Notas iniciais
Num raro acesso de criatividade eu escrevi dois capítulos essa semana.

Além disso, meu amigo Snowpuppet me agraciou com uma homenagem de dia de finados.

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Fernand apenas observava enquanto o Capitão Walters seguia seu rumo, garantindo que os preparativos finais para a partida fossem realizados com presteza. A breve conversa entre os dois não foi exatamente agradável, já que a situação difícil em que se encontravam era propícia a más notícias, mas o soldado da terra estava contente pela chance de se atualizar quanto aos rumos tomados por seus aliados.

Os dois concordaram que por hora seria melhor que Astrock permanecesse com o grupo de manipuladores. Lince deixara bem claro que, agora que seus batedores haviam encontrado um lugar adequado para montar uma nova base de operações, os empericianos se manteriam na defensiva, evitando ao máximo quaisquer confrontos, até que mais soldados fossem enviados.

Era hora então de direcionar a atenção para outra preocupação. Fernand traçou seu caminho até uma tenda pequena, mas repleta de pessoas. Seus colegas manipuladores estavam todos presentes, assim como Anya Wald. O motivo era William Storde, inconsciente há dois dias e sob os cuidados da mestra das bruxas durante todo esse tempo.

-Ainda nada? – Ver seu melhor amigo naquela situação lastimável era dolorido, mas ele tentava se confortar pensando que seria pior se ele ainda estivesse possuído.

-Infelizmente. Anya diz que ele ainda pode demorar para despertar, e nós não temos tempo a perder aqui. Acho que já está na hora de voltar e decidir se deixaremos William aqui ou se o levaremos conosco. – Opinou a manipuladora da água.

-Mas ele vai ficar bem. Não vai...?

A pergunta de Karin fez com que Wald finalmente deixasse seu paciente de lado por um momento para encarar os outros presentes. Via com nitidez a preocupação que sentiam, pois apesar da luta brutal, nunca deixaram de ver Storde como um amigo que precisa de auxílio. Justamente por isso não podia confortá-los com falsas esperanças.

-O corpo desse rapaz está se recuperando bem, o problema está na mente. Fiz tudo que pude, inclusive gastei o estoque que me restava de cogumelos lunares para auxiliá-lo, mas aparentemente os danos foram extremamente profundos. Não sei se um dia ele acordará, ou mesmo se voltará a ser quem era.

O silêncio foi a resposta enquanto lampejos de preocupação assolavam as mentes daqueles cinco jovens. Só de pensar no risco de ter de enfrentar William novamente, ou mesmo de não ter outra opção senão matá-lo, já se sentiam completamente desesperançados. Ironicamente, foi justo aquela que menos nutria esperanças e sentimentos de alegria que cortou o clima pesado.

-Jamais conheci alguém tão teimoso, determinado e astuto quanto ele. É apenas uma questão de tempo até que esteja de volta. Não concorda, Yasmin?

Samantha não fez o comentário por acaso. Depois de ver a reação que o manipulador do vento teve durante a luta ela estava certa de que aquele não era seu fim. E certamente aquela cuja voz conseguiu alcançá-lo concordaria.

-Sim. Até lá temos que fazer a nossa parte!

O horizonte era o mesmo em qualquer direção. Uma massa escura como o céu noturno repleto de pontos pequenos e reluzentes. Por toda a parte flutuavam rochas, algumas pequenas como uma cama, outras grandes o suficiente para que fosse construída uma mansão em cima. Ligando-as haviam diversas pontes de madeira, mas estas estavam podres e não pareciam garantir uma travessia sequer remotamente segura. Foi neste local estranho que William abriu os olhos e se levantou.

-Que lugar é esse?

Uma das pontes se partiu e despencou no abismo estrelado enquanto as rochas que antes estavam ligadas uma à outra se separavam devagar. O rapaz teve a desagradável sensação de que logo ficaria ilhado, mas não desejava cruzar algo tão perigoso. Além disso, outras preocupações igualmente terríveis o assolavam, principalmente uma pergunta muito pertinente que martelava sua cabeça.

-E quem... sou eu?

William se sentia tão vazio quanto a vastidão que se desfraldava ao redor, um amontoado de terra seca no meio do nada. Ficar parado não o ajudaria a encontrar suas respostas, portanto ele se viu obrigado a seguir em direção a algum lugar. Qualquer lugar.

Quando colocou os pés sobre uma das pontes pode ouvir um forte rangido. Seu coração batia descompassado, mas que outra escolha ele tinha? Segurando com firmeza nas cordas esverdeadas ele conseguiu cruzar a passagem quebrando apenas umas poucas tábuas pelo caminho.

A rocha em que estava parecia ser quase igual à anterior, apenas um pouco maior. Porém, havia um detalhe a mais que Storde percebeu rapidamente, um objeto cinzento no chão. Ele o recolheu e analisou: um aro de metal enferrujado com diversos pinos de metal ao redor. Era remotamente familiar e trazia sentimentos ruins à tona.

-Parece até uma coleira, não?

A voz misteriosa vez com que William largasse o objeto com o susto e se virasse rapidamente. Lá estava uma sombra disforme com o dobro de seu tamanho e dois olhos amarelados no que parecia ser a silhueta de uma cabeça.

-Você se lembra? Eles colocavam isso no seu pescoço para que não pudesse usar seus poderes fora dos ambientes de teste. Tratavam você como um animal. Não, pior do que isso, como um experimento.

Aos poucos as imagens surgiam na mente. Lembranças de uma época desagradável, tão nítidas e dolorosas que pareciam ter sido vividas no dia anterior. A única pista que ele havia encontrado até então.

-É mesmo, eu sou a arma experimental.

-Exato, e o que você busca mais do que tudo neste mundo?

-Eu busco... liberdade...

Aquele conceito esteve cravado em sua mente desde o momento em que seus pais morreram. Jamais tendo experimentado a verdadeira liberdade, William sonhou por anos em ser senhor do próprio destino.

-É isso mesmo, mas você jamais conseguirá se livrar das amarras do reino que o escravizou. Jamais deixará de ser a arma experimental porque lhe falta algo muito importante.

O rapaz caiu de joelhos, esmagado pela pressão das lembranças que inundavam sua mente. A dor era tamanha que parecia que seu coração explodiria no peito, mas ainda assim ele conseguia sentir uma certa clareza. Como se tudo fizesse sentido.

-Falta-me poder. Sem isso eu sempre serei um fantoche.

-Eu posso te ajudar. Eu sou o poder que sempre esteve dentro de você. Basta me deixar fluir como se fosse sangue em suas veias e ninguém jamais conseguirá contê-lo. Você finalmente conseguirá a liberdade que tanto quis!

A sombra estendeu seu braço, uma longa espiral de escuridão terminando em quatro dedos compridos e curvos como garras de um pássaro de rapina. A única saída para a prisão que era a vida de William. E embora ele sentisse que talvez isso fosse condená-lo de uma vez por todas, ao menos teria a oportunidade de se vingar daqueles que tomaram tudo dele. Ainda de joelhos, ele também estendeu o braço.

O movimento se deteve na metade e o manipulador do vento virou o rosto para trás. Sentia que alguém, ou algo, chamava por ele. Vinha da direção de um rochedo próximo, mas cuja ponte rangia a ponto de estourar. Sem pensar duas vezes ele se ergueu e correu, atravessando-a um instante antes do rompimento. No centro daquele amontoado flutuante havia uma espada cravada no chão. Uma arma de beleza ímpar, com um cabo decorado com a figura de um dragão.

-A memória de uma rival.

-O que está fazendo?

A sombra veio logo atrás, criticando aquela atitude. Mas William não deu bola e colocou a mão sobre aquela espada, mantendo o olhar fixo sobre a lâmina. Lá imagens eram refletidas. Memórias que não carregavam o fardo da dor e do sofrimento, mas sentimentos diferentes. Agradáveis até.

-Como pude me esquecer de quem eu sou? Ou melhor, de quem me tornei graças aos meus companheiros.

Os montes de pedra que antes se afastavam juntaram-se num instante, formando um deserto seco. No centro, onde o rapaz estava, a grama crescia rapidamente, formando uma pequena campina, e algumas árvores começavam a surgir também. Da mesma forma, a mente de William Storde, antes fragmentada, consolidava-se novamente.

-Então essa é a sua escolha? Ser um fraco sem liberdade? Depender dos outros eternamente? – Vociferou a sombra.

-Não se engane, confiar em outras pessoas não é sinal de fraqueza. Mas você está certo quando diz que preciso da sua força para conseguir a liberdade com a qual tanto sonho. Portanto, eu vou aceitar sua proposta.

Assim, eles apertaram as mãos e tudo se tornou escuro.

A escuridão deu lugar ao interior da tenda, iluminado pela claridade fraca de uma vela. William ergueu o corpo e sentou sobre a maca, reconhecendo a presença de Samantha e Yasmin. A ex-capitã foi a primeira a notar que ele estava desperto e exclamou.

-William?!

-Tive um sonho estranho, mas agora estou acordado. Aconteceu algo importante?

Antes que o manipulador do vento pudesse sequer esboçar uma reação foi abraçado pela Pyrath. Ela não conseguia colocar em palavras o alívio que sentia ao vê-lo bem, sem a agressividade no olhar ou o tom sinistro na voz.

Notas finais
A mente mais insanamente astuta de Empericia voltou. Está na hora de colocar um novo plano em ação.

Capítulo 168: Planejamento

Em breve.