Notas iniciais
Olá pessoal, como foram de natal e ano novo? Fizeram muitas promessas? Espero que os leitores fantasmas tenham prometido comentar na fic :P Vamos ao capítulo, boa leitura!

December

AMOR DE POKÉMON

Virbank City era muito maior do que eu imaginava. A cidade portuária possuía um enorme complexo industrial, dezenas de lojas e clubes noturnos, sem falar no Pokéstar Studios, um gigantesco estúdio cinematográfico que ficava ao norte da cidade.

Demorei um bom tempo até encontrar o Centro Pokémon local. Cassie tinha me mandado uma foto do mapa de Virbank City através do celular, mas havia tanta informação que eu não conseguia reconhecer nada. Para piorar, eu não me arriscava a pedir informações para os transeuntes. Eu sabia que Virbank City era apinhada de treinadores por causa do porto que levava até Castelia e não queria me arriscar a entrar em uma batalha Pokémon desnecessária, ainda mais quando Couve-Flor era o único Pokémon com quem poderia contar.

A verdade é que a adesão de Chiclete ao meu time não fora propriamente uma vantagem. Logo de cara, invocara que apenas Bacon andava fora da pokeball e tive que dar a mesma liberdade para o monstrinho lutador. O problema é que ele era muito impulsivo e queria mostrar serviço, logo entrava em batalha com todos os Pokémon que cruzávamos pelo caminho. E não estou exagerado, ele não podia ver uma graminha se mexendo que já chegava no Pokémon dando voadora. Claro que ele perdeu algumas batalhas e sobrou para Bacon resolver a pendenga. O porquinho era um pacifista declarado, do tipo que se pudesse amarraria uma bandeirola branca no rabo enrolado, e obviamente não gostou de ter que entrar em batalhas desnecessárias. Resumindo a história, em certo momento, Chiclete e Bacon se engalfinharam e sobrou para Couve-Flor, o pobre Sunkern despreparado se tornar meu fiel escudeiro, já que o Riolu e o Tepig ficaram presos em suas pokeball como castigo.

Quando finalmente cheguei ao Centro, Cassie já estava me esperando. Ela tinha me ligado avisando que estaria em Virbank City por causa de um evento, mas eu estava ocupado demais tentando impedir que Chiclete e Bacon se matassem e não prestei atenção em quase nada do que ela dissera ao telefone. Ela estava com um vestido de verão e o cabelo preso de um jeito diferente. Estava atraente, dentro do que uma menina de dez anos poderia ser.

– Por que demorou tanto?

– Eu tive problemas com o Bacon e o Chiclete, e não conseguia achar nada nessa cidade. – Dei um muxoxo desanimado. – Mas, por que você está vestida desse jeito?

– Eu te disse ao telefone. – Uniu as sobrancelhas. – Você não estava prestando atenção, não é? – Eu tentei inventar alguma desculpa, mas eu estava tão cansado que minha mente ficou em branco. – Hoje é o dia que eles vão escolher a atriz para o Amor de Pokémon. – E os olhinhos pequenos brilharam.

– Amor de quem? – Ela inflou as bochechas e resmungou como alguém poderia ser tão tapado. Então, praticamente me arrastou pela recepção do Centro Pokémon até parar diante de um quadro de avisos. Entre dezenas de propagandas, havia um gigantesco pôster do Pokéstar Studios anunciando uma vaga para o próximo filme da agência, o tal Amor de Pokémon, e que os interessados deveriam aparecer para fazer os testes no dia agendando, no caso, era hoje. – Você vai ser uma atriz? Achei que queria ser uma treinadora... – Ela revirou os olhos e contou até cinco antes de me responder.

– Não sou eu, mas sim meu Pokémon. Está vendo? – E apontou para as letras roxas do cartaz. – É um filme de Pokémon, estrelado por Pokémon. – Explicou não muito paciente. – Você deveria fazer o teste também.

– Por quê? Eu não ligo muito para essas coisas de cinema. – E realmente não ligava, embora eu adorasse assistir filmes, eu nunca me lembrava dos nomes ou atores.

– Mas se seu Pokémon for escolhido, vai receber um cachê pelas filmagens. E você ainda precisa de dinheiro, não? – Se tinha algo que eu odiava na Cassie, era o fato dela ser muito mais esperta do que eu. Apesar de ter conseguido algum dinheiro com o casal Tomy, ele não duraria para sempre. Mas definitivamente eu não queria participar de teste algum. – Você sabe que para chegar em Castelia City você terá que pegar um navio, você tem ideia de quanto custa uma passagem de navio? – E um sorrisinho se formou nos lábios. – Mas você pode pedir dinheiro para sua mãe, certo? – Não, eu não podia, e essa fedelha do inferno sabia muito bem disso. Respirei fundo e me dei por vencido, eu iria participar desse filme ridículo.

– Mas tem um problema. – Encarei o cartaz. – Aqui diz atriz, nenhum dos meus Pokémon é fêmea.

– Como assim? Nenhum? Como você pode não ter pegado nenhuma fêmea? – E eu achando que minhas ações não poderiam mais surpreendê-la.

– Eu simplesmente fui capturando, não me ative a esses detalhes. Eu não iria ficar levantando as patinhas para analisar isso. – Ela revirou os olhos.

– Ok, eu te empresto um dos meus. – Cassie me estendeu uma de suas pokeball. – Cuide bem da Peach, ela foi meu primeiro Pokémon.

– Então por que você vai me emprestar ela?

– Porque Pallaluna não é muito sociável. Mas Peach é muito companheira. – Pallaluna era a Pidove com a qual ela tinha derrotado meu Tepig. Era uma Pokémon orgulhosa e imponente, que me fazia imaginar que Cassie seria exatamente daquele jeito quando fosse mais velha.

Aceitei a pokeball e sorri. Recuperei meus Pokémon no Centro e parti para o Pokéstar Studio na companhia de Cassie. Tinha uma fila enorme na porta do estúdio e noventa por cento das pessoas na fila eram garotas. Elas exibiam seus Pokémon fora das pokeball, cheio de laços e outros frufrus. Aquilo me deixava enojado e me fazia lembrar que meu destino (traçado pela velhota) era ser coordenador e ter que ficar rodeado por essa beleza plastificada e sem graça.

Ficamos na fila quase a manhã toda. Até onde eu tinha entendido seriam duas etapas, a primeira era uma avaliação preliminar de beleza e carisma, caso fosse aprovado, o Pokémon iria para uma segunda etapa, onde teria que provar seus talentos únicos e ainda mostrar entrosamento com Romeo, o Skuntank que protagonizaria o filme.

Minha vez estava quase chegando, Cassie me instruíra a liberar o Pokémon e deixar que os jurados o observassem, então eu deveria pedir que Peach desse uma pequena volta pelo palco, exibindo sua graciosidade. Mais do que isso era considerado exagero e geralmente resultava na desclassificação do Pokémon.

Apesar de não estar animado, comecei a ficar nervoso e quando a moça da recepção chamou meu nome, minhas mãos estavam tremendo. A simpática moça de óculos fundo de garrafa me encaminhou para um palco circular, as cortinas estavam abertas e eu podia ver os outros Pokémon aprovados, ao lado dos seus treinadores, acomodados nas últimas fileiras da plateia. Na primeira fileira havia uma mesa montada onde três jurados se posicionavam, mas no momento não havia ninguém.

– Os juízes fizeram um pequeno recesso para o almoço, você vai ter que esperar. – Me informou a mulher após estranhar não haver ninguém ali e consultar o relógio. – Fique a vontade. Ali tem alguns lanchinhos e água. – E apontou para uma mesa no final do palco, cheia de garrafas de água e pacotes de bolacha.

A mulher saiu e me sentei no chão de madeira. Encarei os outros treinadores, mas eles estavam muito distantes para que eu pudesse vê-los nitidamente. Cassie ainda esperava na fila ao lado de Pallaluna. Eu peguei a pokeball emprestada na mão e a girei nos dedos. No final nem tinha perguntado que tipo de Pokémon Peach era, mas eu tinha criado muita confiança nos conselhos e palpites da menina.

– Ok, Peach. Vamos lá. – Disse liberando a minha companheira temporária. Uma enorme Patrat apareceu diante de mim, ela tinha um olhar intimidador e uma coloração completamente diferente das que eu já vira até então. Exatamente que parte eu tinha dito que confiava plenamente na Cassie?

Ela me mediu de cima a baixo e senti meu corpo gelar. Contava quantos segundos demoraria para ela pulasse em mim e me desse uma mordida dolorosa. Ela não vai fazer isso, parte do meu cérebro repreendeu o pensamento. Peach pertencia a Cassie e provavelmente era muito bem disciplinada, eu a tornaria uma estrela de cinema e ela me recompensaria com um cachê generoso. Tentei respirar fundo e me acalmar, apesar da minha implicância com Patrat eles não deveriam ser todos ruins. Sorri e estendi a mão em sinal de paz.

A Patrat cinzenta deu um guincho pavoroso antes de morder a mão que estendia para ela. Mordeu tão forte que achei que me deceparia um dos dedos. Depois disso saiu correndo pelo tablado de madeira e sumiu pela porta entreaberta. Olhei para a mão ensanguentada, o rasgo enorme que vertia sangue como uma torneira aberta e ouvi os outros treinadores rirem da minha desgraça. Não, eu não estava errado sobre os Patrat e seu pacto com o demônio. Eu queria ir embora, voltar para o Centro Pokémon e fingir que nunca estivera ali. Mas eu tinha um problema. Peach estava sob minha responsabilidade e eu a tinha perdido.

Sai pela porta, manchando a maçaneta com sangue e segui pelo único corredor que Peach poderia ter tomado. O caminho me levou até a parte principal do estúdio, onde cenários estavam sendo montados e pessoas passavam de um lado para outro apressadamente. O lugar estava cheio e caótico e seria impossível encontrar a monstrinha ali se não fosse por um grito que atraiu minha atenção.

Corri na direção do som e me vi atrás de um biombo florido que simulava um camarim, havia uma larga mesa, com apenas os bustos dos manequins que usavam perucas coloridas e chapéus. Uma moça de cabelos azulados estava caída no chão, com uma grande mordida na mão e um olhar assustado, diante dela um busto estava tombado, completamente careca. Segui seu olhar e vi Peach sumir por outro corredor do outro lado do estúdio. Agora ela trajava um ridículo chapéu cor de rosa.

Segui a Patrat o mais rápido que conseguia, mas a endemoniada não mostrava sinais de cansaço. Desviou de vários passantes e deslizou por entre as pernas finas e compridas de uma garota que trajava couro e fechava a passagem do pequeno corredor.

– Mas o que... – A garota começou encarando a fujona, até me ver correndo em sua direção. – Você é o treinador dessa Patrat? – Colocou as mãos na cintura de forma autoritária. Mas eu não respondi, a empurrei para o lado, abrindo o caminho e tentei acelerar o passo, mas a moça enrolou as mãos no meu braço e tentou me parar com um tranco. – Ei, o que pensa que está fazendo? Você e seu Pokémon estão causando um grande tumulto... – Puxei o braço com força, me libertando dela e sai em disparada sem ouvir o resto do seu discurso.

Peach virou no final do corredor e entrou na primeira porta aberta. Me parecia ser um cômodo pequeno e finalmente poderia encurralá-la.

– Te peguei... – Era uma sala pequena com grandes cadeiras e muitas almofadas. Espelhos e luzes forravam as paredes e um kit de maquiagem estava aberto sobre a mesa. O problema é que o ambiente, que eu descobri depois que vinha a ser um camarim, não estava vazio. Um Skuntank, que só poderia ser o Romeo, também estava lá.

Se eu achei que tivesse recebido um olhar de ódio de Peach, era porque eu ainda não a tinha visto encarar o Pokémon venenoso. Os olhos estavam fixos nele e ela exalava uma aura assassina.

– Peach... – Mas antes que eu pudesse dar qualquer comando ela pulou sobre o Pokémon e começou a desferir vários golpes. O Skuntank parecia tão confuso quanto eu com toda aquela ação e só tentava desviar dos ataques. – Peach, pare com isso! Peach! – Eu gritava sem ser realmente ouvido. Qual era a segunda etapa dos testes? Ah, incluía entrosamento com o Romeo, e lá se ia meu cachê.

– Ei moleque, eu não tinha terminado de falar... – Ouvi uma voz forte e musical soar atrás de mim e ir morrendo lentamente. A garota de couro parou ao meu lado na porta e ficou vendo a cena que se desenrolava.

Peach atacou com Crush, o Pokémon roxo desviou, mas caiu da cadeira. Ela aproveitou a oportunidade para pular sobre ele e prendê-lo no chão. Eu já estava imaginando onde arranjaria outro Skuntank para substituir este, que seria dizimado. Mas Peach, com um gigantesco floreio, tirou o chapéu rosa da cabeça e jogou sobre o rosto de Romeo, como os lutadores de boxe fazem com as toalhas em seus adversários derrotados.

– Mas que merda... – Resmunguei para mim mesmo e chamei Peach de volta para a pokeball. Achei que teria alguma dificuldade, mas ela obedientemente retornou para sua morada. Então me virei para a garota parada ao meu lado. – Desculpe por isso. – Dei um sorriso amarelo ao fitar o camarim destruído.

A garota de blusa listrada e cabelos brancos me encarou, mas não disse nada. Saiu apressada e eu senti que estaria ferrado se esperasse ela voltar e tratei de dar no pé.

Quando voltei ao teatro, para a minha sorte, que na verdade era quase inexistente, os jurados ainda não tinham voltado. Peguei uma garrafa de água sobre a mesinha de canto e tomei todo o conteúdo em um gole só. Saquei a pokeball de Peach e fiquei encarando a esferinha branca e vermelha.

– Amigável uma ova. Quase arrancou meu dedo e tentou matar o astro de cinema. – Eu tinha até esquecido da dor da mordida. O que raios Cassie estava pensando? Em me matar com certeza.

– Ok, vamos continuar. – Uma voz masculina soou me tirando da minha discussão unilateral com a Patrat.

Eu vi três pessoas se posicionarem nas mesas dos jurados. Um homem gordo de cabelos brancos, outro homem de terno e com ar empreendedor e uma garota de cabelos brancos. Gelei ao ver que era a mesma que eu tinha atropelado no corredor. Eu estava ferrado.

– Muito bem garoto, mostre o que você tem. – Falou o homem de terno.

As minhas mãos tremeram e eu não tive coragem de libertar Peach, imaginava o estrago que ela faria e a humilhação que teria que presenciar.

– Esse garoto... – Gritou a garota de couro, se levantando. – Ele é um gênio! Mostre seu Pokémon, por favor. – Me incentivou animada. Será que ela tinha batido a cabeça em algum lugar quando eu a empurrei? Como eu tinha virado um gênio?

Mesmo sem a menor confiança fiz o que ela me pedira e Peach viu a luz do dia. Eu não entendia de Patrats, mas ela deveria ser muito bonita pois os dois homens pareceram bastante impressionados.

– Essa garota... – Começou a jurada. – Como é o nome dela? – Respondi quase inaudível. – Peach. Ela é a nova cara das heroínas. Nada de meninas frágeis e indefesas. Temos uma girl power aqui.

– Do que está falando, Roxie? – Indagou o gordo.

– Foi ela quem derrotou meu Romeo. – Então o Skuntank pertencia a ela. – O entrosamento deles é perfeito. Ela não precisará ser salva e poderá lutar ao seu lado para derrotar o terrível Lunatoly.

Luna quem? Eu não estava entendendo absolutamente nada. Como, exatamente, Peach ter tocado o terror no estúdio tinha se tornando um ponto positivo? Enquanto eu divagava sobre a estranheza da situação, o trio conversava. A parceira do astro principal estava animada contando sobre os eventos no camarim, mas os dois homens, que eram produtores do filme, não pareciam muito animados com o gênio difícil de Peach. A conversa foi ficando mais inflamada e do nada Roxie saiu da sala, batendo a porta atrás de si.

– Muito bem. – Disse o camarada de terno depois do que pareceu levar uma eternidade. – Obrigado por sua participação.

Demorei para processar aquela informação, sorri e agradeci sem jeito. Não estava nem um pouco surpreso por não ter sido aprovado, mas toda aquela cena que a garota provocara me dera um pouquinho de esperança.

Cassie não me pareceu realmente surpresa quando contei sobre o ataque sofrido por Peach e nem com o fato de sua parceira não ter sido escolhida como estrela do filme.

– Mesmo assim, Peach é incrível. – Disse abraçando a peluda cinzenta.

– Alô? Que parte da sua Pokémon destruiu um camarim, atacou o ator principal e quase arrancou meu dedo você não ouviu. – Eu estava com um curativo na mão que eu mesmo tinha feito e tinha ficado todo errado.

– Desculpe se você não inspirou confiança a Peach. – Ela me lançou aquela olhar que sempre significava que o errado da história era eu. – Se ela te mordeu e fugiu, a culpa é sua mesmo por não ter pulso firme.

– E o que isso teve a ver com massacrar o pobre Romeo?

– Peach não gosta muito de outros Pokémon, ela os vê como adversários em potencial. – Explicou.

– Você não disse que ela era amigável?

– Sim, mas não com outros Pokémon. Ela não se dá muito bem com Prisma e Pallaluna, mas posso contar com ela para qualquer aperto. – Sorriu, fazendo um cafuné na Patrat.

– E por que ela terminou com um floreio estúpido com aquele chapéu horroroso?

– Porque ela é uma artista nata, só esses babacas que não entendem isso. – Respondeu, mas era óbvio que era uma desculpa esfarrapada para uma informação que nem ela sabia. – Mas no final, ela até gostou de você.

– Gostou? – Afetos demonstrados com perdas de dedos, grátis aqui.

– Sim. – E Peach soltou um grunhido estranho que me fez estremecer. – Viu, isso é um sinal de amizade. – Se aquele som era de amizade tinha até medo de ouvir aquele que seria de ódio.

– De qualquer forma, obrigado por me emprestar seu Pokémon. – Enfiei as mãos nos bolsos. – Mas eu acho que se talvez se vocês tivessem se apresentado juntas tivessem vencido... – No final, vendo a união entre a garota e seu Pokémon me sentia mal de ter me apresentado com a Patrat e ter limado a chance de vitória da Cassie.

– Se eu tivesse me apresentado com ela, não teríamos vencido. Ela seria muito obediente e não teria mostrado tanta... garra. – Eu presumi que a palavra certa seria sadismo, mas creio que uma menina de dez anos não soubesse o que isso significaria.

– December? – Me virei, era Roxie. Estava surpreso que ela soubesse meu nome. – Estava na ficha de inscrição. – Eu era assim tão transparente? – Parabéns! Você tem uma Patrat incrível. – Disse passando a mão na cabeça do Pokémon, todo mundo fazia isso e só eu era atacado. Ok, o problema era comigo. – Dificilmente se vê treinadores do sexo masculino com fêmeas em seus times, ainda mais criadas com tanta independência e força. – Eu não tinha criado nada e nem tinha fêmeas no meu time, eu era uma farsa. Mas só me restou sorrir amarelo. – Você é uma mocinha poderosa. – Disse se voltando para Peach. – Vencer meu Skuntank não é uma tarefa muito fácil. É uma pena que aqueles velhotes só querem damas indefesas.

– Você não está chateada de seu Pokémon ter sido atacado? – Perguntei.

– Claro que não. Romeo pode se defender muito bem e Peach mostrou seu valor ao vencê-lo sem precisar atingi-lo realmente. – Ela parecia muito orgulhosa da Patrat. – Mas você deveria ter mais pulso, não pode deixar seus Pokémon livres por ai. Ela poderia ter causado problemas. – Poderia?

Então ela me parabenizou pela Patrat mais uma vez e se retirou.

– Oh meu Deus. Era a Roxie! – A voz de Cassie saiu em um guincho estridente e ensurdecedor assim que a garota punk se afastou.

– Sim, o que tem? Ela era uma das juízas. – No final os juízes, ou os dois homens, já que Roxie se negou a voltar, escolheram uma Ralts delicada para ser a estrela do filme, de modo que Pallaluna nem chegou a passar pela primeira etapa.

– Ela é a Roxie! – Repetiu com a voz ainda esganiçada. Afinal, o que a garota tinha de mais? – Ela é líder de ginásio aqui em Virbank City e é vocalista de uma das bandas de rock mais famosas de Unova. – Eu deveria ser muito desatualizado porque não sabia de nada disso. – Roxie é a melhor. – Isso explicava muita coisa. Explicava o visual e voz bonita e também explicava por que Cassie não tinha se metido na minha conversa com a artista. Ela sofrera uma espécie de paralisia catatônica que muitos fãs têm diante dos seus ídolos. – Você precisa me arranjar um autógrafo.

– Eu? – Ela poderia muito bem pedir, mas imagino que ficaria travada de novo.

– Por favor. – Implorou se agarrando a minha jaqueta e me olhando com aquele jeito pidão que eu não conhecia. Eu era muito mole, eu não sabia dizer não.

Na manhã seguinte estava na zona portuária de Virbank City, somando minhas economias e pensando em como arranjaria mais dinheiro para comprar a passagem de navio. Cassie estava ao meu lado, observando meu desespero, achei que ela faria alguma piadinha ou me mandaria ligar para a mamãe, mas do nada tirou uma passagem do bolso e me deu.

Fiquei olhando para a mão estendida e a passagem reluzente. Ela parecia confusa com a minha relutância então enfiou o bilhete no bolso do meu moletom sem dizer uma palavra.

– Pra que isso?

– É um sinal da nossa amizade. – Falou toda acanhada.

– É um pagamento por eu ter te arranjado o autógrafo da Roxie?

– Foi você quem disse que não iria fazer de graça. – Ela respondeu atravessado.

– Eu não sou mercenário desse jeito. – Disse tirando a passagem do bolso. Ela deveria ter gastado uma boa grana com isso e eu não poderia me aproveitar de uma menininha. Fiz menção em devolver, mas ela não aceitou. Quando resmunguei sobre o dinheiro, ela fez de conta que não me ouviu.

– Além disso, eu quero te dar outra coisa. – E estendeu uma pokeball para mim. – Você deveria ficar com a Peach, pelo menos por um tempo. – Eu fiz uma careta similar a quem toma um remédio muito amargo. – Ela gostou de você e será bom para o seu treinamento.

– Será?

– Apenas aceite de uma vez. – E empurrou o objeto na minha mão. – Ela pode ser muito temperamental, ainda mais com seus outros Pokémon, mas você pode confiar nela. Tenho certeza que no final, vocês se darão muito bem. – Eu não tinha essa mesma convicção, mas acabei pegando a pokeball.

– Cassie, eu não sei o que dizer para te agradecer, você me ajudou tanto e... – Comecei um discurso de fazer inveja a minha mãe, mas ela me interrompeu.

– Apenas deixe de ser moloide e ganhe logo essas fitas. Eu não quero ter que limar você da minha lista de amigos porque você me envergonha. – E fez uma careta.

– Obrigado, Cassie. Eu vou fazer você se orgulhar de mim. – Eu não sei porque tinha feito essa promessa, eu nem queria ser coordenador para começar, mas deveria ser o calor do momento. – E quanto ao seu dinheiro, eu vou te pagar. – Ela fez um sinal negativo com a mão, mas insisti. – Claro que vou te pagar, esse dinheiro...

– Cassie? – Uma voz masculina, forte e rouca me interrompeu.

– Papai. – Ela falou animada correndo na direção do homem. A pessoa em questão era um senhor de meia idade, com um grosso bigode, trajava um uniforme branco e um quepe típico de capitão. – Pai, quero que conheça meu amigo. – Disse arrastando o homem na minha direção. – Este é December. December este é meu pai, ele é o capitão do navio. – Ela fez as honras. Cumprimentei o homem com uma mesura, mas ele me saudou com um aperto de mão tão forte que pude ouvir os meus ossos estalarem.

– December é um nome curioso. – Falou me analisando. Deveria ser estranho que o amigo da sua filha criança fosse um adolescente seis anos mais velho. Apenas sorri, eu não queria explicar a longa história do meu nome estúpido ou me enrolar de alguma forma e ter que justificar nossa amizade. Ele era da marinha afinal e ter problemas com ele seria ter problemas em dobro. – Se vai embarcar é bom arrumar suas coisas, rapaz, pois já estamos de saída. Se cuide, Cassandra. – E com um beijo no topo da cabeça de Cassie atravessou a doca e voltou para o navio.

– Cassandra? – Provoquei, nunca havia me questionado qual seria seu nome realmente.

– Calado December. – Retorquiu cruzando os braços.

– Por que você não me disse que seu pai era capitão do navio?

– Você nunca me perguntou.

– Você deve poder andar de graça no navio. – Falei encarando a embarcação.

– Claro que sim. – E só então me liguei que ela não gastara nada no bilhete que me dera, já que elas os conseguia de graça. E eu achando que ela tinha quebrado o cofrinho para me ajudar.

Antes que eu pudesse dizer algo, o apito do navio ecoou pelo porto, chamando os últimos passageiros. Era minha hora de partir.

– Vou sentir sua falta. – Disse por fim, sentindo meus olhos se encherem de água.

– Eu não. – Respondeu atrevida. – Aposto que você vai continuar me ligando a cada cinco minutos só para me contar das idiotices que você faz. – Mas apesar do tom alegre e despretensioso, ela também parecia prestes a chorar.

Virei às costas e fui para o navio. Pensei em acenar do quebra peito, como as mocinhas fazem nos filmes. Mas eu com certeza iria chorar, aliás, eu já estava chorando. Sequei as lágrimas da melhor maneira que pude. Cassie tinha razão, mesmo que não nos vessemos, ainda poderíamos nos ligar. Eu tinha que me forcar no meu próximo passo, que eu não fazia ideia de qual era.

Notas finais
N/T: Até!