Corvame pousou tranquilamente sobre o telhado da residência do ferreiro. Mesmo tendo uma missão importante para cumprir, a ave fazia questão de verificar pessoalmente o resultado do confronto que começava a se desenrolar.

—“Nós já sofremos derrotas demais contra a aliança militar e a Ordem da Rosa Branca. Se Coltulo falhar também, terei de insistir para que o mestre Banemare tome medidas drásticas.”

Sob aquele olhar atento, Jack se defendia dos ataques incessantes dos demônios que o cercavam. Enquanto isso, o líder do grupo, Coltulo, retorcia seus tentáculos. Era a primeira vez, desde o início da invasão, que ele encontrava um humano realmente capaz de resistir. Entretanto, essa perspectiva não o deixava animado. Pelo contrário, a atitude de Vulcano servia apenas para aborrecê-lo.

—Garoto, você está prestes a descobrir que piedade é um conceito que os demônios não conhecem.

—É bom não ter piedade mesmo. – Num raro momento de provocação, Vulcano abriu um pequeno sorriso no rosto. – Fique sabendo que eu já matei demônios maiores do que você!

—Vou enterrá-la nas profundezas do abismo, criatura inferior! – Uma intensa e espessa aura negra começou a envolver o corpo do demônio. Era uma energia sinistra, diferente de tudo que o controlador do magma já havia sentido, como uma concentração de sentimentos e desejos negativos. – Receba a Maldição da Exaustão.

Um círculo com um pentagrama no centro surgiu sob os pés de Vulcano, jorrando energia maligna. O efeito foi imediato. Suas forças se esvaíram e ele tombou sobre os próprios joelhos, apoiando as mãos no chão. Mal conseguia suportar o peso do próprio corpo.

—Eu não sou um demônio qualquer. Sou capaz de controlar a dor, o sofrimento e o ódio, de transformar esses sentimentos em maldições. Do jeito que está, você não vai conseguir encostar nem sequer um dedo em mim.

Colocar a situação sob controle deixou Coltulo satisfeito. Enquanto caminhava lentamente na direção do adversário, os tentáculos de seu braço esquerdo começaram a se enrolar, assumindo o formato de uma lança. Contudo, Vulcano ainda não estava disposto a se render.

—Que coincidência. – Retrucou o garoto. – Eu também não sou um humano qualquer.

Desta vez foi o demônio quem se viu sendo atacado por baixo. Atingido em cheio pelo jato de magma explodindo do solo, ele foi obrigado a se afastar, mas seus ferimentos eram apenas superficiais.

—“A manipulação elemental dele é mais poderosa do que eu imaginava.” – Uma ideia curiosa então cruzou a mente de Coltulo. – “E até agora foi só isso que ele usou para lutar.”

Novamente, o círculo amaldiçoado se desenhou ao redor de Vulcano, cobrindo-o com a energia sombria de Pravus. Ao marcá-lo com uma nova maldição, seu algoz tinha certeza de que desta vez o havia encurralado. – Vamos ver como você se sai com a Maldição do Selamento.

Tão subitamente quanto surgiu, a sensação de esgotamento e fraqueza desapareceu. Vulcano conseguiu se erguer e seus movimentos já não estavam mais comprometidos, mas mesmo assim ele sentia que havia algo muito errado consigo mesmo.

—“A pulsação elemental ao meu redor!” – Logo veio a compreensão do que havia acontecido. – “Não consigo mais senti-la! Desgraçado, será que ele anulou minha habilidade de manipulador os elementos?!”

Os tentáculos se Coltulo se esticaram para prender o manipulador, sem sucesso. Alerta, Vulcano correu em direção ao demônio, ciente de que sua única chance agora era confrontá-lo diretamente. Esquivando-se de uma segunda tentativa de capturá-lo, através dos tentáculos do outro braço, ele finalmente se viu a cara a cara com o inimigo, enterrando a rapieira em sua cabeça negra e viscosa.

Num primeiro momento, parecia que seu ataque havia sido efetivo, mas uma sensação profunda de temor o fez se afastar imediatamente, desvencilhando-se dos tentáculos que agora retornavam.

Nisto, a cabeça de Coltulo se desmanchou, tornando-se um emaranhado igual aos seus demais membros. Vulcano não fazia a menor ideia do que era seu inimigo, mas essa demonstração deixava claro que não seria fácil feri-lo.

—“Só pode ser brincadeira...!”

Casualmente, o monstro deixou que a rapieira deslizasse para um de seus braços, permitindo então que a cabeça retornasse à forma original. – Acho que você esqueceu alguma coisa. – Disse ele em tom de malícia, mas para sua surpresa a arma sumiu, reaparecendo magicamente na mão direita do manipulador.

—Eu não sei do que você está falando.

Coltulo indagou que outros truques seu adversário ainda estava escondendo. Cada vez que acreditava tê-lo encurralado, ele o surpreendia com uma habilidade nova, tornando-se um incômodo cada vez maior, aborrecendo mais e mais o demônio.

Esticando e enrolando seu braço esquerdo, Coltulo o transformou num longo chicote, comprido o bastante para alcançar Vulcano. Açoitando o vento com um ataque horizontal, ele o obrigou a se abaixar e então lançou um golpe semelhante com o braço direito, desta vez de cima para baixo. Tendo saltado para o lado a tempo de se safar, o manipulador viu diante de si uma oportunidade de contra-ataque, mas estava enganado ao pensar que Coltulo não teria como se defender.

De fato, o demônio havia intencionalmente realizado ataques exagerados e imprudentes para criar uma ilusão de vulnerabilidade. Assim, no momento em que Vulcano cobriu metade da distância que os separava, Coltulo ergueu sua perna direita, mantendo-se perfeitamente equilibrado, e estendeu os tentáculos do membro para agarrar, desta vez com sucesso, o torso de seu oponente.

Vulcano, contudo, não estava disposto a se entregar facilmente e atravessou as protuberâncias que o prendiam com sua rapieira, cravando-as no chão. Entretanto, ele não se viu livre por muito tempo, sendo capturado pelo movimento de retorno do braço esquerdo de Coltulo.

Com amarras apertando o pescoço e o peito, Vulcano foi arrastado para perto do demônio. Este então deslizou alguns de seus tentáculos para o braço direito do manipulador, rasgando a manga do traje e revelando o bracelete oculto.

—Então é isso que você usa para recuperar a sua arma. Muito prático.

Uma rápida inspeção revelou que Vulcano não usava um bracelete semelhante no outro braço. Desta forma, bastava garantir que ele não fosse capaz de movimentar o lado direito do corpo e poderia eliminá-lo facilmente. Deleitando-se com o momento de fragilidade de seu inimigo, Coltulo o manteve suspenso, remodelando outra vez o próprio braço direito numa lança. Embora estivesse se divertindo agora, ainda tinha uma missão para cumprir.

Com a ponta da lança apontada para sua cabeça, Vulcano enxergou a crueldade nos olhos amarelados de seu algoz e calculou o momento do ataque. Conjurando a rapieira na mão esquerda, ele imediatamente a cravou nos tentáculos que o prendiam, reduzindo a pressão o suficiente para se desviar, escapando por um triz do golpe fatal.

Atônito, Coltulo ficou sem reação enquanto remoía o erro que havia cometido. Neste breve ínterim, Vulcano convocou sua arma para o braço direito, agora livre, e a cravou no centro do corpo do demônio, finalmente conseguindo causar algum dano real. Sentindo que a maldição começava a enfraquecer, ele imediatamente envolveu a lâmina da rapieira numa pequena espiral de chamas.

Com o poder de sua maldição se desfazendo e o fogo que o consumia cada vez mais intenso, Coltulo percebeu que estava derrotado. Seu corpo inteiro foi incendiado e continuou a arder, até restarem apenas cinzas e vários tentáculos inertes espalhados pelo chão.

Vulcano observou a cena até ter certeza de que seu inimigo havia sido realmente destruído. Em se tratando de demônios, o maior erro que poderia cometer seria tirar conclusões precipitadas. Ironicamente, o mesmo tipo de erro que o permitiu ser vitorioso. Porém, ele não tinha tempo para pensar em ironias.

—Ah, senhor Jack!

Lembrando que não era o único que estava lutando, Vulcano se virou para procurar o ferreiro, mas sua preocupação era desnecessária. Ao redor dele, os demônios rastejavam e grunhiam de dor, incapazes de continuar lutando, enquanto o próprio Jack agarrava um dos infelizes pelo pescoço e gritava em tom ameaçador.

—Pede desculpas!

—Você não tem o direito de-

O monstro tentou retrucar, mas foi calado pela violência do tapa dado com o verso da mão coberta pela manopla.

—Eu mandei pedir desculpas!

—D-Desculpe! Por favor nos perdoe! Nós só estávamos seguindo ordens! – Disse o demônio aterrorizado.

—Ordens de quem?

—D-Dele...!

Jack olhou na direção apontada, sua própria residência, mas não havia nada de suspeito lá. Corvame já estava longe, tendo abandonado seus aliados ao ver que eles estavam fadados ao fracasso. Ainda assim, sua presença não havia passado completamente despercebida pelo ferreiro.

—Vão embora daqui agora mesmo, antes que eu decida matar todos vocês!

Jack largou o pescoço do demônio, deixando que ele fosse ao chão. Levantando-se de um salto, o monstro correu desajeitadamente montanha abaixo, sendo seguido por seus companheiros.

—Tem certeza que foi uma boa ideia deixar eles fugirem desse jeito? – Perguntou um intrigado Vulcano.

—Provavelmente não. – Respondeu Jack, coçando a cabeça. – Acho que eu estou ficando mole com a idade.

De súbito, ambos ouviram passos que se aproximavam rapidamente. Ao olharem na direção da trilha que seguia para o topo da montanha, perceberam que Karin vinha correndo em sua direção, carregando uma pequena sacola.

—Eu peguei um bom tanto, mestre, para não ter problema de faltar. – Notando que o ferreiro e o manipulador estavam suados e sujos, ela se espantou. – Ué? O que aconteceu por aqui?

—Ah, nada de mais, nós só estávamos nos divertindo um pouco. – Tentando evitar que sua amiga ficasse apreensiva, Vulcano usou a primeira desculpa que lhe veio à mente. – Coisa de homem, sabe?

—Diversão esquisita a de vocês. O que são essas coisas torradas? – A menina perguntou, apontando para os tentáculos no chão.

—Isso não vem ao caso agora, Karin. – Interrompeu Jack. – Se você já pegou o que precisava, então dê o fora daqui. Na verdade, eu mesmo estou pensando em procurar um lugar mais tranquilo para trabalhar. Pelo visto, não vou ter muito sossego em Chesord.

—O senhor pode vir conosco para o esconderijo das bruxas. É seguro lá. – Sugeriu Vulcano.

—Agradeço o convite, mas não precisa se preocupar comigo. Eu sei me virar.

—Bem, isso é verdade...

Enquanto Karin continuava olhando ao redor, perplexa com os sinais de batalha, Jack se aproximou lentamente de Vulcano. Com um sorriso, o homem colocou sua mão sobre a cabeça dele, esfregando os cabelos.

—Você é um bom rapaz, Vulcano. Se não se importar, eu gostaria de lhe pedir um favor.

—Que favor, senhor Jack?

—Eu acho que posso ajudar a impedir a invasão demoníaca, mas meu lugar não é na frente de batalha. Por isso eu quero que você proteja Karin por mim, está bem? Conto com você.

Lisonjeado com a confiança que lhe era depositada, o manipulador devolveu o sorriso.

—Pode contar comigo!

Sentado de pernas cruzadas, Inferno observava o portão bizarro diante de si. Negro, retorcido e com quase cinco metros de altura, ele se estendia por outros dez. Completamente bloqueado, tal portão não permitia passagem para o outro lado, mas podia ser facilmente contornado. Seu propósito era desconhecido, mas a expressão diabólica entalhada no topo deixava pouco espaço para dúvida quanto à sua origem.

O tempo passou e duas figuras surgiram ao oeste. Eram Scythe e Viper, que vinham trazer um relatório para o líder da ordem. Este se levantou para recebê-las e, depois de alguns minutos de conversa, Carbon e Elbio se juntaram ao grupo, vindos do lado oposto.

—Então estamos mesmo aprisionados por todos os lados. – Disse Inferno. – Para mim não resta dúvida que o portão é o centro da barreira ao nosso redor. Precisamos encontrar uma forma de desativá-lo, mas não creio que destruir seja uma opção. Mesmo usando todo o meu poder, não consegui causar nem um arranhão.

—Eu sinto uma espécie de energia estranha emanando dele. – Comentou Elbio. – É quase como se fosse magia, mas completamente diferente da Airanul ou da Airalos.

O bruxo se aproximou, tocando a superfície do portão, mas recolheu a mão no mesmo instante, como se o mero contato houvesse lhe causado um choque. Subitamente, a construção inteira estava envolta numa aura sinistra, e os olhos do rosto perverso no topo se iluminaram com um amarelo profundo.

—Este é o portão do sacrifício. – Disse uma voz áspera e reverberante. – Se quiserem se libertar desta prisão, um de vocês devem ser renunciado. Entreguem um sacrifício para o portão, ou permaneçam diante dele para sempre!

Notas finais
É impossível avançar sem que seja feito um sacrifício. Uma vida precisa ser entregue ao Portão do Sacrifício. Capítulo 256: Nerhart Em breve.