Vladmir Banemare recebeu a notícia da derrota de Morburi com tranquilidade, mas um toque de apreensão estava escondido em seu olhar. Se nem mesmo demônios com habilidades peculiares como ele e Dementia haviam sido capazes de deter as bruxas, a conclusão inevitável era que o forte Brokefront não cairia sem um esforço considerável por parte do mago demoníaco.

—Não consigo me lembrar de uma época com tantos indivíduos extraordinários como essa. – Disse o homem, enquanto seu fiel mensageiro, a ave Corvame, escutava. – É verdade que alguns deles, como os membros da Rosa Branca ou William Storde, foram fabricados, mas ainda assim isso não deixa de me surpreender. – Ele então fez uma breve pausa antes de finalizar seu pensamento. – Ou será que o mundo sempre foi assim e eu que não percebi por estar concentrado demais no meu objetivo?

Aquele não era, entretanto, o momento para divagar em pensamentos desnecessários. Fechando os olhos, Banemare pôs-se a imaginar qual seria o curso de ação mais adequado. Originalmente, havia ordenado aos demônios que se espalhassem pelo reino e fizessem o maior número possível de vítimas. Havia uma razão importante para isso, mas o momento inevitável de enfrentar as forças da resistência chesordiana se aproximava rapidamente.

—Devo assumir que Predher será derrotado. Subestimar a Ordem da Rosa Branca é um erro que eu não posso me dar ao luxo de cometer, mas se ele for esperto talvez consiga distraí-los um pouco.

—Quais são suas ordens então, mestre? – Grasnou o pássaro empoleirado no topo de uma estante de livros.

—Infelizmente, o mundo ainda não está corrompido o suficiente. O medo, o desespero e a morte que nós causamos neste reino não bastam para que eu posso convocar a verdadeira força de Pravus.

O olhar do mago se desviou na direção das anotações que havia deixado sobre uma mesa próxima. Runas, símbolos e várias páginas de texto se abarrotavam em cima do móvel, fruto de horas incansáveis de pesquisa voltada para um único objetivo: trazer trevas ainda mais profundas para Realia.

—Precisamos garantir nosso domínio sobre Chesord de uma vez por todas, o que significa que é necessário destruir esses focos de resistência.

Deixando de lado sua xícara de chá, o homem se levantou, caminhando devagar na direção de um extenso mapa do reino pendurado numa parede. Corvame bateu suas asas e pousou numa cadeira próxima para observar de perto também. Dois pontos estavam marcados no mapa, um deles representando a posição do forte Brokefront e o outro a do esconderijo de Madame Papillon.

—Tenho uma missão importante para você, Corvame. Primeiro, você deve ordenar que os demônios nas proximidades de Brokefront evitem se aproximar do forte. Eles devem apenas reagir caso os soldados tentem avançar para outras áreas. Vamos deixar que eles se sintam seguros por enquanto.

—Então é a Ordem que vamos aniquilar primeiro? – Perguntou a ave com sua voz estridente.

—Precisamente. Sua segunda missão será ordenar que os demônios que foram para o norte se reúnam aqui na capital. Quando isto acontecer, estaremos prontos para lançar nosso ataque derradeiro.

—Assim será feito.

Sem tempo a perder, Corvame saiu pela janela, voando a toda velocidade na direção do sul. Ainda pensativo, Banemare caminhou em direção à sacada do quarto que agora usava como escritório, observando a cena que se desenrolava logo abaixo. Uma dúzia de demônios empilhava cadáveres diante da entrada do palácio enquanto outros mais avançavam pelas ruas, carregando corpos consigo.

—O mundo ainda não está corrompido o suficiente, é verdade, mas o massacre que os demônios espalharam desde o início da invasão vai me conceder a força necessária para esmagar essa débil resistência.

O rosto do homem se contorceu num sorriso diabólico.

Na manhã seguinte, Ent acordou mais cedo do que o normal. Tinha motivos de sobra para se preocupar, mas não era de seu feitio sentir-se tão inquieto. Embora fosse difícil ter uma noção das horas naquele esconderijo sempre iluminado pelas mesmas chamas azuladas, ele tinha certeza de que ainda demoraria um tempo antes que os demais começassem a despertar.

Se quisesse, poderia ir até o salão onde as bruxas se reuniam para fazer as refeições a fim de consultar o relógio mágico no teto, mas não havia necessidade disso. Seu próprio corpo lhe dizia que o descanso havia sido breve. Apesar da fadiga, ele sabia que tentar voltar a dormir não lhe traria conforto nenhum. Ao invés disso, resolveu adiantar sua rotina matinal de exercícios físicos.

Uma hora depois, os outros membros da Ordem encontraram o controlador de plantas já esperando por eles no refeitório. O teto acima do grupo, além de mostrar as horas como um relógio analógico, também revelava o céu nublado acima do esconderijo. Era, sem dúvida, uma prova da imensa perícia mágica daquelas bruxas, capaz de deixar até mesmo a Rosa Branca admirada.

A conversa do grupo foi breve, envolvendo principalmente os preparativos para as missões que deveriam ser iniciadas ainda no mesmo dia. Passadas mais duas horas, a maioria dos integrantes deixava o refúgio enquanto Ent e Vulcano, que ficariam para garantir a segurança do lugar, lhes desejavam boa sorte.

Sentindo-se cansado, o velho decidiu tomar um banho. As pequenas câmaras encantadas criadas pelas bruxas com essa finalidade eram mais um motivo para admirar seu talento. Bastava entrar em uma delas para ativar o feitiço, criando uma espécie de chuva concentrada no interior.

Assim que a água quente começou a cair sobre sua cabeça, Ent se perdeu nos próprios pensamentos. Lembrou-se de Luna Watlear, sua filha, e do quanto tentou convencer Danielle Datch a não dar a ela esse sobrenome. A mãe, porém, se mostrou irredutível. Talvez estivesse tentando dizer, com isso, que o controlador de plantas era mais do que apenas um guerreiro da Ordem da Rosa Branca. Se de fato era esse seu desejo, ele infelizmente não se realizaria.

Não que Ent se arrependesse de sua escolha de deixar a garota aos cuidados do templo. A desconfiança que sentiu na época agora havia se tornado certeza: se tivesse mantido uma relação próxima com Luna, ela também poderia ter se tornado uma das muitas vítimas de Vladmir Banemare.

No fim das contas, ele escolheu enterrar seu nome junto com a mulher que amava e viver o resto de seus dias em nome da Rosa Branca. Contudo, os encontros que teve com Luna e Annemarie não o deixavam fugir do fato de que ele era Peter Watlear e que tinha um dever para com as duas.

Embora ainda não fosse um assunto crítico, chegaria o momento em que a questão da sucessão do trono viria à tona. Mesmo que não fosse mais o líder, Ent era respeitado pela Ordem da Rosa Branca que, por sua vez, seria um fator decisivo nessa questão. Quem quer que a Ordem apoiasse como herdeiro legítimo provavelmente gozaria do apoio da população.

Com a recusa de Madame Papillon em receber a coroa, o futuro do reino dependeria das escolhas de Samantha e Luna. Mesmo que não sobrevivesse para saber qual delas viria a sentar no trono, Ent via como sua responsabilidade tomar todas as providências possíveis para garantir que a questão fosse resolvida de forma justa.

Levar isso ao conhecimento dos demais era uma de suas prioridades, mas por hora isso teria de esperar. Já havia sido decidido que Electron, Aurora, Sol e Spectra partiriam numa expedição em direção ao norte, a fim de explorar regiões inóspitas em busca de sobreviventes. Além disso, Elbio já vinha manifestando há um tempo sua intenção de visitar o esconderijo de Madame Ancara e ajudar as bruxas de lá a fugir de Chesord.

Como essa seria uma missão perigosa, Inferno concordou em auxiliar, levando consigo também Carbon, Viper e Scythe. O paradeiro dos membros faltantes, Vortex e Quartzo, permanecia um mistério. Ent, que sempre tivera dúvidas quanto às reais intenções destes dois, não conseguia evitar um pressentimento ruim, como se algo lhe dissesse que eles ainda voltariam para causar problemas.

Quarenta minutos se passaram. Vulcano, visivelmente agitado, abriu sem cerimônia a porta da biblioteca e lá encontrou Ent sentado, folheando tranquilamente um livro de capa azul cujo título lia Guia dos Monstros.

—Aí está você! – Disse o jovem, deixando a urgência de lado em favor da curiosidade que surgia daquela cena inusitada. – Desde quando se interessa por leitura, Ent? Achei que só quisesse saber de treinar.

—Eu já tinha lido duas vezes cada um dos livros da biblioteca do palácio real quando você ainda engatinhava, Thomas. – Peter retrucou sem desviar os olhos. – Aqui tem uns tomos bem interessantes. Eu estou lendo agora sobre as enguias de rabo torto. Sabia que quando são atacadas, elas conseguem gerar uma temperatura capaz de fazer a água ao redor delas entrar em ebulição?

—Não, e isso não vem ao caso agora. Temos um problema, Ent! As defesas do esconderijo captaram sinais intensos de uso de energia elemental nas proximidades. Não temos certeza, mas eu e Madame Papillon achamos que alguém pode estar enfrentando um demônio.

O olhar tranquilo do velho deu lugar à expressão feroz de um guerreiro enquanto ele jogava seu livro sobre uma mesa próxima. Sem perder um momento sequer, agarrou o braço de Vulcano e o arrastou junto consigo.

—Onde as manipulações foram detectadas?

—A sudoeste, e eu sei caminhar sem ajuda!

Um estrondo próximo indicava aos dois membros da Rosa Branca que estavam perto do seu objetivo. Apressando o passo, eles subitamente se viram no limiar de uma clareira que antes não existia. No meio dos troncos arrebentados e das árvores caídas estava um demônio três vezes maior que o próprio Ent, cuja aparência remetia a um tigre monstruoso de pelagem cinzenta e negra, andando sobre as patas traseiras e curvado de tal forma que a cabeça descia até a altura do peito.

—Mais insetos vieram morrer? Melhor assim, eu já estava começando a ficar entediado. – Os olhos de pura malícia da aberração reluziram enquanto ela lambia os beiços. Sem desviar a atenção do inimigo, os manipuladores rapidamente correram os olhos ao redor, notando a presença de uma jovem coberta de ferimentos no outro lado da clareira. Era uma garota familiar.

—Mas aquela é a--! – Exclamou Ent.

—Karin!! – Completou Vulcano.

—Então vocês conhecem essa fracote? É melhor me entreterem mais do que ela, senão vou acabar tendo que estripar todos que estão naquele esconderijo para não morrer de tédio.

O simples fato de estarem perto do demônio já permitia que eles sentissem sua força assustadora. Era, sem dúvida, superior à daqueles que estavam acostumados a enfrentar. Vulcano, principalmente, sabia que um inimigo forte o bastante para deixar Karin naquele estado não era alguém que um membro da Rosa Branca sozinho pudesse dar conta. Antes que tivesse a chance de dizer qualquer coisa a respeito, contudo, uma voz chamou a atenção de todos.

—Quem você está chamando de fracote...?

Depois de vacilar por um instante, a garota se colocou em pé, limpando a sujeira do rosto e cuspindo o sangue de sua boca. Mesmo que estivesse enfrentando um monstro terrível, ela não se mostrava nem um pouco abalada.

—Vocês aí. – Disse ela, apontando para os guerreiros da ordem. – Se vieram até aqui significa que o esconderijo da Madame Papillon fica por perto, né? Eu me lembro mais ou menos do lugar, mas acho que me perdi.

—S-Sim, ele fica aqui perto. – Respondeu Ent, pasmo com aquela situação toda.

—Ótimo! – A manipuladora da luz exclamou, apertando os próprios punhos. – Sem chance que eu vou desistir agora que cheguei tão perto. Pode se preparar, bicho feio, porque você vai fugir miando daqui!

Notas finais
Predher mostra sua força capaz de superar a de um guerreiro da Rosa Branca. Capítulo 251: Predador Imortal. Em breve.