Notas iniciais
Como minha agenda tem se tornado apertada com os projetos que venho desenvolvendo, infelizmente terei de diminuir um pouco a prioridade de Roses and Demons. Pretendo atualizar a históra uma vez por mês, pelo menos por enquanto.

Com a ajuda de sua amiga, Esther Chaneel rapidamente se colocou em pé. Segurava com firmeza o tridente encantado, pois sabia que se arma fosse tomada de suas mãos não poderia mais manter a Ordem Natural ativa, colocando todas as suas irmãs em perigo novamente. Não bastasse isso, agora também tinha um novo motivo para se preocupar: a intromissão da outra bruxa.

—Gabrielle, é arriscado demais lutar contra esse demônio sem usar seus poderes. Deixa que eu me viro.

Mas a destemida garota rebateu o pedido sem um pingo de hesitação.

—Ei, você está me subestimando, Esther? Ou será que bateu a cabeça e esqueceu que minha verdadeira força não vem da magia?

Chaneel ponderou por um momento. Envolvida pela apreensão, realmente havia negligenciado o quanto a manipulação incomum de Gabrielle D’Illusie a tornava uma adversária formidável. Dementia, porém, não pretendia dar a elas tempo para discutir a situação e se levantou, visivelmente enfurecida.

—É verdade, eu não vou conseguir usar minha magia no seu campo de Ordem Natural. – Continuou a bruxa mais jovem. – Mas não faz mal, posso controlar meu poder elemental sem problema nenhum.

—Já vi que você não vai mudar de ideia. Já que insiste, vamos derrotá-la juntas então!

—Vocês duas estão me deixando com vontade de vomitar. – Reclamou a criatura demoníaca. – Fazem ideia de quantas irmãs eu matei para chegar no nível em que estou agora?

—O que quer dizer com isso? – Questionou Esther, um tanto perturbada.

—É uma vergonha vocês não conseguirem fazer nada sozinhas. Eu me recuso a ser derrotada por um banda de menininhas tão ridículas!

Dementia liberou seu poder como uma onda de choque cada vez mais forte, ameaçando arremessar as bruxas pelo ar apenas com a pressão do vento. Esther tentava se manter firme apoiando o cabo do tridente no chão, mas sentia que seria sobrepujada a qualquer instante. Contudo, uma mão segurou seu pulso com firmeza e o corpo da jovem imediatamente recuperou a estabilidade. Aliviada, ela olhou para o lado e viu Gabrielle sorrindo gentilmente. Graças à manipulação elemental da bruxa mais jovem, ambas suportaram a fúria do demônio, até que este finalmente se cansou e decidiu partir para um confronto direto.

—Criatura irritante! – Dementia encurtou a distância entre ela e suas inimigas num piscar de olhos, desferindo um soco no rosto de Gabrielle sem que a garota tivesse tempo sequer de tentar se defender. Ainda assim, foi o rosto da agressora que se contorceu numa careta de dor. Esfregando o braço ferido com a mão, ela cambaleou para trás. – Maldição! Que tipo de poder é esse?

—Agora, é a nossa chance! – Gritou D’Illusie.

As duas bruxas contornaram a adversária, desferindo golpes pelos flancos, mas suas armas não a atingiram. Depois de recuar com um salto, Dementia rapidamente recuperou a compostura antes de se lançar adiante, iniciando uma violenta troca de golpes. A despeito da fúria que sentia, ela mantinha uma postura defensiva, apenas aguardando o momento certo enquanto abusava de sua agilidade para evitar ser ferida Quando Esther abriu a guarda por um mísero instante, o demônio sabia que essa era a chance pela qual esperava e a atingiu com um chute brutal, impulsionando a bruxa para trás com o impacto do golpe.

Gabrielle buscou retaliação atacando com seu martelo, esperando assim pegar a inimiga de surpresa. Mas quando esta se abaixou, deixando que a arma passasse assoviando acima de sua cabeça, foi a garota quem se viu surpreendida. Desprovida de reação, D’Illusie não conseguiu se defender do golpe seguinte e rodopiou pelo ar após ser atingida pela explosão de uma esfera mágica, retornando ao chão com o corpo cheio de ferimentos.

A ironia era tal que a feiticeira corrompida tinha de exercer um pouco de autocontrole para não cair no riso. Os poderes de anular magia e tornar golpes físicos inúteis se complementavam muito bem, mas enquanto estivessem divididos entre duas jovens com apenas um ínfimo de sua experiência, Dementia não enxergava o menor risco de ser derrotada.

Ela não contava, todavia, que a tenacidade dessas mesmas jovens pudesse compensar a falta de vivência.

—Ainda não morreu? – Dementia se admirou ao constatar que Gabrielle continuava respirando. – Minhas magias diretas são ainda mais perigosas que o Delírio Arcano, sabia? Elas transformam o poder mágico do alvo em energia nociva e destroem o corpo de dentro para fora. No mínimo a Ordem Natural reduziu o efeito e acabou salvando sua vida.

Aproveitando o momento de distração, Esther atacou, mas sua expressão se tornou pálida e vacilante quando o demônio, sem nem ao menos virar o rosto, ergueu a mão esquerda e agarrou o cabo. Em seguida ele puxou a arma num movimento circular, arrastando junto a bruxa que se recusava a soltar. O impacto de suas costas contra o solo a fez gritar de dor.

—Droga, eu não aguento ficar só assistindo! Tem que haver algum jeito de ajudar! – Disse Erika, apertando os próprios punhos de raiva.

—Acalme-se e tenha um pouco de fé nas suas irmãs. – Ponderou Anya. – Mesmo Gabrielle, que não se enfraqueceu tanto com a magia de Esther, está tendo dificuldades. Nós só seríamos um estorvo para elas.

—Mas mestra...!

Alheia às conversas ao redor, Dementia apreciava a imagem de sua adversária caída e coberta de sujeira, mantendo um esforço desesperado para não largar o tridente. Se antes havia sido tomada por uma ira fervente, agora quase sentia uma pontada de pena. Porém, isso estava longe de levá-la a ser misericordiosa. Mesmo que não fosse sua missão acabar com todas as bruxas ali, ainda assim faria isso pela simples satisfação de vê-las afundar no desalento. Com uma expressão de absoluta frieza e indiferença, ela largou o cabo que ainda segurava e propôs uma pergunta a Esther.

—Parece que é o fim da linha para você, menininha. Diga-me, por acaso você tem medo da morte?

—Eu... – Tomada de incertezas, a jovem vacilou.

—Eu tive uma ideia interessante, sabe? – Um sorriso diabólico de pura crueldade decorou os lábios grotescos de Dementia. – Se você cancelar agora sua Ordem Natural e matar pessoalmente todas as suas irmãs, eu deixarei que viva.

Esther estava tão horrorizada com a proposta que nem ao menos conseguiu responder. Diante do silêncio dela, o demônio elaborou seu argumento.

—No fim das contas, estou praticamente lhe fazendo um favor. Quando perceber que a verdadeira força só pode ser alcançada se estiver disposta a sacrificar até mesmo as pessoas que confiam em você, vai me agradecer.

—Eu prefiro ter minha alma destruída do que fazer isso! – Movida pela repulsa, a bruxa improvisou um ataque direcionando sua lâmina para o alto, mas bastou Dementia chutar o cabo da arma para detê-la. Em seguida, colocou o pé sobre o braço de Esther para garantir que ela não pudesse reagir ao receber o golpe de misericórdia.

—Que comovente, mas eu vou levar a sua alma comigo e entregar de presente para Cassandra!

Magia sinistra começou a se juntar na palma das mãos da feiticeira corrompida, anunciando o ataque inevitavelmente fatal. Mas antes de sua execução se consumar, a jovem bruxa viu um martelo cruzar os ares e atingir seu algoz na cabeça, derrubando-o.

—Acaba com ela! – Gritou Gabrielle.

O simples ato de se levantar exigiu um esforço enorme. Esther começava a tomar noção do desgaste que era manter a Ordem Natural ativa depois de tanto tempo. Mas mesmo estando exausta e com suas reservas de energia praticamente esgotadas, ela precisava forçar seus limites uma última vez. Ignorando os protestos de seu corpo, ela atravessou o peito da inimiga com as lâminas do tridente, mas tudo que arrancou de Dementia foi uma gargalhada.

—Vai ter que fazer muito melhor que isso se quiser matar um demônio. Até admito que é uma garota talentosa, mas simplesmente já não tem mais condições de continuar lutando. E no momento em que sua energia acabar, eu vou matar suas irmãs uma por uma antes de dar um jeito em você.

—Não vou deixar que encoste mais um dedo sequer nelas, mesmo que tenha de me sacrificar para isso! Eu vou destruí-la, Dementia!

Esther gritou com toda a força de seus pulmões e uma imensa descarta mágica atravessou o tridente como um relâmpago prateado. O sorriso no rosto da feiticeira corrompida se desmanchou enquanto uma sensação estranha tomava conta do seu ser.

—Eu não sou mais uma garotinha assustada! Quando a morte vier me buscar, vou encará-la nos olhos!

O corpo do demônio começou a se tornar distorcido, desfocado, voltando ao normal por alguns instantes apenas para deformar outra vez. O ciclo se repetia e a cada momento o contraste aumentava.

—Sua pirralha convencida! Acha mesmo que vou perder para alguém que nem ao menos sabe o que é magia de verdade?!

—A única convencida é você. Aqui não é seu lugar, desapareça deste mundo, Dementia!

Ao atingir o ápice da distorção, a forma física do demônio entrou em colapso e se tornou uma espiral desintegrando a partir do centro. As bruxas sentiam seus corpos voltando ao normal conforme o Delírio Arcano era desfeito e, aliviadas, perceberam que já não restava mais traço da existência do inimigo.

—Mestra, o que foi que aconteceu? – Perguntou Erika.

—Eu arriscaria dizer que Esther alcançou um novo estágio com sua Ordem Natural. – A sábia mulher respondeu com um toque de admiração.

Com o fim da batalha, Esther desabou sobre os próprios joelhos, finalmente deixando escapar sua arma mágica. Continuou a observar o lugar onde sua adversária desapareceu, convencida de que definitivamente a havia apagado de Realia.

—Eu consegui...

Muito além do ponto de exaustão depois de buscar forças até na própria reserva de energia vital, ela foi de encontro ao solo enquanto sua visão de tornava negra e a consciência se esvaía. Ainda assim, mesmo tendo castigo corpo e alma sem a menor piedade, a jovem tinha satisfação estampada em seu rosto.

Notas finais
As bruxas alcançaram o forte, mas se deparam com um problema que somente uma delas pode ser capaz de resolver. Capítulo 245: A Morte Paira Sobre Brokefront Em breve.