Notas iniciais
Então né, eu tinha prometido o capítulo para maio. Infelizmente, tive dificuldades para me adequar a uma nova realidade no trabalho e meu tratamento resultou em crises de insônia que só foram se resolver agora em agosto. Pretendo manter uma rotina mais estável e menos espaçada de publicação, mas não posso garantir um calendário para o lançamento dos próximos capítulos ainda. Lamento pelo período turbulento, mas quero pelo menos publicar o 267 em menos tempo do que levei para publicar o 266. Espero que gostem.

Dessa vez era Scythe que havia deixado o demônio sem reação. Seu rosto apodrecido contorceu-se minimamente, algo que a garota não tinha como perceber de onde estava. Irritava-o que ela desconhecesse seu nome. Enfurecia-o pensar que alguém que chamava aquele bosque de lar pudesse ser tão ignorante quanto à ameaça que lá foi selada, aguardando ansiosamente o dia em que poderia se ver livre. Sua incredulidade manifestou-se numa única pergunta.

—Humana... por acaso você é retardada?

—Retar... como assim retardada?! – Sentir vergonha diante de um demônio era algo que Scythe nunca imaginou possível de acontecer. Contudo, a verdade é que temia que pudesse ter sido negligente em seus estudos. Será que Inferno havia comentado algo a respeito daquela criatura, mas não prestou atenção? Ou talvez houvesse alguma informação importante nos livros que recebeu de Vortex, mas depois de tanto tempo havia esquecido? Aflita, não conseguia evitar que seus pensamentos viessem à tona. – Droga, eu não faço a mínima ideia do que você está falando! Você é o Starvon, por acaso? Não, Starvon era um dragão gigante e você parece mais um palito voador com garras.

O rosto do demônio se contorceu ainda mais diante daquele comentário.

—Eu não sei, tá legal? Você aparece do nada dizendo que eu é que sou a invasora... eu passei anos vigiando esse bosque e nunca ouvi falar de um bicho esquisito que nem você!

—Vigiando...? – Fazia sentido que os humanos mantivessem uma vigília constante sobre Sinelth, mas se era esse o caso, pela lógica aquela garota deveria saber exatamente com quem estava lidando. Alguma coisa ali não se encaixava. – O que diabos você esteve vigiando esse tempo todo, sua imbecil?

—Os monstros que vivem aqui, é claro! E não me chama de imbecil, você que é imbecil. Se acha o dono do lugar e nem sabe que esse é um dos bosques mais perigosos do reino...

Monstros. Reles monstros. Esse era o motivo dos humanos vigiarem o bosque. O demônio quase poderia gargalhar diante do absurdo daquela situação. Quase, se não estivesse se sentindo absolutamente ultrajado. Fervendo de ódio, ele deu alguns passos adiante, seus pés disformes enterrando-se no solo a cada pisada, levando Scythe a recuar instintivamente.

—E por acaso, humana, você tem noção do motivo que fez este lugar se tornar tão perigoso? Está olhando para ele!

—Fala logo de uma vez! – A garota precisou fazer um esforço consciente para que sua voz não saísse vacilante. – Quem é você?

—Eu sou Starvon, o faminto. Fui selado aqui pela sua raça repugnante, mas agora estou livre novamente.

—Starvon? Mas isso não faz sentido! Starvon foi destruído vinte anos atrás pela Ordem!

—Então foi isso que aconteceu com o meu corpo original? Que lamentável. – Starvon baixou a cabeça, e Scythe podia jurar que ouviu um suspiro decepcionado. – Mas isso é só um contratempo. Posso sentir a presença de outros demônios neste mundo. Quando eu encontrá-los, vou recuperar meu antigo poder num instante.

Sabrina ainda tinha muitas dúvidas a respeito da criatura diante de si, mas compreendia o mais importante. Tratava-se de uma ameaça mais perigosa do que antes imaginava, e que precisava ser neutralizada o mais rápido possível. Nada que qualquer um dos dois dissesse agora mudaria este fato.

Obedecendo ao comando da manipuladora, uma barra vertical de osso saltou do chão ao seu lado. Uma bandeja havia se formado junto à estrutura, onde Scythe imediatamente depositou a tocha improvisada que levava em sua mão direita. Fibras ósseas menores continuaram a crescer, criando então uma gaiola ao redor da chama. Era uma imitação de poste para lampiões, inspirada pelos que a garota havia visto nas cidades em que esteve com Viper.

Contudo, ela ainda não estava satisfeita. Puxou um dos gravetos que ainda tinha consigo e o fez passar por entre as frestas da gaiola, acedendo-o também. Em seguida, uma segunda barra brotou agora à sua esquerda, prontamente improvisada em outro poste de iluminação. Por fim, empunhou sua foice com ambas as mãos, dando um passo à frente. Estava pronta para lutar.

—Até que é um truque interessante. – Comentou Starvon, embora não parecesse de fato impressionado. – Mas confesso que já vi humanos fazendo truques melhores.

—Não se preocupe, eu posso fazer bem mais do que isso.

Scythe não gostava da ideia de liberar o poder máximo de sua aura nociva em Sinelth. Mais que uma preocupação com os riscos a que estaria exposta, ela preferia não causar mal ao bosque enquanto lutava. Entretanto, não era algo que podia se dar ao luxo de evitar naquela situação. O inimigo que estava enfrentando era perigoso demais para ser subestimado, e havia ao menos certo consolo na certeza de que qualquer animal que por acaso ainda estivesse nas redondezas logo perceberia o perigo que era aproximar-se dos dois maiores predadores do lugar. Sem dúvida, sua melhor estratégia seria começar o confronto já com força total.

Ainda assim, quem se espantou foi a própria Scythe ao ver a total falta de reação de Starvon, mesmo sendo engolido pela aura a curta distância. Este olhou desinteressado para os lados, esperando algo acontecer, até que por fim compreendeu a situação.

—Era só isso mesmo? Eu sinceramente não consigo entender vocês, humanos. Fazem todo um drama e no fim das contas não acontece nada. Nunca sei se isso é o que vocês chamam de humor ou se só são fracos demais mesmo.

Sabrina não teve tempo de processar o medo que começava a invadi-la naquele momento. Seu inimigo, cansado de esperar, deu como único aviso de seu ataque uma leve contração das asas. Quando a garota se deu conta, as garras afiadas do monstro já estavam perigosamente perto demais.

Elbio já havia se recuperado o suficiente para conseguir caminhar por conta própria, um alívio para as costas de Carbon. Contudo, a situação ainda precária do rapaz os impedia de avançar em um ritmo mais acelerado. Estavam quase alcançando o bosque, e mesmo daquela distância Vincent podia sentir claramente a aura sinistra e ameaçadora que dele emanava. Não somente isso, mesmo nunca tendo ido pessoalmente até Sinelth, seus instintos gritavam que aquela não era uma presença normal. Havia algo de muito errado ali.

—Você está preocupado com a Scythe, não está? – Não era apenas Carbon, Elbio também sentia arrepios só de chegar perto daquele lugar.

—Sim... – Foi tudo que o homem conseguiu responder.

—Escuta, eu acho que não é uma boa ideia eu entrar lá nesse estado. Provavelmente o melhor seria você ir lá buscar a sua amiga enquanto eu espero vocês na orla do bosque.

—Tem certeza?

—Tá brincando? Eu tenho muito mais chances de sobreviver aqui do que lá dentro! Vai logo, se precisar eu já consigo usar os meus poderes.

Carbon fitou seu companheiro por um momento, os rostos de ambos iluminados pela chama que ardia logo acima da palma aberta do manipulador. Não estava exatamente convencido de que ele seria capaz de lidar sozinho com algum inimigo que viesse a aparecer, mas concordava que levá-lo bosque adentro provavelmente seria ainda mais perigoso. Agora que tinham ido tão longe, qualquer decisão que tomasse seria uma aposta.

—Tudo bem. Tente não chamar muito a atenção.

—Pode deixar. Vou ser discreto e sorrateiro como um gato.

Sem perder mais tempo, o manipulador disparou em direção a Sinelth, enquanto Elbio continuava seguindo com seu ritmo vagaroso, agora sozinho no escuro.

—Ah é... eu esqueci de pedir para ele deixar uma luz comigo.

Espinhos de osso irromperam velozes do chão, mas incapazes de acompanhar os movimentos ágeis de Starvon. Scythe mantinha seus olhos fixos no inimigo, a dor aguda em sua perna sendo evidência suficiente de que havia sido marcada outra vez pelas garras afiadas do demônio. Pelas suas contas, já era o terceiro golpe que recebia.

Segurou a foice em suas mãos com mais força, tentando controlar a respiração. Era difícil. Starvon havia apenas atacado com golpes físicos até aquele momento, e mesmo assim já se mostrava um inimigo extremamente perigoso. Além disso, não aparentava sinal algum de desgaste em seus movimentos precisos, mesmo sob efeito constante da aura da manipuladora. Já não havia espaço para dúvidas, seu poder, tão útil em batalhas anteriores, apenas serviria para enfraquecer a si mesma naquele momento.

Com a aura dissipada, Sabrina sabia que tinha apenas um meio de vencer: através de sua própria perícia em combate. Era isso que a preocupava. Dentre os membros da Rosa Branca, talvez fosse a menos habilidosa nesse critério. Todas as vezes em que lutou contra oponentes capazes de lidar com sua principal habilidade, falhou em derrotá-los. Mesmo sua luta contra Samantha poderia ser considerada, na melhor das hipóteses, um empate. Diante de um adversário ainda mais opressor que a bruxa, era impossível não duvidar de sua capacidade de vencê-lo.

Infelizmente, fugir também não era uma opção.

Starvon retomou seu ataque, desviando com facilidade do golpe de foice dado em sua direção. Elevado por suas asas, o demônio caiu atrás de Scythe e chutou as costas da garota, antes mesmo que ela pudesse pensar em reagir. Desarmada e caída, ela ergueu desesperadamente uma muralha de espinhos ao seu redor, conseguindo um momento para se recompor. No centro da proteção improvisada, tinha ao menos a chance de pensar em alguma estratégia. Qualquer estratégia que pudesse lhe ajudar a vencer. Em vão.

O som ruidoso de seu adversário enchendo o peito de ar interrompeu seus pensamentos, e no momento seguindo os ossos à sua frente explodiram em milhares de fragmentos. Chamas arroxeadas queimavam as bordas do buraco feito pelo ataque e a grama ao redor enquanto Sabrina, assustada e atordoada, tentava assimilar o que havia acontecido. Vendo-se cara a cara com Starvon, foi tomada pelo pânico e se afastou, desmanchando a proteção atrás de si. Tentava ganhar distância, a cada passo lançando lâminas de trevas com sua foice, trazida de volta pelo poder de seu bracelete. O demônio, entretanto, nem sequer se dava ao trabalho de desviar, contentando-se em destruir os projéteis com suas garras.

A manipuladora então cravou a foice no chão. Sequer estava raciocinando naquele momento, atacava por puro instinto de defesa. Por esse mesmo motivo, deu tudo de si. Lanças de osso surgiram do solo, disparadas uma após a outra em rápida sucessão. Eram numerosas demais para que o demônio pudesse bloquear, forçando-o a se erguer no ar com um longo salto. Mais e mais lanças surgiram, acompanhando sua trajetória, mas incapazes de impedi-lo de revidar. Uma única labareda cuspida de sua boca atingiu o chão atrás de Scythe e explodiu em chamas roxas, derrubando a garota e pondo um fim ao ataque.

Os postes de osso que ela havia criado anteriormente se desmancharam, e os galhos crepitantes que eles carregavam foram ao chão. Quando sentiu sua cabeça parar de zumbir e abriu os olhos, Sabrina viu a cena que mais temia: Starvon vitorioso, em pé à sua frente. Vitorioso? Não, jamais. Ainda não estava vencida. Mesmo com o corpo ferido e exausto, ainda era capaz de usar seus poderes elementais. Buscou dentro de si o ímpeto para continuar resistindo, mas seu esforço foi de encontro a uma pausa brusca quando percebeu que o demônio havia se agachado e levava a mão ao queixo, uma expressão de profunda curiosidade tomando suas feições monstruosas.

—Sem dúvida, você não é uma humana qualquer. Seria um desperdício ter que matá-la, por isso vou lhe dar mais uma chance. Ofereça o seu corpo para mim, e eu a pouparei de uma eternidade de sofrimento.

—Lá vem você de novo com esses papos esquisitos... se encostar em mim vai se arrepender...

Starvon estendeu um único dedo, pressionando a bochecha da garota o suficiente para perfurar a pele e escorrer algumas gotas de sangue. Seu olhar confiante era prova mais que suficiente do quanto debochava da ameaça da garota. Isto é, até afastar de súbito o dedo, deixando escapar um mínimo reclamo de dor. Levando-o para perto do rosto, surpreendeu-se ao constatar que parte da ponta havia se desmanchado.

—Você é mesmo cheia de truques, humana. Luta como uma usuária de poder elemental, mas tem a mesma energia diabólica de um demônio.

—Para de ficar inventando merda... – Ela retrucou, ofendida.

—Acha mesmo que eu estou mentindo? Depois da luta que tivemos, você também deve ter percebido o quanto seus poderes são compatíveis com os meus.

Scythe jamais se sentiu tão enojada em toda a sua vida quanto naquele momento, oferecendo uma resposta carregada com o mais profundo desprezo.

—Nunca que eu seria compatível com uma coisa igual a você!

—Mas você é. – Decretou Starvon, colocando-se em pé. – A princípio eu pensei que fosse por causa da minha influência aqui no bosque, mas tem algo a mais. Você é diferente daquelas bestas que usei para criar uma forma física provisória.

—Espera um pouco... – A manipuladora ergueu o tronco, apoiando-se em seus braços. Fitava os olhos amarelados do demônio com mais intensidade do que nunca. – Como assim, sua influência? Que história é essa?!

—Você é mesmo um caso perdido, sua ignorante. Não prestou atenção em nada do que eu disse? – Subitamente, um deixe de raiva tomou conta da atitude de Starvon. – Eu passei séculos selado neste bosque! É apenas natural que minha influência tenha se espalhado por ele! Se você entendeu, então entregue-se de uma vez, porque a minha paciência já chegou no limite!

Dito isso, o demônio puxou Sabrina do chão, agarrando-a pelo pescoço. Não foi capaz de mantê-la suspensa por muito tempo, contudo. A queimação em sua mão obrigou-o a soltá-la antes que a pele fosse completamente corroída.

—É, eu entendi sim. – Disse ela numa voz amarga. – Eu entendi que foi culpa sua. Eu ter sido obrigada a viver longe de tudo e de todos foi culpa sua.

A arma da manipuladora retornou magicamente para suas mãos uma vez mais.

—Você é o meu inimigo. Você é o inimigo dos Scythe!

Notas finais
Em meio à batalha brutal de Scythe, uma dupla surge no bosque Sinelth. Capítulo 267: O Sorriso de um Traidor Em breve.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.