamos fazer tudo para resgatá-la – os olhos brilharam em convicção. – Confie em mim.
Eu queria confiar, queria mesmo. Afinal era Roxie, ela tinha salvado nossa pele várias vezes e eu não duvidava das habilidades dela. Mas não podia negar que os líderes estavam levando a pior em relação a Team Plasma.
— Eu juro que vou encontrá-la – nós nos encaramos e finalmente algo quente acendeu no meu peito. E por um segundo, as emoções pareceram fluir violentamente para dentro de mim.
— Eu vou com você – disse rápido.
— Eu não acho que seja uma boa ideia – falou pausadamente.
— Mas é a Haila...
— Por isso mesmo – ela me cortou. – Você pode acabar virando um problema – não havia repreensão em seu tom. – Seus Pokémon não estão recuperados e você sabe que a Team Plasma não pega leve.
— Eu sei, mas...
— Acha que ele não usaria você para dobrar a Haila? Você é o ponto fraco dela. Você viu o que ele fez com o Desmond quando ele tentou interferir – só confirmei com a cabeça para provar que estava ouvindo. – Ele queria matar o garoto e não acho que ele vá falhar na próxima vez.
E não duvidava de que ela estivesse certa. Desmond tinha várias fraturas pelo corpo, principalmente no tórax e ainda estava na mesa de cirurgia. Nem os médicos sabiam dizer como ele tinha sobrevivido, mas mesmo que se recuperasse, certamente haveria sequelas.
— Mas você vai ficar bem sozinha? – Perguntei duvidoso.
— Claro, eu sou uma líder de ginásio – abriu um sorriso presunçoso e animador. – E eu sei me virar. – Clay e Draiden também eram.
— Mas como você vai encontrá-la? – Lila tinha parado de chorar e prestava atenção a nossa conversa.
— Eu tenho meus contatos – deu uma piscadela.
— Com a Team Plasma?
— Claro que não – e revirou os olhos – mas eu sou popular, conheço todo o tipo de gente. Certamente alguém terá alguma informação.
Eu tinha minhas dúvidas sobre isso, mas considerando que a Team Plasma era um grupo bem numeroso, realmente não deveria ser fácil se esconder. Mas havia ainda a parte que eles não tinham encontrado a Lenora e isso me incomodava, pois nada garantiria que encontrariam Haila.
— Então o que vou fazer? Sentar e esperar? – Cruzei os braços sobre o peito.
— Era o que eu gostaria que você fizesse – deu um muxoxo sabendo que eu não acataria. – Anville – curvei as sobrancelhas sem entender. – Era meu próximo destino se as coisas não tivessem ficado desse jeito.
— O que tem lá? – Lila perguntou com a cara enfiada no copo de café. A voz estava rouca e chorosa.
— Eu ia até lá falar com o professor Cedric Juniper.
— Juniper? Como a professora Juniper? – Lila questionou.
— É o pai dela. Ele é especialista em habitat, talvez saiba alguma coisa dos lendários – mas não havia muita esperança em sua voz. – Como é só informação, acho que não tem problemas vocês irem em meu lugar – deu ombros.
— Isso não é perigoso? – e a voz da menina saia receosa. – Da última vez que fomos apenas buscar informações, tinha um lendário lá.
— As pesquisas do Cheren apontam para o Victory Road, mas nunca se sabe, mesmo porque ele parou as pesquisas no meio para vir comigo para Icirrus – disse se ajeitando na cadeira. – De qualquer forma, Skyla deve ir até lá para investigar e eu iria até Anville, afinal mesmo que Cheren esteja certo, ainda restam dois lendários e não fazemos ideia de onde possa estar o último.
— Achei que Elesa não queria o envolvimento de civis – disse modorrento. Muita gente tinha se envolvido nisso, mas a líder elétrica era veemente contra pessoas comuns se envolverem nas questões referentes aos lendários, mesmo que isso acabasse não se aplicando de verdade.
— E ela é – inclinou a cabeça para o lado. – Cheren, Skyla e eu decidimos isso enquanto você estava no hospital. Então o que me diz? – Ela me encarou cansada, mas animada. – Eu vou atrás da Haila no seu lugar e você vai conversar com o professor Juniper por mim...
Eu não queria ir falar com velhote nenhum, queria ir atrás da Haila, saber que ela estava bem e segura. Mas eu não teria chances contra a Team Plasma. Antes disso eu tinha tido sorte e outras pessoas me ajudando. Roxie e Cheren nem me deixariam sair de Icirrus se soubessem que eu iria atrás dela. E ficar ali, vendo a neve derreter e Des lutar pela vida não me parecia uma opção, não para quem desesperadamente queria ser visível e útil.
— Certo – disse sem inflexão, porque não era o que eu queria. – Quando a encontrar, diga a Haila que eu lamento. – Lamentava por ter deixado que ela fosse raptada e por não ter forças para resgatá-la.
— Eu não preciso dizer nada. Ela sabe que se você não está lá para o resgate é porque não te deixamos ir – e deu um sorriso amplo, que contrastava com sua feição cansada e que me fez sentir um pouco melhor.
=8=
O dia já estava bem claro e adiantado e a televisão na sala de espera já tinha anunciado o ocorrido no hotel quando o médico apareceu dizendo que Des tinha saído da primeira cirurgia, que estava estável e que precisaria passar por outras para reparar todo o estrago. Ele tinha costelas fraturas, pulmões perfurados, além de outros órgãos rompidos.
Lila chorou horrores e chorou ainda mais quando ligou para avó do garoto para dar a notícia. Ele tinha sido movido para Unidade de Terapia Intensiva e nós não poderíamos vê-lo, de forma que só nos restou voltar ao hotel. Roxie tinha alugado um carro e nos levou até lá.
O local estava interditado sob risco de desabamento. Cada pessoa poderia entrar por cinco minutos para recuperar seus pertences. O elevador estava quebrado e subimos sete andares de escada. Havia desenhos de labaredas nas paredes e o forro do teto tinha caído. Tinha vidro e sujeira e tivemos que manobrar para alcançar os quartos.
Peguei minha mochila e joguei as coisas que estavam na escrivaninha dentro, sem me importar com os pedaços de vidro que vinham junto. Joguei minha mochila sobre um ombro e a de Desmond no outro, a câmera pendurada no pescoço. Eu não sabia o que fazer com as coisas dele.
Quando entrei no quarto das meninas, Lila tinha trocado de roupa e cuidadosamente dobrava o pijama de Haila antes de guarda-lo na mochila. Ela terminou de guardar as coisas e jogou as bolsas sobre os ombros.
— O que vai fazer? – Os olhos escuros me encararam. – Sobre a proposta da Roxie – ela complementou.
— Ir – falei sem emoção.
— Mas e Haila? Ela é nossa amiga e...
— E o que poderíamos fazer? – E aquela sensação de que alguém falava por mim voltou.
— Mas juntos nos poderíamos... – ela começou esperançosa, mas cortei.
— Eu não vou ver mais ninguém que eu me importo se machucar – mas saiu tão vazio que não parecia que eu realmente me importava com a segurança de Lila.
— Então, você vai para Anville? – Apenas confirmei com a cabeça.
— Eu não preciso que você vá, fique aqui e cuide do Desmond – frio e indiferente, como o dia lá fora, aquele não era eu. Os olhos se arregalaram e ficaram marejados.
— Eu não sei o que fazer – disse receosa. – Sei que o Des não precisa de mim nas atuais conjunturas, mas eu me sinto mal o deixando sozinho – Haila não estava ali, eu iria para Anville e os líderes seguiram com seus afazeres. A avó do garoto provavelmente viria vê-lo, mas não fazia ideia de quanto tempo isso demoraria, o que significaria que ele estaria só se Lila fosse para Anville.
— Você deveria ficar – disse incerto. Eu não gostava de viajar sozinho e desde que conhecera Haila isso nunca tinha acontecido. Quando ela não estivera ao meu lado, Roxie estava, mas eu não poderia pedir para Lila me seguir por puro egoísmo.
Icirrus era uma cidade pequena e pacta e se não fosse por Jaden surgir atrás de Haila, acredito que a Team Plasma nunca tivesse aparecido, de modo que a menina estaria mais segura ali do que vagando ao meu lado.
— Eu só queria ser mais útil – a voz saiu tremida e chorosa. – Se eu não tivesse sido capturada pelo Pokémon dele, Haila não seria chantageada. Se eu não fosse tão fraca... – lágrimas grossas escorriam pelo rosto cansado.
— Você não é fraca – cortei. – Se não fosse por você, que ficou na retaguarda nos protegendo, nunca teríamos saído da montanha. Você não poderia ir sozinha contra Jaden, nenhum de nós – e minha voz se quebrou. Eu queria que minhas palavras vazias a consolassem, eu queria que ao menos Lila fosse a mesma de sempre em meio aquele inferno.
— Você está certo – disse enquanto secava as lágrimas com a costa da mão. – Roxie vai encontrar Haila, você vai achar informações sobre o lendário e eu cuidarei do Desmond – disse convicta, esboçando um sorriso.
Tentei sorrir de volta, confirmando, mas os músculos do meu rosto se recusaram a mexer. Me virei para sair do quarto, mas a voz de Lila me parou .
— Está frio lá fora.
— O quê?
— Está frio lá fora – repetiu.
— Sim, eu sei – respondi mecanicamente, espiando por cima do ombro.
Ela jogou a própria mochila no chão e revirou rapidamente até tirar uma japona grossa. Então se aproximou e jogou-a sobre meus ombros.
— Prometa que irá ficar bem – os olhos pareciam ansiosos. Eu queria ter dito que sim, confirmado com a cabeça ou qualquer coisa, mas eu não sabia se ficaria bem, tinha quase certeza de que não. E eu não queria mentir para Lila.
Descemos e entramos no carro. Não sabia para onde Roxie estava me levando e não me importava. Eu só queria dormir e acordar fora daquela realidade. Ela manobrava com dificuldade no pavimento congelado e parou diante do Centro Pokémon.
Largamos as mochilas no carro e a seguimos por instinto. A calefação do Centro estava alta porque ficou muito quente após atravessarmos as portas de vidro. Cheren e Skyla estavam sentados em uma mesa ao fundo.
— Onde está Cilan? – Roxie questionou encarando os dois.
— Foi atrás da Haila – Skyla informou.
— Como assim? – as sobrancelhas brancas se curvaram.
— Disse que não poderia ficar sem fazer nada, pegou seus Pokémon e foi embora – Cheren deu de ombros. – Não é como se não tentássemos impedi-lo...
— Droga – e a rockstar socou a mesa atraindo a atenção para si. – Não tínhamos combinado de fazermos tudo planejado e juntos?
— Isso foi antes do que aconteceu – Skyla colocou uma mecha do cabelo vermelho atrás da orelha. Roxie revirou os olhos, provavelmente ela não esperava que Cilan fosse adiantar seus planos. – E o garoto? – Skyla questionou.
— Vai sobreviver – a albina comentou e presumi que falavam de Desmond.
— Ótimo – a líder voador completou sem inflexão. – O que vai fazer agora? – Mudou de assunto, encarando a líder venenosa.
— Ir atrás do Cilan e da Haila.
— Isso não é uma boa ideia – Cheren interviu.
— Não é, mas não posso deixar nas mãos dele. Ele é um ex-líder, mas está destreinado – ela puxou as mangas do grande sobretudo que usava. – Além disso, eu iria atrás da Haila de qualquer forma.
— Eu vou com você – Skyla ficou em pé.
— Nada disso – Roxie foi veemente. – Você vai para Victory Road como tínhamos combinado.
— Eu sou mais velha que você – a líder colocou as mãos na cintura – que vocês dois – e encarou Cheren que abria a boca para dizer algo e se calou.
— Exatamente por isso, se houver um lendário em Victory Road, a Team Plasma estará lá, você é mais forte e melhor preparada do que nós, se alguém vai dar conta, será você – a rockstar foi incisiva. – Aparentemente a ação de ontem foi algo isolado, tanto é que apenas o quarteirão do hotel foi destruído... – e se calou, tentando organizar as ideias. – Algo mais pessoal.
— O que quer dizer com isso? – a expressão de Skyla mudou para uma leve curiosidade.
— Claro que eles se tornaram alvos – Roxie desviou. Ela sabia que Jaden era irmão da Haila, mas não os outros líderes. – Se ele não conseguiu levar os dois, pegou ao menos um deles. – Parecia uma desculpa bem besta, já que Jaden não dera a mínima atenção a minha presença. Mas Skyla deveria estar muito cansada para raciocinar porque apenas concordou com um aceno de cabeça. – De qualquer forma, era um grupo pequeno e teve baixas, se os interceptarmos antes deles chegarem ao Dreidan, certeza que recuperaremos Haila.
Skyla cruzou os braços e acenou com a cabeça, não que estivesse realmente de acordo, mas estava convencida que aquela era a melhor forma.
— E quanto a Anville? – o líder Normal voltou à conversa.
— Eu já tenho alguém responsável por isso – e deu um sorriso antes de me dar uma discreta cotovelada.
Os olhos do líder me miraram por um instante antes de voltar para a garota.
— Eu não acho que seja uma boa ideia deixá-lo sozinho – as palavras dançaram no ar.
— Deedee prometeu não fazer nada de estúpido e deixou que eu cuidasse do caso da Haila – ela fez um sinal positivo com o dedo, muito confiante. – Não é mesmo? – E me encarou, mas eu só balancei a cabeça, sem saber o que responder.
— Mas se Deedee é um alvo como Haila, não seria seguro deixa-lo viajar sozinho – Skyla comentou perspicaz encarando meu cabelo cor de rosa. – Ele precisa ficar em um lugar seguro.
De certa forma, aquilo não era de todo errado, mesmo que Jaden não estivesse atrás de mim, certamente Morte ficaria feliz em arrancar a minha cabeça.
— Ainda existe um local seguro? – A líder venenosa inquiriu.
— Talvez Nimbasa – Skyla respondeu pensativa – Elesa está por lá – como se isso significasse muito, Nimbasa tinha sido atacada duas vezes com a líder lá.
— Mas alguém precisa ir para Anville, não? – finalmente minha voz saiu e preencheu o local. Tinha algo de estranho e fantasmagórico nela. – Vocês precisam da informação, eu posso fazer isso.
A verdade é que eu não estava minimamente animado, mas sentar e esperar não era algo que eu queria fazer. Se não poderia ir atrás de Haila, ao menos estaria fazendo algo útil.
— Na verdade, eu posso ir para Anville – Cheren tomou a palavra, cruzando as pernas embaixo da mesa. – Eu não preciso estar obrigatoriamente em Nimbasa...
— Péssima ideia – Skyla cortou encarando o líder. – Se você não voltar, Elesa vai ficar louca. Além disso, estamos fazendo tudo isso pelas costas dela, não é um bom momento deixa-la desconfiada.
— Mas...
— Elesa já ficou bem brava quando você saiu de Nimbasa para vir para cá sem motivos – Cheren não respondeu, apenas estreitou os olhos.
— Certo, mas eu não acho que seja uma boa ideia Deedee viajar sozinho – respondeu derrotado me lançando um olhar bastante significativo, como se tivesse certeza que eu fosse fazer algo bem idiota assim que eu saísse das vistas dele.
— Eu vou ficar bem – as palavras soaram lentas e irreais, era visível que ele não acreditava em mim.
No final foi decidido que Roxie iria atrás de Haila, Skyla para Victory Road, Lila ficaria em Icirrus e esperaria a avó de Desmond chegar à cidade, Cheren voltaria para Nimbasa e eu seguiria para Anville. Fizemos um desjejum bem sem graça na lanchonete dentro do Centro e logo após Roxie partiu no carro alugado. Não sem antes me passar um milhão de instruções e me pedir para ligar se algo desse errado.
Eu recuperei meus Pokémon no Centro, mesmo sob os protestos da enfermeira, que alegava que eles ainda não estavam totalmente recuperados. As Pokéball de Leaf, Serpio e Ling vieram a minha mão e eu não sabia como dizer a eles que não tinha protegido Haila o suficiente. Os enfiei no bolso, junto das minhas, uma hora eu teria coragem, mas não era agora. Lila pegou apenas um dos Psyduck, que já estava quase totalmente curado e deixou o outro e o Slowbro descansarem mais alguns dias.
O trem sairia à uma da tarde, me levando para Anville, mas enquanto o tempo corria devagar, Lila e eu ficamos no sofá do Centro Pokémon. No final, ela ficaria com os pertences de Des e a mochila da Haila, eu apenas levaria os Pokémon da loira comigo. . Ela tinha pegado a câmera do garoto e olhava as fotos do dia anterior, tiradas na cobertura do hotel, durante o aniversário da Haila.
Mesmo que os sorrisos fossem forçados, parecíamos felizes e despreocupados. Ela mudou a foto e Liepard apareceu cochilando em meio ao mato alto. Não sabia se era o de Desmond, mas a composição da foto era bonita e melancólica.
Uma lágrima escorreu pela face bronzeada de Lila e pingou no visor da câmera. Roxie tinha contado a ela o que tinha acontecido.
— Eu vou fazer um enterro para o Liepard, por Des – a voz feminina saiu chorosa. Eu não sabia o que tinha acontecido ao corpo do Liepard. Não era apenas ele tinha sucumbido, alguns Pokémon de civis e da Team Plasma tinham tombado, mas eu não sabia que fim eles tinham levado. Talvez estivessem em algum necrotério Pokémon esperando seus treinadores reclamarem os corpos. – Eu vou colocar flores brancas – disse finalizando – acho que Des gostaria assim.
— Se você precisar de algo – comecei – me ligue, que eu venho correndo.
— Eu vou ficar bem – e um pequeno sorriso fácil, como Lila sempre dava, surgiu no rosto redondo – eu sou forte, como você mesmo disse – e deu um soquinho no ar. Mesmo que fisicamente não transparecesse, aquilo me deixou um pouco mais aliviado. Minhas palavras vazias pareciam ter surtido efeito e Lila parecia bem melhor.
=8=
Meus passos ecoaram pela rua de paralelepípedo e eu quase escorreguei quando virei à esquina correndo. A mochila pesava nos ombros e o mapa que Roxie havia me dado, com rabiscos com caneta roxa e desenhos de Zubats nas bordas, estava amassado na mão.
Não demorou muito para eu perceber que tinha me metido em uma rua sem saída. Me virei apenas para ver Zoroark entrar pela única passagem. Ele não parecia tão grande quanto eu me lembrava, mas eu sabia que desta vez ele era real.
O maldito vinha me seguindo nos últimos quarteirões e agora bruxuleava ameaçador na minha direção. Levei a mão ao bolso, a procura de alguma Pokéball, incerto de se deveria ir para batalha. Se era o mesmo Zoroark, ele conseguiria rasgar minha garganta antes mesmo de eu dispensar um comando e, além disso, Dreidan estaria ali, que chances tinha eu contra a Team Plasma?
Dei um passo pra trás sentindo o alambrado que fechava minha passagem roçar contra minhas costas. Eu ouvia sons de crianças vindo da rua de trás, risos animados, quase histéricos. De repente, as palavras de Cheren faziam muito sentido: eu não deveria ter ido sozinho.
Eu tinha acabado de chegar a Anville. A cidade mais parecia um vilarejo com seu clima bucólico e semiabandonado. O lugar era pequeno, sem grandes instalações ou prédios. Havia muitas casas e as ruas ainda eram de paralelepípedos e cascalho batido. Não havia nenhuma construção com mais de dois andares, nem Centro Pokémon, e a instalação mais opulente era a Gear Station. Mesmo sendo o final da linha, era uma construção bonita em mármore preto que se destacava do restante simples.
Não nevava, mas parecia ainda mais frio ali do que em Icirrus. Ainda estava claro, mas não era realmente um dia iluminado. Puxei do bolso o mapa que Roxie me dera e bem, assim como ela fizera para Lentimas, era demasiado confuso e eu não sabia para onde seguir. Não havia pontos de referência e todas as casas eram pintadas iguais.
Andei por aproximadamente quatro quarteirões, sem encontrar nada para me localizar ou uma viva alma para me dar informação. Quando ouvi um barulho vindo de trás de uma caçamba, senti todos os pelos do corpo ficarem arrepiados. Por mais que eu soubesse que o ataque a Icirrus tinha sido algo isolado, a Team Plasma vinha se tornando cada vez mais ativa.
Então uma lata de tinta vazia caiu de cima da caçamba, rolando ruidosamente pela calçada e um Zoroark apareceu de trás dos entulhos. Ótimo momento para ter essas alucinações. Elas vinham se tornando cada vez mais ocasionais e a última tinha sido no meio do círculo de fogo em Twist Mountain, ou seja, não fazia tanto tempo assim.
O Pokémon deu um salto, parando a poucos metros de mim e instintivamente dei um passo para trás. Não havia mais ninguém ali, exatamente como acontecia toda vez que eu estava delirando. Zoroark que fez um barulho estranho com a garganta e avançou na minha direção. Aquilo não era real, eu não precisava me defender... Mas o som da lata rolando pela calçada ecoava nos meus ouvidos. Eu não me lembrava do Zoroark interagindo com coisas reais no meio das minhas alucinações, ou a lata também era coisa da minha cabeça?
Levantei os braços, cobrindo a cabeça, por instinto, e senti a pata me atingir no lado esquerdo. Mesmo com a blusa de frio grossa, pude sentir o impacto e talvez porque tenha sido muito forte ou porque era meu braço machucado, tinha doido um bocado. O Zoroark ainda estava ali, com a pata levantada como se preparasse um novo ataque, o som da lata ainda ecoava pela rua e eu não tinha despertado depois de um contato físico com o bicho. Droga, aquele Zoroark era real.
Me afastei o mais rápido que consegui quase aos tropeços. Talvez fosse só um selvagem, o golpe não tinha sido forte para realmente me machucar, parecia mais um aviso, mas não dava para saber. Eu corria o mais rápido que conseguia e o Pokémon continuava no meu encalço, até que eu atingi a rua sem saída.
O monstro arroxeado se aproximava rapidamente e eu não tinha me decidido sobre o que fazer. Lutar seria a melhor opção, mas meus Pokémon não estavam plenamente recuperados. Eu não era ágil o suficiente para pular o alambrado que fechava a rua. Ele estava cada vez mais perto, não deveria ter nem dez metros nos separando. Ele ergueu o corpo ameaçador, preparando um salto, mas eu não sei bem o que aconteceu depois...
Havia vozes, muitas, e um par de braços se enrolou na minha cintura, me erguendo do chão e havia mais vozes, furiosas e uma que se sobrepunha as demais, mas eu não conseguia entender o que ela dizia. Eu sentia meus braços doendo e os nós dos dedos esfolados, tinha gosto de sangue na minha boca e eu não via o Zoroark mais em local nenhum.
Senti alguém empurrar meu corpo e ele colidir contra algo de metal, talvez um carro. Meus braços foram puxados para trás e senti algo de metal enrolar meus pulsos. Ainda havia as vozes exaltadas, tinha alguém chorando também. Senti alguém me empurrar novamente e eu cai sobre algo estofado, o mundo estava desfocado e estranho. Será que era efeito dos poderes do Zoroark? Um novo tipo de alucinação?
As coisas começaram a fazer um pouco mais de sentido quando senti o estofado sumir abaixo de mim e fui colocado em pé novamente. Eu estava diante de um prédio baixo e longo, com o brasão da corporação policial estampado na porta. Tentei puxar os braços e só então me liguei que estava algemado. Era impressão minha ou estava sendo preso?
A voz que eu tinha ouvido, mais alta e rígida, era do policial que me prendera e agora ele estava me arrastando para dentro da delegacia. Não havia muita gente dentro do prédio e a calefação estava absurdamente alta deixando tudo muito abafado.
— O que temos aqui? – Uma senhora com cara de secretária e óculos de aro de oncinha questionou me encarando curiosa.
— Agressão – o policial respondeu me puxando pela japona. – Ele quase matou o filho dos Lenderman – Quê? Do que ele estava falando?
— Oh – a mulher pareceu impressionada. – Motivo?
— Não sabemos, ninguém o reconheceu na cidade – disse me dando um chacoalhão. – Pode ser um arruaceiro só ou pior...
— Você acha que pode ser um membro da Team Plasma? – a mulher me encarou horrorizada.
— Eu não sou da Team Plasma – resmunguei, mas o policial deu um tapa na minha cabeça para me manter quieto.
— Isso sou eu quem vai decidir, esquentadinho. Agora, até que isso se resolva, você vai passar a noite na jaula... – Jaula?
Mas não tive muito tempo para pensar sobre, ele arrancou minha mochila e Pokéball e me enfiou dentro de uma cela nos fundos da delegacia, depois de me desalgemar.
— Ei – gritei envolvendo as barras de metal nas mãos – eu não fiz nada.
— Escute aqui, garoto colorido – e ele apontava para o meu cabelo – socar um menino de 13 anos, não é o que eu chamaria de nada.
— Mas eu não fiz nada disso – do que diabos ele estava falando?
— Nada? E todo esse sangue? – O casaco que Lila tinha me emprestado estava cheio de sangue seco.
— Zoroark...? – Eu estava incerto, eu não conseguiria bater em um Pokémon dessa maneira, mesmo se quisesse.
— Zoroark, huh? Era só um moleque em uma fantasia, ele faz isso para assustar os amigos – disse como se fosse algo comum. – Tudo bem você se assustar, mas ninguém conseguia tirar você de cima do garoto, você ia matá-lo.
Fantasia, Zoroark, criança? Então o Zoroark que eu tinha visto era realmente real, mas não verdadeiro... Isso explicava porque ele não tinha rasgado minha garganta em segundos e porque eu tinha conseguido derrubar ele com um soco, mas por que alguém escolhia esse tipo de brincadeira, ainda mais com um Zoroark?
Eu tinha passado o dia letárgico e confuso, os acontecimentos em Icirrus não faziam nem vinte e quatro horas e eu não precisava de mais alucinações para piorar meu dia. Não tinham sido alucinações, mas tinham piorado bem o meu dia...
— Eu sinto muito, eu achei que...
— Não me importa o que você achou – me cortou – uma agressão é uma agressão. E gente como você, que perde o controle fácil deve ter uma ficha bem bonitinha... – sorriu presunçoso. – Agora fique quietinho enquanto eu verifico suas informações...
E virou as costas me largando dentro da cela.
O corredor onde as celas ficavam não era muito iluminado e a calefação ali não era tao intensa. A cela era pequena com um catre e um pequeno vaso sanitário. As barras eram grossas, mas já estavam enferrujadas e envelhecidas pelo tempo e o local não parecia ser usado com muita frequência.
— Então, o valentão bateu numa criança? – uma voz feminina ecoou na cela ao lado, debochada.
Não dava para ver muito bem, mas um par de braços longos se enrolou nas barras que separavam as duas celas. A garota era alta e magra, de cabelos longos e claros. Ela encostou a testa contra a grade, um sorriso desdenhoso no rosto e consegui enxergar melhor suas feições.
— Kara? – Deixei escapar ao ver a rival de Haila parada ali.
Ela me encarou demoradamente como se não conseguisse se lembrar, então lentamente os olhos ganharam certo brilho.
— O namoradinho da Haila... – disse com um muxoxo. – E cadê a cadelinha?
Eu não gostava do seu tom, mas eu não estava com disposição para brigar. Me joguei no catre, que rangeu com o meu peso e dei um suspiro exagerado.
— Ela não está aqui.
— Fujona – revirou os olhos, mas não entendi de primeira. – Diga a ela que ainda temos assuntos pendentes.
Demorei a realmente entender e presumi que ela se referia ao fato de Haila ter enfiado o meu pedaço de torta na cara dela enquanto estávamos em Nimbasa, isso tinha acontecido não fazia tanto tempo, mas me parecia tão distante, quase como se tivesse acontecido em outra vida.
— Então, o que você fez? – Ela não parecia realmente interessada.
— Aparentemente bati em uma criança achando que era um Zoroark – revirei os olhos e percebi como minha voz saíra estranha, quase como se estivesse zombando de mim mesmo.
— Tem que ser muito estupido para não diferenciar humanos de Pokémon...
— Ele estava fantasiado...
— Bem – ela parecia pensar em uma resposta que fizesse o mínimo de sentido naquela conversa toda errada – batalhas Pokémon são resolvidas entre Pokémon e não com humanos...
Ela tinha razão. Não fazia o menor sentido eu ter avançado para o Zoroark com as mãos nuas, se fosse um Pokémon de verdade era suicido na certa, mas eu não estava pensando muito bem naquele dia.
— Então, o que faz em Anville? – Ela prosseguiu diante do meu silêncio. – A última vez que te vi foi em... Nimbasa?
— Undella – corrigi – você estava brigando com a Clarice.
— Ah, sua outra namorada – e um novo sorriso zombeteiro se instalou nos lábios. – Bem, e o que faz aqui? Ninguém vem para esse buraco, a não ser que realmente precise...
— Eu vim encontrar uma pessoa – tinha que concordar que o lugar era realmente um buraco.
— Outra namorada? – Provocou
— É um cara...
— Namorado?
— Kara!
— Para você vir até aqui tem que ser muito importante...
— Eu vim falar com o Professor Juniper – disse por fim, eu não estava muito a fim de me estender nessa história.
— Professor Juniper é meu avô – disse simplesmente. Meus olhos se arregalaram um pouco, então Kara era filha da professora Juniper? Isso explicava o porquê dela estar em Anville se achava o local tão ruim
— É mesmo?
— Claro que não, idiota – e um sorrisinho se formou nos lábios, se divertindo com a minha ingenuidade. – Vim buscar um livro.
— Um livro?
— Sim, professor Juniper é conhecido por ter muitos livros raros que nem aquela velhota de Nacrene possui – se Haila estivesse ali já teria pulado no pescoço da treinadora. – A professora Fenel pediu uma cópia digital para o professor, mas você sabe como os velhos são... – deu um muxoxo. – E sobrou para quem vir até aqui pegar o livro já que ele não sabe digitalizar arquivos? Eu deveria me abster desses favores – e revirou os olhos novamente.
— Mas você veio de Undella para cá para pegar o livro?
— Eu estava em Icirrus antes, tinha ido para lá porque iria para Mistralton desafiar a líder, mas depois que Opelucid caiu, os ginásios fecharam de vez – bufou.
— Você esteve em Opelucid? – Perguntei surpreso.
— Sim, até consegui a insígnia, Legend Badge, foi uma luta complicada – disse vitoriosa. – Eu não estava lá quando a Team Plasma invadiu – enrolou um dedo em uma mecha do cabelo como se comentasse sobre o tempo. – Mas graças a eles a líder de Mistralton fechou o ginásio e a liga entrou em recesso. A maioria das pessoas tem voltado para casa por causa disso... — Finalizou.
— Você não?
— Eu não vou deixar meia dúzia de marginais me dizerem o que tenho que fazer – não era como se a Team Plasma fosse apenas meia dúzia de marginais, mas o tom que Kara usava quase me convencia disso.
Kara era quase o oposto de Haila, mesmo com a suas similaridades. As duas tinham um temperamento quente e um jeito selvagem de lidar com as coisas, mas Haila era passional e impulsiva, enquanto Kara parecia ver tudo do alto com um olhar esnobe e entediado de quem não se impressiona com nada. Se Haila estivesse ali estaria esbravejando contra as ações da Team Plasma, mas Kara parecia totalmente indiferente a essa existência e se incomodava apenas porque as ações acabavam por modificar seus planos iniciais.
— De qualquer forma eu já deveria estar em um trem de volta para Striaton... – bufou.
— E como você veio parar aqui? – Ela me encarou como se não quisesse realmente responder, mas ao mesmo tempo parecia orgulhosa de eu estar curioso sobre ela.
— Basicamente... Eu fui a casa do velhote umas duas vezes, e ele nunca estava lá para que eu pudesse pegar o livro. Eu perguntei para um dos vizinhos se o velho tinha morrido, mas parece que ele passa o dia todo em uma caverna explorando qualquer coisa... Sinceramente eu não iria até lá – e fez uma careta engraçada. – Então eu fui lá hoje pela manhã e ele não estava novamente, e eu já estava de saco cheio de ficar nesse buraco. Achei que não ia ser tão problemático pegar o livro e deixar um bilhete...
Esse era seu grane plano? Não era ela quem estava me zombando segundos atrás por ter confundido uma criança vestida de Pokémon?
— O tal vizinho já estava desconfiado e chamou a polícia... Ai esse idiota – e apontou para além do corredor e imaginava se poderia ser o mesmo policial que me prendeu – achou que eu era uma Team Plasma. Enfim, estou presa por invasão e desacato a autoridade.
— E como você pretende sair? – Perguntei curioso, pois ela não parecia tão preocupada com isso. Apesar de não fazer ideia de como eu sairia.
— Ele provavelmente vai ver minha identificação de treinadora, puxar minha ficha policial, ligar pros meus pais, essas coisas. Ver que sou uma garota decente e me deixar ir depois de um longo sermão – fazia sentido, e provavelmente ele faria o mesmo por mim. Isso significaria que ele veria que meu envolvimento no caso do Joslyn e falaria com a minha mãe. De repente, isso não parecia facilitar minha saída. – Mas conhecendo o ritmo lento dessa cidade, ele só vai fazer isso amanhã. Ele já deve ter excedido sua cota de trabalho prendendo duas pessoas no mesmo dia – e deu um sorriso que eu não saberia identificar.
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