Notas iniciais
A verdade precisa ser dita. Minha escrita era horrível, cancerígena até, quando comecei a escrever Roses and Demons. Mas eu continuei até aqui acreditando que era uma história que valia a pena ser contada. Agora decidi que, assim que terminar de revisar os capítulos que ainda me faltam de Warbloom, vou relançar a história sob o título de provisório de Roses and Demons: Conspiracy. Aceito sugestões de nome, contudo.

Nasci na família Holark, o terceiro filho de cinco, e recebi o nome de Adrian. Embora fôssemos nobres, nosso prestígio era decadente e estávamos longe de ser abastados. Ainda assim, tive a oportunidade de me dedicar aos estudos, assim como meus irmãos, embora os imbecis nunca tenham demonstrado ambição na vida.

Enquanto eles seguiam carreiras simplórias nas forças armadas, no comércio ou qualquer outra profissão abaixo dos meus padrões, eu passei meus anos adquirindo saber e renome, o suficiente para ganhar o reconhecimento como um dos maiores estudiosos da minha época e um convite para integrar a corte do rei Follet.

Uma vez lá, minha mente afiada rapidamente tomou como certeza o que antes era apenas uma desconfiança: que existiam forças misteriosas agindo por trás dos panos em Chesord. O mentor por trás disso talvez fosse capaz de enganar os outros tolos que viviam no castelo, mas ele certamente não contava que haveria lá um intelecto como o meu.

Aos poucos, juntei as pistas que ele, sem perceber, deixou pelo caminho e entendi que a verdade a respeito do isolamento de Chesord dos demais reinos era completamente diferente do que estava escrito nos livros de história. Compreendi a ameaça que o homem misterioso representava e que seu objetivo só poderia ser algo muito nefasto.

Isto me serviria muito bem. Estava claro para mim, desde minha adolescência, que eu havia nascido para superar os limites do ser humano, que era o único realmente digno de governar o mundo e conduzir as pessoas ignorantes na direção correta. Para tanto, seria necessário me aproveitar de Vladmir Banemare e fazê-lo entrar no meu jogo.

O primeiro passo do meu plano envolvia entrar na Ordem da Rosa Branca. Já era de meu conhecimento que este grupo de manipuladores de elite tinha sido organizado pela vontade de Vladmir e, estudando os registros a respeito dos membros, cheguei a uma inescapável conclusão. Era simplesmente impossível que tantas pessoas despertassem poderes exatamente iguais durante o breve período de 300 anos, e que isto ocorresse justamente quando surgisse a necessidade de substituir algum membro.

Conveniente, não? Isto porque, de alguma forma, o homem que realmente controlava a ordem era capaz de infundir o poder elemental em outros seres humanos. Honestamente, nunca compreendi todo o processo, mas se ele era capaz de fabricar manipuladores, então não havia nada que me impedisse de participar da Rosa Branca.

Bastou criar algumas evidências de que eu sabia a verdade para que enviassem um assassino para me matar. Naquela época, oito anos antes do ataque aos pilares, eu já desconfiava que o único homem que, assim como eu, estava ciente dos fatos era Vincent Blacdow, um espião que acabou assumindo o título de Carbon para preservar a própria vida. Um homem com pouco a perder e que seria fácil de manipular.

Consegui convencê-lo a me levar até seu verdadeiro mestre, o próprio Vladmir Banemare, e fiz o vilão acreditar que minha verdadeira vontade era servi-lo e aos seus mestres demoníacos. Ele então me concedeu o poder de controlar os elementos do vento e das trevas, tornando-me o novo Vortex.

Para manter as aparências me tornei seu servo mais leal, garantindo que ninguém desconfiasse de seus planos enquanto Vladmir agia livremente. Óbvio que fiz isso porque precisava que ele concretizasse suas intenções antes que eu pudesse sair em busca do meu verdadeiro objetivo, e, desta forma, ganhei sua total confiança.

Banemare garantiu, em troca, que eu me tornasse uma figura de grande influência dentro da ordem e o segundo guerreiro mais poderoso, perdendo apenas para Inferno. Talvez ele preferisse que o líder fosse alguém completamente ignorante e, de toda forma, suponho que eu faria o mesmo em seu lugar.

Alguns anos depois encontrei uma figura que mostrou potencial para ser útil nos meus planos. Dotado de uma sede insaciável por poder, Roger Pyrath seria um peão perfeito enquanto eu pudesse mantê-lo sob controle com a promessa de torná-lo mais forte. Convenci Vladmir a colocá-lo como Quartzo no lugar do falecido Martin, que infelizmente descobriu mais do que deveria e teve de ser eliminado. Roger acabou se mostrando mais imprevisível do que eu esperava, mas apesar disso ainda era esperto o suficiente para saber que seria um erro me contrariar

Então algo que eu jamais seria capaz de imaginar aconteceu. Um pequeno grupo de manipuladores iniciou uma campanha para derrubar os dez pilares que mantinham a barreira ao redor de Chesord. Esta era definitivamente a prova de que o próprio universo reconhecia minha superioridade e conspirava a meu favor. Com uma pequena ajuda minha, eles conseguiram cumprir seu objetivo e colocaram Banemare numa posição perigosa.

A partir daí, bastou posicionar as peças cuidadosamente no tabuleiro, manipulando todos ao redor para garantir que Vladmir não tivesse outra escolha senão iniciar a invasão demoníaca antes do previsto. E enquanto ele estivesse ocupado lidando com os exércitos de Chesord e Empericia, eu poderia agir livremente.

Noite. Na clareira de uma floresta, um jovem de cabelos castanhos, curtos e rebeldes, e olhos da mesma cor, cutucava a lenha crepitante de uma fogueira com um graveto. Sua expressão traduzia o tédio que estava sentindo e suas vestes revelavam se tratar de um guerreiro da Ordem da Rosa Branca. Os caules, das cores amarela e verde, eram a prova de que Roger Pyrath detinha o codinome Quartzo.

Ele ergueu a cabeça e o olhar ao ouvir alguns estalos leves, mas não se colocou em pé. Não tinha medo de que alguém, ou algo, pudesse atacá-lo e apenas aguardou enquanto a silhueta de um homem alto e de cabelos longos se tornou cada vez mais definida. Logo, Vortex também estava diante do fogo, que iluminou sua costumeira expressão calma.

–Finalmente! – Exclamou o controlador dos cristais. – Já estava pensando que você tinha cometido algum erro e morrido.

–Não me ofenda, Roger, você sabe muito bem que é praticamente impossível eu cometer algum erro. Embora você ainda seja um caso a se pensar.

–O que quer dizer isso? – O irmão de Yasmin retrucou, levemente irritado.

–Quero dizer que ainda não decidi se escolher você para me ajudar foi um erro ou um acerto. Bem, é evidente que isso depende mais das suas atitudes do que das minhas agora.

–Olha, eu te ajudei até aqui, não ajudei? Vê se me dá um pouco de crédito!

–Bom, quanto a isso eu não posso negar. – O homem de cabelos escuros sentou, sempre mantendo a mesma feição inabalável. – Tudo está correndo de acordo com o planejado. Vladmir entrou em desespero e libertou os demônios, e a essa altura o massacre já deve ter começado.

–Você acha que Chesord e Empericia darão conta de segurar as forças de Pravus?

–Tenho certeza que sim. Banemare pode dizer o que quiser, mas eu sei que ele tinha esperanças de juntar uma força muito maior antes de atacar. Claro que mesmo que o ataque inicial não seja tão avassalador, teremos que nos apressar assim mesmo ou arriscaremos dar a ele uma vantagem grande demais.

–Minha irmã e os amiguinhos dela não deixarão isso barato. Ela certamente vai virar uma pedra no sapato de Banemare.

O controlador de portais abriu um meio sorriso.

–Estou contando com isso. William também se tornou espantosamente forte, embora esteja longe do meu nível. Às vezes me pego imaginando se a força de todos esses manipuladores e da Ordem da Rosa Branca não seria suficiente, talvez, para deter os planos de Vladmir.

–E a que conclusão você chega? – Quartzo demonstrou súbito interesse.

–Nenhuma. No fim das contas não importa, realmente. Os únicos vitoriosos quando esta guerra terminar seremos nós dois.

Sim, tudo continua conspirando ao meu favor. Em breve eu terei a Flor do Inferno em minhas mãos e então, quando finalmente tiver cumprido minha ambição, mostrarei ao tolo do Banemare o que é a verdadeira grandeza!

Notas finais
Um mês se passou desde o fim da guerra entre Chesord e Empericia, mas o desabrochar que a primavera trouxe foi apenas de dor, morte e sofrimento. Capítulo 233: Depois da Tragédia Em breve.