Annemarie. Quantos anos já se passaram desde a última vez que fui chamada assim? Quando assumi o posto de mestra, duas décadas atrás, abandonei este nome para me tornar Madame Papillon. Agora que o ouço novamente, ele me traz lembranças de uma época feliz em que eu vivia com a minha família. Lembranças que terminam em tragédia.

Foi numa manhã de primavera que eu nasci, a filha mais nova de Ivan e Morgan Follet. Minha irmã, na época com quatro anos, chamava-se Danielle. Éramos netas do então rei de Chesord, Francis Follet, mas não fazíamos parte da linhagem principal de herdeiros do trono. Esse privilégio e responsabilidade cabia ao nosso tio, Andersen Follet, um homem preparado desde jovem para o dia em que receberia a coroa. Ele também tinha um filho, um ano mais velho que Danielle, chamado David.

Diferente do irmão, meu pai teve a oportunidade de escolher o ofício a que dedicaria a sua vida. A tradição chesordiana sugeria que ele seguisse uma carreira militar ou que assumisse o governo de alguma cidade importante. Mas Ivan era um homem incomum, e sua fascinação pelas artes mágicas o levou a trilhar o caminho de um sábio. Seus muitos anos de estudo o tornaram uma das pessoas mais instruídas do reino, um privilégio para mim e Danielle. Toda a educação que recebemos, tanto em conhecimentos práticos como acadêmicos, nos foi transmitida por ele.

Por outro lado, minha mãe sempre pareceu um tanto distante. Era uma mulher misteriosa, mas também muito bela, amável e gentil, adorada pelas filhas e por praticamente toda a corte do rei Francis. No fim das contas, nunca descobri quais eram suas verdadeiras origens, mas depois de tudo que aconteceu, a resposta me parece um tanto óbvia.

Não morávamos no castelo, mas sim numa mansão nos arredores da capital. Eventualmente Andersen nos visitava para resolver assuntos com meu pai, e nessas ocasiões era comum que David viesse junto. Eram os únicos momentos em que podíamos nos divertir juntos, já que como segundo na linha de sucessão ele recebia a mesma educação severa dada a seu pai. Não que David fosse uma criança muito animada, mas nos esforçávamos para ajudá-lo a esquecer, por algumas poucas horas que fosse, suas obrigações como príncipe.

Por sermos proibidas de sair das terras da nossa família, eu e Danielle não tínhamos muita escolha senão encontrar nós mesmas formas de passar o tempo, mas isso mudou quando conhecemos um menino chamado Peter. Filho da família nobre que morava na propriedade ao lado da nossa, ele se tornou nosso único amigo de infância. Muitas foram as vezes em que passamos tardes de sol brincando no jardim e tardes de chuva estudando juntos.

O tempo passou e Andersen foi coroado. Meu pai, que nunca teve pretensões de tomar o trono de seu irmão, jurou ajudá-lo como conselheiro de confiança. Tudo que ele desejava era garantir o bem-estar da nação e do nosso povo, e foi essa dedicação, somada à sua perspicácia, que o levou a desconfiar que uma figura nas sombras estivesse guiando em segredo o destino de Chesord. Pouco a pouco, ele começou a se aproximar da verdade e do homem conhecido como Vladmir Banemare.

Obviamente, Ivan não era tolo. Quanto mais perto ficava de desvendar o mistério por trás do isolamento do reino, mais evidente se tornava o quanto estava colocando nossa família em risco. Mesmo assim, era seu dever confrontar o vilão que vinha envenenando os pensamentos de seu irmão, pois ninguém mais seria capaz de fazê-lo. Desta forma, alguns dias depois do meu aniversário de doze anos, eu e Danielle fomos enviadas para um convento localizado numa vila distante da capital, sob os cuidados de Madame Scorpia.

A noite de nossa partida foi a última ocasião em que vimos nossos pais. Somente muito tempo depois eu viria a descobrir que, conforme os registros oficias, eles foram emboscados por bandidos durante uma viagem e mortos. O corpo de minha mãe foi recuperado e enterrado na capital, mas o do meu pai nunca foi encontrado.

Apesar de tudo, os dias que passamos no convento também foram felizes. Fizemos amizade com muitas outras jovens e Madame Scorpia nos tratava como se fôssemos suas próprias filhas. Para nos proteger da perseguição de Banemare, ela nos deu um novo sobrenome: Datch. O mesmo sobrenome que nossa mãe tinha antes de se casar. Daquele dia em diante, passamos a estudar as artes místicas das bruxas e nos tornamos devotas da deusa Argenta.

Infelizmente, quatro anos e meio depois, perdemos nossa segunda figura materna. O exército de Chesord descobriu a verdade sobre as mulheres que vivam no convento e organizou um ataque para nos massacrar. Na confusão, eu e Danielle fomos separadas e nunca mais nos encontramos novamente.

Depois de ter perdido todas as pessoas que eram importantes para mim, só havia um caminho que eu poderia seguir. Assim, decidi dedicar o resto da minha a proteger as bruxas da tirania do rei e de Vladmir Banemare, mesmo que isso me levasse a ter que derramar o sangue da minha própria família.

Apesar de terem se passado tantos anos, Madame Papillon ainda era capaz de lembrar com clareza do rosto de sua irmã. Saber que Danielle estava morta enchia seu coração de tristeza, mas ao mesmo trazia uma certa calma. Era a oportunidade de enterrar de vez um passado que jamais retornaria.

—Eu tentei procurar pela minha família por algum tempo, depois que fui obrigada a fugir do convento de Madame Scorpia. – Disse ela, com firmeza na voz. – Infelizmente, sendo uma bruxa e a sobrinha do rei Andersen, era muito arriscado viajar pelo reino. Se fosse descoberta, provavelmente acabaria morta e colocaria a segurança das minhas irmãs em risco.

—Eu imagino. – Disse Ent, admirado com a fibra de Papillon em não dar sinal algum de melancolia. – Na época eu ainda estava treinando para me tornar um cavaleiro. Pouco depois descobri que era um manipulador e comecei a fazer treinos ainda mais árduos para poder me juntar à Rosa Branca.

—Mesmo com tudo que aconteceu, acho que essa ainda foi a maior surpresa para mim. Claro que ouvi falar do Ent da Rosa Branca e seus feitos heroicos, mas nunca pensei que pudesse ser você. Ainda assim, quando vi o seu rosto, não tive dúvidas.

—É sério? Já se passaram umas quatro décadas desde a última vez que nos vimos!

—Sim, é verdade. Mas o seu olhar ainda é o mesmo de quando era criança.

Annemarie não tinha a intenção de revelar sua identidade a princípio, mas agora se sentia feliz por poder conversar com seu amigo de infância daquela forma. Percebendo como havia sido tola em pensar que Peter a desprezaria por ser uma bruxa, ela abriu um sorriso misto de alívio e alegria.

—Assim você me deixa sem resposta. – Devolveu Ent, com uma breve gargalhada. Contudo, suas feições rapidamente assumiram um tom de seriedade conforme ele prosseguia. – Bem, deixe eu lhe contar o que aconteceu depois que o convento foi atacado e você se separou de Danielle.

A mulher acenou afirmativamente, escutando com atenção.

—Depois de treinar minhas habilidades como manipulador por dois anos, finalmente fui aceito pela ordem. Eu pensava que minha vida ficaria ainda mais conturbada, mas aquela época era bem mais tranquila. Antes da ressurreição do dragão Starvon colocar Chesord em crise vinte anos atrás, os membros da Rosa Branca raramente eram convocados, e mesmo nesses casos geralmente as missões duravam pouco tempo. Por causa disso eu podia dedicar a maior parte do meu tempo a procurar vocês duas.

—Mas por que se dar a esse trabalho?

—Não se esqueça que vocês sempre foram amigas muito importantes para mim. Como membro da ordem eu tive acesso aos relatórios sobre a tragédia que tomou a vida de seus pais e soube que o paradeiro das duas era desconhecido. Provavelmente não declararam vocês como mortas porque Banemare queria que fossem encontradas, e naquela época eu não percebi que Ivan e Morgan estavam tentando protegê-las quando as esconderam.

Ent continuou.

—Passei dez anos procurando sem sucesso, até que finalmente descobri que Danielle estava morando em Hadob. Ela tinha virado sacerdotisa num templo local e também trabalhava como professora, ensinando as crianças da vila.

—Então foi por isso que minha irmã morreu? – Perguntou Annemarie, agora com a voz vacilante. – Por que você a encontrou?

—Não, ela faleceu só muito tempo depois, devido a uma doença. Isso já tem uns treze anos. – Peter esperou um momento para que sua amiga pudesse se recompor. – Na verdade, só fiquei sabendo que ela era sua irmã porque Danielle veio falar comigo pessoalmente durante uma das minhas visitas ao templo. Eu não estava exatamente mantendo minha busca em segredo, mas ela confiou que eu não contaria a ninguém que tinha encontrado uma das sobrinhas do rei.

—Ela também estava se escondendo...

—Realmente, Danielle disse que preferia continuar vivendo no anonimato e que estava satisfeita com a vida que estava levando, apesar de tudo. O único desejo dela era reencontrar você Annemarie, e por causa disso eu continuei procurando por muitos anos, até que sua irmã faleceu. Depois disso, decidi que ofereceria o resto da minha vida em serviço à Ordem da Rosa Branca.

Subitamente, Madame Papillon sentiu seu coração se tornar leve. Sim, o destino havia sido cruel em não permitir que as irmãs se reencontrassem, mas a bruxa encontrava alento no fato de que a vida de Danielle não havia sido tão solitária. Da mesma forma, ela mesma havia encontrado um propósito para preencher o vazio deixado pela perda de tantas pessoas importantes. Com efeito, um pensamento a enchia de esperança: a certeza de que, quando chegasse o dia de encontrar sua mãe, sua irmã e sua mestra nos salões prateados do reino de Argenta, Annemarie poderia manter a cabeça erguida, certa de que todas estariam orgulhosas.

—Obrigada, Peter. Muito obrigada mesmo. Você é realmente uma pessoa maravilhosa. – Disse ela, tentando segurar as lágrimas.

—Assim como você, o que eu mais quero é cuidar das pessoas que são importantes para mim. Isso inclui agora a nova geração da Ordem da Rosa Branca, é claro.

—Sim. Eu vejo como aqueles pivetes o admiram. – Annemarie sorriu. – Você realmente encontrou uma família bem divertida. Aliás, eu diria que os deuses nos colocaram onde estamos agora para que pudéssemos guiar nossos pupilos no meio dessa crise e impedir a invasão dos demônios. Nós, que já somos velhos e vivemos bastante, temos o dever de nos colocar à frente dos demais e mostrar o caminho para o futuro. Desta forma, talvez as crianças que nos substituirão no futuro possam desfrutar da felicidade que nos foi negada.

—Eu não poderia pedir um propósito mais digno que esse. – Respondeu Ent, tão sereno quanto sua amiga.

—A propósito, Peter. Por acaso Danielle contou a você que ela era uma bruxa?

—Não, isso ela nunca mencionou. Provavelmente eu teria ficado bem espantado se soubesse, mas jamais trairia a confiança dela.

—É realmente uma pena que ela tenha falecido. Danielle era muito inteligente e gentil, seria uma ótima rainha.

—Se o problema é esse, eu diria o mesmo de você. Já que aparentemente o rei David também morreu, uma demanda sua pelo trono seria legítima.

—Não. – Retrucou Annemarie, resoluta. – Meu lugar é aqui, com minhas discípulas. Eu sou Madame Papillon e pretendo morrer como tal. Contudo, se for para evitar uma guerra entre as casas nobres de Chesord, eu indicaria minha filha, Samantha, como candidata a rainha.

—Bem que eu achei que ela era parecida com você! – Ent gargalhou novamente. – Mas se vamos abrir essa possibilidade, então temos de considerar que existem duas possíveis candidatas.

—Como assim?

—Danielle também teve uma filha. Ela foi acolhida pelo templo depois de sua morte e se chama Luna Watlear.

—Sim, eu conheço essa garota. Mas se ela é filha da minha irmã, por que o sobrenome dela é Watlear? Não me diga que o pai dela é...?! – Seu espanto era tamanho que Madame Papillon sequer conseguiu terminar a pergunta, mas ainda assim Peter a respondeu.

—Sim, é isso mesmo.

Notas finais
Sob a ameaça dos demônios a serviço de Banemare, a Ordem da Rosa Branca tem um encontro inesperado. Capítulo 250: Uma Garota Resoluta Em breve.