Roma XXVI
10 Rápido, e violento
Acomodamo-nos nas cadeiras do fundo. Em pouco tempo, a sala se enche com cem gladiadores sedentos por sangue. As armaduras diferem um pouco, mas muito pouco. Nenhuma protege de verdade. As mulheres trajam vestidos de metal e sandálias, algumas botas e acessórios. Os homens ostentam saiotes e uma armadura que protege o peitoral e a barriga, nada mais. Uma mulher vai à frente e sobe em uma plataforma. É Ariadne, a assessora da voz fina.
— Muito bem... — Ela bate palmas. — Atenção! — Todos a olham. — Neste telão aqui atrás, será divulgado o nome do participante. Ele irá até o túnel, onde lhe será dado uma série de armas para escolher. Sugiro que escolham com sabedoria. Em seguida, a luta poderá ser vista pelo mesmo telão, e, não esperem que a arena de vocês seja igual a anterior. Bolamos algumas coisas interessantes. Por fim, quem ganhar deverá se limpar e ir para a festa no térreo, caso não esteja psicologicamente abalado. — Ela sorri. — Não sabemos quanto tempo todas as cem lutas levaram, e serão servidos pequenos lanches nos intervalos entre as lutas. Os pequenos intervalos, aliás. Temos que ser rápidos. Matem o mais rápido possível, ou morram o quanto antes. — Ela ri, ri e ri. Uma risada demoníaca que a faz parecer estar possuída. — Vamos lá. — Ela aperta um botão.
O nome demora alguns segundos para aparecer. Seguro a mão de Helena, fria e suada. Enfim, as letras aparecem. No telão há sete letras, e o nome é Lázaro. Um homem se levanta, tremendo. Moreno de estatura média, e certa massa muscular, mas não muito forte.
— Muito bem. — Ariadne da uma sorriso forçado e ajeita os óculos enormes sobre o rosto magro. — Dirija-se ao túnel.
O homem permanece imóvel.
— Vamos. — Diz um homem ao seu lado, um guarda. Nada acontece.
O homem é agarrado e arrastado para o túnel, tropeçando. Quando ele se vai, um silêncio maléfico se instala no ambiente. Pequenos murmúrios quebram-no. Ariadne puxa uma cadeira do lado e se senta, ao receber uma xícara de uma garçonete.
— Não acredito que estamos aqui. — Digo. — Eu não quero passar por isso também.
— Nem eu. — Diz Helena.
Encolho-me em Helena, e ela me envolve como uma mãe envolve a filha. Não havia pensado nisso, mas ela tem idade para ser minha mãe. É pouco mais nova que minha mãe biológica.
No telão, o Coliseu II surge. Uma plateia imensa, luzes coloridas inúteis e fogos de artifício iluminam o céu nublado, tingido de uma cor cinza triste. A câmera foca o rosto sorridente de Constâncio IV, trajado na mais tradicional túnica romana. Ele está deitado sobre uma estrutura levemente inclinada e acolchoada, que lhe permite ficar confortável e assistir as lutas. Ao seu lado, belas mulheres seminuas o abanam com folhas e lhe servem frutas na boca. Eles estão levando este negócio de resgatar raízes históricas muito a sério.
Sentado no canto do vídeo, algumas pessoas da elite de Nova Roma estão sentadas em uma mesa. Morfeu está entre eles, encolhido em uma cadeira como uma escória, sem participar da conversa animada dos outros, com dedos brancos embrenhando-se entre as frutas, olhos perspicazes e ar sério.
Dentro da arena, Lázaro está de um lado e uma mulher do outro. O solo é de terra, e em alguns pontos há areia e alguns montes maiores. A câmera focaliza o rosto do primeiro, e depois o da mulher. Uma fúria assassina está estampada em seu rosto, ela carrega dois facões, um em cada mão. É a mulher do presídio, que deixou sua namorada. A gigante. Lázaro leva consigo uma espada enorme. “Catarina”, anuncia uma voz estrondosa, e em seguida “Lázaro”. Um som ecoa pelo estádio.
Ambos correm. Lázaro é mais rápido, e corre fazendo um quadrado pela arena. Catarina é mais lenta, mas parece querer atacar, e não fugir assim como o outro. Ele para no centro, e ela vai em sua direção, correndo com todas as forças. Quando ela está a cerca de dois metros dele, Lázaro dá um salto impressionante para frente, cortando o ar com sua espada e atingindo o capacete de Catarina. O metal amassa, mas não é perfurado. Provavelmente por ter sido atingido pela parte plana da espada.
Mas foi uma manobra impensada. Lázaro tropeça na areia ao chegar ao chão, e um cai para trás batendo as costas dolorosamente. A mulher continua atordoada pelo impacto, mas joga o corpo na direção do oponente, com os dois facões a frente do corpo. Porém, Lázaro rola para o lado no último segundo, e a gladiadora fica os dois facões até a metade no chão. O homem se levanta rapidamente, se recompondo e cambaleando para trás, esfregando a cabeça de onde sai um fio de sangue.
Ele vai para cima de Catarina, que ainda está empenhada em retirar as armas firmemente cravadas no solo. Quando a espada vai de encontro à sua clavícula descoberta, um dos facões sai e ela é automaticamente atirada para trás. A espada atinge de raspão o chão e levanta uma nuvem de poeira. Visivelmente atordoado, Lázaro não percebe quando a oponente surge em meio a poeira e dá-lhe um chute, atirando-o metros à frente e tirando todo o ar de seus pulmões.
Lázaro respira insistentemente, mas o ar parece não querer voltar para o seu interior. A espada não está mais em suas mãos. Está desarmado. Tenta se levantar, mas Catarina aparece segurando o facão com as duas mãos, saltando em sua direção. Quando a arma está a poucos centímetros de seu corpo, não há mais esperança de sobrevivência. Está acabado. Toda a plateia fica sem respirar, e a imagem do imperador rindo me faz ter nojo dele. Entretanto, eis que as mãos do homem seguram o cabo do facão. O rosto de Catarina expressa uma fúria animal e uma força sobre-humana, forçando a arma ao encontro do rosto do oponente. Sangue sai de suas narinas. O ardor da luta é incompreensível.
Lázaro e Catarina rolam pelo chão, ambos empenhando-se ao máximo, mas suas forças parecem ser exatamente iguais. A mulher cede um pouco, e o outro parece se empolgar pelos centímetros. Enquanto acontece uma batalha incansável na parte de cima, seus pés se chutam e travam uma batalha paralela. Para quebrar a uniformidade da luta, Lázaro encolhe uma das pernas e disfere uma joelhada no estômago da gladiadora. Ela se encolhe e solta uma das mãos do facão, contorcendo-se de dor. E é então que ele consegue tirá-lo das mãos da oponente.
Lázaro fecha os olhos e crava a ponta do facão no peito da adversária, a arma atravessa a armadura. Em segundos, seus pés param abruptamente e seus olhos ficam vidrados, focando o céu cinzento, como se estivesse a procura do sol . Não há sangue, o líquido não atravessa o metal, porém o facão tem a lâmina suja. O capacete cai da cabeça de Catarina e rola pelo chão.
Automaticamente, o povo grita. Todos felizes por ver de perto a morte de alguém igual a eles. Incompreensível. Lázaro não apresenta nenhum tipo de alegria por ter ganho, somente cansaço e repulsa pelo que acabara de fazer. Ele não queria. Da para ver nos seus olhos castanhos quando a câmera o foca. Sua pele está arranhada e ferida em alguns pontos.
Escondo os olhos quando o telão mostrar o corpo da perdedora sendo recolhido por homens encapuzados.
Alguns minutos se passam, ninguém é capaz de se mover ou falar. E é então que o telão exibe um nome. Automaticamente, seguro os braços de minha amiga. Ariadne se levanta e vasculha o salão a procura de certo rosto. No telão, em letras enormes está escrito: HELENA.
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