Notas iniciais
Olá pessoas do meu kokoro, tudo bom? Quanto tempo não falo com vocês, né? É até estranho estar de volta, meio emocionante, meio intimidador. Era para eu ter postado esse capítulo na sexta, mas como o Nyah entrou em manutenção, não sei quando voltou, mas eu só vi hoje. Eu peço desculpas aos nossos leitores, fantasmas e participativos, porque a fic entrou em hiatus mais por minha culpa, qualquer que acompanhe meu perfil (essa alma existe?) deve ter visto que todos os meus projetos andam abandonados. Então, grande parte da culpa da demora em voltar é minha porque eu não conseguia escrever. Chega de lamurias, que o capítulo já terá muitas e vamos a fic. Espero que vocês gostem do capítulo e possam matar saudades do Deedee Boa leitura!

December

DESCOMPASSO

– Então, Haila já deu notícias? – Perguntei enquanto descia a rua comercial ao lado de Alanna. Nós havíamos nos encontrado por acaso no centro de Nimbasa e eu me oferecera para acompanhá-la nas compras. Não estava realmente animado para isso, mas qualquer coisa era melhor do que ter que atravessar Nimbasa sozinho.

Boa parte das lojas ainda estava fechada e havia muito escombro pelas calçadas. A menina trajava roupas casuais e era bem bonita, quase como uma modelo. Ela estava terrivelmente mal humorada de ter recebido uma punição de Elesa e tinha reclamado sobre essa injustiça durante os três quarteirões que havíamos atravessados juntos.

– Faz duas horas que ela saiu de Nimbasa – parecia incrédula com a minha pergunta. – Além disso, faz muito mais sentido que você tenha notícias dela, não?

Embora fizesse apenas algumas horas que Haila tivesse partido, para mim, parecia uma eternidade. Desde a morte do Simi não nos falávamos direito, mas ainda estávamos sempre juntos. Mas tudo mudou com a discussão que tivemos. Ela seguiria o caminho dela e eu o meu. O problema é que eu acreditava que o caminho que ela escolhera não a faria feliz e eu não fazia ideia do que escolher agora.

– Bem, nós meio que brigamos. – Falei por fim, explicando o porquê de ela ter notícias da Haila ser mais provável.

– Todo mundo briga – respondeu laconicamente.

– Sim, mas não foi tão simples. – Ela não disse nada, apenas levantou a sobrancelha, me incentivando a continuar. – Tivemos um pequeno desentendimento ideológico e...

– Então a loira aguada te chutou? – Uma voz arranhada atrapalhou nossa conversa.

Estávamos na esquina, esperando os sinais de pedestres ficarem verde quando Clarice apareceu vinda do outro lado do mesmo quarteirão. Estava acompanhada de um Pokémom rosa com grandes presas e aparência de poucos amigos.

Não tínhamos nos visto desde sua briga com Haila. Ela parecia bem, usava uma blusa amarela e tinha uma pequena cicatriz no lábio, cortesia da “loira aguada”.

Ela parou a uma distância mínima da Alanna e a mediu de cima a baixo.

– Perdeu alguma coisa, Clarice? – A menina questionou diante do olhar. Estranhei por vê-la chamar a outra pelo nome.

– Nada. – Então me lançou um olhar fuzilante. – Cadê sua namorada?

Por que mulheres sempre perguntavam umas das outras usando aquele tipo de colocação? Haila não era minha namorada tampouco Clarice, mas as duas adoravam se referir dessa forma.

– Driftveil City, acho.

– Então ela te deixou? – Havia uma expressão que eu não sabia ser sarcasmo ou contentamento.

– Acho que isso não é da sua conta. – Alanna interrompeu.

– Nem da sua – Clarice rosnou. As duas se encaravam e eu quase podia ver pequenos raios elétricos faiscando no olhar de ambas.

– Belo Snubull – comentei encarando o Pokémon ao seu lado tentando desanuviar o ambiente. Eu não tinha certeza de que Pokémon era, tinha uma foto no livro da minha mãe, mas não tinha dado muita atenção.

– É um Granbull – cuspiu a informação. – E foi o único Pokémon que me sobrou, graças a você. – Havia raiva na voz e não era pouca.

– Eu sinto muito – foi tudo o que consegui pensar.

– Sente? Você simplesmente entregou minha Audino para a Team Plasma.

– Ela iria morrer – argumentei.

– Não iria!

– Clarice, ela estava sendo surrada por um Tyranitar. Você não tinha como combater aquilo.

– Teria, se você tivesse me ajudado. Mas não, você foi um covarde que preferiu entregar minha parceira ao invés de lutar. – Alanna que parecia não estar entendendo nada, desviou os olhos para mim, interrogativamente.

– Eu fiz o que achei melhor.

– Muito melhor. Entregou meu Pokémon, mas não os seus. – Ela falava muito alto e várias pessoas na rua já estavam olhando para nós.

– Vocês dois, já chega. – Alanna se impôs ao ver que uma pequena plateia se formava. Senti a mão dela envolver discretamente meu braço, indicando que deveríamos retomar nosso caminho.

– Onde acha que vai? – Clarice deu um passo, fechando a passagem ao perceber a estratégia de fuga da Alanna. – Eu não terminei com você. Você vai me pagar por isso. – Ela estava quase espumando.

– O que você quer que eu faça? Que eu vá atrás da sua Audino e traga-a de volta? Sinto muito, mas ela teve opção de ficar ao seu lado e preferiu ser livre. Ela não vai voltar, mesmo que você queria. – Eu também estava começando a ficar irritado. Eu tinha salvado a pequena coitada e todo mundo acusava minha atitude como errada. Clarice, Haila. Eu me sentia bem e correto por ter ajudado aquela Audino e não haveria ninguém que me fizesse sentir errado por isso.

– Não fale como se a conhecesse – e deu um passo na minha direção. Os olhos pareciam em chamas e achei que ela fosse voar no meu pescoço. Clarice não era de brigas. Era pavio curto e gostava de discutir, mas bater não fazia seu tipo, aquele dia mesmo que brigara com a Haila, tinha apanhado feio. Mas ela parecia não se importar com esse detalhe agora.

Só que não chegou a por as mãos em mim. Parou na metade do movimento quando Alanna a esbofeteou no rosto: – Eu disse que já chega – e a voz saiu autoritária como a de Elesa. – E se você tentar prosseguir com isso serei obrigada a informar seu mestre a respeito. Aposto que Burgh não aprovaria que um de seus aprendizes fique acuando um treinador na rua.

Clarice fechou ainda mais cara e me encarou como se esperasse que eu sublimasse. A multidão em volta cochichava e apontava, alguns reprimam a vontade de rir. Semanas atrás eu ficaria com pena dela, mas agora só queria sair dali o mais rápido possível.

Alanna me arrastou e quando chegamos à metade da faixa de pedestre, ouvi Clarice me chamar. Parei, mas não me virei.

– Você deveria desistir de ser treinador. Você mesmo disse que não estava verdadeiramente interessado. Não é sua vocação. – Minhas mãos se crisparam e instintivamente as enfiei nos bolsos. Alanna me puxou pelo braço, me fazendo andar.

Terminamos de atravessar a rua e andamos uma quadra em silêncio. Então de repente, Alanna me questionou de onde eu conhecia Clarice. Contei sobre meu Contest em Castelia e o emprego na galeria de Burgh. Ela apenas confirmou com a cabeça. Quando questionei de onde elas se conheciam, a menina explicou que os aprendizes sempre acabam se conhecendo.

– Vocês não parecem se darem muito bem – arrisquei ao me lembrar de como Clarice medira a garota.

– Clarice não se dá bem com ninguém acho. – Deu de ombros. – Mas parece gostar de você. É muita raiva para ser de graça. É visível que é ódio de amor. – Ódio de amor? As meninas tinham uma visão muito estranha sobre romance.

– Acho que ter entregado o Pokémon dela para a Team Plasma não fez exatamente ela cair de amores por mim. – Não era tão ingênuo para não perceber o olhar velado que Clarice me lançava e mesmo após nossa batalha com Rose, ela andara pendurada em mim. Só realmente se afastou quando saiu no braço com Haila. Mas seria muito estranho se ela ainda nutrisse algum sentimento mesmo após ter libertado seu Pokémon sem autorização e de ter ficado ao lado da loira quando elas se engalfinharam.

– Qual é, dava para ver na cara dela que ela estava me medindo, achando que sou uma rival. – E deu uma piscadela. Isso não poderia ser sério. As meninas realmente tinham uma visão muito estranha sobre romance. – Mas você salvou a vida do Pokémon no final – retomou – provavelmente eu ficaria furiosa também, mas realmente não sei como agiria na hora, talvez a libertação do Audino tenha sido um sacrifício necessário.

– Acho que você é a única a pensar assim, Haila também não concordou com a minha atitude. – Na verdade, Haila nunca tinha exprimido seus sentimentos em relação ao que eu contara sobre o Pokémon de Clarice. Ela vivia em um misto de torpor e ódio por causa de Simi e imagino que sequer deu atenção ao que contei.

– Por isso vocês brigaram?

– De certa forma. – Mas achei melhor não entrar em detalhes e Alanna também não quis saber.

Quando chegamos diante do ginásio de Elesa nos separamos. Alanna se despediu desanimada, ainda tinha muitos dias de castigo e punição a cumprir e Elesa parecia ser bem rigorosa. Eu tomei o caminho do Centro Pokémon improvisado, olhei no relógio e acelerei o passo, já estava ficando atrasado.

O Centro Pokémon era, na verdade, uma instalação improvisada em um prédio baixo e pequeno enquanto o local do verdadeiro era reconstruído. Muitos serviços não estavam disponíveis, de forma que os esforços principais estavam focados na manutenção básica dos Pokémon.

O local não estava muito cheio e não demorei a encontrar um conjunto de máquinas dispostas em uma das paredes. Me aproximei encarando o dispositivo e puxei uma pequena cadeira, me sentando diante do aparelho. Dei uma longa olhada nos botões e era exatamente como a recepcionista do hotel tinha me explicado. Puxei meu Xtransceiver e iniciei uma chamada.

– Você está atrasado – rugiu Cassie do outro lado da linha, assim que atendeu. – Você me mandou uma mensagem pedindo para que eu viesse até o Centro Pokémon exatamente às 11 horas da manhã.

– Aconteceram coisas – justifiquei me lembrando do encontro com Clarice. Na verdade, só estava atrasado quinze minutos, não precisava de toda aquela cena. Mas era Cassie e ela era exagerada e dramática.

– Você está bem? – Questionou me analisando pelo monitor do Xtransceiver.

– Sim, estou bem.

– Você parece meio abatido – ponderou, preocupada. Cassie sabia que eu estava em Nimbasa, pois havia dito na mensagem que mandara a ela no dia anterior. – Você não se feriu, não é? – Já era de conhecimento de toda Unova o que havia acontecido na cidade, de forma que a menina estava ciente da presença da Team Plasma e dos ataques.

– Eu estou bem, Cassie. – Sorri tentando tranquiliza-la, mas não saiu muito convincente.

– O que quer afinal? – Voltou ao tom casual.

– Eu preciso que você receba meus Pokémon. – Disse simplesmente.

– Seus Pokémon precisam de tratamento? – Questionou ansiosa. – Peach está bem, certo?

Podia parecer estranho que as máquinas de transferência estivem funcionando, já que transferir ou trocar seus Pokémon não parecia uma prioridade. Mas as próprias enfermeiras do Centro vinham orientando os treinadores a transferirem seus monstrinhos para outra cidade, em busca de tratamento, caso houvesse alguém de confiança que pudesse cuidar deles. Isso redirecionava os casos menos urgentes para outros Centros e permitia que o provisório de Nimbasa se focasse em casos mais graves.

– Peach está bem. – Afirmei. – Meus Pokémon não precisam de tratamento. Só preciso que você os liberte para mim.

– Que eu faça o quê? – Os olhos se arregalaram e Cassie me encarou pela telinha como se não tivesse ouvido direito o que eu tinha dito.

Desde que me encontrara com Rose, seu discurso não saia da minha cabeça. Era estranho pensar que para quem nunca se importara muito com Pokémon eu estava realmente preocupado com a felicidade deles. Mas talvez eu fosse assim desde o começo, a distância que eu sempre criara, era seguro para mim, mas também era seguro para eles.

É claro que poderia soltá-los ali mesmo, em Nimbasa, como acontecera com a Audino de Clarice, mas não me parecia certo dessa maneira. Eu tinha capturado Pokémon em seus habitat naturais, fazia muito mais sentido devolvê-los aos seus próprios nichos e por isso, precisava de Cassie. A maioria dos meus Pokémon tinham sido capturados nas imediações de Floccesy Town e esperava que elas os restituísse para mim. Peach eu devolveria a ela, Bacon e Abóbora ainda não tinha certeza do que faria. Abóbora era muito pequeno para ser deixado no deserto e não fazia ideia de onde os Tepig vinham. Mas os outros voltariam para suas vidas selvagens.

– Eu quero libertar meus Pokémon. Eles merecem ser felizes e livres – disse pausadamente.

– December, você bateu a cabeça em algum lugar durante o ataque da Team Plasma? Não faz o menor sentido o que você está falando...

– Eu estou fazendo o que era certo desde o começo. Eu não nasci para isso. Eu não tenho vocação para ser treinador. – Clarice estava certa a meu respeito. Eu não tinha o pulso de Haila ou de Skyla para treinar Pokémon e fazer do meu desejo algo mais importante. Eu estava amedrontado sem saber o que fazer. E não com medo da Team Plasma, mas sim de me tornar alguém como Kean, que não se importava com a felicidade ou o vínculo com os Pokémon. Por mais que eu dissesse a mim mesmo que nunca seria como ele, eu tinha mudado muito desde que saíra de Aspertia, não havia garantias de que eu não mudaria mais e que não mudaria para pior. E eu não queria me tornar alguém pior.

– Você é um coordenador. – Ressaltou e instintivamente sorri, tínhamos tido aquele mesmo diálogo quando nos conhecemos.

– Eu não sou nada, você sabe disso – minha voz saiu firme e ela me encarou como se não me reconhecesse.

– Eu não vou compactuar com isso. – Respondeu fechando a cara.

– Se você for realmente minha amiga, você vai, Cassandra. – Era um golpe baixo, mas eu precisava da ajuda dela. – Peach é sua, vou devolvê-la e você tem o direito de decidir o que quer do futuro dela, mas meus parceiros, eu irei libertá-los, com ou sem sua ajuda.

– Certo. – Ela respondeu depois de um longo silêncio. – Mas quero deixar claro que eu não concordo com essa sua escolha. A responsabilidade é toda sua.

– Eu assumirei todo o peso das minhas decisões – finalizei.

Desviei minha atenção do Xtransceiver e levei a mão ao bolso do moletom e apanhando as Pokéball.

Apertei o botão de ligar a máquina de transferência e em um pequeno monitor coloquei as coordenadas, direcionando o fluxo para Floccesy Town. Então abri uma bandeja lateral, onde cabiam até quatro Pokéball e coloquei os pequenos dispositivos nas baias.

O próximo passo era apertar enviar e esperar acontecer. De alguma forma as esferas brancas e vermelhas seriam transferidas para a cidade do outro lado do mar e Cassie estaria de posse delas. Só que não consegui apertar o botão, minha mão ficou parada a centímetros do acionador, mas eu não tinha coragem de apertá-lo.

Quando o fizesse seria o fim da minha relação com setenta por cento do meu time e um passo sem volta para sair da vida de treinador. Não que eu estivesse realmente preocupado com a minha carreira, mas por um segundo eu me perguntei se era aquilo mesmo que meus parceiros queriam.

Chiclete adorava Contests, Couve-Flor era excelente batalhador se bem instruído e Peach finalmente começava a me obedecer, ou desobedecer menos, dependendo do ponto de vista. Tinha o Pidove e minha relação com ele era quase inexistente, mas podia imaginar a cara minha mãe ao saber que eu tinha como parceiro um dos primeiros tipos que ela capturou.

Eles não pareciam infelizes comigo e estavam há tanto tempo longe de suas vidas naturais que não sei se se adaptariam novamente. Mas se eu queria apoiar meu discurso precisava fazer aquilo.

– Deedee? – A voz de Cassie me chamou de forma delicada e suave, que não fazia muito o jeito dela. Levantei os olhos e a encarei na telinha do Xtransceiver. – Você está chorando. – Constatou.

Só então percebi lágrimas silenciosas descendo pelo rosto e gotejando no bolso frontal do moletom.

– Você não precisa fazer isso. – Disse complacente.

– Eu preciso – me engasguei com o próprio choro e as palavras não se formaram direito.

– Eu não sei o que você passou por esses dias e imagino que tenha sido algo muito difícil. – Respirou fundo e continuou – seja lá o que tenha sido, você precisa de tempo para pensar sobre isso. E essas lágrimas só provam que você ainda não fez isso.

– Mas eu...

– Não me interessa realmente se você vai libertá-los ou não. Mas você precisa ter certeza do que está fazendo e visivelmente você não tem.

E ali estava eu, tomando sermão de uma fedelha de dez anos. Haila estava certa sobre mim, eu era hipócrita. Balançava a bandeira da felicidade e liberdade, mas não tinha coragem de fazê-lo.

– Eu sou um fraco... – gemi desalentado ao perceber a situação em que me colocara.

– Sim, você é. – Cassie confirmou do outro lado da linha. Havia um sorriso discreto nos lábios. – Mas eu te amo mesmo assim. – E momentaneamente o sorriso se alargou. – E dá próxima vez que me fizer vir até o Centro Pokémon por um motivo inútil, vou pessoalmente até onde estiver chutar sua bunda. Você me entendeu? – O lado fofo e meigo tinha desaparecido por completo e parecia a Cassie de sempre.

– Sim, eu entendi. – E com isso, ela encerrou a chamada.

Por mais que as palavras de Cassie fizessem sentido, de que eu estava com duvida sobre o destino dos meus Pokémon, ainda me sentia na obrigação de espaldar meu discurso. Se não o fizesse seria só mais um hipócrita cretino e eu não queria terminar assim. Mas eu realmente não sabia o que fazer.

Peguei minhas Pokéball e retornei-as no bolso, limpei as lágrimas como deu e me preparei para sair, mas quando levantei dei de cara com Roxie. Ela estava parada atrás de mim, quase colada no meu cangote e me lançava um olhar indecifrável.

– Cheren estava certo sobre você, você será uma tremenda dor de cabeça.

Não entendi exatamente o que ela quis dizer com isso, mas nem tive tempo de perguntar. Ela me puxou pela gola do moletom.

– Espero que não tenha feito nada de estúpido. – E lançou um olhar ao aparelho de transferência.

– Eu...

– Eu não quero saber – rugiu e me puxou pela gola, me arrastando para fora do Centro e me dando um sermão sobre ser inconsequente. Eu não tinha feito nada, ao menos desta vez.

=8=

Quando chegamos ao hotel, ela subiu direto para o andar onde estava hospedada e me empurrou para dentro do quarto.

– Sente ai e fique quietinho. – Apontou para a única poltrona no local.

O quarto de Roxie era parecido com o meu, só um pouco maior. Em cima da cama havia uma mala aberta cheia de roupas jogadas dentro de qualquer forma. Aos pés da cama havia um par de coturnos muito parecidos com os que ela usava e uma guitarra roxa e preta estava encostada em uma das paredes.

Ela estava do outro lado do quarto, usando o telefone do hotel e falava com alguém. Ao lado do telefone que usava pude divisar um porta-retratos onde Roxie posava teatralmente ao lado de seus Pokémon. Todos pareciam bem felizes e aquilo começou a me deixar deprimido novamente.

Não pela felicidade de Roxie e seu time, mas por que nunca haveria como realmente precisar tal coisa. Os Pokémon não poderiam dizer se estavam felizes ou não e interpretar suas reações não era um ciência exata. Até mesmo minha interpretação sobre a felicidade de Chiclete nos Contest poderia estar errada. Eu os tinha tirado a vida selvagem e os obrigado a me aceitar como mestre. Isso parecia tão errado.

Senti lágrimas se formando, mas não tive tempo de derramá-las, a porta do quarto se abriu e Cheren apareceu.

– Ele está bem? – Ouvi perguntar para Roxie e ela só deu um gemido em resposta.

Ele se aproximou a passos lentos e me chamou pelo nome, mas desviei o olhar encarando o chão. Eu estava chorando de novo e não queria que me visse de forma tão deplorável. Então se ele se agachou diante de mim e me encarou por debaixo da franja escura. Tentei cobrir o rosto com as mãos, mas ele segurou meus pulsos, obrigando a encará-lo.

– Você não fez nada de idiota, fez? – A voz saiu baixa, mas autoritária e acusadora e me senti incrivelmente pequeno diante da presença dele.

Cheren sabia do meu desejo em libertar meus Pokémon, eu havia contado a ele quando apareceu na porta do meu quarto, algumas noites atrás.

Eu nunca mais o tinha visto desde que saíra de Aspertia, apenas na reunião. Por isso, tê-lo parado diante da minha porta no meio da noite era estranho. Ele ainda trajava a mesma roupa da reunião e eu estava de pijamas. Sequer esperou me convidá-lo para entrar, empurrou a porta e abriu passagem, se sentando na única poltrona do meu quarto.

Acendi a luz e me joguei na cama. Ele me encarou demoradamente como se analisasse cada parte de mim.

– Você parece bem – disse de repente – fisicamente.

Não consegui dizer nada apenas balancei a cabeça.

– Sua mãe me pediu para ver como estava – explicou. – Ela imaginou que você estaria em Nimbasa já que a última vez que deu notícias estava no deserto.

– Mas poderíamos não ter nos encontrado, quer dizer, meio coincidência estarmos todos no mesmo hotel – argumentei sem jeito.

– Ela foi bem específica em me dizer que eu teria que ver como você estava. – E levantou uma sobrancelha. Bem, era Adizia, e eu só podia imaginar que tipo de ameaças tinha feito até convencer Cheren a me procurar. – Por que não ligou para ela? Ela está bem preocupada com você.

– Os Xtransceiver ficaram fora de área por um tempo.

– Mas já estão funcionando – salientou

– Sim, mas a última vez que falei com ela... – e deixei a frase morrer. Me lembrava do sermão por causa do jornal.

– Fala das suas aventuras em Castelia? – Droga, todo mundo sabia disso.

Não respondi e o silêncio se instalou no quarto. Eu não sabia exatamente porque, mas estava nervoso. Todo mundo em Nimbasa parecia abatido, cansado ou machucado, mas Cheren parecia reluzir no meio da tragédia. O rosto estava ótimo e não havia um machucado sequer. Como se estivesse no meio da tempestade e nada o atingisse.

– Roxie me contou sobre sua indecisão ideológica – disse de repente. O encarei sem entender, por que a menina havia dito tal coisa a ele? – Ela achou que eu poderia te dar uma luz já que somos da mesma cidade. – Não éramos, Cheren era natural de Nuvema e nunca entendi porque dele ter assumido o ginásio na minha cidade. – Ela está preocupada com você. – Baixei a cabeça sem saber o que dizer, era estranho imaginar a líder preocupada comigo, nós mal nos conhecíamos. – E eu também.

Levantei os olhos e o encarei. Exatamente o que eu tinha feito para que todos se preocupassem?

– December?! – A voz grave me trouxe de volta do devaneio.

Cheren ainda estava diante de mim, agachado no chão. Roxie tinha sentado na cama e displicentemente jogava o restante da roupa dentro da mala.

– Eu sou um hipócrita – disse lentamente.

– Por que diz isso?

– Eu disse a você que defenderia minha ideologia, mas eu não pude fazê-la – minhas mãos tremiam sob o aperto de Cheren. – Eu sou hipócrita e egoísta. Disse a Haila que a ideologia da Team Plasma fazia sentido, mas não consigo abrir mãos dos meus Pokémon. Eu quero que eles sejam felizes, mas não quero ficar sem eles. Só que isso... – Eu estava me enrolando.

Naquela noite que Cheren fora ao meu quarto, contei ao rapaz tudo o que tinha acontecido comigo e Clarice até a chegada de Roxie. Ele pareceu bastante surpreso em descobrir que Rose tinha se unido a Team Plasma. Quando ela saiu em jornada, fazia poucos meses que Cheren assumira o ginásio e ele tinha esperança que ela se tornasse sua aprendiz quando voltasse para casa.

Também tinha dito sobre o que achava dos pensamentos da Team Plasma e de como eles me pareciam corretos. Expliquei como a história de felicidade Pokémon me atormentava e que estava disposto a me desfazer do meu time se isso fosse o melhor para meus parceiros.

Naquela vez, ele tentou me dissuadir da ideia, dizendo que a Team Plasma se cobria de palavras bonitas que eles sequer acreditavam. Mas Rose parecia acreditar no que me dizia e parecia verdadeiramente satisfeita com a liberdade da Audino.

– Está tudo bem. – O líder disse lentamente, tentando me acalmar.

– Não está nada bem. – Rebati. – Eu sou uma piada como coordenador, péssimo com Pokémon e mandei a Haila embora, o que eu vou fazer agora? – Eu estava chorando copiosamente, mas não me importava mais.

– Você pode voltar para Aspertia comigo, se quiser.

Cheren iria atrás dos lendários, mas voltaria a Aspertia para resolver a situação de seu ginásio. Eu não queria seguir a vida de coordenador e poderia retornar com ele, mas isso significaria enfrentar Adizia. Ela não me veria apenas como uma piada como coordenador, que era meu desejo inicial para dissuadi-la da ideia de me passar seu reinado, mas me rechaçaria pela minha fraqueza e me desacreditaria por defender ideais semelhantes ao grupo mais perigoso de Unova. Ela teria vergonha de mim. E não seria por ter sujado o nome da família ou não ter seguido seus passos. Mas por eu ser um fraco que não apoia seu próprio ideal, por mais que ela mesma não concordasse com ele.

– Eu não quero isso – disse me sentindo desorientado.

– É o que te sobrou, se não vai continuar na vida de treinador – Roxie se manifestou.

– Eu não posso ser um treinador se não sei se meus Pokémon estão felizes, eu não quero ser como Kean. Eu não posso simplesmente treiná-los e ignorar todo o resto. – Minhas mãos tremiam muito e minha mente estava em turbilhão.

Cheren e Roxie trocaram um olhar, provavelmente se questionando de quem seria Kean.

– Talvez Ixia possa ajudar. – A líder sugeriu.

– No que aquele velhote poderia ser de ajuda? – Cheren parecia descrente.

– Ele é um Memory, pode ser útil.

– Ele é um charlatão.

– Como você é descrente – e fez uma careta para o rapaz. – Sabia que a habilidade de se comunicar com Pokémon é realmente comprovada pela ciência.

– Não estou dizendo que a habilidade é uma besteira, apenas que Ixia é.

– O que é um Memory? – Perguntei. Cheren ainda segurava meus pulsos, mas estava tão entretido na conversa com Roxie que parecia ter se esquecido de mim.

– É alguém que pode se conectar as lembranças dos seus Pokémon. – Explicou. Ao ver que eu estava mais calmo, soltou meus pulsos e se levantou. – Pessoas com essa habilidade podem ajudar Pokémon perdidos a retornarem para casa ou...

– Dizer as lembranças dos seus parceiros e se elas são felizes. – Roxie completou.

– Existe mesmo alguém que possa fazer isso? – Perguntei incrédulo.

– É uma habilidade incomum, mas não tão rara assim. – Cheren enfiou as mãos no bolso.

– E esse Ixia poderia dizer se meus Pokémon são felizes?

– Às vezes, é difícil identificar as lembranças, mas na maioria dos casos as respostas são conclusivas. – Roxie explicou.

– Mas Ixia é um charlatão.

– Ele não é. – A líder venenosa bateu o pé.

– Qual é Roxie.

– Qual é, digo eu, Cheren, você só está com implicância porque Ixia é irmão do Alder.

A briga entre o líder normal e o ex-campeão da Elite Four me veio à mente. Eles realmente deveriam se desgostar para que até o irmão de Alder recebesse o desagrado.

– Certo, mas como ele vai chegar até lá? – O moreno mudou o foco da conversa.

– Eu vou até Undella, posso levá-lo até Lentimas Town. – Informou à Cheren. – O que acha? – Disse se voltando para mim.

– Bem... – Eu estava sem rumo algum. Não tinha Haila para seguir, nem estava interessado em seguir nos Contest ou voltar para casa, me parecia minha única opção. – Isso não vai mudar minha visão sobre as coisas, sobre como eu vejo a relação entre humanos e Pokémon, mas acho que pode servir de algo. – Mentira, aquilo agora parecia minha tábua de salvação. A despeito da indiferença que tentava demonstrar, saber como meus Pokémon se sentiam poderia mudar e muito a maneira como eu via as declarações da Team Plasma.

– Então está feito. – Roxie uniu as mãos.

– Que seja. – Cheren revirou os olhos. – Mas ainda acho que ver Ixia é uma perda de tempo. – Bufou.

– Você não gosta mesmo do Alder – deixei escapar e me arrependi na mesma hora. Cheren me encarou e perguntou de onde eu tinha tirado aquela afirmação. Gaguejei e não disse nada, enquanto sentia o olhar fuzilante de Roxie sobre mim. Ela me mataria se eu falasse que estava de penetra na reunião.

=8=

Apesar de Roxie ter arrumado as malas na pressa, partimos apenas dois dias depois. Estávamos no Gear Station, a estação central do metrô que se estendia por toda Unova. Eu conhecia de ver propagandas na televisão, mas nunca me imaginei andando naquilo.

A plataforma não estava muito cheia e nós pegaríamos a linha laranja, que nos deixaria em Undella City e de lá iriamos de carro até Lentimas Town visitar Ixia. Olhei no relógio, o trem estava ligeiramente atrasado.

Cheren estava ali também, apenas para se certificar que nossa partida seria segura. Conversava com Roxie animadamente, enquanto eu pensava se deveria ligar para Haila e avisar para onde estava indo. Então me lembrei de que ela não tinha um Xtransceiver e mesmo se tivesse bem capaz de desligar na minha cara.

– Faça uma boa viagem. – Cheren me desejou tirando do meu devaneio.

– Obrigado. Bom retorno a Aspertia e diga a minha mãe que eu vou ligar algum dia. – Que eu esperava que fosse bem distante.

– Certo. – Ele sorriu torto.

– Por que não tentou mais me convencer a mudar de ideia? – Perguntei ao me lembrar que depois de nossa conversa inicial no quarto, Cheren nunca mais tentara me fazer mudar de ideia sobre a Team Plasma.

– Eu já estive em jornada e enfrentei a Team Plasma muitas vezes. Eu tive muita experiência e pude formar minha própria opinião sobre eles. Talvez, você deva fazer o mesmo. De nada adiantarão meus apelos se você não vivenciar por si só.

– Então você quer que eu quebre a cara para me mostrar que está certo?

– Não. Quero que você viva por si mesmo e forme sua opinião a respeito. Não quero que você os odeie apenas porque alguém disse que era isso que você deveria fazer. – Explicou professoral.

– E se minha opinião não mudar e eu ainda achar que eles estão certos no que defendem?

– Você viveu e aprendeu e essa será sua opinião. Você não aprende nada se não põe sua ideologia a prova. – Deu de ombros.

– Mesmo?

– Sim, até eu tive que passar por isso. – Confidenciou. Devo ter ficado visivelmente abismado porque ele prosseguiu em tom mais suave. – Quando eu era treinador acreditava que apenas força e vantagem contavam para vencer uma batalha.

Eu realmente ficara surpreso. Aquilo havia sido uma das primeiras coisas que Cassie havia me ensinado. Que força e vantagem por tipo nem sempre eram garantias de vitória. Mas eu acreditar nisso era compreensível, afinal era eu. Mas Cheren? O mais jovem líder de ginásio de Unova, de quem todos tinham orgulho e minha mãe queria como filho?

– E quem te ensinou que não era esse o caminho? – Estava visivelmente curioso.

– Alder.

Meu queixo caiu. Mas eles não se odiavam? Mas não tive tempo de perguntar mais, pois finalmente o metrô chegou, balançando e rangendo nos trilhos. As portas se abriram e algumas pessoas desceram.

Cheren praticamente me empurrou para dentro do vagão antes que eu mudasse de ideia e pediu que Roxie ficasse de olho em mim e avisasse de qualquer problema. Parecia minha mãe falando.

Roxie e eu nos acomodamos e pouco tempo depois as portas dos vagões se fecharam. Do lado de fora, Cheren acenou em despedida.

O trem começou a se mover lentamente e aos poucos ganhou velocidade. Ele chacoalhava lenta e ritmicamente e era uma sensação estranha e engraçada. Perguntava-me se Haila já tinha andado em algum antes. Droga, tinha que parar de pensar nela.

Notas finais
N/T: Ando meio fangirl do Cheren, então não estranhem ele aparecer vez ou outra. Caso tenha ficado alguma dúvida, a habilidade do Ixia como Memory é meio parecida com a do Corin, irmão da Haila (e tem uma garota em Kalos com essa mesma habilidade no jogo). Deixem reviews. Beijokinhas e até!