Roses and Demons: Hell's Flower
4 Determinação Abalada
“Venha, meu amigo, vamos colocar um final nessa luta!”
Fernand arregalou os olhos e depois piscou algumas vezes, sendo chamado de volta à realidade pela voz de seu superior.–Sargento Astrock, você está me ouvindo? Lince Walters estava com uma expressão severa no rosto, o que fez com que Fernand engolisse em seco. O sargento até pensou em balbuciar alguma desculpa para sua falta de atenção, mas preferiu permanecer calado. Sabia muito bem que, na situação em que se encontrava, nenhuma mentira soaria convincente.–Escute, sargento. Eu sei que você passou por provações muito difíceis nestes últimos meses e esteve perto de morrer mais de uma vez, mas não podemos nos dar ao luxo de baixar a guarda ainda. Eu preciso que você supervisione o treinamento dos soldados aqui, e não que finja que está fazendo isso! Fernand Astrock assentiu com a cabeça. Ele era um rapaz de pele morena e cabelos espetados de uma tonalidade laranjada que se aproximava mais do vermelho. Alto para sua idade, tinha também olhos amendoados e vestia uma armadura que contrastava com a do capitão Walters, pois era bastante simples e não possuía nenhum tipo de enfeite ou brasão, exceto pelas bordas avermelhadas e um círculo verde no centro do peitoral. A proteção não cobria o corpo todo, deixando as partes superiores dos braços e das pernas expostas, revelando as roupas escuras que usava. Fernand era um manipulador da terra, mas circunstâncias recentes o levaram a despertar uma manipulação secundária. Ele também tinha a capacidade de controlar uma substância rochosa extremamente resistente chamada adamante, inclusive alterando o próprio solo ao seu redor. Contudo, tão logo quanto deixasse de se concentrar na manipulação, a rocha e a terra recuperavam suas propriedades originais. Mais recentemente ainda ele recebera uma promoção do Capitão Walters e do Major Froz, os comandantes das forças empericianas em Brokefront. Apesar disso, sua inabilidade em impedir a partida do melhor amigo, William Storde, levantava dúvidas na mente do rapaz quanto à sua aptidão para exercer o posto de sargento.–Capitão, já tivemos notícias do rei? Ele concordou em enviar mais tropas? – Deixando suas inquietações de lado por um momento, Fernand deteve Lince antes que ele fosse embora.–O melhor que conseguimos foi um destacamento de cinco mil homens. Pelo que soube, o rei está tentando convencer nossos vizinhos a ajudar no confronto, mas com tantas rixas que tivemos no passado com eles, vai ser difícil explicar que estamos diante de uma ameaça que pode significar a perdição de todos.–Eu imagino. Peço desculpas pelo desleixe, capitão. Já vi que todos nós vamos ter que nos esforçar ao máximo se quisermos ter alguma chance de segurar a fúria dos demônios por tempo suficiente. – Disse Fernand com uma expressão mais firme.–Conto com você, sargento. O manipulador da terra observou enquanto seu superior seguia em direção ao forte. Uma vez que seria impossível manter os soldados de ambas as nações dentro do quartel, foi decidido que a construção serviria como base de operações e um acampamento conjunto foi arrumado às pressas ao redor. No limiar das inúmeras tendas, Ent, o controlador de plantas, ergueu uma rígida muralha de madeira, algo que tomou dele vários dias, mas garantiu algum tipo de proteção contra ataques dos demônios. Fernand, que se encontrava a sudeste do forte, estava incumbido de supervisionar o treinamento de soldados empericianos. Tão logo quanto voltou seu olhar para os homens que praticavam golpes e defesas, seus pensamentos começaram a divagar novamente. Mais uma vez se viu perdido em memórias recentes dos conflitos contra os defensores de Chesord e da fatídica batalha que travou contra seu melhor amigo para convencê-lo a ficar e ajudar a combater as forças de Pravus. O manipulador da terra, que sempre demonstrou lealdade inquestionável a seu reino, sentia que havia falhado por não ser capaz de evitar a partida de alguém que poderia ser muito bem o guerreiro mais poderoso de seu antigo grupo. Porém, ele subitamente se deu conta de que, mais uma vez, estava sendo desleixado com o dever e balançou várias vezes a cabeça, buscando se concentrar na tarefa a que havia sido incumbido. Mais tarde, quando a noite já estava prestes a cair, o portão sul foi aberto às pressas para permitir a chegada de um homem exausto que trajava uma armadura facilmente reconhecível como de origem empericiana. Fernand, que naquele momento aproveitava uma breve folga, vagou sem rumo, imerso novamente em seus pensamentos, mas estes foram deixados de lado assim que percebeu a perturbação.–O que está acontecendo aqui? Quem é esse homem? – O sargento questionou.–S-Sou um mensageiro do tenente Dimus. – O soldado arfava. Estava exausto, mas precisava passar sua mensagem com urgência. – Demônios, no corredor uivante... não conseguimos passar... fui enviado para pedir ajuda... Ele então apoiou os braços no chão, incapaz de dizer qualquer outra coisa mas já era o suficiente. Fernand entendeu a gravidade da situação e rapidamente deu ordens para aqueles ao seu redor.
–Levem ele para um lugar onde possa descansar e providenciem água e comida! Espalhem a notícia de que os homens devem estar de prontidão para uma missão não prevista! Eu levarei a mensagem até Walters e Froz! Walters demonstrou uma expressão tão grave quanto a do próprio manipulador da terra quanto soube da situação. Eles haviam se encontrado por acaso num dos corredores da fortificação e, assim que soube da novidade, o capitão ordenou que Fernand o seguisse enquanto corriam em direção ao portão. Não havia tempo a perder.–Isso é péssimo. Se os demônios dominarem as regiões a sul do forte não só perderemos qualquer rota segura para o envio de suprimentos ou soldados, como também seremos atacados por todos os lados. – Sentenciou Lince.–Eu já avisei para os nossos homens que deveriam se preparar para a eventualidade de partirmos de imediato.–Fez bem. Precisamos montar e preparar uma força de resgate imediatamente para ter condições de sair ao amanhecer. Mas antes vamos falar mais um pouco com aquele mensageiro. Preciso saber com quantos inimigos estamos lidando. Somente tarde da noite, quando os preparativos já estavam concluídos, foi que Lince e Fernand puderam descansar e fazer uma refeição. Sentaram-se juntos, ao redor de uma fogueira que crepitava com chamas fracas, enquanto os poucos homens que ainda caminhavam ao redor se preparavam para descansar.–Dez mil? Será que é o suficiente, capitão? – Perguntou o sargento, referindo-se à quantidade de homens que liderariam na missão de resgate.–Terá que ser. Eu não me atrevo a levar uma força maior, pois há muitos outros problemas com que o major Froz e o general Pyrath terão que lidar em nossa ausência.–Entendo. Houve um longo momento de silêncio enquanto ambos se limitaram a mastigar e observar o fogo que morria devagar. Então, Lince tomou a palavra novamente, desta vez com uma voz mais amistosa.–A propósito, Fernand, não foi culpa sua. Na verdade devemos muito a você.–Do que está falando, capitão? – O manipulador da terra se mostrou honestamente confuso.–Foi graças a você que conseguimos usar a força de William a nosso favor. Do jeito que o trataram por tanto tempo, como se fosse apenas uma ferramenta descartável, não me admira que ele tenha escolhido desertar. Eu mesmo jamais acreditaria na causa empericiana na situação dele.–Você acha que fizeram a coisa certa? Forçando William a ser um instrumento de guerra? – A formalidade desaparecia, naquele momento ambos conversavam como amigos, não como militares.–É claro que não, Fernand. Na verdade não concordo com muita coisa que o exército e o governo fazem, mas, ainda assim, nós temos coisas importantes para proteger, por isso estamos aqui lutando e arriscando nossas vidas.–É verdade, e William não tinha nada disso, não é mesmo?–Eu não creio que isso seja totalmente verdade. Lince foi interrompido pela chegada de uma garota. Fernand a reconheceu de imediato e exclamou.–Luna!–Eu fiquei sabendo que você esteve reunindo soldados para partir numa missão importante amanhã. – A voz dela trazia um tom de irritação.–Sim, é verdade. Precisamos salvar uma tropa que foi enviada pelo rei Secrett. – Explicou Fernand, levemente receoso.–E quanto é que você pretendia me chamar para participar? Não houve discussão. No dia seguinte, quando a tropa reunida por Lince Walters se preparou para partir, Luna Watlear se encontrava no meio dela.
Notas finais
Aqueles que fraquejam diante dos demônios só encontram a morte.
Capítulo 235: Não Seja em Vão
Em breve.
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