Rosas, sangue e casamento.

2 Capítulo 2 - Rosas, sangue e casamento.


Gemidos de dor vinham da porta do quarto, bom, não de dor, propriamente dita, mas de um desconforto colossal, qualquer um sentiria isso se tivesse uma mulher maior do que você e muito mais pesada amarrando um espartilho na sua cintura tão apertado que quase nenhum ar chegava aos seus pulmões.

– Isso é mesmo necessário? — Sonya reclamara, segurando firmemente o dossel da cama atrás de si, as finas cortinas foram presas por delicadas fitas azul celeste assim que ela acordara.

– É mais do que necessário, com o seu porte, um bom espartilho ajuda na postura, sem falar que realça suas curvas. — a mulher parada junto a porta dava ordens a criada para que ela puxasse as cordas com mais força. — Já está bom, agora a saia preta.

– Sim, madame. — a mulher rechonchuda fizera uma messura antes de se dirigir até o guarda roupa, Olena era a mais exigente e arrogante das esposas que seu pai já tivera e a mais bonita também, sempre vestida impecavelmente, respeitando a moda da cidade com seu vestido vermelho vinho e exigia total dedicação de sua filha e enteadas com a mesma intensidade.

Sonya só não entendia o por que de sempre usar preto, não que não gostasse da cor, mas desde que era pequena suas roupas rezumiam-se em três cores, preto, branco e vermelho, apesar das outras meninas da sua idade preferirem cores claras, como rosa e afins.

– Levante o queixo. — Olena parara ao seu lado no espelho, analisando cada detalhe. — Deve usar seu cabelo para cima todo o tempo, se preferir, deixe algumas mechas caírem pelos ombros, mas nunca totalmente solto. — outra criada, dessa vez um pouco mais baixa, pegara uma escova na penteadeira e passara a arrumar os fios cheios, em todos esses dezesseis anos Sonya fora proibida de cortar o cabelo, o que dificultava muito quando tratava-se de arrumá-lo. — E quanto a maquiagem, não é preciso exagero, você naturalmente já têm uma pele perfeita. — uma pontinha de inveja pode ser detectada em meio a tanta admiração, mas Sonya gostava da madrasta, a seu modo, Olena sempre lhe ajudava.

Um bom tempo fora gasto naquele aposento e tudo isso, toda a produção, era realmente necessária, agora Sonya via, viajar para outro país sem estar devidamente apresentada poderia fazer com que ela fosse motivo de chacota em meio as damas da alta-sociedade e isso, certamente, seria imperdoável para sua família.

– Saiam. — as criadas aquiesceram, deixando-as sozinhas. — Você entende por que seu pai e eu queremos que faça isso, não entende? — a expressão de Olena contorcera-se em preocupação, o cabelo castanho estava bem preso num coque na altura do pescoço, deixando alguns fios emoldurarem o rosto fino, o nariz retilíneo dava certa delicadeza aos seus traços.

– Sim, eu entendo. — mas não entendia o fato de ser ela a lhe dizer isso, por mais que fossem próximas, uma conversa como esta deveria ser abordada por seu pai. — A situação não têm andado boa para nós ultimamente.

– Os soldados fazem o que podem, mas a guerra se aproxima de nós em grandes passos e não é inteligente deixá-las expostas a esse tipo de violência. — Olena suspirara, desajeitadamente tirara uma mecha do cabelo negro dos olhos de Sonya. — Você e suas irmãs estarão a salvo em Medley.

– Mas e a senhora? — Sonya tomara as mãos da madrasta, a preocupação estampada em seus olhos azuis.

– Se as coisas não melhorarem, me juntarei a vocês em breve, por hora, meu lugar é aqui, com seu pai. — mais um suspiro, dessa vez apaixonado ao falar de seu marido. — Você deve cuidar de suas irmãs, está me ouvindo? Me prometa que cuidará delas.

– Eu prometo. — nem um pingo de hesitação. — Mas quanto ao casamento... — um fraquejo.

– Não pense nisso, Sonya, essa não é sua prioridade por enquanto. — tranquilizara Olena. — Ocupe-se com os estudos, você, pelo que seus professores me dizem, é uma excelente aluna e seria um total desperdício não investir em sua educação.

– Está bem. — as duas se levantaram, Olena aproximara-se para um abraço, não era de seu feitio demonstrações tão aparentes de carinho, mas Sonya era especial, tinha muito amor por aquela garota, como se esta fosse sua filha. — Agora vamos, a carruagem já deve estar a sua espera.

A casa encontrava-se em total silêncio quando desceram, o que poderia ser considerado um fato inédito, aquela construção era famosa pelo ecoar dos risos das filhas do duque, no entanto agora apenas os saltos das botas de viagem faziam barulhos pelos corredores, as meninas estavam enfileiradas em frente a porta de entrada, todas com expressões desoladas.

– Minhas meninas. — um homem aproximara-se delas, seu cabelo já apresentava alguns tons de grisalho, mas continuava muito atraente, arrancando sorrisos dos rostos de cada uma, principalmente em Sonya. — Isto não é uma despedida, encaremos como um até logo.

O duque Nikolaiov poderia ser doce com suas filhas, mas era muito severo e firme quando se tratava do seu governo, não a ponto de se tornar um tirano, claro, mas também não tão flexível, dono de uma beleza sem igual, já tivera quatro esposas e cada união resultara numa criança, infelizmente todas meninas, não que não amasse suas filhas, longe disso, mas estaria mentindo se dissesse que não estava desapontado em não ter filhos homens para ensinar a cavalgar, como manejar uma espada ou usar um rifle e principalmente, assumir seu lugar quando falecesse.

– Façam boa viagem. — ele dera um beijo na testa de cada uma, sussurrando palavras de conforto quando chegara a vez de Sonya, voltando para perto da esposa em seguida. — Agora, vão.

A carruagem era grande o suficiente para que as quatro sentassem acomodadas, seus pertences estavam muito bem guardados em baús, levados por outra carrugem, que os seguia não muito atrás.

– É uma longa viagem até o porto, seria melhor que descanssacem, senhoritas. — dito isso, a pequena porta se fechara, segundos depois, os cavalos já trotavam pela estrada de terra, deixando a frente da casa.

Sonya apenas observava seu pai e a madrasta se distanciarem, acenando vez ou outra com um lenço, enquanto suas irmãs entretinham-se com jogos de cartas e tabuleiros, ela era a mais velha de todas, em seguida vinham Carmen e Luciana, respectivamente, filhas da segunda e terceira esposa e por fim, Micaela, a mais nova, filha de Olena, com dez anos.

Poderia ser estranho um duque com tantas esposas, mas corria o boato que o homem não tinha sorte para casamentos, as mulheres não duravam muito ao seu lado, fugiam encorajadas por algum romance impossível ou adoeciam devido ao ambiente novo, mas nunca porque ele as maltratava, o duque sempre fora muito cortês e nunca destratara uma mulher, se tinha uma qualidade que ele apreciasse mais que lealdade, era o respeito mútuo.

– Tenho certeza que isso será maravilhoso! — Lúcia, como gostava de ser chamada, sorria animadamente, as mãos enluvadas entrelassadas no colo. — Não acha, Sonya?

– O quê? Perdão, não estava ouvindo. — desculpara-se ela, corando.

– Estava dizendo que estou ansiosa para esta temporada começar, uma das criadas disse que o lugar para onde vamos é fabuloso nesta época do ano. — notava-se certo contraste entre as irmãs, Micaela tinha o mesmo cabelo castanho da mãe e as mesmas feições também, Luciana era ruiva e seus olhos lembravam muito o verde do mar aberto e Carmen, com sua descendência estrangeira, tinha sua pele de um tom mais escuro, cabelo e olhos castanhos. — Não me surpreenderei se todas nós voltarmos casadas no ano que vem.

Aquele comentário incomodara Sonya.

– Exceto a nossa querida Micca, mas ela pode ser prometida, não é? — rira Carmen.

– Vocês não deviam pensar somente no casamento, a Medley não é exclusivamente para isso, é uma escola, concentrem-se nos estudos. — usara o mesmo argumento que Olena, mas as meninas apenas a olhavam abismadas, com exceção de Micaela, que entretia-se com uma boneca de porcelana.

– Medley não é uma escola, francamente, Internato de Boas Maneiras para moças seria elogio. — debochara Carmen. — Na verdade seria uma sala de espera, onde os pais mandam suas filhas para aprenderem como ser boas esposas e mães, de uma forma mais ortodoxa.

– Concordo totalmente. — as duas riram juntas. — E além do mais, essa escola oferece bailes para "exibir" as candidatas a noivas como cavalos num leilão, isso é ultrajante!

– Mas é reconfortante que só solteiros ricos compareçam a esses bailes, afinal, podemos nos divertir, não é?

Conforme a paisagem mudava lá fora, Sonya percebia que já havia deixado a propriedade de seu pai e que aquela provavelmente seria uma longa viagem.

Notas finais
Oi, pessoal! Então, como estou me saindo em escrever uma história de época? Ruim? Muito ruim? Ou péssima? Me digam, por favor! Necessito de comentários urgentemente! Vamos fazer assim, vou postar o próximo assim que tiver 10 comentários. Razoável, não é? Beijinhos!!!!!