Rota Zero

74 Delírios Mágicos e Dias de Guerra - parte 1


Notas iniciais
Cheguei, com um capítulo que eu revisei umas duzentas e cinquenta milhões de vezes, mas eu não tenho certeza sobre ele... Enfim, sem mais... Boa leitura!

December

DELÍRIOS MÁGICOS E DIAS DE GUERRA — parte 1

Havia um Zoroark enorme, maior do que o de Dreidran me espreitando através das barras da cela. Ele andava de um lado para o outro, batendo as garras no chão ritmicamente. Na escuridão, eu não podia divisa-lo realmente, mas seus olhos faiscavam na minha direção. Ouvi um rangido e vi a porta da cela ao lado se abrir, mas não foi Kara que saiu de trás das grades, mas Haila.

Ela estava com o cabelo longo, como no dia que eu a tinha conhecido, solto que cascateava pelos ombros. Estava muito magra e pálida e parecia cansada, mas havia algo em seu semblante que era demasiado pacífico para aquele cenário. Eu só poderia estar delirando de novo, mesmo que o Zoroark fosse o maldito moleque fantasiado, Haila não estaria ali e mesmo se estivesse, ela não tinha mais essa aparência.

Ela caminhou lentamente, os pés descalços tocando o piso gelado, indo na direção do Zoroark de braços abertos, como se desejasse abraça-lo. Impulsivamente me atirei contra as grades, estendi o braço tentando impedi-la, mas ela estava afastada demais para que eu pudesse toca-la. Mesmo que fosse mentira, mesmo que fosse só coisa da minha cabeça, eu não queria ver a minha melhor amiga sucumbir.

O Zoroark a puxou pelos cabelos, trazendo-a para perto de si. Havia algo ali que parecia meio romântico, meio indecente, algo que não era normal no comportamento de um Pokémon, por mais sádico que ele fosse. Então, antes que eu realmente pudesse processar, as garras longas atravessaram o peito da garota, na altura do coração. O braço magro e arroxeado atravessou a caixa torácica enquanto os ossos se partiam e pude ouvir Haila engasgar com o próprio sangue.

Eu não conseguia gritar, por mais que fizesse esforço para isso, era como se mesmo abrindo a boca eu não conseguisse produzir som algum. Lágrimas queimavam atrás dos meus olhos, mas eu não conseguia derramá-las. Apenas meu braço ainda tentava debilmente alcança-la através da grade.

Ela caiu como uma boneca sem vida no chão, os olhos me encarando fantasmagoricamente. Então o Zoroark se aproximou da grade e eu podia sentir a respiração quente contra o meu rosto. Lentamente, ele moveu as mãos até a cabeça e puxou a pele violentamente, arrancando a máscara e revelando o rosto de Jaden.

Ele não mataria a própria irmã, mataria? Mesmo que ele fosse um Team Plasma, eles ainda eram família, certo? Mesmo que fosse só minha alucinação, ele não faria mal a ela... Ouvi a porta da minha cela ranger e como se fosse mágica, ela se abriu.

Jaden passou por cima do corpo caído e se aproximou, entrando na cela. Instintivamente dei um passo para trás e esbarrei no catre que fez um barulho infernal.

— Você tem que ser tão barulhento de manhã? – A voz de Kara me trouxe de volta. Ela estava com a cara enfiada nas grades que separavam nossas celas e tinha uma expressão extremamente mal-humorada.

Eu estava enrolado no cobertor fino que o guarda da noite havia me dado e caído sobre o chão gelado. Eu tinha caído da cama no meio do sono e isso tinha provocado o barulho que eu ouvira no sonho.

Não eram alucinações desta vez, mas sonhos e eu não sabia se isso era melhor ou pior. O dia já estava claro, mas parecia ser bastante cedo ainda. Kara voltou para seu catre, resmungando e reclamando, mas minutos depois eu podia ouvi-la ressoar lentamente. Encarei meu próprio catre sem um pingo de vontade de voltar a dormir. Eu não teria um sono tranquilo, mesmo se quisesse.

=8=

As coisas tinham acontecido mais ou menos como Kara havia previsto. Depois de uma noite na prisão, o policial apareceu e nos liberou. Não sem antes fazer um sermão mais longo do que minha mãe faria e nos fazer prometer ficar longe de problemas.

O clima na delegacia parecia estranho e soturno, os poucos policiais conversavam entre si e a mulher dos óculos de oncinha parecia apreensiva cada vez que o telefone tocava e não tinham sido poucas vezes, enquanto Kara e eu estávamos diante da mesa do policial, que devolvia nossos pertences, ainda com um olhar desconfiado sobre nós.

O clima em Anville continuava frio e o céu estava cheio de nuvens cinzentas que não deixavam os raios de sol atravessarem. Não tinha ninguém nas proximidades da delegacia e não parecia haver ninguém nas ruas até onde minha vista alcançava. Kara ajeitou a mochila no ombro e saiu marchando na minha frente.

— Aonde você vai?

— Tentar pegar o livro com o velhote – respondeu sem ânimo algum. – O próximo trem só sai no final da tarde, não tenho muito que fazer até lá...

— Posso ir com você? – Eu precisava ver o professor e ao menos Kara sabia onde ele morava.

— É um país livre – deu de ombros, mas não saiu andando até que eu emparelhasse com ela.

As ruas pareciam ainda mais desertas que no dia anterior. Nossos passos ecoavam no calçamento e eu podia ver vez ou outra, uma cabeça aparecer na janela e puxar a cortina conforme passávamos, quase como se as pessoas desejassem se esconder.

Andamos aproximadamente três quarteirões quando meu estômago resmungou ruidosamente. Kara me lançou um olhar de esguelha e eu me senti sem graça. Nossa última refeição tinha sido um jantar bem ralo e sem graça na prisão, eu não tinha comido mais nada desde então.

— Podemos tomar café da manhã ali – e ela apontou para uma pequena cafeteria. –Não é bom, mas é a única da cidade.

— E quanto ao professor? – Achei que ela quisesse resolver essa história do livro o mais rápido possível, já que fazia dias que estava presa na cidade.

— Ele nem deve estar lá – respondeu sem se importar. – E como eu disse, vou ter que ficar nesse buraco até o final da tarde... E eu estou com fome também.

A cafeteria era menor do que a que tinha ido em Floccesy Town e a comida realmente não era boa, mas qualquer coisa era melhor do que nada. A garçonete nos encarava a cada segundo e os poucos clientes que estavam ali apontavam e cochichavam. Eu me sentia incomodado com os olhares, mas Kara parecia inabalável, concentrada demais em sua refeição.

Talvez eles soubessem sobre mim, que eu tinha espancado uma criança. Bem, era uma cidade pequena, não tinha como não saber. Deveriam saber sobre a minha prisão, a de Kara também e deveriam estar comentando sobre isso. Ou talvez fosse só porque não éramos cidadãos de Anville. É comum as pessoas de cidades pequenas não gostarem de forasteiros. Instintivamente puxei o capuz do moletom sobre a cabeça, ocultando o cabelo rosa, eu não queria chamar mais atenção do que já acontecia.

— Você não deveria se incomodar com isso, eles vão falar de qualquer forma – Kara mordiscou o pão com fúria desnecessária enquanto me encarava. Olhei para ela sem entender. – Estou na cidade não faz nem uma semana e já ouvi que sou uma oportunista tentando seduzir o velhote do Juniper.

— Eles disseram isso para você?

— Não diretamente, mas a garçonete deixou escapar quando veio cobrar minha conta dia desses – e lançou um olhar de desagrado a mulher de avental que servia outra mesa, mas mantinha os olhos sobre nós. – Se eu tivesse outras opções de refeições nunca mais colocaria os pés nessa espelunca. – E fez questão de dizer essa parte demasiado alto. A garçonete lançou um olhar de desagrado na nossa direção, mas foi servir outra mesa.

Em qualquer outro dia eu estaria ali, tomando o café da manhã com Haila, talvez Des e Lila e estaríamos rindo sobre qualquer bobagem, por mais pesado que o clima estivesse. Agora, nós quatro estávamos separados e nenhum de nós estava mais bem, fosse física ou psicologicamente. Eu poderia me sentir um agraciado considerando que eu só tinha uma queimadura no braço e umas alucinações malucas, mas estar bem enquanto o resto do mundo estava ruindo fazia eu me sentir ainda pior. E me sentia ainda mais culpado porque eu praticamente tinha varrido Haila dos meus pensamentos. Eu tentava ao máximo me concentrar no que precisava fazer e que Roxie iria resolver tudo, como havia prometido.

— Com o que você estava sonhando? – Kara perguntou de repente, me tirando do meu devaneio. Encarei-a sem entender e ela prosseguiu. – Você estava resmungando coisas bem estranhas...

— Que tipo de coisas? – Mas ela não respondeu, deu de ombros como se não fosse importante. – Eu devo estar estressado com últimos acontecimentos – admiti.

— Ser preso não é legal para ninguém, espancar uma criança então... pff – ela fez um som zombeteiro com os lábios e me encarou esperando que eu ficasse bravo, mas bravo era um sentimento que eu não conseguia ter, quase como se eu me proibisse disso.

— Icirrus na verdade... – respondi simplesmente, colocando mais açúcar no café amargo e com gosto de velho. Ela me encarou surpresa. – Eu estava lá na noite do ataque... – Os olhos dela pareceram realmente curiosos, mas antes que eu pudesse prosseguir, o som da televisão chamou minha atenção.

Havia uma pequena televisão apoiada em cima da geladeira, a imagem era toda chuviscada e estava ligada apenas para fazer um som ambiente. Parecia um telejornal matutino, mas nada parecido com os que meu pai costumeiramente assistia. Parecia algo mais local, quase amador.

A repórter falava com um tomo monótono e sem graça, mais inflexivo do que eles geralmente já usam. Ela falava sobre o ataque da Team Plasma a Opelucid, mais precisamente sobre a morte de Iris. Não havia muitos detalhes sobre a morte em si e aparentemente aquilo já tinha sido anunciado antes, pois não houve comoção alguma dentro da cafeteria.

A notícia sobre Iris não tinha me pegado desprevenido, mas ainda havia uma parte que se agarrava a pequena esperança de que ela estaria viva e bem, se escondendo para formular um plano mirabolante e varrer a Team Plasma de Unova. Ao menos ela não sofreria pela morte do pai, mas parecia muito mórbido pensar dessa maneira.

— Não é como se as pessoas já não imaginassem – Kara se manifestou, esquecendo o meu comentário sobre Icirrus. – Quer dizer, já fazia quase um mês. –Vi dois clientes, sentados a mesa bem ao lado da nossa, lançarem um olhar atravessado para o comentário de Kara. – Mas eu esperava um pouco mais de ênfase na notícia, quer dizer, estamos falando da Champion.

– Talvez eles não queriam fazer muito alarde sobre isso – arrisquei.

Mas a menina mal teve tempo de me responder, a repórter e seu tom monótono começaram a falar sobre os acontecimentos de Icirrus. Havia mais informações ali do que realmente tinha acontecido. Não tinha sido um ataque maciço ou uma mostra de poder por causa da morte da Champion, mas era o que estava sendo divulgado. Inclusive, a repórter afirmava que membros da Team Plasma estavam espalhados e infiltrados em toda aquela região, partindo da extinta Opelucid, passando por Icirrus até chegar a Anville. Isso explicava a forma como os locais olhavam para nós, deveriam achar que éramos Team Plasma, afinal, Anville não tinha nada que realmente atraísse treinadores até ali.

— É melhor irmos – Kara deu um último gole no café antes de fazer sinal para mim e se levantar, largando algumas notas em cima da mesa.

Os outros clientes da cafeteria estavam cochichando ainda mais e apontando descaradamente para nós. Um tinha até se levantado, com quem pretende vir tirar satisfações. Deixei o pagamento na mesa, junto ao da menina e saímos da cafeteria. Agora, mais ainda, eu tinha a sensação de que as pessoas nos espiavam através das janelas.

— Nós não fizemos nada de errado – eu comecei, me referindo a Team Plasma e ignorando nossos pequenos delitos.

— Nós sabemos, eles não – e Kara andava muito rápido.

— Mas...

— Com vários ataques sucessivos da Team Plasma e a figura de poder máximo caída, as pessoas vão começar a se desesperar e pessoas desesperadas tomam medidas extremas. Eu não quero ser linchada por um grupo de caipiras...

— Você acha que eles fariam isso?

— Se você acha que não, pode ficar aqui e experimentar, eu vou resolver o lance do livro e sair desse buraco o mais rápido que eu puder.

— Achei que você não gostasse que outras pessoas regessem sua vida... – apertei o passo para acompanha-la.

— E não gosto... E não vou deixar que eles decidam que eu sou culpada e que mereço punição sem julgamento... – Eu não tinha tanta certeza que as pessoas de Anville fossem assim tão passionais. Mas a julgar pelo que tinha acontecido no dia anterior, e pelos gritos que eu vagamente me lembrava de ter ouvido durante o episódio do falso Zoroark, eles poderiam querer minha cabeça por menos.

A casa do professor Anville era a maior da rua, o que não era muito já que todas as casas tinham praticamente o mesmo tamanho e eram pintadas do mesmo jeito. Eu nunca iria encontrar com o mapa que Roxie tinha feito.

Kara parou diante da entrada, encarando a fachada. As janelas estavam com as cortinas puxadas e parecia escura e silenciosa. A menina curvou as sobrancelhas, como se tentasse se lembrar de algo e parou a mão centímetros antes de tocar a campainha.

— O que foi?

— Acho que... Não é nada – ela balançou a cabeça como se afastasse um pensamento infeliz e tocou a campainha.

Os sinos antiquados soaram altos e ecoaram pela rua vazia. Kara apertou duas vezes, mas o professor Juniper não pareceu.

— Ele deve estar naquela droga de caverna – ela deu um muxoxo revirando os olhos.

— Talvez devêssemos ir até lá – sugeri. Eu tinha ido até lá para pegar uma informação para Roxie e ser útil e até agora só tinha me metido em problemas e desnecessariamente atraído à atenção para mim.

— Nem pensar – ela fez uma careta – esses lugares úmidos cheios de Zubat não fazem bem para minha pele – disse teatralmente.

— Mas e quanto ao livro? – Eu achei que ela mandaria a professora Fenel para o inferno junto do livro e que tudo o que ela queria era sair daquela cidade, mas ela revirou os olhos e deu um muxoxo, desalentada. –Se você não quer ir, tudo bem, só me diga onde fica a caverna.

— Afinal, o que de tão importante você precisa conversar com o velho? – A voz dela saiu desinteressada, mas seus olhos pareciam curiosos.

Eu não poderia contar a ela. Era assunto dos líderes, mesmo eu não deveria estar tão a par da situação.

— Eu preciso de uma informação...

— Sobre? – E ela arqueou as sobrancelhas. Impressão minha ou ela queria avaliar o quanto eu realmente precisava do velho para me passar a localização da caverna?

— Kara!

— Eu estou nesse buraco faz três dias, não vou deixar você roubar minha chance de falar com o velhote... – cruzou os braços e bateu os pés no chão. – Isso tem que ser muito importante.

— Você poderia ter poupado tempo se tivesse ido à tal caverna – dessa vez, quem revirou os olhos fui eu.

— É você quem precisa saber onde a caverna fica... – sorriu diabolicamente como uma criança. Eu não estava com ânimo nenhum para os jogos da Kara, ânimo nenhum para coisa alguma na verdade.

— Lendários – respondi secamente. Elesa teria um surto se me visse ali, mas ela já teria surtado antes, se soubesse que Skyla, Cheren e Roxie tinham planos pelas costas dela.

— E por que você precisa saber informações sobre lendários? – ela duvidava da minha resposta.

— Eu não preciso, só vim buscar a informação para alguém...

— Isso tem alguma coisa a ver com Icirrus? – Ela presumiu.

— Driftveil.

=8=

A caverna não era tão longe da cidade, e o caminho era mais linear e seguro do que qualquer outra caverna que eu precisei cruzar. Na verdade não era nem uma caverna, era uma gruta com uma parte de um lago que parecia estar sempre congelado, ladeado por pinheiros enormes. O local parecia vazio, não havia som algum, nem mesmo de algum Pokémon selvagem.

— Tem certeza que é aqui? – Não parecia um lugar interessante para um velho especialista passar tanto tempo explorando.

— Claro – ela resmungou cruzando os braços.

Comecei a me aproximar da entrada, mas Kara não me acompanhou, ficando na última linha de árvores.

— Você não vem?

— Como eu disse, eu não me dou bem com cavernas...

— Você tem medo? – Perguntei genuinamente, mas ela entendeu como provocação e começou a reclamar.

Eu não estava com paciência para a ladainha de menina, então entrei deixando-a sozinha enquanto resmungava. Não era seguro entrar sozinho, nem tampouco deixa-la para trás, mas aparentemente, a maior ameaça daquela cidade éramos nós dois.

O local não era tão escuro, a parte congelada do lago refletia a fraca luminosidade do dia, fazendo curiosas formas nas paredes de calcário branco. Acabei libertando Chiclete, apenas para não me sentir solitário, embora eu ainda pudesse ouvir Kara reclamando da orla de pinheiros. Ele ainda parecia bastante cansado e abatido, mas seguiu ao meu lado.

O cascalho estava bastante revolvido, como se alguém o tivesse escavado de baixo para cima, tentando se desenterrar. Uma parte da parede da gruta também tinha caído, mandado grandes pedaços de rocha para todo o canto, algumas inclusive dentro do lago congelado.

Eu tinha a mesma sensação de andar dentro das cavernas sob Twist Mountain, era ao mesmo tempo bonito e sombrio e havia aquela estranha sensação que algum Team Plasma apareceria a qualquer momento, mas eu suspeitava que isso era muito mais coisa da minha cabeça do que realmente algo que fosse acontecer.

De repente, tropecei em algo e só não fui ao chão porque Chiclete me segurou. Olhando na luminosidade bruxuleante, eu podia ver um pedaço de rocha quase vítrea com figuras desenhadas nelas. Eu conhecia aquelas figuras, eram as mesmas que estavam ilustradas nas paredes da caverna do Cobalion.

Cheren nunca tinha realmente provado que os signos estavam relacionados aos lendários. Não havia nada na do Keldeo, mas a Team Plasma tinha destruído grande parte da caverna com as escavações. Mas os sinais se repetiam em Twist Mountain e agora em Anville. Mesmo que não fosse uma marcação exata, deveria ser um sinal.

Do pouco que eu poderia presumir, os símbolos quase sempre marcavam o local onde o lendário estava, como um portal. Se havia pedaço de pedra quebrada com esses símbolos, significava que o pórtico do lendário dali tinha sido destruído. Ou o lendário tinha fugido como acontecera com o Keldeo, ou a Team Plasma o tinha capturado como da última vez.

Mas se realmente a Team Plasma estivera ali, os cidadãos de Anville não deveriam saber? A gruta não era tão distante da cidade, e pela destruição, deveria ter feito um barulho danado quando aquela parte da parede desmoronou. A julgar que havia pedras dentro do lago que estavam congeladas, o ataque não poderia ter sido tão recente. A explosão quebraria o gelo, mas eu não fazia ideia de quanto tempo demoraria para o lago se solidificar novamente. Se Lila estivesse ali, tenho certeza que ela teria as respostas.

Tentei tirar umas fotografias com o Xtransceiver para mandar para Lila e Cheren, mas a falta de luminosidade somada a minha falta de habilidade não deram um bom resultado. Des teria uma sincope se visse a qualidade das fotos.

Apesar de tudo, não havia sinal algum do professor ali e mesmo que a parte desmoronada desse acesso a uma caverna, parecia um local impossível de se atravessar. Eu poderia usar o faro de Bacon, mas eu não tinha nenhum item que tivesse o cheiro do homem para que ele pudesse rastear.

Quando sai da gruta, Kara parecia terrivelmente entediada.

— E então...?

— Nada, ele não está aqui...

— E por que demorou tanto? – ela lançou um olhar interrogativo para Chiclete que me ladeava, tentando entender o porquê da presença do Pokémon.

— É um local muito bonito – desconversei e ela só fez revirar os olhos. – E agora?

— Ele pode ter voltado para casa, podemos ter nos desencontrado – disse pensativa, mas não muito confiante. – O cara é um fantasma. Bem... – ela ajeitou a mochila no ombro. – Vamos voltar para casa dele, precisamos de um ponto de partida.

— Certo – voltei Chiclete para a Pokéball, porque diferente de Undella, ninguém andava com os Pokémon a vista e eu não queria ser considerado ainda mais uma ameaça.

Nossa caminhada foi curta e silenciosa, a cada casa que passávamos, podia sentir olhos nos espiando através das janelas, mas tentávamos ignorar. Vez ou outra, Kara me lançava um olhar, como se quisesse me questionar sobre algo. Eu tentava organizar meus pensamentos sobre o que tinha visto na caverna e tentava ao máximo afastar a possibilidade de que era realmente um lendário. Eu não estava pronto para outra batalha Pokémon, menos ainda para outro lendário, menos ainda depois do que vira na Twist Mountain.

A cena de Keldeo morrendo ainda estava bem nítida na minha retina e ela só não me assombrava mais, porque havia o sequestro da Haila que me preocupava e o maldito Zoroark que não me deixava em paz. Eu tinha vontade de ligar para Roxie e perguntar sobre como andavam as coisas, mas isso significava que eu também teria que contar sobre a minha tarefa e era meu segundo dia em Anville sem nenhum progresso real.

Chegamos a casa do professor Juniper pela segunda vez naquele dia. Pelo canto dos olhos pude ver o vizinho nos espiar através da persiana da grande janela que dava para a rua. Kara tocou a campainha e os sinos soaram vazios como da primeira vez. O velhote não estava em casa.

— O que vamos fazer? – Perguntei nervoso, a sensação do vizinho nos espiando me dava tanto calafrio quanto minhas visões do Zoroark.

— Esse lugar é um buraco, não tem onde esse velho se esconder – respondeu atravessada.

— Talvez pudéssemos perguntar na cafeteria, alguém pode tê-lo visto... – mas o olhar que a menina me lançava não era nada animador.

— Eu não vou a lugar nenhum até você contar toda essa história direito.

— Que história?

— Lendários, Icirrus, Driftveil...

— Kara, sério, é melhor você não se envolver nisso... – mas minha voz não parecia mostrar preocupação real com a moça

— Se você quer que eu te ajude a procura-lo, você vai ter que me envolver.

— Você também precisa encontra-lo – tentei contornar.

— É só um livro estúpido, eu posso ir embora sem ele, Fenel vai ficar brava, mas ninguém vai morrer por isso. Não acho que esse seja o seu caso – e não era. Eu tinha prometido a Roxie que conseguiria a informação. Pelo que a albina tinha me dito poderia ser nada, mas poderia ser algo que mudasse todo o rumo das investigações de Cheren e a julgar pelas rochas desenhadas que eu encontrara na caverna talvez realmente aquilo desse uma guinada no nosso destino.

– Podemos falar sobre isso depois?

— Agora – Cruzou os braços diante do peito. – Eu não vou a lugar algum até você me dizer o que realmente está acontecendo... – e deu um passo pra trás, apoiando as costas na porta da frente.

A maçaneta fez um clique e o peso de Kara empurrou a porta, fazendo a folha de madeira se abrir e ela cair de costas no assolhado. Ela gemeu quando colidiu contra o chão e soltou um palavrão aleatório.

Era verdade que Anville parecia um local bastante seguro, onde todos se conheciam, mas era suficientemente seguro para deixar a porta destrancada? Além disso, havia a Team Plasma e o professor Juniper poderia ser um alvo visado, assim como Lenora.

A porta dava para um hall pequeno e escuro, não havia móveis dentro do campo de visão e uma camada de pó se acumulava no chão. Era como se mais ninguém morasse lá.

— Tem certeza que a casa é essa? Parece abandonada.

— Claro que eu tenho – ela se levantou, espanando as roupas. – A própria professora Juniper confirmou quando mandei a foto da fachada.

— O vizinho confirmou que ele morava aqui? – Estreitei os olhos tentando enxergar melhor dentro da casa, mas estava realmente muito escuro.

— Sim, disse que ele passa mais tempo na caverna do que aqui, mas que ainda mora aqui... As cortinas – Kara disse de repente.

— O que têm elas?

— As outras vezes que eu vim, elas não estavam fechadas – disse pensativa.

— Isso pode não ser nada – mas nem eu tinha tanta confiança nessas palavras.

— É como você disse, a casa parece abandonada... As cortinas não se fecham sozinhas.

— Ele pode ter se mudado...

— De ontem para hoje? Nesse buraco, nós saberíamos...

— Nós estávamos presos, talvez...

— Eu tenho certeza que as cortinas estavam abertas os outros dias – ela me cortou. – Se ele sempre as deixa abertas, não teria motivos para fechar hoje... Além disso, a porta está aberta...

— Ele pode ter esquecido...

— Estava muito bem trancada quando tentei invadir ontem – protestou resoluta. – Mas já que estamos aqui não custa dar uma olhada – e ela avançou para dentro do hall.

Kara estava tateando a parede a procura do interruptor, pude ouvir o clique antes da luz amarelada invadir o pequeno cômodo. A camada de pó era realmente generosa, mas havia mobília no cômodo adjacente.

Kara já estava na outra sala quando dei por mim e no final, acabei seguindo a garota. O papel de parede estava desgastado, mas a casa tinha uma arquitetura bonita e a mobília era muito bem escolhida, de dar orgulho a Adzia.

Depois da saleta havia um largo corredor, havia porta dos dois lados e no final uma porta de folha dupla, parcialmente aberta. Kara foi até lá e terminou de abrir a porta.

O cômodo era enorme, com teto alto e dezenas de prateleiras, a biblioteca particular do professor Juniper. Seria um local invejável se metade das prateleiras não estivessem no chão e não tivesse livros caídos por todo o lado.

— O que aconteceu aqui? – E uma sensação incômoda começou a pulsar em mim, como quando eu via um Zoroark.

Kara não respondeu, deu de ombros e entrou no cômodo, tentando desviar o melhor que podia dos exemplares caídos. Conforme avançava para dentro da biblioteca, por vezes, ela revirava um livro ou outro, encarando o título da capa.

— Eu nunca vou encontrar a droga do livro nessa bagunça – reclamou exasperada.

Sinceramente eu invejava a objetividade da Kara. O lugar estava um pandemônio, como se um Pigeot tivesse dado um Hurricane no meio do ambiente, mas ela não dava a mínima, só queria achar o livro e voltar para Striaton.

Eu gostaria de poder copia-la, mas mesmo que eu quisesse apenas revirar a bagunça na biblioteca sem me importar, eu não poderia fazer isso. A informação que eu buscava não era algo que um simples livro poderia me dizer, era baseado em anos de experiência do professor em habitat e migrações e apenas ele poderia sanar as dúvidas.

Andei lentamente pelo local, tentando não tropeçar em nada e me aproximei de uma mesa de centro que estava soterrada de livros e papeis. Pareciam diários e livros de estudo, nada realmente importante, até que no meio disso tudo, achei um papel solto, com o mesmo desenho que eu visualizara na rocha dentro da gruta.

O papel estava amassado e sujo de terra, o desenho era quase incompreensível e os escritos que complementavam eram impossíveis de serem lidos. Quando puxei o papel da pilha, os livros e diários vieram abaixo, revelando o tampo da mesa que trazia uma mancha de sangue parcialmente seco. Parte do papel também estava manchado na borda.

— O que você... – mas a frase de Kara morreu ao visualizar a mesa.

Abri a boca para dizer algo, mas o som de uma sirene, alto e ensurdecedor, invadiu a casa. Meus olhos buscaram o da garota, confusos.

— Acho que o policial disse algo sobre nos mantermos fora de problemas... – o tom estava carregado de ironia.

— Nós não fizemos nada – mas minha voz saiu fraca e débil.

— Invasão – ela enumerou no dedo – roubo – e apontou para o papel que eu segurava – assassinato – e empurrou com a ponta do pé os livros caídos próximo da mesa e só então percebi que o rastro de sangue se estendia para além da mesa.

— A porta estava aberta...

— Você vai mesmo querer argumentar isso? – Ela curvou as sobrancelhas como se eu fosse idiota. – Eu não acho que ele vai pegar leve dessa vez, não com esse sangue...

— Rendam-se, vocês estão cercados – uma voz retumbou no megafone. A mesma voz fanha e sem graça do policial que me prendera anteriormente.

— Você vai ficar me devendo – Kara me lançou um olhar atravessado.

Sacou uma Pokeball da mochila e dela apareceu um enorme Bouffalant. Provavelmente o mesmo com o qual ela tentara fazer purê da Clarice.

— Certo, você sabe o que fazer – cochichou na orelha do Pokémon. O bicho deu um urro de fazer estremecer as paredes e correu em direção à porta, saindo pelo corredor. O Pokémon era tão grande que seus chifres enroscavam na parede, arrancando o papel de parede e parte do concreto.

Eu pude ouvir o som de concreto se torcendo e madeira quebrando quando ele passou do pequeno hall porta a fora. Pude ouvir o policial gritar algo incompreensível antes de ouvir som de metal torcido. As sirenes começaram a fazer um sinal estranho, como se houvesse interferência e de repente, um som de metal sendo arremessado fechou a cacofonia. Ele tinha atacado a viatura?

Kara não parecia prestar atenção nisso, ela sacou uma segunda Pokéball, libertando um Graveler. O Pokémon correu contra a parede do fundo da biblioteca, onde havia uma grande vidraça e atravessou por ela, mandando estilhaços para todo o lado.

— É nossa saída – ela gritou me puxando pela alça da mochila. Eu só tive tempo de enfiar o papel no bolso e acompanha-la através da passagem recém-criada.

=8=

Não era nem meio-dia e Kara e eu éramos procurados pela polícia. Invasão, destruição de propriedade particular e talvez assassinato entrasse na lista. Não dava para saber se o professor Juniper tinha morrido, mal dava para saber se aquele sangue todo era dele, mas era de alguém e a pessoa não deveria estar nada bem.

Eu não tinha certeza de como tínhamos conseguido fugir. Quando pulamos a janela, o vizinho apareceu pela porta do fundo tentando nos impedir. Provavelmente ele tinha chamado a polícia, assim como na prisão da Kara. Mas antes que ele pudesse fazer algum movimento e sacar um Pokémon, o Bouffalant surgiu galopando furiosamente e o atingiu com uma chifrada. Não tinha matado, mas tinha deixado um bocado machucado e a treinadora não parecia se importar minimamente com o estado do dedo-duro.

De alguma forma tínhamos conseguido chegar até a floresta de pinheiros, mas nenhum de nós sabia exatamente onde estávamos ou quanto tempo ficaríamos seguros ali. Estava frio o suficiente para que nevoa se formasse da nossa respiração, mas tínhamos corrido tanto que eu estava suando.

— O que vamos fazer agora? – Perguntei tentando regularizar minha respiração. De todas as coisas que eu me imaginava fazendo, fugir da polícia não figurava na lista. Eu sempre me julguei um dos mocinhos, afinal.

— É tudo culpa sua – e ela estava bem furiosa. – Por que diabos você foi mexer naquela pilha de papel?

— Foi você quem quis entrar na casa – rebati e ela estreitou os olhos esperando que um raio me atingisse.

— Vamos ter que achar um jeito de voltar para cidade – encarei-a sem entender – Pegar o trem e dar o fora – ela completou como se fosse óbvio.

— Não podemos ir andando?

— Quer se aventurar na floresta, fique a vontade... São pelo menos quatro dias de caminhada. Se você não morrer de fome, o frio vai te matar... Ou os Pokémon selvagem, fica a seu critério.

— Poderíamos ir voando em algum Pokémon...

— Você tem algum? – ela me cortou, mas eu não precisei responder, nenhum de nós tínhamos.

Ficamos um tempo em silêncio, tentando recuperar nossas energias e pensando nossa próxima ação. Encarei Kara que andava de um lado para o outro, eu nunca esperaria que nós formássemos uma dupla, ainda mais nesse tipo de situação. Era a garota arrogante, a rival da Haila, a menina que tinha colocado Clarice para correr. Ela não era uma garota fácil de lidar como Lila, mas analisando meu histórico, as garotas da minha vida eram sempre as mais complicadas.

Encarei meu Xtransceiver e vi que ainda tinha sinal ali, pensei em ligar para Roxie, mas ela estava ocupada salvando Haila e meu problema era pequeno demais perto da missão que ela estava incumbida. Talvez não tão pequeno, mas eu precisava que ela mantivesse o foco em sua missão de resgatar Haila. Eu poderia ligar para o Cheren, mas ele me passaria um sermão mais longo e recriminador do que minha mãe faria. Lila? Eu não queria preocupa-la, pelo menos um de nós merecia um pouco de descanso e paz.

Se Haila estivesse ali, tenho certeza que ela já teria alguma ideia para nos livrar, mas era eu e eu já não era muito sagaz em dias comuns, muito menos agora, que eu estava apático e sem foco.

— Acho que agora é uma boa hora... – Kara se abaixou ao meu lado, encostando no tronco de um pinheiro. – Para me contar a sua história.

— Eu não acho que você precise saber dessas coisas...

— Se vou ser acusada de assassinato quero saber quais cartas tenho na mão...

— Eu não acho que o professor tenha sido assassinado por causa disso – mas minha voz falhou miseravelmente. Se ele realmente visitava a tal gruta e encontrou os símbolos, não era tão difícil imaginar que a Team Plasma tivesse vindo atrás dele, assim como acontecera com Lenora. – Se você souber, vai acabar se envolvendo e eu não quero...

— Eu não ligo para o que você quer, apenas me dê as informações, eu decido o que fazer o com elas.

— Certo – respirei fundo encarando as nuvens cinzentas que lentamente cruzavam o céu e comecei a contar tudo o que tinha acontecido desde que eu estivera em Driftveil. Eu contei sobre a morte de Clay, a Team Plasma e Keldeo e Cobalion, contei sobre o ataque em Icirrus, o fogo, a neve e o sequestro da Haila. Fui mais detalhista do que imaginei que poderia ser e não omito praticamente nada. – ... e foi isso o que aconteceu – conclui me ajeitando na grama gelada.

— Então é isso... – ela falou depois de um longo tempo e cruzou as pernas longas mudando de posição. Ela tinha sentado ao meu lado no chão.

Era uma situação irreal, vinte e quatro horas atrás eu estava correndo no meio da rua apenas com a blusa do pijama enquanto nevava. Agora eu estava ali contando histórias para uma garota que eu mal conhecia como se fosse uma velha amiga, depois de virar um fugitivo da polícia.

— A loira azeda foi sequestrada então... Deve haver um motivo – e tinha, mas eu tinha pulado a parte que o Jaden era o irmão da menina. – Tom ficaria louco se soubesse.

— Tom? – Eles ainda tinham contato?

— Sim, foi ele quem me convenceu a vir buscar o livro no final das contas. Ele achava que eu ficar em Anville era uma boa ideia. ‘Porque não é seguro uma garota viajar sozinha’ – e fez uma voz desafinada provavelmente imitando o garoto.

Aparentemente, mesmo com Kara tendo outro namorado, a relação dela e Tom ainda parecia muito firme. Ou talvez eles tivessem reatado, parte da briga entre ela e a Clarice era porque a garota de Castelia tinha ouvido Kara tomar um pé na bunda pelo Xtransceiver.

— Você vai contar para ele?

— Não é problema meu – deu de ombros como se pouco se importasse com o destino de Haila. – Nem seu, na verdade... – Nossos olhares se encontraram e eu não consegui entender onde ela queria chegar – não é como se um coordenador pudesse fazer muito diante de alguma coisa – me ofereceu seu consolo vazio.

Kara não gostava de coordenadores e eu não precisava conhecê-la minimamente para saber disso. Ela já tinha deixado claro que achava a modalidade inferior quando cruzou com Haila no ginásio em Castelia e esse sentimento só deveria ter piorado após seu contato com Clarice em Undellla.

Em qualquer outra situação aquelas palavras despretensiosas fariam eu me sentir inútil e péssimo, mas não naquele dia. Elas simplesmente vagaram pela floresta de pinheiros como se fosse uma verdade que eu não pudesse mudar e meu conformismo pareceu abraça-la.

— Tem razão – concordei laconicamente. – Mas eu me sinto responsável...

— Por quê? Foi você quem jogou a loira sem graça nos braços da Team Plasma? Não se dê tanto crédito – e mesmo que suas palavras dançassem suaves, eu podia sentir agressividade nelas. – Se você se julga responsável, está ignorando todas as escolhas que aquela menina fez, todas as escolhas que os membro da Team Plasma fizeram e tomando a ineficiência da polícia em nos proteger para si. Então a somatória de todas essas coisas é culpa sua? – Encarei-a e senti minhas mãos tremerem. – Você é responsável apenas pelos compromissos que assumiu e do que você me contou sua função era ajudar a evacuar o prédio, estou errada? – Não, não estava. – E isso você fez, então não se responsabilize pelas decisões que os outros tomaram...

E talvez por serem palavras fortes e agressivas que não se preocupavam em me trazer qualquer alento, pareceram ser as que faziam mais sentido. E pela primeira vez desde o sequestro da Haila, eu parecia sentir alguma coisa.

— E afinal, o que tem na droga do papel que você pegou? – Ela me encarou quebrando todo o encanto que a dureza das suas palavras tinham produzido.

— Bem... – puxei do bolso, totalmente amassado. Ela mal esperou eu me organizar e o puxou da minha mão.

— São só uns desenhos feios, até meus Pokémon desenham melhor que isso... – fez uma careta como se eu tivesse nos metido em uma confusão à toa.

— Tinha esses mesmos desenhos em umas rochas dentro da caverna, eu tirei umas fotos – mostrei as imagens através do Xtransceiver. Olhando agora, as fotos pareciam ainda piores, escuras e desfocadas, mas com um pouco de paciência era possível identificar os símbolos.

— Por isso você demorou tanto?

— Mais ou menos...

— Certo – ela estudou a folha cautelosamente – você disse sobre uns desenhos em Driftveil...

— Eu acho que são os mesmos – mas eu não tinha como provar, Haila tinha ficado com a outra cópia do arquivo, mas a pasta tinha ficado na mochila que agora estava com Lila. –Talvez os escritos sejam alguma teoria – apontei. – Mas não dá para ler nada.

Vi a garota estreitar os olhos tentando identificar as letras que pareciam rabiscadas na pressa.

— Pledge Grove? – Ela arriscou encarando umas letrinhas minúsculas ao lado de um desenho que parecia uma estrela. A menina encarou minha inercia e estreitou os olhos. – Você sabe, Floccesy Town... – Não, eu não sabia. Ela revirou os olhos – Exatamente por que colocaram você buscando informações sobre os lendários se você não sabe de nada?

Era uma boa questão, mas eu diria mais que os lendários me encontravam do que o oposto.

— Pledge Grove é tipo como um local sagrado. Dizem que a primeira vez que os lendários apareceram em Unova foi lá, envoltos em uma luz celestial e que no dia do julgamento final eles se reunirão lá esperando a volta de Arceus...

Era algo assim tão apocalíptico? Cada vez que eu ouvia uma história nova sobre o Sword of Destiny a coisa ficava cada vez mais grandiloquente.

— Isso é sério?

— Depende de quão sério você considera uma lenda... – respondeu irônica como se eu estivesse sendo ingênuo demais em acreditar naquela ladainha toda. Mas eu tinha visto lendários lutarem até a morte, a linha que separava história de realidade já não parecia mais tão fixa para mim... – De qualquer forma Pledge Grove é um só uma pedra no meio da floresta. Não tem nada lá realmente.

— Você já esteve lá?

— Uma vez, com o Tom – explicou não muito interessada. – Ele estava estudando para a prova de Ranger e me arrastou até aquele buraco – revirou os olhos. – Foi um dia todo perdido só para ver uma pedra enorme com um entalhe...

Aparentemente Kara e Tom estavam juntos fazia muito tempo e ele não era exatamente o cara dos encontros divertidos, talvez por isso a garota estava com um novo namorado quando Haila a encontrou em Nimbasa.

— Que tipo de entalhe? – Talvez fosse algo parecido com os desenhos que eu tinha visto em Twist Mountain e na gruta destruída.

— Eu não sei, para mim era só um defeito na pedra – finalizou secamente.

— Você não tem fotos do dia que foi visitar? – Questionei esperançoso.

— Você acha que eu gastaria memória do Xtransceiver com uma foto de uma pedra? – Respondeu mordaz. Era Kara e a lembrança do dia perdido não era boa, então era óbvio que não.

— Você acha que pode ter um lendário lá? – Se o local era citado nas lendas e considerado sagrado fazia certo sentido. Ela deu de ombros sem realmente me responder.

Eu não conhecia Pledge Grove, mas de acordo com Kara não era um local tão desconhecido assim. Parecia até meio óbvio, do que ela tinha me informado, que alguma coisa relacionada aos lendários pudesse ser encontrada lá, então por que nunca Lenora ou Cheren tinham citado o lugar.

— Você disse que é perto de Floccesy Town?

— Sim, você tem acesso pela cidade, era um ponto turístico estúpido – respondeu ainda encarnado o papel que eu tinha pegado na biblioteca.

— Era?

— Teve um terremoto na região faz alguns meses, o epicentro foi na floresta perto de Pledge Grove, eles fecharam o local para visitação porque não parecia mais seguro... – Explicou. – Você não lê jornais? Falou disso em tudo quanto é canto, Alder até apareceu no telejornal tentando tranquilizar a população... – Ela me encarava como se eu fosse a pessoa mais tapada que ela tinha conhecido, e eu não duvidava.

— Terremoto?

— Foi sete meses atrás –disse pensativa. – Eu estava em Striaton ainda, talvez faça um pouco mais...

Sete meses mal tinha saído de casa e nem conhecia Haila. Ainda estava sendo atacado por Pratats furiosos nas florestas nas imediações de Aspertia e... trabalhando no rancho dos velhos em Floccesy quando as Mareeps fugiram por causa de um estrondo no meio da madrugada.

Não tinha tido terremoto nenhum que eu me lembrasse, apenas uma explosão, de acordo com Cassie, que Alder tinha investigado e dado em nada. Será que a história do terremoto era só um engodo para afastar suspeitas? Mas se o ex-Champion tinha ido investigar, ele deveria ter descoberto alguma coisa, não?

Mas e se realmente tivesse um lendário lá? Era a cidade de Alder e eu poderia considerar que de certa forma, era um local seguro. Mas depois de Opelucid, não existia mais lugares seguros e eu tinha quase certeza que o ex-Champion não estava mais na cidade. Ou seja, era um local com um lendário em potencial, totalmente desprotegido e Cassie estava lá.

Eu deveria ligar para Roxie ou Cheren e contar o que tinha descoberto. Falar da gruta, dos símbolos, da morte do professor Juniper, mas ao mesmo tempo, eu sentia que não tinha nada para contar. Eu não sabia se o professor Juniper estava mesmo morto, se aquelas anotações que eu tinha pegado eram mesmo relevantes. Eu não poderia simplesmente dizer que um lendário tinha fugido de Anville para Floccesy, pois eu não tinha como provar isso. Tinha o tal terremoto, mas isso tinha sido há muito tempo, antes da Team Plasma atacar Nimbasa. Deveria ser só uma coincidência. E como Cassie tinha me dito, Alder tinha ido investigar, se houvesse algo lá ele saberia e por consequência o resto dos líderes.

Mas, e se tivesse algo e ele só não tivesse percebido. Diferente de agora, o líder não sabia o que estava procurando. Árvores caídas, terra revolvida tem um significado muito diferente em tempos de paz e guerra. O que eu deveria fazer?

Puxei o Xtransceiver e liguei para o Cheren, eu não fazia ideia de como iria explicar minha suspeita, afinal eu só tinha uma folha e a as informações de Kara para provar minha teoria. Eu queria que ele me atendesse logo para que depois eu pudesse ligar para Cassie. Talvez fosse um alarme falso, mas eu gostaria de avisa-la de qualquer forma.

A chamada tocou e tocou até a ligação cair. Por que o maldito não tinha me atendido? Ele já deveria estar em Nimbasa, será que estava ocupado? Tentei de novo e de novo, eu não iria desistir até que ele me atendesse. A chamada tinha caído novamente e eu tinha apertado o botão de rediscagem quando ouvi um farfalhar no meio das árvores.

Mal tive tempo de me virar na direção do som, o policial que tinha me prendido no dia anterior estava ali, apontando uma arma na nossa direção. Ele estava acompanhado por outros policiais e dois Sawk ladeavam o grupo com um olhar agressivo.

— Nem pense nisso, mocinha – ele apontou a arma para Kara ao vê-la levar a mão a mochila. – De joelhos, os dois, e mãos na cabeça.

Ajoelhamos no chão frio e levamos as mãos às cabeças. Eu podia ouvir meu Xtransceiver tentando completar a ligação.

O grupo se aproximou, ainda apontando as armas diretamente para nós. Espiei Kara, esperando que ela tivesse algum plano de reação, mas fora o olhar desgostoso estampado no rosto não havia mais nada.

— Deixe-me ver o que você tem na mão – o policial inquiriu, sinalizando para a menina. Só então percebi que ela se esforçava para esconder o papel que estávamos estudando entre os dedos fechados.

— Não sei do que você está falando – respondeu com o seu tom blasé habitual.

— Não se faça de engraçadinha, menina, me dê logo isso.

— Vem pegar – ela provocou. Kara era mesmo maluca.

O policial avançou sobre ela, puxando-a pelo pulso e obrigando-a a abrir a mão. A treinadora se mantinha firme, tentando segurar o papel o mais forte que conseguia.

Era só um papel sujo e estúpido que não significava nada para ela, pra que tanto sacrifício para protegê-lo? Mas era Kara, e como ela tinha dito, ela gostava de ter todas as cartas durante o jogo. Aquele papel era a única coisa que poderia provar minha teoria do lendário, a única coisa que talvez explicasse a morte do professor Juniper. Para ela, aquilo deveria funcionar como um salvo-conduto e ela não abriria mão disso tão fácil, ela não iria deixar outros tomarem a decisão por ela.

O policial tentou puxar com mais força, sem sucesso. Irritado, esbofeteou a garota no rosto e eu pude ver respingos de sangue tingir o chão.

— Então você acha que é machão só porque bateu numa garota? – A frase dançou em meio aos pinheiros e só então percebi que era minha voz falando.

— Fique quieto, esquentadinho – bufou – eu já vou dar um jeito em você.

— Olha como eu sou bom, preciso de um grupo de policiais e armas para prender uma menina e um moleque – e eu estava sorrindo e nem sabia por que. O policial pareceu ficar furioso e veio em minha direção, marchando no chão gelado.

— Você não está falando muito para quem está sendo acusado de assassinato? – Arreganhou os dentes.

Ele esperava me intimidar e deveria ter funcionado. Funcionaria qualquer dia, mas não depois do sequestro da Haila, não depois de tudo. Era como se alguém estivesse vivendo aqueles dias por mim, como se o December de verdade, quem eu realmente era, estivesse escondido esperando tudo ficar seguro.

— Eu espanquei uma criança e matei um velho, acha mesmo que tenho medo de você? – Pude ouvir os outros policiais cochicharem entre si. Mas o que me encarava não se abalou. Ele virou a arma na mão, apontando o cabo para mim e desceu o braço na direção do meu rosto. Eu senti uma dor insuportável e algo quente escorrendo pelo meu rosto e depois não senti mais nada.

Notas finais
N/T: Kara is back! (Ninguém sentiu falta dela, mas tudo bem). Sobre o nome é uma pequena alusão ao Days of Magic Nights of War de Clive Barker, é o segundo livro da série Abarat. E é isso, até!