Rosalie... Sweet Rosalie

21 XIX. Fogos-Fátuos e Riley


– Já a dormir, Biers?

Que voz irritante. Forcei as pálpebras a abrirem-se. Eu não estava a dormir, estava só a descansar os olhos. "Estava". Até alguém chegar e me interromper o descanso. Eu devia era ter ficado na escola, onde ninguém me fudia a cabeça e eu podia descansar descansado. (WTF? Descansar descansado?)

– Talvez, Volturi. — Resmunguei. Aquela Jane era muito bonita mas muito irritante. Fazer o quê? Eu por mim metia-lhe uma mordaça na boca e levava-a para a cama.

Talvez seja melhor procurar outra sombra para descansar.

A alguns metros de mim estava Rosalie Cullen, a rapariga mais bonita que já vi. Junto dela: Emmet. O rapaz é enorme. Nota mental: é melhor não me aproximar dela enquanto ele estiver rondando.

Reparei em como o dia estava incrivelmente bom e em como o lugar era realmente bonito. Estava sol mas soprava uma leve brisa. Caminhei um pouco e sentei-me debaixo de um árvore. Na sua copa frondosa chilreavam os pássaros e a erva sob mim era húmida e fresca.

Sinceramente... sinto a falta disto. Do campo, onde o ar é puro, do cheiro da madeira húmida, do céu limpo, do silêncio... Odeio a cidade, sei disso agora melhor do que antes. O nariz sempre entupido da poluição, a falta de ar, o som dos carros e das pessoas a correrem apressados, o cheiro do petróleo a queimar... Aqui é tudo tão diferente... tão... bom!

Desta árvore posso ver vários campos verdes e alguns deles repletos de pequenas florzinhas amarelas.

Não posso deixar de pensar que por vezes o universo todo e todas as coisas nele conspiram para que nós, todos nós, de vez em quando tenhamos o nosso momento perfeito. Por vezes é aquele "acordar tarde num domingo", ou aquele "sentir as cobertas num inverno gelado", ou o banho quente no final do dia, ou simplesmente uma chávena de chá num final de tarde de uma primavera solarenga...

Sem dar por isso, os meus olhos fecharam-se e adormeci. O culminar do meu momento perfeito...

– Acorda! — Senti alguém empurrar-me levemente os ombros. Diferente da última vez esta voz feminina não era irritante e sim doce.

– Só mais cinco minutos nanny. — "Nanny"? Sim, eu estava acordado. Mas isso não significava que eu estava reciocinando. Abri os olhos. À minha frente, um anjo com cabelo loiro cacheado e pele branca.

– Morri e cheguei ao céu?

– Não. O mais perto que chegarias do céu depois da morte seria o inferno.

– Que belo diabinho, então. — Sorri, embaraçado. Ela sorriu-me de volta, divertida.

– Nós somos uma dupla e, aviso já, eu não suporto perder.

– Que bom, então somos dois.

A sério que eu disse isso? Porque é mentira! A verdade é que não me interessa. Não estou nem um pouco ralado para quem ganha ou perde essa estúpida "corrida de orientação". A minha intenção era inventar uma desculpa qualquer para ficar de fora ou escapulir-me na hora de começar. Mas o meu par era a Rosalie. Eu decididamente não podia perder essa oportunidade de ficar com ela sem o gorila por perto.

– Qual é a primeira etapa?

– Seguir o mapa. — Ela respondeu, entregando-me a folha.

– Só? Isso é fácil! Segue o mestre. — Brinquei, levantando-me e olhando para o mapa. O primeiro lugar era claramente a entrada da floresta. A Rosalie não sabe, mas a verdade é que eu conheço este terreno desde menino.

– Vem, é só seguir para a esquerda.

– Tens a certeza?

– Claro.

Andamos por cerca de dez minutos até a luz solar diminuir considerávelmente e o chão ficar cada vez mais húmido. À medida que adentrávamos a floresta, a vegetação tornava-se cada vez mais densa e a escuridão cada vez maior. Também estava cada vez mais frio. Só se viam árvores, rochas e erva. Felizmente havia um caminho de terra batida que devia levar ao segundo lugar: o riacho. Há excepção dele, não havia casas, vegetação, cursos de água, linhas eléctricas ou outros caminhos por perto. É como roubar um chupa a uma criança. Que caminho fácil! Não havia nada para confundir. Eu até me atreveria a pensar que era uma armadilha por ser fácil demais... mas vindo daquela escola patética... aff! Parei para olhar. Retirei a bússula do bolso. Do lado oeste via-se o cume de um monte, a sul uma árvore entre duas rochas e a este um cruzamento de caminhos. Apontei mentalmente e continuei.

– De certeza que não te enganaste no caminho?

– Absoluta, loira. Agora é só seguirmos em frente e virar à esquerda perto do riacho.

– Ainda falta muito?

– Cerca de meia-hora de caminhada.

– Aff, que seca.

Quando estávamos perto do riacho começamos a ouvir gemidos e os típicos sons de beijos, Enfim... alguém descobriu este lugar antes de nós. E eu que achei que era o lugar certo para me agarrar com a Cullen. Andamos mais alguns passos e eu nem pude acreditar no que os meus olhos viam. Rosalie parou, estática.

– Ele é meu namorado! — Berrou, retirando ninguém mais, ninguém menos que Jane Volturi de cima de Emmet e encostando-a a uma árvore. Então Rosalie namora o gorila... Interessante. Mas eles não eram irmãos?

Aproximei-me das duas, tentando ser o menino bonito que as ia separar. Não que eu não gostasse de lutas. Gostava. Ainda mais de gatinhas...

Cheguei a tempo de ouvir Jane sussurrar:

– Então não sabes?

– O quê? — Perguntou Rosalie confusa.

– Eu e o Emmet estamos juntos. Ele deve ter tido pena de te contar.

– O QUÊ? CALA A BOCA, SUA VADIA!

As coisas tinham ido definitivamente longe demais. Eu tinha de intervir e acalmar os ânimos.

– Olha, Rosie, tu és linda! E se o Emmet não consegue ver isso, ele é que perde!

Nesse momento Rosalie virou-se para mim com um olhar demoníaco. Soube nesse momento que a presa deixara de ser Jane e passara a ser eu.

– Cala-te e beija-me!

E dito isto puxou-me de encontro a si e beijou-me. Foi bom. Não, foi muito bom. A boca dela sabia muito bem e os movimentos harmoniosos da sua língua e lábios tornavam o beijo ainda melhor. Mas eu sabia que era tudo para provocar o gorila. Ela estava tendo a sua vingança.

– Que novidade é esta? — Gritou Emmet interrompendo o beijo.

– Nenhuma... É tão antiga como tu e a Jane.

Ela disse mesmo o que eu acho que disse? Desde quando é que Rosalie possui uma língua tão afiada?

– Eu amo-te! Aquele beijo não significou nada! Não há nada entre nós. — Respondeu Emmet, afastando-a de mim e tentando agarrá-la.

– Não me obrigues a passar por tudo isto outra vez. Não aguentaria. — Ela disse com a voz baixa, chorosa e lamuriante. Depois disso correu para o interior da floresta. Mas não pelo caminho de antes. Correu pelo meio das árvores até desaparecer de vista. Conheço bem a sensação. A cabeça prestes a explodir. Começar a correr sem sequer pensar o acto e só parar quando se tem a razão de volta.

Entretanto a noite caiu. Sabia que ela estava perdida e que Emmet não a ia encontrar em circunstância alguma. Eu era a sua única esperança.

Pensei no que faria se me perdesse numa floresta. Mas aquela não era uma floresta qualquer. Era "a" floresta.

Flash Back ON

Tinha saído daquele lugar e corrido pelo que pareceu uma eternidade. Não queria estar ali. Só queria voltar para casa. Estava assustado e perdido. E não havia nada por perto. Só a noite escura como breu. Foi quando comecei a ver as pequenas luzinhas.

Flash Back OFF

Sabia exactamente onde ela deveria estar. No lugar para onde eu fui, seis anos antes, depois de me ter perdido naquela floresta pela primeira vez. O cemitério abandonado. Corri até lá e encontrei-a sentada numa campa a olhar as pequenas chamas azuis.

– É lindo, não é? — Perguntei-lhe, aproximando-me.

– Sim... — Respondeu embevecida sem desviar o olhar.

– São fogos-fátuos. Estão aqui devido à fosforescência natural dos sais de cálcio dos ossos dos corpos enterrados.

– Como sabias que estava aqui?

– Estudei aqui perto há muito tempo. Gostava de vir aqui à noite. Parece que temos mais em comum do que pensava.

– Isso explica como encontras-te o caminho tão facilmente. Mas, porque dizes isso? — Perguntou, arrepiando-se. Passei-lhe as mãos nos ombros e constatei que estava gelada. Abracei-a tentando aquecê-la e ela não me afastou.

– Porque parece que ambos primamos a companhia dos mortos.

– Tentei ir embora... — Explicou. — Mas eles vinham atrás de mim.

Ri, perante a sua inocência. Era tão querida.

– Quando te mexes, o ar desloca-se e o fogo fátuo mova-se na mesma direcção. Muitos acreditam que são espíritos ou fantasmas.

– Porquê? E porque é que eles fogem?

– Todos fogem dos mortos...

– E no entanto são os vivos que devem temer.

– Há uma lenda... Diz que quando alguém morre, a sua alma sai do corpo como uma esfera brilhante. Segundo essa lenda, a pessoa pode tomá-la para si antes que vá para o outro mundo.

– É bom pensar dessa forma. Que há algo do outro lado. Faria muito mais sentido, sabes? Que a nossa alma fosse uma luzinha e que se soltasse na noite escura para ir para o outro mundo depois de... depois do corpo morrer.

– É, é uma ideia feliz. Algumas culturas da África, enterram os seus mortos, de propósito, a poucos centímetros de profundidade, para verem o fogo fátuo, que seria o espírito do morto que sai do corpo.

– Não sabia que eras tão inteligente.

– É, suponho que muita gente não sabe.

– Riley?

– Sim?

– Tu és um bastardo. Mas és o bastardo certo na hora certa.

Notas finais
Oi, depois de um século, cá está o capitulo. Está grandinho mas mesmo assim parece-me muito "a correr". O Riley é mesmo um doce. "Nanny" significa ama. Victorya Cullen foi o melhor palpite sobre o que iria acontecer. Vou pensar num prémio e direi no próximo. Mas todas tiraram a culpa do Emmet. Acho que no próximo se vão surpreender. Espero que gostem. Boa Páscoa, cheia de amêndoas e ovos. beijos