Roses and Demons: Hell's Flower
35 De Volta, Após Tanto Tempo
Notas iniciais
Honestamente, eu não lembro quanto tempo faz desde que publiquei o capítulo 264, então imagino que seja uma surpresa que eu tenha voltado a escrever essa história. Obviamente não era meu objetivo tê-la deixado parada por tanto tempo, mas infelizmente a vida exigiu algumas coisas de mim e tive que me afastar de várias atividades, inclusive do meu trabalho, para fazer um tratamento.
Seja como for, eu tenho toda a intenção de concluir Roses and Demons, embora ainda não saiba exatamente quanto tempo isso ainda possa demorar. Como estarei voltando a trabalhar em breve e ainda não sei como vai ficar minha rotina, talvez só consiga publicar uns 2 capítulos por mês. Talvez menos. Mas continuarei escrevendo, e, com sorte, espero eventualmente poder manter um ritmo mais condizente.
No mais, é bom estar de volta.
Apesar do que havia dito, Carbon ergueu Elbio sobre suas costas assim que começaram a descer a encosta do monte Ogmin. A trilha que conduzia ao sopé por vezes se tornava estreita e perigosa, e o guerreiro da Rosa Branca temia que um passo em falso pudesse resultar em um atalho doloroso para seu aliado. Assim, não havia alternativa senão descer com calma e cautela.
—Elbio, me diz uma coisa. – Depois de algum tempo de descida quase silenciosa, Carbon finalmente decidiu dizer algo. – Você já ouviu falar da lenda do dragão Starvon?—A lenda de Starvon, o faminto. É claro que eu conheço. – Elbio não entregava muito em sua resposta, senão um leve toque de curiosidade. – Por quê?—Ah, me desculpe. É que como você vivia com as bruxas eu não sabia se você conhecia a lenda ou não.—As bruxas viviam isoladas, mas sempre guardaram muito conhecimento. Sem contar que eu cuidava de uma biblioteca, então é normal que eu conheça essas histórias antigas. – O rapaz explicava aquilo com paciência. Conseguia entender que para uma pessoa normal as bruxas provavelmente deveriam parecer esquisitonas esotéricas, desinteressadas com o que acontece no mundo ao redor delas. – Mas o que isso tem a ver?—Bom, se você conhece a lenda, então deve saber que Starvon ressuscitou vinte anos atrás, não é?—Para dizer a verdade eu ouvi falar que ele ressurgiu sim e que causou uma grande catástrofe, mas não sei muito a respeito disso. Nessa época eu ainda nem tinha nascido.—Starvon reviveu em pleno bosque Sinelth e matou o Scythe daquela época, o antecessor da nossa Scythe. Depois disso, a maioria dos membros da Rosa Branca foi convocada para enfrentá-lo e quase todos morreram, incluindo o líder. Aliás, um dos poucos sobreviventes daquela batalha foi o Ent, que acabou tendo que assumir o comando do que sobrou da ordem.—Carbon... – Elbio começava a entender aquela linha de raciocínio. – Há vinte anos, a batalha final contra Starvon também foi no bosque Sinelth?—Exatamente. No coração de Sinelth, um dracolagarto deixou escapar um derradeiro guincho enquanto suas veias dilatavam, enegrecidas. Seu corpo se contorcia de formas que a criatura não deveria ser capaz, e aos poucos se tornava mais e mais esquelético, ao passo em que a carne apodrecia em ritmo acelerado. Quando a transformação por fim cessou, um ser humanoide se colocou em pé. Era alto, completamente escurecido e incrivelmente magérrimo, como se não houvesse carne entre seus ossos e a pele deteriorada.—“Ainda me sinto um tanto instável, mas parece que essas bestas são compatíveis o suficiente para sustentar minha existência...” Embora sua preocupação imediata estivesse solucionada, não era alívio que a aberração sentia em seu âmago. Era algo completamente diferente, que fazia sua alma arder furiosa.—“Humanos nojentos, nunca pensei que me fariam passar por tamanha humilhação. Ter que depender de um corpo patético como esse...” Mesmo dar um passo exigia grande esforço. Ainda que o corpo roubado de uma fera pudesse conceder uma casca física para a essência maligna habitar, aquilo não passava de uma medida temporária. Lutar, principalmente, estava fora de questão.—“Pagarão em dobro por cada momento de vergonha que passei. Mas primeiro, preciso encontrar uma maneira de recuperar minhas forças...” – Agora que a urgência de sua situação havia passado, sentia como o próprio ar ao redor parecia estar carregado de maldade, e não se tratava apenas de sua influência. Podia enxergar no próprio céu o sinal de que havia algo muito diferente com o mundo mortal desde a última vez que o vira. – “E eu sei exatamente como farei isso.” Scythe ainda estava longe do bosque, tendo diminuído seu ritmo de uma corrida para um passo apressado. Queria chegar logo ao seu antigo lar, mas não completamente exausta. Ainda assim, apesar da distância que ainda os separava, pôde sentir como uma onda invisível de pura energia sinistra atravessava seu corpo, deixando-a completamente arrepiada. Não podia ter dúvidas de que era o mesmo tipo de aura que permeava o bosque que fora incumbida de vigiar, a aura a que se acostumou após tanto tempo, mas tal intensidade fazia sentir-se completamente assomada pelo medo.—“Eu não estou gostando nada disso... O que está acontecendo lá no bosque?” Starvon, o faminto. Por décadas, esse dragão poderosíssimo aterrorizou Chesord sem que ninguém pudesse fazer nada a respeito, até que um grupo de valentes heróis finalmente surgiu e o derrotou em uma épica batalha. Ao menos, era isso que a fábula contava. Elbio a ouviu quando era criança, mas não seria a última vez que escutaria a lenda do dragão faminto, vencido há mais de um milênio. Sim, ele conhecia a lenda de Starvon muito bem, melhor do que Carbon lhe dava crédito.—Eu acho que você pode estar certo. – Disse Elbio para o controlador da fumaça. – É possível que a presença que a Scythe sentiu vinda do bosque seja de Starvon.
—Maldição... – Este praguejou baixo ao ter suas suspeitas apoiadas.—Escuta, Carbon. – Elbio continuou, seu raciocínio seguia fixo numa conclusão. – Quando a ordem lutou contra Starvon vinte anos atrás, como foi que ela o derrotou?—Hã... – O homem hesitou, um tanto confuso. – Eu nunca perguntei os detalhes, mas... pelo que me lembro, eles simplesmente mataram o dragão. Será que isso significa que não tem nada a ver com o Starvon, então?—Não, eu tenho quase certeza de que isso tem a ver com ele, mas não da forma que você está pensando. O guerreiro da Rosa Branca não pôde evitar de parar em plena trilha, virando o rosto para trás, mesmo que não pudesse enxergar muito bem o de Elbio.—Como assim?—O que eu estou querendo dizer é que a ordem destruiu o corpo físico de Starvon, então provavelmente o que atraiu a atenção de Scythe agora foi a alma dele.—A... alma?—Sim. O demônio que eu enfrentei dentro do esconderijo, o tal de Arloc, parecia se alimentar de magia. Pode ser até que ele tenha destruído o selo que prendia a alma do Starvon. Só que uma alma sem corpo, ou com um corpo frágil, não consegue fazer muita coisa em Realia. Starvon deve estar muito enfraquecido, então com certeza a Scythe deve ser capaz de dar um fim nele.—Como você sabe disso?! – Carbon estava genuinamente estupefato com aquilo tudo.—Eu sei porque madame Ancara me contou. Ela... – Uma pontada de angústia interrompeu Elbio por um breve instante. – Ela me contou que há pouco mais de mil anos atrás, quando Starvon foi vencido pela primeira vez, as pessoas daquela época não conseguiram matá-lo. Ao invés disso, as bruxas criaram um feitiço para selar o dragão.—Foi por isso que ele acabou ressurgindo depois de tanto tempo? Porque ele não estava morto?—Sim, mas não tinha outra solução. Seria impossível manter um monstro tão poderoso preso para sempre. Carbon já sentia Elbio pesando em seus braços novamente e o apoiou melhor sobre suas costas, retomando a cautelosa descida através da trilha. Seus ouvidos, contudo, estavam atentos somente à história que o rapaz continuava a contar.—Só que as bruxas não queriam simplesmente deixar esse problema para outra geração, afinal elas viram do que Starvon era capaz. Por isso, quando o selo do feitiço enfraqueceu, somente o corpo dele foi libertado, mas a alma continuou presa. O Starvon que reviveu vinte anos atrás era apenas uma casca movida pelo instinto de combate, e essa casca a ordem já destruiu.—Eu entendo... – O controlador da fumaça continuava a se surpreender com o extenso conhecimento de seu companheiro. Considerava-se um homem instruído, mas não pôde evitar de se sentir um tanto ignorante após escutar o relato de Elbio. – É impressionante que as bruxas tenham conseguido guardar essa história por tanto tempo, ainda mais sendo perseguidas durante séculos.—A madame Ancara também me contou que o clã dela originalmente vivia nessa região e protegia o povo dos monstros do bosque Sinelth. Quando as bruxas tiveram que se esconder, elas criaram o esconderijo aqui no monte Ogmin. Depois disso vocês tiveram que colocar um membro da ordem no bosque porque a região ficou muito perigosa, não foi? De fato, Elbio tinha razão, e mais uma vez Carbon sentia sua ignorância frustrá-lo. Nunca havia se dado ao trabalho de pesquisar como as populações próximas a Sinelth lidavam com os monstros nativos antes que existisse um Scythe para contê-los. Nunca sentiu a necessidade de fazê-lo. Mas o que realmente enchia seu peito de raiva era saber que, diferente dos outros membros da Rosa Branca, ele tivera ampla oportunidade de aprender mais sobre Chesord e descobrir detalhes que seus colegas não seriam capazes de perceber. Se tivesse mantido seu orgulho à época, ao invés de escolher tornar-se um peão fiel de Vladmir Banemare, talvez agora não se sentisse tão limitado. Talvez ele também tivesse algum conhecimento importante para usar contra o mago e seus lacaios, ao invés de ser apenas mais um guerreiro nas linhas de frente.—Sim, é verdade. Desde que a Rosa Branca foi fundada, sempre foi função dos Scythe impedir que os monstros daqui ameaçassem as vilas próximas. – O homem respondeu, finalmente. Havia conseguido juntar as peças em sua mente, mas desejava que tivesse sido capaz de fazê-lo mais cedo. – Eu tenho um péssimo pressentimento a respeito disso tudo... Em Sinelth, o demônio alto e magricela já não parecia mais um saco de ossos prestes a desabar. Suas mãos e pés agora possuíam garras robustas e afiadas. Em suas costas se abriam duas asas finas, mas fortes o suficiente para sustentar seu peso. E também, dois chifres ameaçadores, projetados para a frente, haviam crescido em sua cabeça. Mesmo assim, seu corpo permanecia franzino. Por mais que sua transformação houvesse lhe devolvido muita liberdade de movimento, ele estava longe de se ver satisfeito.—“Apenas dois míseros demônios desgarrados. Pensei que teria mais sorte, mas os outros devem estar se reunindo em algum lugar. Que seja, por enquanto vou ter que me virar apenas com isso.” Quando Scythe finalmente alcançou o limiar do bosque, o dia já estava anoitecendo. Apesar de sua pressa inicial, acabou por fazer a maior parte do trajeto caminhando. Ciente que em breve estaria no escuro, ela tratou de arrancar alguns galhos de árvore e fazer uma chama, valendo-se de seus anos de experiência vivendo sozinha naquele local. Usando um dos galhos como tocha improvisada e levando os demais consigo, ela finalmente embrenhou-se em direção ao fundo da floresta. Conforme caminhava entre as árvores familiares, podia sentir o quanto a atmosfera do bosque havia mudado. Se antes ela causava uma ligeira inquietação e desconforto, agora havia se tornado completamente opressora. Era muito pior do que a garota imaginava, e apenas confirmava sua suspeita de que algo muito errado havia acontecido com o lugar que fora incumbida de proteger. Estar de volta, depois de todo aquele tempo, não trouxe a sensação de alívio que esperava que fosse sentir. Contudo, sabia exatamente em qual direção seguir. Podia sentir que a presença maligna que a perturbava tanto estava no centro do bosque, e era para lá que seguia. Sabrina eventualmente perdeu a noção do tempo, mas sabia que estava se aproximando de seu objetivo. Quando o som de seus passos finalmente alertou o demônio de que teria uma visita, este se voltou, curioso, enquanto a garota se desvencilhava dos galhos que cobriam seu caminho.—Ora, será que mais um demônio atendeu ao meu chamado? Porém, o tom de interesse se perdeu no mesmo instante, ao que ele constatou que não se tratava disso.—Uma humana...? Se não veio oferecer seu corpo para mim, não tenho o menor interesse em você, criatura patética.—M-Meu... corpo?! – Scythe imediatamente congelou no lugar, constrangida.—Foi o que eu pensei... – Continuou o demônio. – Bom, já que se deu ao trabalho de vir até aqui, ao menos posso aplacar um pouco a minha fome devorando sua carne.—Eu não sei o que você pensa que está fazendo, mas esse bosque é a minha casa, e eu não gostei nem um pouco de você ter invadido ele. – Afirmou Sabrina, já recuperada do choque inicial. – Vai se arrepender de ter vindo onde não foi chamado! A foice da controladora da morte surgiu em sua mão esquerda. Não havia razão para conversar com um demônio, a luta era inevitável. Contudo, antes que fizesse seu primeiro movimento, a garota espantou-se com a gargalhada de seu inimigo.—Invadir? O seu bosque? Vocês humanos são mesmo ridículos. É difícil saber quanto tempo passou quando se está num estado de consciência suspensa, mas só de olhar para essa floresta posso dizer que já foram alguns séculos desde que fui preso neste lugar. Se alguém está invadindo a casa de alguém aqui, menininha, é você. Scythe queria dar uma resposta, mas não conseguia sequer ensaiar algo que fizesse sentido em sua mente. No fim, foi capaz apenas de colocar para fora duas perguntas. —Como assim...? Quem é você?
Notas finais
Sua identidade é o dragão lendário que aterrorizou o reino mil anos atrás, mas para Sabrina, ele é...
Capítulo 266 - O Inimigo dos Scythe
Provavelmente deve sair em maio.
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