Corvame prosseguia com seu voo em direção ao norte. Ainda tinha trabalho a fazer, e já não lhe restavam dúvidas a respeito da importância de reunir logo os outros demônios espalhados pelo reino.

—Como pudemos cometer um erro tão grave? – A ave ponderava consigo mesma. – Arrasamos este país com tanta facilidade que acabamos baixando a guarda, e agora essa resistência humana nojenta está alcançando vitórias e mais vitórias.

Ainda assim, apesar de todas as suas preocupações, o pássaro infernal se mantinha tranquilo. Ele sabia que tão logo Vladmir Banemare fosse informado do fracasso de seus lacaios contra a Ordem da Rosa Branca, seria apenas uma questão de tempo até que toda a força das legiões demoníacas fosse reunida para esmagar os tolos que pensavam ser capazes de impedir a invasão de Pravus.

Não há sensação que se compare à agonia causada pela presença de um demônio, um terror que consome a alma lentamente, privando a pessoa de qualquer alento. Quando o Portão do Sacrifício começou a se abrir, contudo, os guerreiros reunidos diante dele foram engolidos por uma aura devastadora de sofrimento, mais pavorosa do que qualquer outra coisa que já tivessem sentido. Revelando um véu cinzento como águas turvas em seu interior, a estrutura mais parecia uma passagem para o próprio inferno.

—O que é essa coisa? – Perguntou Carbon, cujas pernas ameaçavam vacilar e ceder sob a presença opressora.

—Ele quer mesmo que um de nós atravesse o portão? – Questionou Viper, igualmente fustigada.

—Isso mesmo! – A voz tenebrosa trovejava. – Um de vocês deve adentrar o Portão do Sacrifício e abandonar a própria vida para que os demais possam seguir adiante!

Um silêncio tenso se seguiu, conforme a realidade perversa imposta ao grupo atordoava e confundia seus integrantes. Contudo, havia um deles disposto a colocar um fim no impasse. Com as mãos tremendo, mas o coração resoluto, Scythe deu um passo adiante, suportando o medo que tentava dissuadi-la.

—Tudo bem. Se é assim que tem que ser, eu vou!

Porém, uma mão firme em seu ombro a deteve. Ela então se virou para encontrar o olhar gentil, mas censurador de Inferno.

—Não aja impulsivamente, Scythe. Você pode até não acreditar, mas sua presença é muito importante para o grupo. Não podemos simplesmente arriscar sua vida desse jeito. – Nisto, o líder da ordem materializou sua arma, uma robusta espada larga, e a segurou com firmeza na mão direita. – Deixe que eu vou.

—Você perdeu a cabeça, Inferno?! – Protestou Carbon. – O que vai ser da Rosa Branca se você morrer assim?! Nem ao menos sabemos se o portão está dizendo a verdade sobre nos deixar passar!

—Fique tranquilo, tenho certeza de que vocês poderão seguir adiante. – Retrucou o controlador das chamas negras, que, diferente de seus companheiros, conseguia demonstrar uma certa calma. – Além disso, eu não tenho a menor intenção de morrer.

—Tem certeza disso, Inferno? – Foi a vez de Viper expressar suas preocupações. – Isso tem cara de ser uma armadilha!

—Nós já caímos na armadilha. Nossa única escolha agora é arriscar.

Nenhum dos aliados de Inferno estava realmente disposto a aceitar a ideia de sacrificá-lo, mas também não tinham argumentos para impedi-lo. Um a um, eles se viram amargamente resignados.

—Muito bem, então está decidido. – O controlador das chamas negras continuou. – Carbon, a missão de resgatar as bruxas do esconderijo de Madame Ancara fica sob sua responsabilidade. Até que eu consiga alcançá-los, você deverá tomar todas as decisões necessárias.

Entendo. – Disse o outro manipulador com firmeza. – Mas é bom você nos alcançar logo.

—Farei o meu melhor. – Com um minúsculo sorriso, Inferno seguiu adiante, atravessando o miasma sinistro até finalmente desaparecer dentro do véu.

Lentamente, o portão começou a se fechar. Os olhos em seu topo, antes reluzindo com um amarelo fulgurante, apagaram-se junto com o estrondo causado pelo encontro entre as portas. Da mesma forma, a aura diabólica que os assolava havia desaparecido por completo.

—Já não sinto mais aquela magia sinistra. – Comentou Elbio, tocando a estrutura inerte. Para todos os efeitos, ela havia se tornado algo completamente mundano. – Seja lá o que aconteceu, parece que o portão realmente estava falando a verdade.

Indignada, Viper contornou o portal, mas nada encontrou do outro lado senão as mesmas portas lacradas. Inferno já não estava mais entre eles.

—Vamos sair logo daqui então. – Ordenou Carbon. – Antes que esse portão maldito resolva abrir de novo!

Em silêncio e inundados de incerteza, os quatro retomaram sua marcha. Logo se tornou evidente que já não havia mais barreira alguma impedindo o avanço e assim, torcendo pela segurança do líder da ordem, eles finalmente puderam deixar suas dúvidas de lado para se concentrar na missão.

Inferno se viu no meio de um descampado árido e cinzento, envolvido numa neblina espessa. A aura de sofrimento lá era sufocante, muito mais terrível do que diante do portão, e um frio insistente invadia o corpo, congelando até os ossos.

—Então o outro lado é desse jeito? – Ele disse para si mesmo, tentando conter a própria tremedeira. – Bem, eu já devia esperar...

Sem rumo, o homem caminhou por um longo tempo, perdendo completamente qualquer noção de distância ou duração, mas tudo ao seu redor continuava exatamente igual. O frio e a névoa persistiam, como se fossem as únicas coisas que aquele lugar tinha a oferecer.

Então, Inferno sentiu uma mudança ínfima na aura maligna, acompanhada pelo som quase inaudível de algo se arrastando pela terra. Pouco a pouco, vultos começavam a se formar no limiar do seu campo de visão, invocando calafrios ainda mais intensos.

O som de passos vagarosos agora era nítido, anunciando a chegada de dezenas de carcaças macabras, trajando armaduras esburacadas, cheias de ferrugem, e portando armas rachadas. Subitamente, o manipulador se viu cercado.

—“Será que essas são as vítimas do Portão do Sacrifício?” – Ao observar mais atentamente as aparições, Inferno podia sentir o tormento no fundo de seus globos oculares vazios, a mesma dor que desfigurava seus rostos apodrecidos em máscaras sinistras. – “Pobres almas.”

Inferno resistiu ao medo que ameaçava tomar conta, inflamando seus arredores e sua arma com chamas escuras. Por um momento, os mortos hesitaram, mas a dúvida deles durou um mero instante. O avanço continuou.

—Sinto muito por isso. Espero que suas almas condenadas possam encontrar algum tipo de paz.

Um golpe furioso foi lançado contra os inimigos. A lâmina flamejante dançava pelo ar, reduzindo a pó as aparições com cada ataque. Claramente, o manipulador tinha o poder a seu favor, mas seus adversários eram numerosos e continuavam a surgir da névoa.

—“Quantas pessoas já perderam a vida por causa deste portão? Centenas? Talvez mais ainda?”

Assim como a chama ardia em sua espada, uma fúria poderosa começava a arder em seu coração. Reduzidos a meras sombras esquecidas, os mortos que sucumbiam a seus golpes provavelmente haviam sido homens de nobreza e coragem em seu tempo.

—“Não posso deixar que o portão volte a se abrir. Preciso impedir isso a qualquer custo!”

Em meio às chamas violentas, as aparições se desmancharam até não restar mais nenhuma. Cansado e arfando, mas sem nenhum ferimento, Inferno finalmente baixou sua espada e analisou o ambiente ao redor. Tudo parecia ter retornado à lúgubre normalidade.

—Realmente, isso só pode ser obra de um demônio. Ele deve estar em algum lugar desta prisão...

—Se a sua intenção é encontrar o mestre deste lugar, creio que posso ajudá-lo, garoto.

Uma voz velha, mas firme, assustou o manipulador. Sem que houvesse percebido sua aproximação, um novo fantasma havia se juntado a ele. Diferente dos demais habitantes daquele lugar desolado, contudo, este tinha uma aparência espectral e robusta, com as feições de um humano normal, e trajava uma armadura larga impecável, tão etérea quanto ele próprio.

Instintivamente, Inferno empunhou sua espada, envolvendo-a em chamas. Algo a respeito daquele fantasma lhe passava a impressão de que não seria um oponente fácil de vencer, mas mantinha-se firme e pronto para lutar. Entretanto, não era um combate que o espírito buscava.

—Acalme-se, menino! Eu não falei que ia lhe ajudar?

—E como posso confiar em você? – Retrucou Inferno, nem um pouco convencido.

—Pelo visto deve ter passado mesmo muito tempo desde que fui preso aqui. Na minha época os guerreiros sabiam mostrar um mínimo de educação e honra.

Aquele era o último lugar em que o líder da ordem esperaria receber tal tipo de crítica. Sem reação, ele tomou um momento para analisar melhor o audacioso fantasma e se deu conta de que havia algo estranhamente familiar a respeito dele. Quase como se o conhecesse.

—Espere um pouco... por acaso você não é...?

As dúvidas começavam a se dissipar. Definitivamente conhecia aquele rosto idoso coberto pela barba farta e bravia. Suas memórias de quatro anos atrás começavam a vir à tona, juntamente com a imagem de uma importante figura histórica.

—O segundo líder da Rosa Branca... Nerhart...!

A surpresa do fantasma ao ser chamado daquela forma foi nítida. Não esperava que depois de tanto tempo alguém fosse reconhecê-lo pelo posto que ocupou em vida.

—Sim, eu sou o segundo líder da ordem. Ou melhor, eu era, antes de ficar preso neste mundinho esquecido. Como você sabia?

—É porque eu sou o sétimo e atual líder da ordem. Não está reconhecendo o uniforme?

—Uniforme? – O fantasma soltou uma breve risada. Sua expressão agora havia se tornado quase exultante. – Na minha época não tínhamos isso, mas até que não ficou nada mau. Estou honrado por conhecer um dos meus sucessores, mas se você está aqui só pode significar que o Portão do Sacrifício foi aberto novamente...

—Realmente, mas o senhor deve saber como fechá-lo novamente, não é?

—De fato. Essa dimensão e o portão são mesmo obra de um demônio. – Nisto, o antigo líder assumiu uma expressão pesarosa. – Se estiver determinado a enfrentá-lo, posso levá-lo até ele.

Mostrar hesitação diante de um dos antigos heróis da Rosa Branca era simplesmente inadmissível. Com uma chama intrépida reluzindo em seu olhar, Inferno acenou afirmativamente.

—É justamente o que pretendo fazer!

Notas finais
A única forma de escapar da dimensão espectral e selar o Portão do Sacrifício é derrotando o demônio que está preso nele. Capítulo 257: O Mestre do Portão Em breve.