A criatura demoníaca se aproximou devagar, com passos desengonçados. De perto era ainda mais repugnante e suas feições femininas quase se perdiam em meio à aparência grotesca. O forte odor que ela exalava fazia Esther sentir vontade de cobrir o próprio nariz, mas a bruxa suportou, determinada a não demonstrar fraqueza, especialmente diante do inimigo que a havia chamado de bruxa patética.

—Olha só para você. – Disse o demônio, rindo com gosto. – Nem ao menos serve para virar sacrifício! Estou praticamente lhe fazendo um favor tirando sua vida!

—O que fez com as minhas irmãs? – Retrucou Esther, de tridente em riste.

—Viu só? É disto que eu estou falando! – Depois de mais uma gargalhada, o demônio recuperou a compostura. – Mas tudo bem, se faz tanta questão assim, vou explicar o que está acontecendo. Se eu fizer isso de um jeito simples, quem sabe assim entra na sua cabecinha oca.

Era a primeira vez que a bruxa se aborrecia tanto com alguém, mas se o preço para obter algumas respostas era apenas aguentar o seu orgulho ferido, então ela pagaria sem pensar duas vezes. Até saber o que desejava, deixaria o monstro continuar acreditando na sua superioridade incontestável.

—Meu nome é Dementia. Caso ainda não tenho ficado claro, sou um demônio e sirvo à senhora do terceiro domínio infernal, Cassandra. O humano que abriu os portões do inferno, Vladmir Banemare, sabia que eventualmente as bruxas de Empericia voltariam para ajudar na guerra e implorou pela minha ajuda.

Dementia recitou o nome do mago das trevas com ódio profundo marcado em cada sílaba. Assim como os demais demônios, ela jamais admitiria que um mortal pudesse lhe dar ordens, mesmo não tendo outra escolha naquele momento senão obedecer.

—Há muito tempo atrás eu fui uma bruxa, sabia? – O demônio continuou. – Não uma piada como você, claro, mas uma bruxa de verdade, muito poderosa.

Esther apertou com mais força o cabo de seu tridente, mas permaneceu calada.

—Graças aos meus poderes de demônio, sou capaz de usar uma magia que supera a imaginação de meros humanos. Eu a chamo de Delírio Arcano, e o seu poder é prender a mente de pessoas com afinidade mágica em um transe do qual jamais podem acordar por conta própria.

—Incrível como você gosta de tagarelar. Mas preciso lhe agradecer por explicar tudo isso, acho que agora entendi. – Disse a garota, finalmente.

—Então deve ter compreendido a razão de ser uma bruxa patética, certo? Se o meu poder não a afeta, só pode existir uma explicação: você não tem talento para usar magia. Não serve para ser bruxa!

Cansada daquela conversa, Dementia aglomerou rapidamente energias malignas em sua mão esquerda e disparou uma esfera roxa na direção de Esther. Contudo, o ataque se dissipou no instante em que entrou em contato com a lâmina do tridente. O demônio não poderia estar mais surpreso com aquilo.

—É verdade que não sou uma bruxa tradicional, mas está se enganando se pensa que minha magia é fraca! – Afirmou Esther, pronta para revidar.

—Não acredito. O que você fez?

—Deixe eu lhe dar uma demonstração mais clara. Quem sabe assim entra na sua cabecinha oca.

A bruxa bateu com o cabo do tridente do chão, liberando desta forma uma imensa onda mágica cujo poder Dementia sentiu na pele. Enquanto via suas vítimas caindo de joelhos, uma a uma, livres da influência do Delírio Arcano, o monstro começou a compreender do que se tratava a Ordem Natural.

—Uma magia capaz de anular outras magias? Mas que interessante! – Ela abriu um enorme sorriso, parecendo estranhamente satisfeita. – Tudo bem, admito que errei. Você será um ótimo sacrifício!

Enquanto se recuperavam, as demais bruxas logo notaram a presença estranha em seu meio. Explicações eram desnecessárias para entender que estavam diante de um demônio, e foi Anya a primeira a confrontar a ameaça.

—O que está acontecendo aqui?

—Esse demônio chamado Dementia tentou nos emboscar, mas eu consegui anular o seu poder de controle mental. – Explicou Esther.

—Fez um ótimo trabalho. – Anya mostrou um sorriso de orgulho para sua pupila, mas apenas por um instante. Sua expressão se tornou séria novamente e seus olhos se cravaram no inimigo. – Agora essa aberração vai se arrepender da escolha que fez.

A líder correu adiante, assumindo sua postura de combate. Essa atitude foi imitada por várias das bruxas ao redor de Dementia, formando um ataque combinado vindo de várias direções. O demônio observou tudo aquilo com uma expressão completamente despreocupada e precisou apenas balançar um de seus braços para derrubar todas que tentavam lhe atacar, sem sequer precisar tocá-las.

—Não pode ser, eu estou neutralizando todos os poderes mágicos aqui. Como conseguiu fazer isso? – Exclamou Esther, transtornada.

—Quanta ingenuidade, menina! Você achou mesmo que meus poderes se resumiam à magia? Minha natureza demoníaca me concede habilidades mais que suficientes para acabar com um mortal.

—Mesmo assim, por mais que você seja forte, ainda está em completa desvantagem. Se enfrentar todas nós, quem vai perder a vida é você. – Disse Anya, já em pé.

—Ah, você tem certeza disso?

A mestra não se abalou com o sorriso perturbador e desdenhoso de Dementia. Os movimentos desta última, rápidos demais para a maioria das bruxas, não conseguiam enganar os olhos da líder delas. Contudo, mesmo tendo enxergado toda a trajetória do ataque, ao tentar responder seu corpo simplesmente não obedeceu a tempo. Assolada por golpes brutais, Anya foi socorrida por algumas de suas subordinadas, mas em pouco tempo todas foram ao chão, incapazes de causar um único ferimento no demônio.

—O que está acontecendo...? Meu corpo está pesado. – Reclamou Erika, uma das bruxas sobrepujadas.

—Isso é o que acontece quando se usa uma magia sem saber até que ponto seus efeitos podem chegar. – Comentou Dementia, pacientemente.

—Está querendo dizer que a culpa é minha? – Questionou Esther.

—Correto. Por favor, pelo menos uma de vocês deve entender o que está acontecendo neste exato momento. Posso até dar uma dica: tem a ver com o fato de que a magia do Delírio Arcano se mistura à magia do alvo.

Seguiu-se um momento de silêncio, quebrado pela experiente Anya.

—Não resta dúvida de que a Ordem Natural suprimiu tanto a técnica desse demônio como nossa habilidade de usar magia. Mas eu não consigo entender por que também está enfraquecendo nossos corpos quando deveria reverter tudo ao estado original.

—Você ainda tem muito a aprender, e é por isso que a beleza desta ironia lhe escapa. Antes de me aproximar, eu vi claramente como o poder mágico fluía através de seus corpos, e a julgar pelas armas que carregam, posso concluir que são acostumadas a lutar combinando capacidade física e poder mágico.

A explicação vaga de pouco adiantou para ajudar as bruxas a entender. Com um semblante de decepção, Dementia foi direto ao ponto.

—Resumindo, a magia dessa garotinha forçosamente desregulou o equilíbrio incomum entre seus corpos e almas. O efeito colateral de bloquear uma magia tão poderosa quanto o Delírio Arcano é tornar o fluxo de energia irregular, o que é especialmente problemático no caso de bruxas como vocês.

—Miserável! Isso significa que de um jeito ou de outro não temos condições de lutar?! – Praguejou Erika.

Expressões de preocupação e temor se espalharam entre as bruxas desesperançadas. Para Dementia aquela era uma cena tão linda que merecia ser brindada com uma gargalhada.

—Ora, não façam essas caras de enterro. É impossível para um ser humano entender o potencial que a magia possui para alterar as próprias bases da realidade, e muito menos como é forte a sua ligação com a alma. Esse tipo de coisa só se aprende depois de milênios de prática.

—Se o problema é a minha magia, então basta eu acabar com você, certo? – Esther se posicionou a meio metro de distância do demônio, encarando-o sem o menor temor. A responsabilidade pela segurança de suas irmãs se tornava pesada em seus ombros. – A Ordem Natural não me afeta!

Dementia realmente não esperava que a garota ainda pudesse demonstrar tanta fibra. Na sua visão, a ideia de que um ser humano pudesse enfrentar um demônio nascia da ignorância dos mortais a respeito dos filhos de Pravus. Aparentemente, Esther ainda precisava ser educada sobre isso.

Com ataques impossivelmente ágeis e precisos para seu corpo desajeitado, ela colocou sua adversária na defensiva. Acuada, a bruxa tentava revidar, mas nenhum de seus golpes funcionava. O desgaste de enfrentar alguém claramente superior no quesito físico, somado ao esforço de manter suas irmãs a salvo do Delírio Arcano, minava as energias rápido demais. Por fim, Esther também caiu, agarrando desesperadamente seu tridente para mantê-lo próximo ao corpo enquanto Dementia pisava em sua cabeça.

—É inadmissível um ser humano pensar que pode vencer um demônio no mano a mano. Mesmo aqui em Realia, estes corpos provisórios são moldados pelo nosso poder e replicam uma força física e agilidade semelhantes ao que teríamos em Pravus. Não existe a menor chance de você me derrotar.

Inesperadamente, o monstro foi lançado ao alto por um impulso poderosíssimo, arrancando um suspiro de espanto da jovem. Ao seu lado estava Gabrielle, acompanhando com os olhos a trajetória de Dementia, até que ela finalmente retornou ao solo com um estrondo.

—Pare de falar como se estivesse passando um sermão! Juro por Argenta que nunca vi ninguém tão irritante quanto você! – Bradou a irmã do alquimista.

—Gabrielle...? – Murmurou a bruxa caída.

—Levanta, Esther. Vou ajudar você a dar uma surra nessa velha metida a sabichona!

Notas finais
O poder dos demônios é realmente terrível. Capítulo 244: Medo de Morrer Em breve.