Rosas, sangue e casamento.
1 Capítulo 1 - Rosas, sangue e casamento.
– Ah, meu Deus! — a velha senhora exclamara assim que o vento forte abrira uma das janelas abruptamente, o estalo da madeira contra a parede foi tão alto que se surpreenderia se os criados tivessem ouvido. — Uli, me ajude aqui, vamos!
A neve caía lá fora sem nenhum pudor, mesmo com as chamas da lareira, o frio ainda era perceptível no quarto do jovem menino, sua avó, uma lady muito cética e dura como um carvalho, sempre o convidava a passar o inverno na mansão, para dar algum sossego a pobre filha, que tinha mais três filhas para se preocupar.
Com certa dificuldade, o garoto fechara a janela, as mãos da senhora tremiam, então ele fizera todo o trabalho e, depois de acomodados novamente, ela em uma poltrona bem no meio do cômodo, perto da lareira e ele sentado no chão sobre um tapete de pele de urso, Uli fizera um pedido a avó.
– Conte-me uma das suas histórias.
– Elas não são minhas, menino, eu apenas narro o que se passou nos mínimos detalhes, sem nenhuma interferência da minha mente, nem mais nem menos. — a velha, apesar de ter a sua costumeira expressão carrancuda, abrira um sorriso discreto. — Qual delas prefere ouvir?
– A do Príncipe Traiçoeiro é minha predileta. — o garotinho sorrira, pegando um biscoito de uma bandeja que outrora uma criada havia trazido para o lanche da noite. — Quero esta.
– De novo? — ela arqueara a sobrancelha grisalha. — Toda vez que vêm me visitar me pede para contar a mesma história, não quer um conteúdo novo?
– Não, essa é a melhor de todas, independente da novidade. — Uli parecia irredutível, uma das características que talvez herdara dela, mas a senhora também era firme e não desistiria em fazê-lo mudar de ideia.
– Mas você desconhece o que eu tenho a lhe dizer, então não pode tomar uma opinião concreta. — a avó sorrira como uma raposa, muito ladina. — Quem sabe depois, possa chegar a uma conclusão?
Ele ficara intrigado com o mistério contido na voz da velha senhora e acenara para que ela proseguisse, sem mais argumentar.
– Pois bem, mas as informações não estão tão frescas em minha memória, posso ser muito sábia, mas a idade me atinge como qualquer outro ser que respire e preciso de um auxílio. — um suspiro. — Pegue o livro dentro daquela gaveta, a chave está entre os pingentes do castiçal.
O garoto estranhara, mas obedecera, apanhando a pequena chave de prata, que continha um cristal em uma das pontas e a introduzira na gaveta, que não oferecera resistência ao ser aberta, revelando um grosso livro, as páginas bem amareladas pelo tempo.
– Me dê. — ela o acomodara no colo, abandonando sua xícara de chá na mesinha ao lado e soprando a poeira acumulada na capa. — Alguém já lhe esplicou o que se passa no coração de uma mulher?
– Não. — o garoto torcera o nariz, temerozo com o rumo da conversa.
– Bom, no futuro você precisá analisar suas opções cuidadosamente ao escolher uma esposa, o arranjo certo sempre faz uma enorme diferença.
– Esta é não é uma história sobre mulheres, não é?
– E se for? Qual o problema? — a senhora apertara os lábios, ofendida. — Você quer ouvir, não quer?
Uli ponderou por um momento, para depois dizer sua reposta.
– Quero.
– Pois bem, prossigamos. — a senhora colocara seus óculos para leitura- Mas primeiro devo contar que o período em que se passa essa narrativa é tão antigo e tão diferente que você talvez não consiga entender.
– Vou me esforçar. Prometo.
– Eu sei que vai. — ela sorrira. — Há uma frase muito popular para o começo de histórias como esta, não está registrada em livros, mas é passada de geração em geração e se bem me recordo era "Era uma vez..."
– Era uma vez? Isso não parece muito lógico. -protestara ele. — Continue, por favor.
– Era uma vez uma guerra que assolava o país em que hoje vivemos, antigamente seu nome era outro, muito mais forte, como os homens que o governavam. — os olhos azuis claro passavam calmamente pelas linhas da primeira página, transbordando emoção. — E, no olho desse furacão, uma jovem crescia saudável, no auge de seus dezesseis anos.
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