Roses and Demons: Hell's Flower
12 Céu Vermelho
A capital do reino de Chesord estava deserta. Não havia o menor sinal de movimento nas ruas cobertas de entulho e manchadas de sangue. Um único indivíduo observava a cena, apreciando o silêncio completamente inédito para uma metrópole como aquela. Sentando em uma das sacadas do castelo da família real estava o homem chamado Vladmir Banemare.
O mago se reclinava numa confortável poltrona e tinha, ao seu lado, uma pequena mesa circular de madeira, sobre a qual deixou um pires e uma xícara fumegante de chá. Ocasionalmente tomava um gole enquanto continuava a admirar o cenário desolado abaixo. Banemare vestia um longo manto branco enfeitado com linhas douradas que se espalhavam pelo torso como ramos de uma árvore. Círculos de ouro também adornavam as bordas das mangas e a cintura, seguindo os mesmos padrões. Na parte inferior o manto continuava apenas por trás, alcançando a altura dos tornozelos. As calças, também brancas, eram simples e contrastavam com os sapatos negros. O ar de nobreza se completava com seus cabelos grisalhos, curtos e impecavelmente arrumados, e pela barba bem cuidada. Outra figura se juntou a ele, saindo de dentro do quarto adjacente. Era um ser repugnante de forma humana, mas com carne podre, escorrendo um fluido verde e viscoso, à semelhança de um cadáver horrendo em decomposição. A criatura falou, usando uma voz rouca e baixa.–Você me chamou?–Sim, Morburi. Chegou a hora de deixar a diversão de lado e tomar ações mais decisivas com relação aos humanos que ainda tentam resistir às forças de Pravus.–Está se referindo aos soldados que se juntaram ao redor daquele forte? Você não pode estar realmente preocupado com um bando de ratos acuados!–Honestamente eu acredito que essa linha de pensamento por si só já é uma ofensa ao meu e ao seu intelecto. – Vladmir respondeu secamente. – Mas mesmo que eles não representem nenhuma ameaça real, é apenas uma questão de tempo até que o restante desse mundinho tedioso entenda o que realmente está acontecendo. Quando isso acontecer é imprescindível que nossa posição aqui já estava completamente segura.–E o que o faz pensar que um mero humano como você tem o direito de falar assim com um demônio? Só por achar que pode me dar ordens já mereceria perder a cabeça! O mago suspirou, num misto de impaciência e desagrado, e então se colocou em pé, encarando os olhos amarelados do monstros sem demonstrar sequer um pingo de temor.–Já estou cansado de ouvir esse discurso. Não esqueça que eu posso desconjurar você e todos os outros com um mero pensamento. O sucesso ou fracasso dessa invasão depende exclusivamente da minha vontade, e os regentes de Pravus sabem disso. Não vá dizer que se esqueceu que eles próprios decidiram me dar o comando? Morburi se contorceu, desejando responder à altura, mas teve de engolir o próprio orgulho. Sabia que se contrariasse os desígnios dos senhores infernais acabaria por sofrer tormentos piores que os das almas dos condenados.–Tudo bem, se você faz tanta questão assim, vamos resolver esse problema logo de uma vez. Pelo que entendi, estou certo em pensar que não sou o único que foi convocado. – Disse o demônio, agora em tom mais respeitoso. Satisfeito, Banemare voltou a sentar na poltrona e beber seu chá.–Sim, eu acionei outros demônios poderosos para dar um jeito em situações que podem vir a se tornar incômodas. A maior prioridade agora é isolar Chesord e destruir o que resta de suas forças de resistência. Depois, finalmente chegará a vez daqueles malditos empericianos pagarem seus pecados com sangue. Esther Chaneel não gostava da tonalidade daquele céu. Faltava pouco mais de uma hora para o meio-dia, mas apesar disso o firmamento estava tingido de rubro, como se já se encontrasse em pleno pôr-do-sol. Ela se recusava a acreditar que pudesse ser um fenômeno natural. Bastava olhar para trás, em direção ao ainda próximo reino de Empericia, para notar como o céu mudava de tom até chegar ao azul. Sem dúvidas aquilo era consequência da corrupção demoníaca que se espalhava por Chesord, o que apenas tornava seus maus pressentimentos ainda mais fortes. Esther era ruiva, de olhos verdes, e usava uma franja reta. Costumava manter seus cabelos ondulados presos num coque, mas deixou de fazê-lo logo depois de sua derrota para Spectra, poucas semanas atrás. Vestia uma faixa de tecido de cor escarlate vívida prendendo seu quimono, e outra menor, de couro, em diagonal no peito, com um encaixe nas costas para carregar seu tridente.–Você parece perturbada, Esther. Aconteceu alguma coisa? – Perguntou Gabrielle D’Illusie. Gabrielle era consideravelmente mais baixa que sua amiga. Possuía olhos azulados e cabelos negros bem mais compridos, divididos no lado direito, com a franja deslizando pelo esquerdo. Sua faixa era verde-escura e logo abaixo ela vestia um cinto para poder carregar mais facilmente seu pequeno martelo.–Eu já tive uma visão assim uma vez, sabe? Com o céu todo tingido de vermelho e uma sensação de desgraça permeando o ar. Estou preocupada com o que nos espera em Chesord dessa vez.–Se esse é o problema então só o que você precisa fazer é ficar perto de mim. Pode deixar que eu vou protegê-la de qualquer demônio que apareça! – Gabrielle sorriu, confiante.–Pare com isso! Foi horrível ver pessoas se ferindo e até morrendo para tentar me proteger durante a segunda batalha contra o exército de Chesord. Eu não me esforcei tanto treinando desde que voltamos para casa para que outras pessoas arrisquem a vida no meu lugar agora!
–Falando nisso. – A bruxa mais jovem comentou, agora um pouco mais séria. – Você já conseguiu evoluir sua Ordem Natural além do segundo estágio?–Não, e ainda estou bem longe disso. É infinitamente mais difícil do que superar o primeiro.–Eu fico me perguntando que tipo de efeito sua magia teria num demônio. O que será que acontece quando um ser que não é natural desse mundo é devolvido ao seu estado natural? Esther não havia pensado nisso, mas agora que a pergunta lhe era apresentada, percebia que nem ela mesma tinha noção do que poderia acontecer.–Bom, nós vamos descobrir logo, não é? Mas garanto que, de um jeito ou de outro, vou fazê-los pagar por pensarem que podem fazer o que bem entendem com nosso mundo.–Realmente você mudou. Nunca a vi tão ansiosa para entrar numa luta.–Já você não parece ter mudado muito Gabrielle. Mas confesso que gosto de você assim, é quase como se fosse uma... – A bruxa de cabelos ruivos parou a frase na metade. Com um sorriso gentil, ainda que permeado de um leve traço de melancolia, ela mudou de assunto. – Aliás, você nem sequer teve a oportunidade de visitar o seu irmão depois que voltamos não é? Eu vi que você também passou a maior parte do tempo treinando.–Ah, o Gabriel com certeza tem muito com o que se distrair. Acho até que é melhor assim, já que quando eu voltar dessa batalha vou ter coisas muito mais interessantes para contar a- A pausa súbita de Gabrielle deixou Esther confusa, a princípio, mas aos poucos seu rosto começou a demonstrar feições de preocupação. Sua amiga estava com os olhos nublados e a boca aberta, como se tivesse entrado num devaneio enquanto falava. Ao olhar ao redor, tentando encontrar uma irmã que pudesse ajudar, ela se deu conta de que todas as bruxas estavam igualmente atordoadas e imóveis.–Mas o que está acontecendo? Então ela ouviu passos. Cada vez mais alarmada, virou o rosto na direção do som e percebeu que uma figura se aproximava devagar. Parecia uma velha de cabelos cinzentos, sujos e oleosos, com a pele arroxeada e vestindo apenas trapos. A sensação que emanava dela não dava margem para dúvidas, tratava-se de um demônio.–Quanta consideração da parte de vocês, reunirem mais de cem adoradoras de Argenta nesse lugar. Tenho certeza de que a senhora Cassandra ficará muito contente quando eu sacrificar todas! A voz maliciosa e esganiçada fazia com que Esther sentisse calafrios, mas ela não se acovardou. Ao invés disso, deu um passo à frente e empunhou sua arma.–Isso não vai acontecer! Liberte minhas irmãs agora mesmo ou juro que mato você!–O que significa isso? – O demônio dirigiu um olhar penetrante e curioso na direção de Chaneel. Parecia até estar se divertindo com a situação inusitada. – Quer dizer que você não caiu no meu feitiço? Deve ser uma bruxa muito patética mesmo!–Do que está falando?–Muito bem, está decidido. – A criatura abriu um enorme sorriso maldoso. – A primeira que vou mandar para Pravus será você!
Notas finais
Vladmir Banemare já havia previsto que as bruxas de Empericia voltariam para ajudar na guerra, e tomou medidas para eliminar o problema.
Capítulo 243: Delírio Arcano
Em breve
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