Roses and Demons: Hell's Flower
5 Não Seja em Vão
Notas iniciais
Acho que já estava na hora de desenvolver um pouco mais a Luna.
Luna Watlear era uma manipuladora jovem, mas ainda assim inegavelmente poderosa. As várias batalhas de que participou após abandonar sua cidade natal de Hadob ao lado de Yasmin Pyrath não só a permitiram potencializar o domínio de seu elemento base: a água, como também aprender a mesclá-lo com o poder da terra para ser capaz de manipular plantas, da mesma forma que Ent, um dos guerreiros da Ordem da Rosa Branca.
Sua estatura era mediana, cerca de dez centímetros mais baixa que Fernand Astrock, tinha cabelos negros quase sempre impecavelmente arrumados e presos por uma faixa de cor azul, a mesma de seus olhos. Ainda vestia os trajes cerimoniais alvos de seu sacerdócio, embora houvesse abandonado esse caminho recentemente. William desejava se tornar mais forte para conseguir sua liberdade. Yasmin era movida pelo senso de dever e lealdade a Chesord, sendo que o mesmo valia para Fernand, com a diferença de que este entregava sua dedicação a Empericia. Já Karin buscava orgulhar seu mestre, o misterioso ferreiro Jack Faith, e também, a ex-sacerdotisa acreditava, provar que era digna de ser considerada uma guerreira. Por fim, Samantha tinha uma vendeta contra o reino que oprimiu as bruxas por tantos anos e ninguém saberia dizer quanto sangue ela estaria disposta a derramar até se dar por satisfeita. Luna, por sua vez, era diferente de todos os seus amigos. Ela não tinha um motivo forte que justificasse ter se envolvido naquele conflito. O fez simplesmente por acreditar que era a coisa certa, que uma serva dos deuses deveria se esforçar para impedir que as forças do mal prosperassem. Não demorou para que o peso dessa responsabilidade, combinado com a confusão de não saber mais se estava realmente defendendo a justiça ou apenas interesses egoístas quando a guerra entre Empericia e Chesord eclodiu, fizesse com que ela questionasse tudo em que acreditava. Mas isto já era passado. Quando soube da invasão demoníaca ela já tinha tomado uma decisão quanto ao que deveria fazer e, por este motivo, não desejava ser deixada de fora. Assim que ouviu a respeito da missão de resgate que Fernand e Lince Walters estavam organizando, ela se apressou em garantir que fizesse parte do grupo. O pelotão deixou as imediações do Forte Brokefront ao raiar do dia. O caminho a ser percorrido até o corredor uivante era longo e exigia que a jornada fosse realizada com cautela, o que tomou alguns dias. Inicialmente conseguiram avançar sem maiores transtornos, mas quanto mais se aproximavam da região montanhosa, mais frequentes eram os encontros com criaturas diabólicas. Os demônios, como Luna logo notou, tinha formas e poderes muito variados. Alguns possuíam formato humanoide, outros se assemelhavam a bestas e ainda existiam aqueles cuja aparência era tão grotesca que se tornava difícil traçar um comparativo com algo que pertencesse a Realia. Mas por mais medonhos e perigosos que pudessem ser, eles não eram invencíveis. Lâminas e poderes elementais eram capazes de feri-los e matá-los, mesmo que sua robustez fosse consideravelmente maior que a de um ser humano. Na noite do quinto dia, Lince Walters estava com uma aparência grave quando ordenou que montassem o acampamento na base de uma encosta. As ordens eram para que se evitasse o uso de luzes, somente o mínimo necessário, e que os soldados fizessem silêncio. O número de sentinelas fazendo rondas também era maior que o de todos os outros dias, pois o comandante sabia que estavam numa região de perigo elevado. A seriedade se espalhava entre os soldados, pois era da ciência deles que, ao alcançar o corredor uivante no dia seguinte, invariavelmente teriam de combater a força demoníaca que impedia o avanço dos reforços enviados pelo rei Secrett. Em meio a isto, Luna notou que Fernand ainda aparentava estar um tanto deprimido, mas nada disse. A noite se passou sem que qualquer evento digno de nota ocorresse. Com o raiar da manhã, os austeros empericianos iniciaram sua subida e não demorou muito para que o confronto ocorresse. Os inimigos da vez eram mais homogêneos e lembravam onis, humanoides brutais que vivam em regiões selvagens de Chesord, mas ainda mais musculosos, com chifres enormes e garras e presas afiadas. Assim que viu a primeira onda descendo a encosta, a manipuladora da água soltou do próprio cinto um objeto prateado que lembrava uma lua minguante com um fio ligando as duas pontas e imediatamente ativou seu mecanismo, que fez as extremidades expandirem, revelando a verdadeira forma de seu arco. Ela não tinha necessidade de carregar flechas, pois usando a própria umidade do ambiente era capaz de formar projéteis de água com solidez semelhante à do gelo. Mais habilidosa e perigosa do que nunca, ela colocou seus talentos a favor de seus aliados, prestando um apoio inestimável e eliminando vários dos demônios com eficiência. Não existia um pingo sequer de piedade nos ataques que desferia contra aqueles inimigos. Cada tiro, mesmo que não fosse fatal, causava ferimentos gravíssimos.
Tudo indicava que aquela batalha terminaria com uma vitória relativamente tranquila para os empericianos, mas um forte tremor de terra espantou a todos. A causa logo se revelou: uma criatura enorme irrompeu da encosta, lançando detritos para o alto e obrigando homens e demônios a se dispersar a fim de evitar serem atingidos pelas rochas que choveram em seguida. A monstruosidade recém-surgida tinha escamas por todo o corpo que mais pareciam placas cinzentas de pedra. Abaixo do tronco o corpo se alongava para trás, sustentado por quatro patas robustas. Ela então avançou para cima dos soldados de Walters, pisoteando alguns e atingindo outros com seus braços poderosos.–Deixem essa coisa comigo! – Declarou Fernand. Para proteger seus aliados, o manipulador da terra envolveu o próprio corpo em uma armadura de adamante e criou mãos de rocha a partir do solo para prender os pulsos do demônio. Isso garantiu apenas alguns breves momentos e Astrock não teve outra escolha senão avançar, de machado em punho, desferindo um golpe com toda a sua força. O ataque atingiu em cheio uma das patas dianteiras, mas não causou dano algum. Frustrado, Fernand saltou para outro lugar antes que o inimigo pudesse retaliar e, com uma pequena ajuda de suas manipulações, conseguiu alcançar o lombo do demônio. Ataques em sequência foram desferidos na região das costas, mas as escamas garantiam uma proteção rígida demais para ser trespassada. Outros diabos menores tentaram atacar o soldado, mas Luna lhe prestou cobertura, desferindo tiros certeiros em qualquer um que se aproximasse demais. Mesmo assim, a situação só piorava para seu amigo, que não conseguiu se segurar enquanto a besta se debatia violentamente e caiu, sendo esmagado por uma pata no momento seguinte.–Fernand! – Walters gritou, mas soltou um suspiro de alívio ao notar que seu companheiro estava se levantando, tendo sido poupado de ferimentos graves graças à sua armadura. Contudo, o demônio também percebeu isto e não perdeu tempo em agarrar o manipulador da terra e lançá-lo violentamente contra uma rocha.–Deixe eu cuido dele! – Luna exclamou, correndo o mais rápido que podia até alcançar Fernand. Apesar da aparência horrível e de não estar mais protegido por adamante, sua situação física estava longe de ser crítica. A psicológica, por outro lado...–Foi mal, Luna, mas eu não consigo enfrentar essas coisas. Eu não sou forte o bastante.–Que papo furado é esse? Bateu a cabeça, por acaso?–Isso não é hora para fazer piadas, Luna. Olha só para aquela coisa. Não dá, alguns inimigos simplesmente não podem ser derrotados. A ex-sacerdotisa sentiu um impulso quase incontrolável de socar o rosto do rapaz, mas o olhar vazio dele fez com que ela se contivesse e fechasse os olhos. Meditando brevemente.–Escuta, Fernand, deixe eu contar um segredo. – Uma pausa se sucedeu, na qual ela garantiu que tivesse a atenção do amigo. – Eu também fiquei bastante chateada em ter que me separar da Yasmin e parte de mim queria ter ido junto, mas eu sei que ela e Samantha são capazes de manter William na linha. A vida é assim, às vezes temos que nos despedir de pessoas importantes sem sequer saber se um dia as veremos de novo.–Pare de falar como se soubesse como eu me sinto!–Tudo bem, talvez eu não saiba. – Luna respondeu calmamente. – Mas essas pessoas importantes precisam de mim aqui e agora. Precisam que eu me mantenha forte para garantir que esse mundo tenha um futuro. Para que esses sentimentos não sejam em vão, eu não posso me deixar vencer pelas incertezas e arrependimentos! A expressão de Fernand se tornou menos pesada enquanto ele aceitava a mão da garota para ajudá-lo a se colocar em pé.–Quando foi que você ficou tão forte, Luna?–Bem, eu acredito no que estamos fazendo aqui, acredito que realmente é o que deveríamos estar fazendo. E na posição em que me encontro ser fraca não é exatamente uma opção.–Tem razão. Mas o que eu devo fazer com relação ao William?–Como eu disse, aquelas duas vão mantê-lo na linha e uma hora ele vai cair na real e perceber que ninguém consegue viver sem depender dos outros. Nessa hora você vai poder recebê-lo com um sorriso e um soco bem dado na cara.–É, gostei da ideia. – O soldado abriu um sorriso pequeno, mas sincero. – Mas vamos falar sobre isso depois, temos alguns demônios para espancar!
Notas finais
A batalha no corredor uivante prossegue. Enquanto isso, Karin...
Capítulo 236: Treinamento
Em breve.
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