Rota Zero
49 Ixia
Notas iniciais
December
IXIA
Eu tinha reencontrado Haila. Queria dizer que estava cem por cento feliz, mas isso seria mentira. Estava feliz claro, mas estava com medo. A última vez que nos falamos tínhamos trocado ofensas e expostos pontos de vistas diferentes, as coisas não se resolveriam só porque nós sentíamos falta um do outro.
Tinha sido estranho reencontrá-la em Lentimas. Era como se ela fosse uma stalker ou algo parecido, pois ficou me seguindo por vários quarteirões. Por isso, quando finalmente ela me confrontou não achei que ela estava ali para uma reconciliação. Tinha certeza que ela esfregaria na minha cara que estava certa sobre a Team Plasma e que sua vingança tinha sido bem sucedida. Mostrar-me que ela estava muito melhor sem mim e que eu era um total fracasso. O que não precisaria de muito esforço, na verdade.
Mas olhando-a agora, do outro lado da mesa, ela me parecia ao mesmo tempo a mesma de sempre e completamente diferente. Ela estava mais bronzeada e o olhar tinha assumido uma nuance mais selvagem. Eu não sabia o que ela tinha visto e vivido, mas deveria ter sido horrível.
Enquanto estávamos na mesa de café da manhã, ela contava sobre Serpio, Clay e o ginásio e sobre como terminara sua busca junto de Skyla. Era uma história assombrosa, que envolvia a morte de um Pokémon, batalhas árduas, mas ela sorria vez ou outra, e eu não tinha certeza se sorria de nervoso, ou eram apenas sorrisos casuais.
Desmond, ao lado dela, parecia bastante confortável com o relato, como se tivesse vivenciado tudo aquilo. Uma parte minha tinha vontade de chutá-lo dali, eu estava de volta à vida da Haila e ela não precisava desse garoto metido a besta. Mas eu também me questionava se ainda havia espaço para mim na vida dela. Por mais que ela dissesse que éramos melhores amigos e que havia sentido minha falta, sua interação com ele me fazia crer que eu não era mais necessário.
Desmond se levantou e se despediu, tentando dar um beijo em Haila que desviou e o provocou. Quando ela havia se tornado tão acessível para os outros? Ela vivia fugindo do Tom, que eu julgava ser seu namorado, e poderia contar nos dedos de uma única mão quanto contato físico havíamos tido. Ela realmente tinha mudado, ou gostava mesmo desse sujeito.
– E quando vamos? – Haila perguntou assim que o rapaz se afastou. Ela me encarava de forma penetrante e eu me sentia um pouco acuado diante daquele olhar. Era um olhar muito diferente do que me lançara na noite anterior, quando ela parecia indefesa e sozinha, mas eu gostava desse olhar, mesmo que ele me assustasse.
Lancei um olhar nervoso para Chiclete e fiquei em silêncio por um instante, ponderando tudo que estava em jogo. Eu tinha chegado a Lentimas no final da tarde e usara isso como pretexto para não ir atrás de Ixia, mas eu não podia mais enrolar, eu tinha ido até lá para isso.
Ela se levantou e veio ao meu lado, pousando a mão sobre meu ombro.
– Vamos fazer isso, juntos – aquele tom de voz que sempre usava quando eu fraquejava nos Contest, a Haila de sempre, e mesmo por traz dos olhos selvagens e da pele bronzeada, me senti seguro. A encarei por alguns instantes e por fim confirmei com a cabeça.
Terminamos o café e fomos para a rua. Lentimas não parecia diferente a luz do dia, na verdade, parecia ainda mais avermelhada e empoeirada do que no começo da noite. Não havia muito movimento na rua e as pessoas pareciam seguir sua vida tranquilamente sem se importar com os poucos turistas que perambulavam por ali.
Eu não conhecia Ixia, só tinha as orientações que Roxie havia me dado. De acordo com ela, ele vivia em uma casa simples no sopé do vulcão, sem nenhuma placa ou identificação. Eu poderia encontrar informações no Centro Pokémon caso me perdesse, mas com Haila ao meu lado, eu acreditava que encontraríamos facilmente, apesar do senso de direção dela não ser o que eu chamaria de excelente.
– Deve ser por ali – Haila arrancou o papel da minha mão, onde Roxie havia desenhado um mapa, e apontou para a última rua com casas nas proximidades da montanha.
À medida que avançávamos e as casas rareavam, sentia minhas pernas vacilarem. Chiclete caminhava ao meu lado em silêncio, enquanto Haila analisava as informações que Roxie anotara no bilhete. Na minha mente, Ixia parecia um grande bruxo que olharia no fundo da alma dos meus Pokémon e revelaria as piores coisas que eles pensavam a meu respeito. E isso estava me deixando aterrorizado.
– Você vem? – A voz de Haila me tirou de meu devaneio. Só então percebi que tinha parado na metade do caminho e Haila estava alguns metros à frente, com Chiclete parado ao lado dela.
Era engraçado ver que Chiclete continuava amistoso com todo mundo, até mesmo com pessoas que ele conhecia pouco como Roxie e Lila ou com Haila, de quem eu havia me afastado. Era apenas comigo que ele mantinha aquela aura reservada e indiferente e isso estava diretamente ligado ao fato de que ele não confiava em mim e meu desejo de destruir sua família.
– Deedee? – Haila voltou alguns passos, me encarando. – Você está bem?
Não, não estava. Minha vontade era sair correndo e voltar para meus dias despreocupados em Undella ou as preocupações bobas que tinha como assistente na galeria de Burgh. Eu não queria mais saber sobre felicidade, sobre liberdade ou sobre a ideologia da Team Plasma, eu só queria ir para casa.
– E se Ixia disser que preciso me desfazer deles? – Eu me sentia um idiota indagando tais coisas, já que Haila e eu havíamos nos desentendido exatamente por esse motivo.
– Não é o que você acredita? – Eu sabia ao que ela se referia.
– Sim, mas... – minha cabeça estava em turbilhão, a verdade é que eu tinha pensado apenas em duas opções, felicidade ou liberdade, mas e se houvesse outras? E se Ixia dissesse algo que eu não esperava, uma terceira opção que eu sequer imaginasse, eu não saberia nem como reagir a isso. – Você estava certa sobre mim. Sou um hipócrita, não vou conseguir me desfazer deles.
Haila me olhava como se não soubesse me responder. Era como se ela escolhesse entre me consolar ou apontar o dedo para minha cara e gritar um escandaloso “eu disse, seu hipócrita.” Aparentemente não era o único a me digladiar com pensamentos confusos, entre defender sua ideologia ou manter nossa amizade.
– Você veio aqui para isso, não é? – Disse por fim.
Haila estava certa, eu estava morrendo de medo de saber a verdade, mas o que aconteceria se eu fugisse? Eu passaria o resto da vida na dúvida se deveria manter meus Pokémon ou libertá-los e provavelmente arrastaria essa instável situação para sempre.
Ela me estendeu a mão, mas ao ver que eu permanecia imóvel, me puxou pelo pulso. Pude sentir os dedos dela tremerem enquanto me rebocava. Ela estava com problemas com Leaf e Serperior. Talvez não fossem tão graves quanto minhas aflições, mas Ixia poderia dizer coisas que ela não queria ouvir, assim como eu. Puxei meu braço e entrelacei meus dedos aos dela, enquanto avançávamos pela rua.
– Você não deveria me dar à mão desse jeito. Parece que estamos indo para o abate. – Sorriu, ela estava mesmo nervosa.
=8=
A casa de Ixia era menos esplendorosa do que eu imaginava. A frente era amarela, com manchas de fuligem, havia um pequeno jardim na frente, mas as plantas estavam ressecadas e retorcidas. E como Roxie havia instruído, não havia marcação alguma. As janelas estavam fechadas e não parecia haver movimentação alguma lá dentro, era impossível saber se havia alguém na casa.
Ficamos parados diante casa, encarando a fachada desgastada. Ainda era de manhã, mas o sol estava forte e o ar abafado e carregado. Haila e eu ficamos ali, esperando cada qual tomar a iniciativa. Quando, de repente, a porta se abriu e um velhote apareceu no patamar.
Ele era não era tão parecido com Alder como eu imaginava, o cabelo já estava quase todo branco, e apenas algumas mechas avermelhadas ainda apareciam no meio do cabelo, mas a cor não era tão vivaz como no dono da escola de Flocessy Town. A roupa parecia muito surrada, como se ele nunca tirasse ou trocasse e ele tinha vários colares e pulseiras estranhas.
– Vocês vão ficar aí toda a manhã? – Sorriu e pude ver que parte dos dentes estava escurecida e podre. Haila e eu nos entreolhamos sem entender, como ele sabia que estávamos ali? Ixia se virou, retornando para dentro de casa, mas deixando a porta aberta. Encarei Chiclete que balançou a cabeça e caminhou para dentro da residência, seguindo o velhote. Será que meu Pokémon tinha mandado uma mensagem mental para o Memory?
Haila me encarou desconfiada, mas diante da atitude do meu Pokémon, me puxou pelo braço, me arrastando para dentro antes que eu pudesse titubear.
O aspecto interior não era muito diferente. As paredes estavam descascadas e uma fina camada de poeira vermelha cobria todo o piso. Na sala, havia uma mesa com uma toalha surrada e suja, com um pequeno arranjo florar e pedras de vários tipos, como a mesa de uma cartomante.
Ixia puxou uma das cadeiras e se sentou, tirando os chinelos e se espreguiçando lentamente. Ele indicou um sofá para que nós nos sentássemos, mas Haila permaneceu em pé e decidi fazer o mesmo.
Embora ela dissesse que não custava tentar, sabia que ela não estava totalmente confiante. Agora, diante do visual desleixado, imaginava que ela estava ainda mais descrente que ele poderia nos ajudar.
– Muito bem, a que tenho o prazer?
– Por que você não nos diz? – Haila colocou as mãos na cintura.
– Foram vocês que vieram até aqui.
– Então você pode mesmo? Roxie disse...
– Vocês querem um chá? – Ele me interrompeu como se eu não estivesse dizendo nada de importante. – Estou louco por um chá. – E sem rodeios se levantou e sumiu na cozinha.
– Sério que Roxie te mandou ver esse sujeito? – Haila tentava não falar muito alto, mas era visível que estava decepcionada com o grande Ixia.
– Bem, ela disse que ele poderia ajudar.
– Em quê? Só se for nos matar com essas bactérias – e espanou o ar que também tinha uma grossa camada de poeira avermelhada em suspensão.
Não demorou para que o velhote voltasse trazendo uma bandeja com um bule fumegante e três xícaras. Ele depositou a bandeja sobre a mesa e se serviu. Ele encheu a xícara até a borda, quase como se fosse derramar. O cheiro forte de camomila invadiu o ambiente e me lembrei de que minha mãe costumava fazer esse tipo de chá.
– Já decidiram me contar o que vieram fazer aqui?
Abri a boca para responder, mas Haila me cortou.
– Você deve saber, afinal, não devemos ser os primeiros. – Ixia a encarou por um segundo e então sorveu o conteúdo da xícara ruidosamente.
– Para que tanto estresse, mocinha? Isso não vai fazer bem a sua pele.
Haila abriu a boca para responder, mas fechou e rangeu os dentes tão fortes que pude ouvir de onde estava. Se ela já não estava muito confiante, muito menos agora, após ser provocado por Ixia.
– Deedee, vamos embora, esse velho não vai nos ajudar em nada. – Disse se virando e me puxando pelo braço. Encarei o velho que bebericava o chá placidamente e desviei os olhos para Chiclete, que permanecia ao seu lado, com a expressão entediada.
Então era isso, eu tinha vindo de longe, apenas para descobrir que Ixia era um velho excêntrico, um charlatão como Cheren dissera e que de nada ajudaria em meu dilema. Havia uma parte minha que parecia feliz por esse desfecho, mas uma grande parte estava desapontada.
– Façam uma boa viagem de volta. Espero que esse tempo faça com que você entenda o coração do seu Pokémon.
Parei a caminho da porta e puxei o braço que Haila segurava, encarando o velhote.
– O que disse?
– Seu Riolu, é claro que ele não está feliz com as suas decisões.
– Então, você é mesmo um Memory?
– Criança, não precisa ser nenhum especialista para ver que seu Pokémon anda infeliz. – E colocou a xícara de volta a mesa.
Isso era verdade. Chiclete andava tão tristonho e incomodado comigo que qualquer um que me conhecesse minimamente saberia que ele não estava feliz. Mas Ixia era um Memory, obviamente aqueles poucos minutos em sua casa tinham sido muito reveladores para ele.
Finalmente eu estava ali, frente a frente com o homem que iria mudar meu destino. Meus olhos desviaram para Chiclete, mas ele não parecia aflito como eu. Na verdade parecia muito entediado, como se quisesse ir embora logo. Aquela era a hora da verdade, eu poderia virar as costas e correr ou finalmente colocar as coisas em pratos limpos.
– Chiclete anda muito triste, e eu não sei o que o aflige. Nós temos nossas diferenças, mas... Eu realmente gostaria de saber se ele é feliz comigo, se ele ainda confia em mim. O senhor pode me ajudar? – Despejei todos os meus medos ali. O estrago estava feito, não dava mais para voltar atrás.
Ixia analisou lentamente minhas feições, depois se voltou para Chiclete que me encarava de uma forma totalmente nova, como se nunca tivesse me visto até então. O velho fez um barulho com a boca e atraiu a atenção do monstrinho. Riolu pareceu relutante em um primeiro momento, mas foi até o velho, que o segurou pela cabeça e encarou profundamente dentro de seus olhos. Era quase como se pudesse ver o que se passava na cabeça do monstrinho.
– Você não deveria estar tão preocupado. Ele confia em você. – Disse simplesmente, liberando o Pokémon.
– Como assim? Não, mas ele não quer voltar para a Pokéball...
– Acha que se ele não confiasse ostentaria essa cicatriz? – E apontou para o braço que Absol destroçara. – Nenhum Pokémon se arriscaria tanto se não acreditasse realmente em seu treinador.
De certa forma, Ixia tinha razão. Chiclete não precisava ter lutado aquela batalha. Era verdade que Absol havia atacado e avançado para cima de Lila, mas ele poderia não ter feito nada. Além disso, ele vinha me tratando muito melhor nos últimos dias, sem me ignorar por completo e até aceitando a comida que eu dava a ele.
– Mas por que ele não quer voltar a Pokéball? – Essa dúvida me martirizava.
– Você tentou retorná-lo a Pokéball recentemente? – Era uma pergunta retórica, o velhote sabia a resposta. Desde que tentara e Chiclete mandara a bolinha direto na minha testa eu não tentara mais retorná-lo ao dispositivo. Estava certo que ele não o permitiria.
– Mas e o vínculo com meus outros Pokémon, eles são uma família e se eu libertá-los...
– Não acha que está se preocupando muito? – Ele me interrompeu novamente. – Sabe, os Pokémon refletem os temores de seus treinadores... Chiclete está mais preocupado com você do que com as suas preocupações.
– O que quer dizer?
– Se você tem medo de algo, isso só vai se refletir nele, e ele também terá medo desse algo, mas apenas porque você o tem.
– Eu só quero que eles sejam felizes...
– Então seja feliz e ele será com você. Não há uma fórmula para a felicidade, criança. Mas ficar se remoendo certamente não trará felicidade a ninguém, nem a eles ou você.
Eu havia gastado tanto tempo preocupado se estava fazendo a coisa certa, me preocupando em como fazê-los felizes que não conseguia mais agir espontaneamente e despreocupadamente. Quando o ideal da Team Plasma não ecoava na minha mente a cada segundo, eles pareciam felizes e despreocupados.
– Mas – senti minhas mãos tremerem – eles eram livres, eles devem preferir a vida que levavam antes...
– Estar “livre” não é motivo de felicidade, criança. Acha que a vida deles era melhor antes? Com predadores naturais, estiagens, disputa por território? A vida selvagem não é um local perfeito e feliz como imagina.
Minha cabeça estava girando. As coisas que Ixia dizia faziam sentido, mas ainda me pareciam muito vagas. Eu não poderia apenas ser feliz e esperar que meus Pokémon fossem felizes por tabela, era muito egoísta da minha parte ter um pensamento tão simplista.
– Eu preciso de uma resposta mais concreta do que isso, eu não vim de tão longe para o senhor dizer que ser feliz basta. Eu não posso por minha felicidade a frente deles, é um pensamento muito egoísta, eu realmente preciso saber se estou fazendo certo ou errado... – Eu estava entrando em desespero, aquele era meu último pilar de salvação e eu não sentia como se estivesse sendo salvo.
O velho tomou mais um gole do chá e passou a língua pelos lábios enrugados.
– Oh, que pena, o chá ficou frio e vocês nem provaram. – Ele se levantou – Acho que vou fazer outro. – E começou a recolher a bandeja com as xícaras e bule. Ele não iria me deixar no vácuo depois de me expor tão ridiculamente, iria? – Não me olhe assim, criança. – Disse me fitando – pense no que você me disse. – E sumiu pela porta da cozinha.
– O que esse velhote pensa que está fazendo? – Haila questionou quando ele saiu. – Deedee, vamos embora. Esse velho só está tirando uma com a sua cara. Eu disse que era só enganação.
Talvez Haila estivesse certa, talvez ele fosse só um charlatão, mas eu não me sentia assim. Havia realmente algo de diferente naquele homem. O que eu havia dito? Eu tinha exposto tantas coisas, o que eu havia dito que ele me mandara repensar?
Haila cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão impacientemente. Ixia voltou da cozinha, com seus apetrechos, desta vez o chá tinha um cheiro diferente, hibisco, o preferido de Roxie.
– Aceitam chá?
– Ninguém veio aqui para tomar chá, velhote – Haila explodiu. – Por que não nos diz logo que o queremos e acabamos com isso de uma vez?
– A vida não é um lugar de respostas fáceis, mocinha.
– Claro que não, principalmente para um charlatão como você.
– Eu não entendo por que me chama dessa maneira – disse passivamente enquanto se servia de uma nova xícara.
– Escute aqui...
– Eu já sei – disse de repente, cortando a discussão que Haila pretendia começar. Era como se uma luz divina me iluminasse. – Eu estive tão preocupado em fazer o certo que coloquei essa verdade acima de todo o resto, da minha felicidade e da deles... – Ixia sorriu arreganhando os dentes feiosos e tomou um longo gole de chá. – Mas ainda assim, se você pudesse dizer como eles se sentem, eu...
– Você os conhece muito bem, acho que sabe como cada um se sente.
– Mesmo assim, você poderia...
– Você é uma criança estranha – me cortou – confia no julgamento de um desconhecido, mas não no seu próprio. Se eu disser que eles são infelizes, você os libertará?
Não, eu não iria, como Roxie havia dito, a decisão final era minha. Eu oscilaria com aquilo, mas eu sabia que na hora da verdade, eu voltaria atrás, haveria uma desculpa, uma fraqueza e eu não me desfaria deles. Ixia estava certo, eu os conhecia muito bem e sabia como cada um deles se sentia. Sabia que Bacon e Chiclete eram felizes comigo, que Chiclete amava Contest, que Abóbora me via como uma mãe e Peach tinha visto algum potencial em mim, que realmente só Cassie deveria saber. Couve-Flor era feliz, mas muito mais com Haila por perto, que zelava por ele e sabia exatamente que tipo de treinamento ele precisava. Foie Gras nunca tinha desenvolvido carinho por mim, era visível e por isso eu nunca me dedicara a desenvolver um elo com ele, mas ele parecia acomodado e seguro com essa vida e não me parecia ansioso para voltar a vida selvagem.
Ali estava a resposta que eu procurara. Talvez a Team Plasma realmente estivesse correta, talvez humanos e Pokémon não pudessem ser felizes juntos, mas não todos. A Audino de Clarice poderia não ser, assim como os que Kean havia abandonado, mas os meus eram, assim como os de Haila, Roxie e Lila. Cada caso era um caso, e relacionamento bons ruins existiram em todos lugares, como eram entre as pessoas.
Embora eu ainda desejasse que houvesse um modo fácil de avaliar isso, as coisas não eram tão simples. Mesmo que Ixia pudesse dizer com todas as letras como meus parceiros se sentiam, ele estava certo, por que confiar tal coisa para um estranho? Alguém que nunca viveu ao lado deles e criou o mínimo de afinidade? Ele saberia a verdade ao ler suas memórias, mas eu poderia fazer o mesmo, apenas de ver suas expressões, por tudo que havíamos compartilhado.
Estranhamente, pela primeira vez em semanas, eu me sentia bem e confortável comigo mesmo e isso deve ter transparecido no meu semblante, pois Chiclete saiu do lado de Ixia e veio ficar ao meu lado. Como se finalmente eu tivesse voltado a ser alguém seguro e confiável.
– Você está mesmo bem com essa resposta? – Haila perguntou desconcertada.
– Creio que sim – havia ainda um resquício da incerteza que me acompanharia por dias, mas eu me sentia muito mais certo dos meus passos agora. – Você deveria tentar também.
Eu podia ver que Haila ainda estava desconfiada e cética quanto a Ixia. A aparência de hippie louco e o comportamento pouco ortodoxo só ajudavam a ampliar essas sensações nela, mas já que estávamos ali não custava tentar.
– Então a mocinha também tem problemas? – O velho provocou e Haila fechou a cara.
Sem dizer nada, ela libertou Leaf que apareceu fazendo seu barulho caraterístico e pareceu feliz em me ver. Bom, talvez não muito, mas não me olhou com desprezo como sempre fazia.
– Ora, é um belo exemplar. – O velho bebericou o chá. Leaf encarou Haila por um instante e depois analisou Ixia e lançou a ele o mesmo olhar de desprezo que comumente eu recebia.
– Então velho, me diga por que Leaf anda não sendo tão obediente...
Ixia analisou a Pokémon que encarou Haila e virou o rosto para o outro lado, não com desprezo, apenas desinteresse, como se achasse que o a treinadora estava fazendo fosse perda de tempo. O velho fez aquele barulho engraçado com a boca, o mesmo que fizera para Riolu e fez sinal para que Leaf se aproximasse dele.
Ela pareceu bem mais arredia ao contato e depois de um olhar fuzilante de Haila, acabou se aproximando. Ixia segurou a cabeça dela, como fizera com Chiclete e olhou no fundo de seus olhos, então correu as mãos para as orelhas e as puxou como se elas fossem feitas de papel. Leaf fez seu barulho e se afastou como se quisesse usar seus chicotes nele. Mas ele não pareceu se importar com a reação.
– Vejo que tem muita personalidade, sua Leaf. Assim como a dona, só posso dizer que há grandes atritos entre vocês, mas vocês permanecem juntas nas adversidades. – Então encarou Haila. – Pois é, donzela das garras de aço, você deve ser muito exigente.
– Donzela das garras de aço? – Repetiu processando a informação. – Leaf, é isso que pensa de mim? – Questionou indignada. A Pokémon apenas inclinou a cabeça para o lado e arregalou os olhos como se dissesse “quem, eu?”
– Como eu disse – Ixia prosseguiu sem se importar com a reação de Haila. – Se você tem medo de algo, isso só vai se refletir no seu Pokémon, e ele também terá medo desse algo, mas apenas porque você o tem.
Haila ficou encarando o velho, sua mente parecia procurar uma resposta atravessada para dar. Não importava se Ixia estivesse correto, ela não se daria por vencida tão fácil. E eu achava que Ixia estava certo, Haila tinha muito medo do fracasso, pois isso a arrastava a sua relação familiar, mesmo que talvez não fosse totalmente consciente disso. Ela sabia que se fracassasse, teria que voltar para casa, com o rabo entre as pernas e ouvir as palavras difíceis de seu pai. Então ela sempre ia em frente, passando por cima de tudo, inclusive de suas limitações, exigindo o máximo de si mesma para não experimentar o medo do fracasso. E Leaf a seguia cegamente, ou quase, já que andava sendo desobediente.
– E essa sua resposta aleatória vai me ajudar em que?
– É você quem deve saber, mocinha. – E bebericou novamente o chá.
Haila cruzou os braços e encarou a Pokémon como se ela mesma pudesse ler a mente de Leaf. A Pokémon planta lançou-lhe um olhar entediado, como se a resposta fosse óbvia e apenas Haila não a percebesse.
– Eu realmente não entendo – Haila balbuciou para ninguém em particular. – Você não pode estar chateada só por causa daquilo com a Skyla, eu sei que eu abusei – emendou quando recebeu um olhar atravessado da parceira – mas não é a primeira vez que entramos em uma batalha difícil.
– Acho que você não gostaria de fazer algo que não queira – Ixia se manifestou. Haila o encarou, mas ele estava concentrado no desenho descascado da xícara.
– Você sabe que era necessário – ela se voltou para a Pokémon que respondeu com um bocejo entediado. – Skyla não queria me ouvir. – Leaf a encarou como se ali estivesse a resposta e a próxima frase de Haila morreu antes mesmo de se formar.
Eu não tinha estado presente na batalha e Haila não havia me dado tantos detalhes, mas Skyla iria deixa-la em Mistralton e ir atrás da Team Plasma sozinha. As duas decidiram resolver suas diferenças em uma batalha e mesmo depois de já ter abatido o Pokémon de Skyla, Haila desejava continuar. Era isso que havia feito as sempre unidas Haila e Leaf se desentenderem.
Aparentemente, Haila havia passado por cima da vontade de Leaf só para dar uma lição em Skyla, e considerando o quanto ela ficava descontrolada quando estava furiosa, isso realmente deveria ter acontecido. Mas deveria ter sido algo muito específico, pois Leaf sempre seguia as instruções da treinadora, por mais difíceis que fossem.
Haila ainda permanecia em silêncio, encarando a Pokémon, que a encarava de volta. Era um embate mudo que eu não fazia ideia do que era. Mas elas se conheciam bem e se até eu havia conseguido encontrar uma luz, graças a Ixia, tinha certeza que Haila também o faria.
– Não é apenas por Skyla, não é? – Haila disse de repente, e Leaf confirmou com a cabeça. A loira mordeu o lábio inferior. Se ela havia dito isso, talvez uma somatória de coisas perturbasse a Pokémon e a luta com Skyla servira de gatilho.
– Acho que vou pegar uns biscoitos – Ixia interrompeu o clima carregado na sala. E saiu saltitando para a cozinha.
– Haila? – Ela estava muito quieta e isso não era do seu feitio.
– Skyla não queria ouvir meus argumentos, mas eu também não estava ouvindo. – Apesar da gravidade da constatação sua voz não era chorosa. – Desde que Simi se foi eu tenho feito as coisas do meu jeito e Leaf suportou tudo, mas até mesmo ela tem seus limites. – E lançou um olhar a Pokémon que confirmou com a cabeça. – Eu deveria ter respeito mais os seus limites e vontades.
As duas caíram em um silêncio estranho, mas não incômodo. Se encaravam sem sequer piscar. Leaf parecia satisfeita que Haila finalmente percebera o que a incomodava e Haila parecia satisfeita em entender a situação. Assim como minha amizade com Haila, a relação entre elas não se resolveria facilmente com uma conversa, afinal era Haila e tudo era sempre muito complicado quando ela estava envolvida.
Ixia voltou algum tempo depois, trazendo biscoitos que pareciam tão velhos quanto ele. Ele os colocou na bandeja, ao lado do bule e nos encarou.
– Vejo que o clima está muito melhor. Biscoitos sempre animam o ambiente – e bateu as mãos, satisfeito. – Biscoitos?
– Está quase na hora do almoço e já está na nossa hora. – Haila recusou. Desviei os olhos para o relógio no Xtransceiver e vi que ainda era o meio da manhã, nós não iriamos almoçar àquela hora.
– Ah, mas já? É bom ter companhia – o velho falou pesarosamente e fiquei com um pouco de pena. Presumi que ele não deveria receber muitas visitas apesar de seu dom.
– Bem, e quanto te devemos? – Perguntei enquanto revirava os bolsos em busca da carteira. Roxie havia me dito que a ajuda de Ixia não era de graça e que ele não costumava ser muito barato.
– Imagina, criança. Foi um prazer – o velhote recusou. – É sempre bom ter conversa com crianças tão entusiasmadas com Pokémon. Mas se você quiser, posso vender um dos meus colares. A conversa fica por conta da casa – e puxou uma das bugigangas que carregava no pescoço.
Era um colar feio, com cara de surrado e sujo, mas já que aquele era o preço, comprei o acessório. O preço foi módico e só pude agradecer a Arceus por Ixia ter gostado tanto da gente.
Nos despedimos e saímos da casa, Leaf e Chiclete ainda estavam fora da Pokéball e o clima entre nós parecia leve e feliz, como nos primeiros dias que conhecera Haila.
– Achei que você pediria ajuda sobre o Serpio também – comentei depois de andarmos um quarteirão.
– Talvez o que Ixia tenha dito sobre Leaf seja útil a ele também. Eu invadi seu espaço, sem respeitar sua vida selvagem. Talvez ele me aceite melhor se eu tiver um pouco mais de respeito pela sua vontade. – Disse cruzando os braços atrás da cabeça. – Além disso, Ixia é um Memory, ainda não há muitas memórias entre Serpio e eu para que ele pudesse explorar.
Era um bom ponto, o mesmo caso que se aplicava a Absol e eu, mas eu suspeitava que Haila só não tivesse comentado sobre Serpio, pois não desejava soltá-lo no meio da saleta do homem.
– Quando pretende retornar Chiclete para a Pokéball? – Haila encarou a dupla que andava imponente a nossa frente.
– Preciso comprar novas no Centro Pokémon, gastei a última tentando retorná-lo em Undella. Espero que ele aceite desta vez.
– Creio que sim. Até que o hippie foi de alguma ajuda... – disse despretensiosamente. Ixia tinha sido uma ajuda valiosa para que nós encontrássemos o caminho para os corações de nossos parceiros.
– Bem, não apenas ele – e a encarei. – Chiclete também ficou feliz por ver você de novo, todos eles, eu imagino.
– Ah... – O rosto de Haila pareceu corar e ela não sabia bem o que responder. Roxie estava certa sobre a ideia de família, mas a que meus Pokémon havia formado englobava os monstrinhos da loira.
– Talvez eu deva voltar a Nimbasa, deixar que Chiclete preste suas homenagens ao Simi – disse pensativamente, encarando a costas azuladas do meu Riolu. – Acho que devo isso a ele.
Haila ficou em silêncio, talvez pela memória de Simi.
– Acho que Leaf também gostaria... – Disse vagamente.
– Estive pensando – disse de repente, me lembrando de algo que vinha preenchendo meus pensamentos desde nossos tempos de paz em Nimbasa. Nós tínhamos andado alguns quarteirões em silêncio. – O que você acha do Couve-Flor?
– Acho ele um fofo, por quê?
– Talvez você devesse ficar com ele. – Haila me encarou com olhos arregalados. – Ele gosta de você e você gosta dele também, não?
– Sim, gosto, mas...
– Além disso, você lutou muito bem com ele, e você é especialista em Pokémon Grass. Eu não levo o menor jeito com ele. – Era verdade, eu havia sugerido uma vez a ideia ao monstrinho e ele parecera muito feliz, mas então a Team Plasma apareceu e essas coisas foram jogadas de lado.
– Deedee, você acabou de se estabelecer sobre seus Pokémon, não acho que seja uma boa ideia...
– Eu acho uma ótima ideia. Pensei nisso desde sua luta com Elesa, mas aconteceram tantas coisas depois. Eu acho que ele ficará melhor com você. – Ela me encarava surpresa, como se nunca esperasse tal proposta. – Além disso, não é como se eu estivesse me livrando dele, ele estará com você e eu também.
– Tem certeza? Eu sou a Donzela das garras de aço – e lançou um olhar a Leaf que respondeu como se não entendesse.
Eu apenas sorri.
=8=
Era final de tarde e as nuvens avançavam rapidamente na direção do continente, sendo arrastadas pelo vento. Haila, Desmond e eu estávamos sentados em uma pequena cafeteria, a única da cidade. Eu tinha passado no Market e comprado novas Pokéball, mas ainda não tinha tido coragem de colocar Chiclete de volta na Pokéball, uma parte minha ainda tinha um pouco de receio, e se ele recusasse?
– Você tem certeza disso? – Desmond perguntou a Haila pela terceira vez, enquanto ajeitava seu equipamento fotográfico na mochila. Aparentemente sua estadia em Lentimas não tinha sido tão proveitosa quando imaginara.
– Por quê? Quer que eu vá para Castelia com você? – Haila provocou. Ela havia decidido me acompanhar de volta a Undella, se separando de Desmond. Eu já tinha entrando em contato com Dutch e avisado da menina, ele não vira problema nenhum em dar uma carona para ela também.
– Bem, eu não acharia de todo ruim.
– Agora que tenho o Deedee, não preciso mais de você – disse provocativa, mas não estava sendo totalmente sincera. Era visível que eles haviam se tornado bons amigos.
– Sabia que seria trocado – disse exageradamente.
– Você poderia ir para Undella – sugeri. – É um lugar bonito, daria algumas fotos legais.
– Infelizmente, preciso conversar com meu editor na revista – Desmond fez uma careta, como se fosse algo muito chato. – Mas eu fico feliz por vocês, que finalmente tenham resolvido seus problemas com seus parceiros.
– Nós também – Haila desviou os olhos para Leaf e Chiclete que devoravam Pokeblocos ao lado da nossa mesa. – E começaremos uma nova jornada, com Deedee ganhando uma fita.
– Eu já disse que não vou participar do Contest – refutei. Tinha contado a Haila mais cedo sobre minha inscrição e sobre Lila.
– Qual é, se a garota já até pagou, qual o problema?
– Eu não estou preparado para isso, eu estava com outras coisas na cabeça – mesmo com tudo resolvido, eu não teria chances no Contest, seria em sete dias, eu não teria como treinar um Pokémon de forma adequada.
– Você deveria tentar – Desmond incentivou e só pude revirar os olhos, até um cara desconhecido iria ficar no meu pé?
– É um prazer recebê-lo, Ixia – a voz estridente da garçonete cumprimentou o recém-chegado. Meus olhos desviaram para a figura que se ajeitava na mesa ao lado da nossa. Era um homem distinto, de cabelos avermelhados com alguns fios grisalhos, ele usava roupas muito mais formais do que Alder, embora seguisse o mesmo padrão de estampa. Aliás, ele era muito parecido com Alder, com um ar mais grave e solene. Percebi que os olhos de Haila também estavam presos a figura e instintivamente desviaram para mim. – Então, o de sempre? – A garçonete questionou e se afastou.
O cara não se parecia em nada com o homem que havíamos visitado de manhã, exceto talvez, pela idade.
– Ei – Haila chamou sem muitos rodeios e esperou que o homem a encarasse. – A garçonete disse que seu nome é Ixia.
– Sim, isso mesmo.
– Ixia, irmão do Alder? – A voz dela tinha um tom descrente. Ele apenas confirmou com a cabeça. – Ixia, o Memory? – E tanto ela quanto eu parecíamos não querer ouvir a resposta a esse último questionamento.
– Sim, exatamente. Em que posso ser útil?
– Desculpe, mas existe outro Memory nessa cidade? – Ela perguntou relutante.
– Acho que Lentimas não é tão grande para precisar de dois – respondeu em um gracejo.
Haila me encarou e eu não pude entender o que ela pensava, mas a expressão não era nada feliz. Era impressão minha ou havíamos visitado a pessoa errada? Isso não era possível, era? Pensando agora, em nenhum momento o velhote dissera seu nome e nem nós o chamamos. Mas, ele havia sido tão preciso em suas palavras...
A menina puxou o mapa que ainda carregava no bolso e analisou a rota que havíamos tomado. Ela acompanhava com o dedo o caminho que traçamos desde que cruzamos o Centro Pokémon.
– Você está olhando o mapa de cabeça para baixo – Desmond disse ao perceber a confusão e virou a folha que Roxie havia rabiscado.
Olhando daquele ângulo nos subiríamos outra rua e chegaríamos até uma casa no sopé do vulcão, mas contornando pelo outro lado. Eu deveria ter adivinhado; o senso de orientação da Haila não era nada a ser exaltado.
– Como você não sabia quem estávamos procurando? – Sabia que ela desviaria a culpa de si.
– Eu nunca o tinha visto e Roxie não foi muito descritiva.
– Então com quem falamos?
– Eu não faço ideia.
– Ei, o que está acontecendo? – Desmond questionou, perdido em nossa discussão.
– Me desculpe – Haila se virou para Ixia, o verdadeiro – mas esse mapa até sua casa, está correto?
O velho pegou o papel e analisou os rabiscos em caneta roxa, coçou a barba rala e esbranquiçada e confirmou.
– Sim, está é minha casa, vocês estavam me procurando? – Apontou a casa no papel, do lado oposto ao vulcão.
– E está casa? – Haila apontou para onde havíamos entrado.
– Ah, a casa do velho Archar – respondeu sem entender. – É só um maluco da cidade. – Haila me lançou um olhar fuzilante – Mas por que querem saber?
– É que nos acabamos o conhecendo – disse sem jeito.
– Ah, aposto que ele tentou vender uma daquelas bijuterias que faz para vocês. E disse “Se você tem medo de algo, isso só vai se refletir no seu Pokémon, e ele também terá medo desse algo, mas apenas porque você o tem.” Ele diz isso para todo mundo.
– É ele disse – confirmei desanimado.
– Vocês não deveriam se importar com as bobagens daquele homem – Ixia prosseguiu. – Ele se acha o grande entendido de Pokémon.
– Então ele não entende nada de Pokémon? – Haila sufocou a pergunta.
– Ele foi um grande sommelier no passado, mas ficou completamente pirado. Não dá para relevar as coisas que ele fala. É só um velhote sem amigos, que quer puxar papo e vender suas tralhas para os turistas.
Senti meu mundo ruir, todas as palavras que eu havia ouvido, todo o discurso sobre ser feliz eram só os delírios de um velho maluco? Eu tinha vindo de Undella e acabara conversando com um velho senil que repetia as mesmas frases manjadas.
Mas Chiclete e Leaf pareciam felizes ali, sentados ao nosso lado na mesa, mais felizes do que eu os vira em dias. Eu não sabia quanto aos meus outros Pokémon, mas eu tinha certeza que eu poderia entender seus anseios e lidar com eles.
– Então, vocês queriam falar comigo? – Ixia questionou.
– Bem, nós estamos tendo problemas com nossos Pokémon e... – Haila começou, seus olhos buscaram os meus como para respaldar suas palavras, mas eu estava preso em um estranho estado de torpor.
– Vejo. Aqui não é um local adequado, mas podemos fazer isso na minha casa, mais tarde, o que acham?
– Eu... – Haila começou, mas a interrompi.
– Me desculpe, mas precisamos voltar para Undella, obrigado mesmo assim. E desculpe atrapalhar sua refeição.
A menina pareceu surpresa com meu corte e entendeu ainda menos quando chamei a garçonete apressado e pedi para fecharem a conta.
Cruzei a pequena praça da cidade em direção ao coreto, onde no dia anterior tinha encontrado Haila. Minha cabeça estava girando e eu sentia meu coração martelar nos ouvidos. Desmond e Haila me seguiam sem realmente entender minha reação. Podia ouvi-la contar sobre nossa confusão ao fotógrafo.
– Tudo que ouvimos foi um monte de mentiras – Haila se pronunciou quando chegou ao meu lado.
– Talvez não tenha sido de todo ruim – Desmond tentou ajeitar a situação. – Vocês parecem bem com seus parceiros, então acho que não foi um tempo totalmente perdido.
– Desmond, são só as ladainhas de um velho charlatão – a menina repreendeu.
Era um amontado de mentiras e bobagens, ao menos, deveriam ser, mas Desmond estava certo. Nós dois havíamos nos sentido mais leves, Chiclete parecia confiar em mim novamente e Leaf parecia ter feito as pazes com Haila. Nem tudo era perfeito, a loira ainda teria um Serperior furioso para domar e eu tinha que decidir o destino de meu Pidove, Pokémon com quem nunca conseguira desenvolver um laço, mas de forma geral, as coisas pareciam nos eixos novamente.
Além disso, Chiclete e Leaf não pareceram muito propícios a Ixia. Se eles tinham mantido um ar entediado com Archar, eles ficaram visivelmente na defensiva enquanto Haila falava com o homem. Talvez ter um desconhecido vasculhando suas memórias mais profundas não fosse algo tão admirável assim.
– Não que ache que esse homem é confiável, já fomos enganados uma vez, nada impede que as pessoas dessa cidade tenham um péssimo senso de humor – Haila cruzou os braços enquanto explanava seu ponto de vista para Desmond. – Mas se você quiser falar com ele, Deedee. Eu irei te acompanhar. – Completou, se voltando para mim.
– Eu não preciso, nós já falamos com o Memory.
– Você sabe que aquele velhote só disse mentiras – ela observou como se eu não soubesse desse detalhe.
– Nem tudo. Archar disse a coisa mais importante, a única que eu preciso saber.
– O quê? – Desmond e Haila perguntaram em uníssono.
– Eu não preciso de um estranho para dizer como meus Pokémon se sentem. – Roxie havia dito que no final a decisão era minha, eu decidira acreditar naquelas palavras porque elas faziam muito sentido para mim.
Chiclete balançou a cabeça afirmativamente, como se concordasse com as minhas palavras e aquilo foi tudo o que precisava para saber que havia tomado à decisão certa.
A Haila de antes me chamaria de patético por considerar um velho louco, mas a nova Haila, do olhar selvagem, apenas balançou a cabeça e sorriu, um sorriso discreto que dizia que ela estava ao meu lado na minha decisão, mesmo que não concordasse com ela. Eu sentiria falta da velha Haila, mas sabia que poderia me acostumar a garota do olhar selvagem.
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